Capítulo 62 - Os Kuro
Nuvens negras pairavam sobre mais um vilarejo no deserto de Kiiro. Envolto pela fumaça, pessoas gritavam e corriam de suas casas em chamas, embora as ruas fossem palco de uma batalha tão perigosa quanto suas casas devastadas.
Com as vestes manchadas de sangue da cor de suas roupas, um Senshi arrastava-se para o posto mais próximo, carregando o corpo de um Kishi pela rua antes de sucumbir às suas próprias feridas. Ajoelhado no chão, ele via outros Senshis correndo na direção oposta, rumo ao combate.
— Alguém… Me ajude… — dizia com sua voz fraca.
Um dos Senshis parou para ajudá-lo, mas suas pernas mal conseguiam sustentá-lo.
— Ouvimos o chamado — disse o homem — O que houve?
— Os Kuro… Eles estão aqui — o homem ferido respondeu — Esse Kishi veio sozinho, não suportou a fumaça. Acho que ele apagou.
Os olhos do homem viraram para trás da cabeça, ao passo que sua consciência se perdia nos braços do Senshi.
Mais a frente, dois jovens perseguiam os moradores, ceifando uma vida de cada vez, quando uma mulher agarrava as vestes de um deles, gritando:
— Não consigo ver! Cadê meu filho! Quem é você?
Atravessava sua lâmina sob o corpo da vítima, cruzando seu olhar inexpressivo com os olhos desesperados enegrecidos. Eram visíveis as ranhuras em suas pontas mesmo com o metal mergulhado no sangue. A mulher gritava de dor tentando conter a hemorragia, notava a aproximação do outro.
— Por que… porque fazem… isso? — perguntou já perdendo a consciência.
— Fomos roubados — respondeu, pegando seu corpo do chão — só estamos pegando de volta.
Com o corpo nos braços, ele a arremessou junto a uma pilha de corpos dentro de uma casa que já pegava fogo. Admirando as labaredas consumindo a madeira e a carne, ele foi interrompido pelo seu parceiro que pegou no seu ombro:
— Nagajiyu, temos que seguir ainda há mais deles.
— O que vermelhos fazem aqui, irmão? — perguntou — esperava envolver só os Kiiro nisso.
— Também não sei — apontava sua espada — mas não importa, nada mais importa.
— Todos queimarão, esperamos muito tempo por isso — tirou do bolso da sua roupa uma esfera de pano e arremessou contra a casa. O pequeno projétil estourou na mobília, atiçando as chamas — Eles não podem se esconder mais.
Os gritos abafaram por um minuto, substituídos pelo barulho de armaduras e ordens. Quando os dois deram as costas para casa, viram Senshis em formação se aproximando deles na intenção de cercá-los. Colados um no ombro do outro, os Aka formavam uma linha que se aproximava lentamente de seus alvos.
— O que tenham vindo fazer aqui acaba agora! — dizia o Senshi no centro da linha, colocando-se à frente — Estão cercados! Abaixe essa arma!
— Não — respondeu Hirojiyu.
A resposta seca desencadeou a reação do comandante, avançou sua linha quando, de repente, seus olhos e os de seus homens foram envolvidos por uma penumbra. Os homens pararam de avançar e subiram a guarda.
“Estou cego, o que está haven…”, o pensamento do comandante foi encerrado sentindo um metal frio deslizar por sua garganta.
Aos poucos, os Senshis foram perdendo a sensação do iro um do outro, sem ter a menor noção do que os acertava.
— O que está acontecendo? Por que eu não vejo nada? — um deles gritava, subindo seu escudo.
Mergulhados na cegueira, os que restaram quebraram a linha defensiva e balançavam golpes ao vento antes de serem eliminados, assim como seus parceiros.
— Estão usando prisioneiros como escudo? — Nagajiyu pegava o corpo do sujeito, jogando sobre as chamas.
— Ainda não acabou, vamos! — respondeu Hirojiyu com os brilhando em preto, focando nos fugitivos.
Seguindo pelas casas das vilas distantes da capital, os irmãos já podiam subiram uma duna, apenas para ver no horizonte o restante das vilas desérticas naquela manhã. O vento soprava elevando as areias, obrigando os moradores a tampar seus olhos com as vestes em meio às brisas.
Um dos moradores se aproximava de outro percebendo o gás escuro subindo pelo céu.
— Essa fumaça está se estendendo bastante, não acha? Okada? — perguntou um dos trabalhadores.
— Deve ser só um incêndio, espero que ninguém tenha se ferido — respondeu, pegando um cajado.
— Espera, veja — chamava a atenção do sujeito novamente pegando em seu ombro.
Semicerrando seus olhos, pode observar dois sujeitos de vestes da cor da fumaça, descendo sob a montanha de areia com as cabeças cobertas por lonas comum do deserto.
— Vestes pretas? — estranhou Okada.

Quando retornou ao seu lar, Osíris e Yasukasa se uniram a Susumo, numa sala secreta, por trás do escritório do patriarca. Em seu centro, havia uma mesa com uma maquete de todo o deserto e sua topologia, com peças posicionadas. Nos arredores, estantes com livros e um arsenal no fundo, com espadas, escudos e armaduras. Tudo iluminado por velas desgastadas, acesas pelo guarda.
— Eu pensei que esse dia chegaria cedo ou tarde — disse Susumo admirando a maquete — Mas eu queria que levasse um pouco mais de tempo.
— Isso é um luxo que perdemos — Osíris tomou uma das peças das vilas externas, um boneco vermelho — Os Senshis não estão equipados para isso, pelo menos conseguimos preservar a vida do informante.
— O aviso da invasão não deve chegar aos Aka a tempo — Yasukasa se apoiou na mesa com os braços — Estamos por conta própria.
— Ainda há Senshis nas vilas que ainda não foram atacadas — respondeu Osíris pegando as peças amarelas juntas dentro do muro e distribuindo pelo deserto — Se levarmos nossos Kishis para apoiá-los, podemos ir para o próximo passo do plano.
Terminando de colocar a última peça amarela, as mãos trêmulas de Osíris esbarraram na outra vermelha.
— Nossa guarda é forte suficiente — afirmou Yasukasa, pegando na mão do patriarca — Se depender de mim, posso tomar a dianteira ao lado deles para deter essa ameaça.
— Patriarca, temos uma visita — uma voz gritou do lado de fora da sala.
O grito dos porteiros fez Osíris gesticular a Yasukasa que ficasse na sala com um aceno, antes de ir com Susumo para as escadas. Esperando por ele, rodeado de Senshis e envolto numa capa vermelha estava um jovem que jogava sua franja para o lado para falar:
— Patriarca Osíris, nós Aka estamos cientes da ameaça. Sou um enviado do próprio Supremo para auxiliá-lo nessa crise temporária.
— Tudo que seu rei e o Supremo têm para me oferecer é um garoto? — questionou Susumo.
— Quem é você? — perguntou Osíris, depois de erguer a mão para silenciar seu cavaleiro.
— Me chamo Kusonoki, um dos Senshis Principais — abriu a capa, mostrando alguns papéis debaixo de seu braço — venho com um plano.
Susumo e o patriarca trocaram olhares entre si.
— Todos esses Senshis estão à nossa disposição, senhor — continuou Kusonoki — Sem falar nos que esperam pelo pior nas vilas. Meu papel é dar suporte para coordenar Kishis e Senshis nesse combate.
— Patriarca, o senhor tem certeza? — Susumo sussurrou.
— Precisamos convencer o conselho antes de agir. Com o suporte dos Senshis e a garantia de que não vamos derramar somente sangue Kiiro, é impossível sermos recusados. Se desconfia dele, ao menos confie em mim pois tenho um plano — respondeu ao pé do ouvido de seu cavaleiro, antes de se dirigir ao Senshi em voz alta — Me mostre a que veio.
Deixando seus Senshis na entrada, Kusonoki acompanhou o patriarca para a sala de reuniões, absorvendo cada centímetro do que via, até que se viu diante da mesa de guerra.
— Pai, quem é… — Yasukasa começou a perguntar, mas foi interrompida.
— A ajuda veio mais cedo do que pensamos — interrompeu Osíris, entregando uma peça preta para Kusonoki — Como você vê essa situação?
— Longe do ideal, mas ainda administrável — admirou a peça antes de posicioná-la na mesa — Os Kuro chegaram pela depressão de onde nós os conhecemos. O rastro de destruição deles começa na vila mais próxima de lá e segue numa linha reta até aqui. Nesse ritmo eles vão conseguir destruir todas as vilas, e vão chegar na capital em alguns dias.
— Eles não vão botar o pé aqui — afirmou Yasukasa, cruzando os braços.
— Esse é o plano — continuou Kusonoki, revelando um dos documentos na mesa — Eles estão vindo de uma viagem longa e ainda terão que cruzar as dunas em um clima escaldante. A ideia é: deixem que concluam a viagem. Vamos interceptá-los na última vila antes das cidades centrais.
— É uma margem muito pequena — Susumo argumenta — O estrago se falharmos será enorme, sem falar nas vidas perdidas pelo caminho.
— É aí que está — recuou as peças vermelhas espalhadas pelas vilas da maquete — Vamos atraí-los, evacuando os moradores do caminho e os confrontando aos poucos. O deserto e as lutas sucessivas vão cansá-los e aí entramos com força máxima — aproximou as peças vermelhas das amarelas.
— Não gosto de abandonar as vilas mais distantes para morrer — Osíris apoiou o punho fechado sobre a mesa — Deve haver outra maneira.
— Eu sinto muito, mas não temos tempo. O melhor que podemos esperar é que os Senshis já designados salvem o máximo que puderem — explicou Kusonoki — Nem se fossemos partir agora chegaríamos a tempo.
— Isso não é o bastante — insistiu Yasukasa — E como tratamos todos os refugiados? São centenas de…
— Isso será um problema para o futuro — justificou Osíris — Faremos o que for necessário, mas ninguém morre se pudermos evitar. Por agora só tenho uma objeção. Tem um lugar melhor para enfrentá-los do que a última vila — mostrou na mesa um terreno às margens da capital, longe de todas as vilas, cercado por dunas.
— Mas para levá-los para lá teríamos que desviá-los do caminho — pensou um tempo — Já sei! Vamos dividir as tropas, uma parte na vila que os desviará para onde queremos e outra esperando para emboscar nesse ponto. Será difícil, mas se garantir a vitória…
— Eu garanto que eles serão impedidos lá — Osíris respondeu, percebendo que Yasukasa desviou seu olhar da maquete.
Com um aperto de mãos, o Senshi Principal e o patriarca fecharam o acordo.

Uma longa fila se formava com os moradores de uma vila remota no deserto Kiiro. Todos carregavam consigo um balde nas mãos, caminhando aos poucos a uma bancada onde as autoridades da área, os Senshis, distribuem água. Aproximando-se da sua vez, Rie sentia o lado de sua roupa ser puxado pelo seu filho:
— Mãe, a gente pode ir para casa? Está demorando muito.
— Agora não, Akio, estamos quase lá.
— Mas eu preciso treinar — mostrou um tubo de madeira com buracos abertos por toda sua superfície — Preciso treinar para quando Suzaki voltar — aproximava o objeto da boca.
— Guarda isso! Vai incomodar os outros. Em casa você pode assoprar isso, mas aqui fora, não.
Dois moradores depois, e Rie já estava colocando seu balde na bancada, diante dos Senshis. Atrás dos militares havia uma bacia larga e alta o bastante para precisar de uma pequena escada para subir e encher o balde com seu conteúdo. Enquanto um realizava essa tarefa, o outro segurava pena e papel nas mãos.
— Seus nomes? — perguntou o Senshi — E o que vão fazer com a água?
— Rie, meu esposo se chama Okada. Vamos usar para a nossa plantação.
— Certo — terminou de rabiscar um símbolo do lado do nome de Rie na folha, ao passo que seu parceiro descia da escada com o balde cheio e o colocava na bancada — Sabem que só poderão retornar aqui em dois dias. Estamos com falta.
— Tudo bem — ela tomou a água nas mãos e se curvou — Muito obrigada!
Saindo da fila, Rie cambaleava com o peso do balde numa das mãos, com a outra dada ao seu filho. Sua casa estava distante, mas decidiu parar no meio da rua para descansar.
— Eu quero ir para casa — Akio cruzou os braços.
— Querido, mamãe está cansada — suspirou — Já, já continuamos.
Pela única rua da vila, passavam de moradores a Senshis, em direção ao forte construído nas dunas que vigiavam o povoado abaixo. Uma das carruagens contendo os guardas do reino Aka disparou pelo caminho, levantando areia entre os que por ali passavam.
— Ei — Rie se colocou na frente de Akio para protegê-lo — Será que ficaram doidos?
Assim que ela se virou para onde o transporte estava indo, percebeu uma fumaça negra crescendo na fortaleza do alto. Se de uma direção, havia Senshis retornando até lá, da estrada vieram uma dupla, um Kishi e um Senshi à cavalo gritando palavras de ordem:
— Estamos sendo invadidos! Moradores, saiam de suas casas, peguem o que precisar, mas vocês não podem ficar aqui. Estamos providenciando uma evacuação por ordem de sua autoridade, o patriarca!
— Em breve teremos transporte para todos, mas no momento, corram para os limites da cidade!
Rie puxou seu filho para perto, tomou seu balde uma vez mais, notando diversos moradores correrem da direção que estava a fumaça. Por um momento ela parou, observando seu marido correndo em direção a sua família. Vendo seu pai, Akio soltava da mão de Rie, estendendo os braços para Okada:
— Pai!
Gritou com o homem pegando seu filho no colo, puxando sua esposa ainda correndo na direção proposta pelos guardas. A família se apressava pelas areias desniveladas, os pés dos moradores afundavam na medida que tentavam ser mais rápidos.
Okada trocava de direção, indo mais ao sul do vilarejo, em direção a uma casa revestida de madeira simples. Adentrando a casa o líder da família levava suas mãos a cabeça.
— Ordenaram que saíssemos daqui o mais depressa possível, o que vamos fazer?! — disse Rie envolvendo os braços nos ombros de seu amado.
— Eu não quero ir embora, pai — disse Akio.
— Nós… precisamos ir, se não…
De repente, gritos ecoaram pela casa, vindos da rua. Okada gesticulou para sua esposa ficar em casa, enquanto saía para ver o que se passava. A fumaça que subia, já se tornara uma nuvem escura abastecida pelas chamas crescentes que vinham de lá, a fumaça se estendia como se tivesse vida própria.
Caminhando na frente dela, os dois invasores podiam ser vistos por Okada que arregalou os olhos, reparando também no grupo de Senshis que corria ao encontro da dupla.

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