Índice de Capítulo

    No dia seguinte, Onochi retornava ao abrigo que cedeu à Suzaki, quando escutou uma melodia. A música chamava a atenção do Shiro que encontrou seu hóspede tocando sua ocarina repousando debaixo da copa de uma árvore.

    — Um garoto de muitos talentos, pelo visto. Há quanto tempo toca?

    — Desde pequeno.

    — Tocar o faz lembrar de casa? De alguém?

    — Não exatamente. Uma pessoa importante me deu, ainda quando era mais novo, mas aprendi sozinho. Tocar só me ajuda a lembrar algo para mim mesmo.

    — Um objetivo?

    — Talvez – disse amarrando seu instrumento na empunhadura da sua arma. — Não importa muito agora.

    — Eu também tenho algo que lembro sempre que posso. Meu povo carrega a tradição de acreditar que nada é por acaso. 

    — Não disse que era por acaso, disse que não era importante pensar sobre isso.

    — Mas é claro que é. Você pode não entender bem hoje, mas no futuro vai perceber. Há algo especial acontecendo aqui.

    Onochi terminava sua explicação ao ver que Yanaho chegava no local. Estava com uma espécie de manto velho que cobria suas vestes interiores e seus braços.

    — Olha só, um visual novo para um dia novo.

    — Meu pai pediu pra eu usar, pra não sujar minhas roupas como ontem — disse abaixando a cabeça envergonhado. — Mas enfim, podemos começar?

    Os três se recolheram para dentro do santuário. Lá dentro, Onochi preparou uma mesa com pães, legumes e um acompanhamento desconhecido por Yanaho. 

    — Precisam se alimentar antes do treino. Sentem-se e podem comer — mesmo com o ordenado os dois permaneceram imóveis. 

    — Obrigado, mas não estou com fome — disse Yanaho. 

    — Deixe de vergonha — deu um toque em suas costas, — isso vai te dar mais energia para treinar. 

    — Hm… tudo bem — pegou o alimento — Mas o que é isso com o pão? 

    — Queijo — percebia Suzaki analisando a comida.

    Suzaki juntava os legumes e a peça de queijo ao pão partido, como se já estivesse acostumado com aquele tipo de banquete, levando Yanaho a questionar:

    — Você sabe de tudo hein, viajante. Até agora não disse como veio parar aqui. 

    — Disse o suficiente, estou aqui para aprender como você — respondeu dando uma mordida no pão. 

    — O que vieram fazer aqui é só uma etapa. Acho melhor saber o que vocês pretendem para o futuro. Qual é o objetivo de vida de vocês? — advertiu Onochi.

    — Essa é fácil — exclamou Yanaho. — Eu quero ser reconhecido! Para fazer minha vida valer a pena!

    — Bom. Mas e você Suzaki? 

    As atenções se voltavam para o príncipe que parecia não ter uma resposta. Após alguns segundos, indagou timidamente: 

    — Eu quero ficar mais forte para continuar seguindo viagem.

    — Um objetivo nobre é a primeira coisa que temos que ter em mente para iniciar um treinamento. Nossa energia iro, se adapta de acordo com a clareza interior que há em nós. Começa sempre aqui de dentro — apontou para o lado esquerdo do peito, — pra fora. 

    O Shiro notava os olhos hipnotizados de Yanaho pela explicação, ao passo que Suzaki devorava rapidamente o alimento nas suas mãos. O garoto de olhos vermelhos imitou o sanduíche de Suzaki, dando uma mordida logo depois, se impressionando ainda com a boca cheia:

    — Isso é… eu nunca comi algo tão gostoso. 

    Quando os dois terminaram de comer, seguiram Onochi para o mesmo campo aberto onde tinham se enfrentado no dia anterior. Chegando lá, havia madeiras de diferentes tamanhos pelo chão. 

    — Pra que tanta madeira? — perguntou Yanaho, curioso. 

    — Junte algumas delas naquela bagagem e venha comigo. Quero analisar o Suzaki primeiro. 

    “Analisar, é?”, pensou o candidato a Heishi Celestial.

    O outro aluno se retirou para uma sombra afastada começando a coletar as madeiras, deixando Onochi e Suzaki sozinhos.

    — Certo, Suzaki, só preciso te explicar uma coisa antes de prosseguirmos. Apesar desse território fazer parte do antigo reino Shiro, hoje ele é fiscalizado pelos Aka

    — Não sei como isso afeta meu treinamento — se fazia de desentendido.

    — Você é um azul. Faz tempo que os Aka e os Ao estipularam o acordo contra a locomoção de seus nativos entre os territórios, tudo isso para fazer jus ao tabu. 

    — Bom, se for um problema de onde eu venha, posso…

    — Não foi o que eu quis dizer. Estou pedindo que tome cuidado quando você seguir viagem. Pode confiar em mim se algo acontecer.

    — E quanto ao treinamento? — insistiu Suzaki.

    — Sua aura. Mostre-me novamente.

    Suzaki fechou os olhos e se concentrou. A aura azul crescia de maneira gigantesca ao seu redor de seu corpo e diminuía paulatinamente compondo sua silhueta. Yanaho olhava para aquela descarga com curiosidade.

    — Você controla seu iro, mas não antes de ter uma descarga muito forte no começo. É como se soltasse a coleira de uma animal por um instante e segurasse de volta.

    — Eu desperdiçava muita energia no passado, mas a transição agora é rápida. Se perco energias, não é o suficiente para me comprometer em combate.

    — Combate é a última preocupação. A energia iro envolve todos os seres vivos, como sua energia vital. Ela reflete nosso estado mental e de espírito, que por sua vez toma forma com a aura equivalente a cor que o portador possui.

    — Onde quer chegar?

    — Sua mente Suzaki. Não há nada natural em seu iro começar desgovernado e depois você assumir as rédeas. É como se estivesse lutando com a energia para te servir.

    — Eu já passei por isso, se minha mente estiver serena as coisas saem como na prática. Simples assim.

    — Não consigo imaginar quem te ensinaria coisas tão pragmáticas assim — cruzou os braços. — Mesmo que consiga se concentrar, percebo algo em você que não consigo bem dizer o que é, mas está te atrapalhando. Observe:

    Ele junta suas mãos fazendo o selo shiro, sua aura brotava lentamente das mãos para o resto do corpo até transbordar pelo ambiente ao redor. 

    “Incrível…”, pensou Yanaho bisbilhotando.

    — Percebe a diferença? — explicou Onochi — A energia iro deve surgir suavemente. Assim como a vida, o ar que respiramos, este poder é o nosso vínculo com a natureza ao redor. 

    — E o que pretende me ensinar que exige tanta suavidade?

    — As cores primordiais, como o azul, amarelo e vermelho, carregam um pouco da cor divina branca como a minha.

    — Um portador não pode mudar de cor.

    — Não é mudar a cor e sim estimular o que já está em seu corpo. O pouco de energia branca dentro de você pode ser capaz de fortalecê-lo. 

    — Eu nunca senti essa energia. Por onde começo a explorar esse potencial?

    — Seu descontrole mental pode ser o que te impede de acessar a técnica Shiro. Os brancos sempre pautaram suas habilidades de acordo com a Ordem. Se você não conseguir reorganizar a sua energia com calma, nunca vai dominar essa técnica.

    — Nunca vou dominar? — olhou para as próprias mãos brilhando em azul.

    — Sente-se — sentou Onochi na grama — Você precisa esvaziar a sua mente. A cabeça da maioria das pessoas é um turbilhão de pensamentos. Alguns intencionados e outros aparecem sem nossa permissão. Controlar seu iro, é controlar seus sentimentos, e por consequência sua mente.

    Suzaki fez o mesmo e inspirou fundo, enquanto seu mestre prosseguia:

    — Concentre-se. Não tente controlar, mantenha a vibração que sente quando está prestes a emitir sua aura. Acumule a energia em seu coração. Quando fizer isso, acalme sua respiração e solte-a devagar. 

    — O que é a Ordem de que fala? — perguntou com os olhos fechados. — Nunca ouvi falar. 

    — Uma ótima conversa para um outro momento. Por agora, utilize a dúvida para buscar a resposta nessa meditação. Faça isso sempre antes de qualquer tentativa, vamos manter isso por hoje — disse, deixando o garoto com seus pensamentos. 

    Direcionando sua atenção para o outro garoto que juntava as madeiras, Onochi pegava alguns dos pedaços para ajudar o camponês em seu primeiro exercício. 

    — Ei, Onochi, me fala o que está ensinando para ele.

    — É algo complexo demais para você entender agora. 

    — Não vou brilhar como vocês fazem também? 

    — Com o devido tempo — terminava de organizar as madeiras, limpando as mãos — Quero que me responda primeiro. Por que acha que mal conseguiu lutar com Suzaki ontem?

    — Será que é por que ele tem uma espada legal, brilha e sabe lutar?

    — Em partes, sim. Por outro lado, vou te dar um motivo melhor. A verdade é que você não usou sua energia.

    — Eu dei tudo de mim!

    — Estou me referindo a energia iro, garoto. Você deu tudo, mas não usou tudo. Lembra do que eu disse? De dentro pra fora. Seu iro está aí, você precisa despertá-lo. 

    — É assim que vou conseguir brilhar?

    — Mais importante que brilhar, a aura é a evidência de que está sendo envolvido pela energia iro. Assim ela vai ampliar seus sentidos, força e velocidade. Está pronto pra isso?

    — É o que mais quero – disse Yanaho sorrindo.

    Com o passar da tarde o sol já se inclinava para se despedir de mais um dia, enquanto os dois jovens permaneciam em seus respectivos exercícios. Onochi os deixou a sós e retornou à sombra para saborear um pote de mel. 

    “Impressionante, nunca vi uma disciplina tão afiada.”, pensava observando Suzaki. “Meditando até agora, sem nenhum descanso. Sua aura já está em uma sincronia maior com o ambiente, praticamente já finalizou o treino de hoje.”

    Logo um grito lhe chamou a atenção, ele voltava seus olhos para mais uma tentativa do camponês. Yanaho batia em seu peito, esperando desenvolver sua aura, mas fracassou uma vez mais, dessa vez levando os joelhos ao chão ofegante.

    “Eu… Eu não sei mais o que fazer. Por que o Onochi só fica ali parado comendo aquela coisa gosmenta?”, pensou reparando em Suzaki brilhando em azul ainda com os olhos fechados.

    — Droga! — disse batendo no chão.

    A força fez seu punho brilhar em vermelho, porém a luz se esvaiu em poucos segundos.

    — É isso… É isso! — ergueu os punhos ao céu.

    Onochi saiu do repouso ao ver a cena, se colocando de frente com Yanaho, que se levantava empolgado dizendo:

    — Você viu isso?! Acho que estou quas… — Onochi segurou o punho do garoto o interrompendo.

    — Está errado. Seu treinamento consiste em executar a sua aura vermelha, através da concentração de energia em seu peito. Isso exige meditação e treinamento interior.

    — Mas Onochi, eu vi! Meu punho brilhou.

    — Porque a energia iro está em você, ela vai ser desencadeada seja pela sua capacidade, ou incapacidade. Seu controle ou descontrole. O que vi, foi uma raiva crescendo por causa da sua inveja — disse soltando a mão do garoto que abaixava a cabeça.

    — Então eu não melhorei em nada hoje — disse cabisbaixo.

    — Tenha paciência. É errando que se aprende o que é correto. Aliás, nem todos têm o treinamento para despertar a aura. Apesar de ser o básico, raramente alguém alcança no primeiro dia. O que você precisa — colocava a mão no coração do garoto — Está aqui, não ali — apontou com a outra mão na direção de Suzaki. 

    — Obrigado, Onochi — Yanaho concordou com a cabeça.

    — Acho que por hoje está bom — colocou as mãos na cintura. — Vamos, vou te levar para casa. 

    — Não sei se devia perguntar — olhou para trás, — mas e o Suzaki? 

    — Ele vai saber bem a hora de parar — Onochi partiu com o camponês.

    — Agora me fala, o que era aquela gosma que tava comendo? — perguntou Yanaho.

    — Que gos… — perguntou Onochi antes de cair em gargalhadas — Não, garoto, aquilo é mel. Quer provar?

    As vozes dos dois ficavam cada vez mais distantes dos ouvidos de Suzaki que permanecia intacto na meditação. O príncipe abria os olhos levemente depois de horas, apenas para observar os dois partindo enquanto refletia:

    “Onochi Shiro. Por que está nos ajudando assim sem parecer ter intenção alguma? Pelo visto confiou em mim para treinar sozinho. Esse cara é um professor bom o bastante para conhecer minha disciplina em apenas dois dias ou ele sabe mais sobre mim do que deixa transparecer”

    O luar iluminava a fazenda onde Yanaho já se acomodava no que conhecia como casa para descansar. Do lado de fora, na entrada dos aposentos de Akemi, Yoroho apertava sua mão calejada com a de Onochi. 

    — Nem sei como agradecer pelo o que tem feito pelo meu filho — sorria explicando, — ele sempre foi uma criança muito solitária. 

    — Deve ser por isso que é curioso quanto a tudo, é um grande garoto. Não tem muitos amigos? 

    — Não, nenhum — balançou a cabeça — nossa posição… humilde já dificulta a proximidade de outras crianças. Mas além disso, eu tenho uma má reputação ao redor da vila pelo o que aconteceu com a mãe dele. E infelizmente Yanaho herdou isso de mim — inclinou a cabeça para o chão. 

    — Eu receio que a mãe dele tenha… 

    — Ela se foi no parto — interrompeu respondendo, — é uma longa história — coçou a nuca. 

    — Eu sinto muito, senhor Yoroho — se virou Onochi — mas o que posso te dizer antes de ir, é que tenho certeza que Yanaho herdou do senhor muito mais coisas boas do que ruins. Como sua bravura e persistência. Por isso, seu filho tem um potencial tão alto que não sou capaz de medir. Se continuar assim, é certo que ele será capaz de realizar tudo que deseja.

    — É tudo o que eu mais quero — sorria Yoroho se curvando — muito obrigado mesmo, jovem Onochi. 

    O Shiro acenava, o pai de Yanaho observava Onochi partindo ainda naquela noite, antes de voltar para seu dormitório onde percebia seu filho já adormecendo. 

    “Não foi de mim que ele herdou a persistência, né, Aurora?”, refletia deitando ao lado do filho.  

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