Capítulo 71 - Legado
Yanaho observava o Patriarca diferente do que se lembrava, como um homem frágil com pesares encarando o sarcofago com a expressão de luto:
— Seu pai estava evitando as guerras, certo? — perguntou Yanaho — As mesmas que seu avô queria começar.
— Exatamente — recuava as mãos para trás das costas.
A resposta do patriarca foi cortada por gritos vindos de fora, seguidos por fortes impactos na estrutura da pirâmide.
— Não adianta se esconder! Sabemos que está aí e não vamos embora até garantir que esteja morto! — gritou Nagajiyu, ao passo que Hirojiyu tentava atravessar as rochas.
A estrutura permanecia intacta, mas cada golpe nela martelava o coração de Yanaho. Osíris se voltava para o alto da pirâmide, onde podia ver grãos de areia precipitando sobre eles como uma chuva.
— Eu como Patriarca reatei o legado de Ámon. Cortei laços com os Aka, e organizei planos para invasões, fomentando a expansão territorial tão desejada pelo meu avô. E no fim, as dores que suportei foram apenas passadas adiante, tanto para meu povo, como para outros inocentes — abria a mão, deixando os grãos de areia repousarem em sua palma.
Yanaho ouvia as palavras do patriarca encarando a cicatriz na palma de sua mão.
— Meu legado trouxe desconfiança das nações e sofrimento para os inocentes. Esses garotos lá fora refletem bem tudo isso. Convencido pela ameaça que mal conhecia, eu agi e ataquei antes que pudesse sentir qualquer temor. E agora esse erro bate na minha porta. Eu não espero que ninguém me perdoe, na verdade nem mesmo desejo isso. Mas… eu quero ter uma chance de fazer do meu legado algo diferente no fim, nem que seja para uma pessoa, eu irei dar tudo de mim para que o meu povo nunca mais sofra com meus erros!
Cerrou os punhos com a mão recheadas de areia, enquanto Yanaho voltava a se aproximar.
— Meu pai esteve entre os Senshis que lutaram na invasão à vila da providência anos atrás. Ele sofreu um trauma, uma doença incurável, depois de vários golpes na cabeça que levou — disse Yanaho, segurando suas próprias mãos trêmulas.
— Nunca pude imaginar — respondeu, olhando nos olhos do mirim.
— Eu poderia descontar toda dor que sinto no que você fez, apontar você como único culpado, mas não seria justo. Por que meu pai era só um fazendeiro que estava na linha de frente pagando por uma multa que herdou do seu filho — se juntou a Osíris na luz — Você falou que não deseja ser perdoado, mas se meu pai foi capaz de me perdoar por isso, quem sou eu para culpar você disso tudo?
— Desde que salvou minha filha naquele dia, eu queria agradecê-lo por isso. Você não salvou ela só dos criminoso, como também do meu erro — estendeu a mão para o mirim — Posso estar abusando da sua boa vontade, mas será que pode me ajudar uma última vez?
— Eu posso — apertou as mãos com Osíris — Vamos acabar com isso!
— Obrigado — andou até uma das paredes da pirâmide para abri-la — No topo, eu posso usar meu último recurso. Basta que me ajude a chegar até lá.O lugar balançava mais do que nunca, quando a parede subia e a luz solar penetrava no interior da câmara, saudando a dupla para uma última batalha.
O horizonte e o Sol já estavam cada vez mais perto de se tocarem, colorindo o céu em laranja, quando o povo de Oásis continuava sua evacuação. No entanto, os recentes tremores e o surgimento de uma construção familiar, despertou a atenção de cidadãos e Kishis igualmente.
O novo edifício que se projetava no céu era uma pirâmide, coberta por calcário branco, recheada por blocos de pedra largos e alinhados, onde pelas frestas escorria areia. Em seu topo, uma ponta de bronze, que assim como sua superfície pálida, reluzia à luz do Sol poente a oeste, assim que uma nuvem de fumaça foi dissipada por uma enorme explosão.
Pendurados em uma de suas faces, os gêmeos se seguravam num bloco que se projetou para fora. Nagajiyu era erguido por seu irmão, aproveitando para recuperar o fôlego, escorando-se nas paredes externas, percebendo seus bolsos vazios:
— Acabou as bombas. Você está cada vez mais ferido, o que faremos quando eles saírem de onde se esconderam?
— O que fizemos desde que saímos de casa — limpava o sangue que escorreu por sua boca, enquanto as marcas em torno de seu corpo perdiam brilho — fique atento!
Em pouco tempo, a procura dos gêmeos era correspondida. Na face oposta à que eles estavam, uma abertura foi criada ao comando do patriarca. O som das roldanas internas e da areia que as comandava, despertou a dupla que corria até a origem para receber seus oponentes perdidos.
Provando a brisa vespertina pela primeira vez após o confinamento forçado, Yanaho e Osíris reconhecem os gêmeos chegando pelo alto.
— Está vendo o sem camisa — apontou Osíris para Hirojiyu — Deixa ele comigo, você fica com o outro. Foque no caminho e não na batalha.
— O que tem no topo? — Yanaho olhava para o cume, além dos dois adversários.
— Lá estarei próximo do Sol o bastante para criar algo que vai derrotá-los — impôs as mãos sobre a pirâmide, provocando outra mudança na sua estrutura — Siga pelo caminho que tracei e iremos confundi-los.
Os blocos salientes se recolheram para junto dos outros, ao passo que uma rampa externa, em formato de espiral, tangente à pirâmide, brotava das frestas. Um caminho de areia e argamassa, levando quase ao topo. Osíris não perdeu tempo e começou a subir pelo trajeto. Yanaho veio logo atrás.
“Eu já havia passado e muito do meu limite me pondo de pé para voltar para cá. Tenho que restabelecer minhas energias, antes de tentar um novo Kazedamu, no meu limite o uso dele costuma fazer com que eu seja o único prejudicado”, deduzia o mirim, olhando as palmas das mãos.
Hirojiyu saltou para o meio do caminho com seu irmão, mas um dos blocos se abriu, permitindo a Osíris entrar por ele. O gêmeo tentou chegar a tempo, mas a abertura se fechou assim que o patriarca cruzou por ela.
— Como ele fez isso?
— Está controlando a pirâmide, ele ainda vai subir — olhou para o alto, e encontrou seu alvo já cruzando as rampas superiores — Ali! Está acima de nós!
Assim que seu irmão apontou, Hirojiyu usou as próprias mãos para cravar-se no calcário e cortar caminho pela pirâmide, escalando até a rampa onde Osíris estava. Abaixo dele, Yanaho chocava sua espada com a adaga de Nagajiyu.
— Devia ter aproveitado a chance e ido embora — questionou o gêmeo — esqueceu tudo que falamos?
— O que o patriarca fez não muda as vidas que vão tirar se continuarem.
— Mas mudou as nossas! — afastou-se preparando outro ataque.
O punhal raspou pelo flanco de Yanaho, um ataque após o outro. Todos mirando a parte inferior do tronco do mirim.
“Ele está forçando minha esquiva com o corpo. Assim meus pontos vão se abrir”, pensou girando sua espada para afastá-lo.
Yanaho balançou a espada contra a arma de menor porte, de modo que seu impacto pressionou Nagajiyu para beirada da rampa. O próximo ataque fez sua adaga escapar de suas mãos, caindo no deserto abaixo. Lançando-se contra o mirim, o Kuro foi contido rapidamente com um empurrão e depois pressionado contra o calcário da pirâmide, de onde pôde ver de relance Osíris e Hirojiyu duelando.
O patriarca teve sua espada freada no antebraço de Hirojiyu, que o pegou pelo pescoço. A pele de Osíris borbulhava com o calor a ponto de queimar a palma da mão de seu adversário, que resistia à dor, colocando mais uma das mãos nele para forçar sua cabeça a encará-lo frontalmente.
— Assim de perto você é como todos os outros. Eu vou queimar até os ossos antes de te largar. Olhe para mim!
A disputa pelo controle fez Osíris olhar brevemente para seus olhos de Hirojiyu. Envolvido pela escuridão do poder ocular, ele não era mais capaz de enxergar, embora um chamado pôde ser ouvido em alto e bom som.
— Patriarca! — gritou Yanaho, abrindo brecha para uma cabeçada de Nagajiyu.
Sem forças para sair do estrangulamento, Osíris moveu o calor do seu corpo para as areias da pirâmide, onde estava prensado. Das frestas, os grãos tomaram a forma numa espécie de espinhos, que num piscar de olhos fundiram-se em vidro. Hirojiyu rangeu os dentes de dor, porém não largou sua presa até que ela arrancou um caco de vidro com as mãos e tentou enterrá-lo em seu pescoço. Finalmente, o Kuro usou da palma da mão para conter o golpe fatal.
Livre de uma de suas amarras, o patriarca criou outra abertura na pirâmide atrás de si. Mesmo cego, ele atravessou pela fenda, porém Hirojiyu a cruzou a tempo.
Enquanto isso, Yanaho tonteava ao passo que Nagajiyu atirou-se novamente contra ele. Os dois desceram mais um pouco as rampas, trocando socos até que o mirim soltou sua espada. Aproveitando-se disso, o Kuro se apossou rapidamente dela.
“No fim não preciso enxergar… Eu posso sentir o calor de todos eles. É… Um se aproxima de mim, posso senti-lo, mas também posso sentir o calor do dia, chamando por mim. O fim está próximo”, pensava, subindo a rampa interna vagarosamente, com a mão nas paredes úmidas para guiar-se.
Criando outra saída, Osíris chegava finalmente da ponta de bronze. No topo, ele impôs as mãos sobre o metal, sentindo seu calor e os pontos de apoio, escalando-o aos poucos, quando comandou a porta por onde saiu fechar, mas o mecanismo travou. Hirojiyu foi esmagado pelo bloco, mas conseguiu usar sua força para escapar.
— Você não escapa de mim! — gritou, saindo do interior da pirâmide.
Contudo, assim que tentou alcançar Osíris no topo, o chão onde pisava foi preenchido por areia, que rapidamente se transformou numa lisa camada de vidro, que o fez escorregar pela pirâmide abaixo. A luz do sol refletida naquela superfície também cegou os olhos de Nagajiyu a tempo da queda de seu irmão atingi-lo. Os dois se precipitaram vários andares da rampa até conseguirem se segurar na beirada de uma delas.
De cima, Yanaho pôde vê-los ainda com vida. A seguir, voltou seu olhar para o patriarca, que atingia o topo. De repente sendo surpreendido pela rampa onde se sustentava a rampa onde estava foi recolhida ao interior da pirâmide, que se abriu e se fechou a tempo de recebê-lo, enquanto percebia:
— Espera! — gritou batendo na parede diagonal. “Ele agiu rápido e pensou em tudo até pra me livrar das mãos do outro irmão, e ainda me protejou para dar o golpe final, o que será que ele irá fazer?”, concluiu se questionando desistindo de tentar sair.
Com o efeito do poder ocular Kuro enfraquecendo, Osíris pôde contemplar o horizonte. Estendendo as mãos na direção do sol, ele abriu um leve sorriso de canto.
— Sinto muito, Kasa, meninas — dizia em voz alta — Mas não poderei voltar.
O calor do sol penetrava no seu corpo, energizando seu iro e crescendo sua aura. Um fluxo de poder intenso acumulou-se em Osíris, gerando um vendaval que varreu os dois jovens na base da pirâmide.
“Quem diria que no fim, eu iria honrar seu último pedido? Não é, pai”, pensou encarando o sol alaranjado daquele fim de tarde.
As últimas palavras de seu pai brotaram na sua memória:
“Assim como fiz, pode pegar todo o meu legado e desfazer, mas lembre-se de que as pessoas não podem pagar pelo seu erro… Faça seu próprio caminho, meu filho”
Os raios de sol convergiram em um feixe que atingiu Osíris na pirâmide de bronze. Então, ele descarregou toda a energia acumulada em direção aos gêmeos abaixo. Por lá, Hirojiyu erguia-se da queda, diferente de seu irmão, cuja luz crescente do feixe refletia em seus olhos estarrecidos.
— Irmão, não consigo — dizia Nagajiyu, sem forças para segurar na borda.
Hirojiyu olhou para o ataque iminente e de volta para seu irmão e decidiu. Com a sola do pé, ele chutou as mãos de Nagajiyu da borda. Caindo da pirâmide, o gêmeo assistiu ao seu irmão saltar para o clarão de braços abertos na sua frente antes de tudo se reduzir a um branco cegante, seguido por uma explosão.
Antes que o clarão atingisse. A pirâmide balançou ferozmente, mas não cedeu. Tudo que o garoto podia ver era um filete de luz escapando pelo buraco do topo, enquanto o lado de fora acabava em um grande ruído de explosão.
Após o enorme brilho, Osíris acordou em um lugar completamente vazio. Nada ao redor, a não ser branco com uma cortina amarela no fundo, que se prolongava infinitamente da direita para esquerda, de cima para baixo. Verificou suas mãos, seu corpo, tocou seu rosto e não sentiu nenhum ferimento ou cicatriz.
— Que lugar é… — virando de costas, percebeu suas filhas estendendo as mãos.
— Vem papai. O vovô está te esperando — dizia Hoshizora apontando a cortina.
— Vamos indo — Yasukasa o tomou pela mão.
Obedecendo às suas filhas, o patriarca se aproximou até a cortina e espiou pela sua fresta. Do outro lado, reconheceu seu Yasuma, seu pai e Ámon, seu avô.
— Você conseguiu me deixar orgulhoso no fim — disse Yasuma — sabia que não iria me decepcionar.
— Obrigado pai, pena que tive que errar muito para perceber isso — respondeu antes de se dirigir a Ámon — Vovô, eu…
Sua fala foi interrompida pelo gesto do penúltimo patriarca, que repousava sua mão sob a cabeça do neto:
— No fim você superou o medo, suportou todas as dores no momento certo de se colocar na frente de quem jurou proteger. Sua vida, seu legado honrou os nossos — concluiu com um raro sorriso.
Os três se abraçaram, quando vindo de trás sua mulher tocava em seu ombro, junto às filhas que pegavam em suas mãos.
— Chegou a hora — sussurrou, Kasa.
Concordando com a cabeça, timidamente, Osíris sua família para perto uma última vez. Kasa e suas filhas então o empurraram para trás da cortina junto com seus antecessores. Uma poeira brilhante e dourada subia aos céus, levando o corpo físico do patriarca consigo e esvaziando suas vestes.

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