Índice de Capítulo

    Perdido em seus pensamentos, o príncipe tomou seu cavalo e cavalgou pela cidade, rumo às minas, sem notar as casas ficando cada vez mais escuras, como se tudo estivesse apagado ao seu redor.

    “Com certeza Ryo não parou para pensar que poderia ser os Tsuki. Duvido que tenha reconhecido qualquer um deles. Quando descobrir isso provavelmente ficará arrasado. Imagina se ele tivesse matado um deles?”

    Quando atingiu a entrada da mina, o lugar estava vazio. Ninguém nas torres, a cabana de Minoru estava apagada também. A mina parou de emitir o brilho intenso de antes. 

    — Olá? Minoru? — Suzaki gritou, enquanto abria a porta do escritório. 

    De repente, a sala se acendeu com a lâmpada de fulgur e Minoru, junto de vários outros cujos nomes e os rostos Suzaki ainda não reconhecia, saltaram de baixo da escrivaninha aos berros e palmas. De trás de Suzaki, outros trabalhadores surgiram, vindos pelos lados da casa para abraçá-lo.

    — Minoru — Suzaki falava em meio à gritaria — Por que tudo isso?

    — Terminamos de extrair a metade da mina, alteza — gritava — Já temos o suficiente para distribuir, estocar, fazer o que quisermos!

    Os que estavam dentro da cabana eventualmente saíram para construir uma fogueira do lado de fora com os outros trabalhadores. Na medida que todos formavam um círculo ao redor do fogo, Suzaki reconhecia a carne no espeto que assavam naquelas brasas.

    — Bois só existiam do outro lado do território. Como trouxeram uma carne tão cara para dentro das cavernas? 

    — Ei, é uma compra especial para uma ocasião especial. Finalmente conseguimos o acordo! — gritou em uníssono com os outros, mas Suzaki permaneceu quieto — Algum problema, alteza? 

    — Eu pensei que seu chamado fosse urgente, precisava tratar de um assunto com Toshio — levava uma mão ao queixo.

    — Já assinamos o acordo, por que está tão preocupado? Sabe, eu estava até pensando em parar de estocar todo aquele fulgur reserva. Acha que devo fazer isso? 

    — Melhor garantir que a distribuição do que já separamos esteja sendo bem feita. As casas ainda parecem bem apagadas daqui — alegou Suzaki, vendo a cidade distante.

    — Pode ficar tranquilo — sorria pegando o príncipe pelo ombro — Ryo já se adiantou. Enquanto falamos ele está cuidando disso. 

    — Sério? Tudo está acontecendo tão rápido. Mal consigo acompanhar.  

    — Fique tranquilo aproveite sua juventude, deixe para um velho como eu as preocupações. Seu subordinado é bem prestativo por sinal — sorria Minoru. 

    “Será que Ryo quer mostrar serviço? Meu pai devia saber o quanto você era eficiente. Ele sempre olha por mim”, pensava, quando sentiu sua jaqueta ser puxada por trás. 

    Virando a cabeça para trás, reparou numa criança com um sorriso interrompido somente pela abertura entre dois dentes frontais. Ela tinha roupas tão sujas que se confundiam com o preto dos seus curtos fios de cabelo.

    — Jun, não faça isso! — um dos mineradores pegava a criança no colo — titio já falou sobre os modos com a visita.

    — Ma-mas… — a criança se debatia. 

    — Pode deixar ela — respondeu Suzaki rindo.

    — Que indelicado da minha parte, esqueci de apresentar minha família — se levantou Minoru — Este é meu irmão e minha cunhada. 

    — É um prazer alteza — os dois se curvaram.

    Minoru pegou a criança de seu irmão, a colocando no chão.

    — Este é meu filho.

    O garoto erguia a cabeça boquiaberto sem tirar os olhos do príncipe de cabelos azuis.

    — Sou o Jun. Você que é o… o nosso herói? 

    — Nada disso, na verdade — Suzaki se preparava para responder quando outra criança o agarrou pela bota.

    — Meu pai disse que você é um príncipe! — uma garotinha um pouco mais alta dizia — Pode me mostrar o seu castelo, por favor?

    — Tenho certeza que um dia ele vai nos levar lá, Mia — Minoru pegava ela nos braços também — Mas não hoje. 

    Quando a comida acabou e os convidados começaram a voltar para casa, Suzaki aproveitou o momento para se despedir de Minoru, que o acompanhou até seu cavalo. Suzaki subiu na montaria, porém prestes a estalar as rédeas, foi interrompido. 

    — Se importaria de esperar um pouco? Eu gostaria de te mostrar uma coisa — disse Minoru pegando algo do bolso — Era da minha mulher.

    O chefe das minas abriu a mão e revelou uma aliança cujo a pedra incrustada nela brilhava timidamente.  

    — Isso é… 

    — Você viu as pessoas desse lugar — dizia enquanto o príncipe pegava o anel, o analisando — Frágeis, doentes, qualquer doença pode ser a última. Ela morreu quando Jun ainda era um bebê.

    — Eu sinto muito — disse Suzaki abaixando a cabeça — Mas por que está me falando isso?

    — Eu lutei por todos daqui e faria tudo de novo — fechava o punho ao redor da aliança novamente — Mas será mesmo? Ou isso tudo foi uma forma de compensar o que eu não fiz enquanto ela era viva? Tinha algo a ser feito?

    — Quando estamos pressionados, mostramos quem somos de verdade — Suzaki colocou a sua mão por cima do punho fechado de Minoru — Tenho certeza que fez tudo que podia. Está fazendo isso agora mesmo e nem sei como agradecer.

    — Acho que da sua parte, você já fez bastante — sorriu — Alteza, eu preciso ser sincero com você. Depois de tantos meses de espera, não me restou outro sentimento que não fosse desconfiança pelo seu pai. Acho esse acordo bom demais para ser verdade.

    — Eu creio que meu pai só está com mais problemas do que imaginei. Além do mais, esse lugar está sob os meus cuidados Minoru.

    — Você confia nele?

    Suzaki parou por alguns segundos, olhando a cidade na distância antes de responder.

    — Confio.

    — Então ele terá minha confiança, assim como você tem a minha. Por causa disso, vou me desfazer do estoque de fulgur para acelerar as coisas amanhã.

    Ainda com as mãos uma por cima da outra, os dois as apertaram com mais força. 

    — Obrigado, Minoru — disse Suzaki, recuando do aperto para usar as rédeas.

    Com o relincho do cavalo, o Heishi Celestial disparou de volta para sua morada temporária. Deixado por ali, Minoru admirava seu benfeitor sumindo em meio às ruas da cidade que se esticava por toda sua vista.

    Numa madrugada congelante da região, um garoto dormia, tendo sua tranquilidade aborrecida por um estrondo. Imerso em seu cansaço, seu consciente tentava discernir os barulhos que alcançavam seus ouvidos. Foi quando escutou sons mais agudos e depois sentiu a temperatura ao redor aumentando gradativamente. 

    Abrindo seus olhos timidamente, Suzaki notou uma luz alaranjada acesa do outro lado da porta fechada de seu quarto. A partir de mais um enorme estrondo, ele arregalou seu olhar, notando as chamas rastejando pelo chão, cobrindo todo o quarto.

    — O que é isso?! — incrédulo tampou seu nariz, correndo até a porta de saída.

    Na tentativa de girar a maçaneta quase teve sua palma queimada. Os gritos do lado de fora fizeram a urgência do príncipe aumentar. Com os pés ardendo pelo fogo que subia do andar inferior, ele olhou para a janela e tomou sua decisão. Pegando sua arma, Suzaki tomou impulso e saltou pela janela, quebrando em estilhaços o vidro da saída. 

    — Fogo! — Era o primeiro grito que escutava do lado de fora. 

    — Não — erguia a vista para olhar a sua volta — De novo, não.

    Nokyokai estava coberta de chamas. Cada casa, um inferno particular. As pessoas cambaleavam para fora tossindo, outras gritavam de agonia pelas janelas. Desespero e desabamentos era tudo que era encontrado pelo príncipe. Tudo debaixo de uma nuvem negra que se estendia sobre toda a cidade.

    Antes que pudesse se mover, mais sobreviventes da pensão dos Heishis o encontraram do lado de fora.

    — Suzaki! — uma voz feminina reconheceu o jovem. 

    — Tia Rhea! — se aproximava do amontoado de autoridades, na qual estavam cercadas por Heishi’s — Eu preciso saber, o que aconteceu?!

    — O fulgur nas casas, levamos uma daquelas lâmpadas para cá e quando percebemos… — disse pegando na mão do sobrinho — Não dá para morrer aqui assim, deixe isso para os Heishi’s!

    — Onde está Toshio?! — gritou, se voltando para um dos Heishi’s.

    — Se acalme, vossa alteza, já nos encarregados do responsável. Ele está sendo detido nas minas — um dos Heishis respondeu.

    — Eu preciso ir — afirmou Suzaki, disparando em direção às minas.

    — Não pode me deixar assim, Suzaki! Suzaki!

    Sua tia o chamava incessantemente, mas o príncipe não tinha ouvidos para mais nada. Enquanto corria, ele notou todo tipo de pessoa sofrendo pelas chamas. Muitos feridos, alguns até mortos, estirados no chão, e nenhum Heishi para ajudá-lo. Homens e mulheres comuns, socorrendo um ao outro como podiam.

    “Isso não era para acontecer. O lugar todo está em chamas. Para um kazedamu dispersar as chamas… Por que não dominei essa técnica quando tive a chance? Covarde, irresponsável!”, pensava consigo mesmo, segurando as lágrimas. 

    A vontade de fazer alguma coisa pulsava em cada fibra de seu corpo, porém precisava manter o foco e achar a causa disso tudo. 

    Se aproximando da entrada, as minas já estavam rodeadas de Heishis. Na cabana onde Minoru gerenciava a instalação, Toshio fazia guarda com seus subordinados, quando Suzaki chegou.

    — Toshio! — gritou — Vocês distribuíram o fulgur, eu exijo uma explicação para isso tudo!.

    O capitão ergueu seu queixo, fitando Suzaki do alto, enquanto tirava algo do bolso interno de sua roupa.

    — Claro, Heishi Celestial — mostrava um frasco contendo seiva da noite — os contrabandistas, eles voltaram. Eu me pergunto, agora, quem deu a eles as ferramentas para incendiar o lugar todo? Não foi falta de aviso sobre seu amiguinho.

    — Fulgur não se inflama da maneira com que foi transportado — cerrou suas sobrancelhas — Minoru nunca faria isso com a própria cidade!

    — Você subestima a ganância dos homens — balançou a cabeça negativamente — Afinal, metade da mina sumiu da noite para o dia. Um carregamento numeroso de fulgur. Como? Admita, Minoru organizou isso tudo para ficar com o metal para ele! Ele é um criminoso, e até para um capitão experiente como eu, está ficando cansativo levar sua visão ingênua de criança a séri… 

    — Deixe-me interrogá-lo — interrompeu Suzaki, abaixando a cabeça. 

    — Está brincando? Ele já está acorrentado, isso não mudará nada.

    — Para você vai — respondeu Suzaki, revelando seus olhos brilhantes em azul — Se não me deixar entrar nessa cabana agora!

    — Que seja — deu de ombros.

    Com um aceno de seu capitão, os Heishi’s abriram a porta, por onde Suzaki entrou apenas para encontrar Minoru em sua cadeira, amarrado e aos soluços. Ao notar a presença do príncipe, o homem se conteve, mas sua respiração estava pesada e as mãos trêmulas, acorrentadas sob o encosto da cadeira.

    — Você… sabe — balbuciava Minoru — Que eu nem entreguei o fulgur para as casas ontem… Foi tudo culpa minha — ele se debatia na cadeira.

    — Não diga isso, está me ouvindo? — colocou a mão sob seu ombro — Uma coisa de cada de vez, o que aconteceu?

    — O fulgur foi sabotado! Colocaram óleo junto ao minério, sabiam que a reação geraria explosões! — colocou sua testa sob a mesa — acabou! Eu tentei esconder isso com medo dos Heishis e agora tudo vem assim. Quantos já devem estar mortos?!

    — Minoru agora não é a hora.

    — Fala! — dizia, desabando em lágrimas — Minha família já foi levada. Minha cidade destruída. Eu preciso saber…

    — Eu não pude contar, mas muitos — respondeu com a cabeça baixa — Não vou deixar que te prendam injustamente!

    — E isso importa, agora? Olha isso — trocou olhares com Suzaki, no momento que abriu uma das mãos revelando uma aliança — é tudo que restou desse meu sonho. Um sonho estúpido, de um homem que nunca se quer teve vez!

    — Nada acontecerá a sua família! — disse Suzaki colocando a mão sob a de Minoru, fechando-a junto ao punho novamente com o anel — Eu te prometo! 

    — A única chance — suspirou fundo — é o carregamento de fulgur que está indo ao leste. Ryo passou aqui antes do incêndio. Ele já se adiantou ontem a noite para mobilizar esse carregamento. Eu sei que prometi não fazer, mas ele tinha razão. Era melhor se prevenir, só olhar o que houve agora. 

    — Espera — ergueu a cabeça — Quem? 

    — Ryo, o seu amigo — a resposta fez Suzaki olhar para os papéis na mesa, os mesmo que leu com Minoru e Ryo dias atrás — ele nem se preocupou em dormir para me ajudar nisso, disse que não iria sozinho. 

    Um calafrio percorre o corpo de Suzaki até a espinha. Sem dizer uma única palavra a mais, ele dispara pela porta.

    — Espera, Suzaki! — gritou o dono da mina.

    Minoru já não era mais ouvido pelo príncipe, que apenas correu até Toshio, tomando o frasco de seiva da noite de suas mãos e seguiu seu caminho. Os Heishis tentaram repreendê-lo, mas o capitão prontamente os impediu.

    — Deixe-o ir. Isso vai terminar logo, logo — disse, com um leve sorriso.

    Dali em diante, o corpo de Suzaki tomou vontade própria. Como se tudo ao seu redor estivesse escurecido. Os gritos das vítimas e o cheiro da fumaça, não importavam mais. Ele cobriu seus olhos com o líquido negro, achando o primeiro cavalo disponível entre os Heishis, disparando para a saída da caverna. 

    Isso se deve pela nossa conexão com o luar, dizem que alguns de nós podem enxergar melhor a noite do que um Kuro. Mas não é fácil, exige muito foco, pelo menos para mim. Não consigo ver e ouvir como os mais velhos ainda”, lembrava de falas passadas de Ryo.

    Se quer saber a minha opinião, aqui não é tão escuro como imaginei

    Transportar? Qual é o plano aqui?”, franzia as sobrancelhas à medida que ligava os pontos. 

    Olha para você todo quebrado, deixa que eu me viro com os Heishis. Amanhã, teremos uma audiência com o trabalhador.”, estalava as rédeas mais fortes, fazendo os cavalos gemerem.

    Suzaki, levaram ele

    — Era você… — sussurrou para si mesmo. 

    É engraçado, antes de ver você com aquele homem nos braços na fábrica, eu tinha outra impressão sua.”, em meio ao turbilhão de memórias lembrou do sorriso cínico de Ryo. 

    — Traidor! — sua aura crescia levada pela sua raiva.

    A manhã que o recebeu do lado de fora foi um céu completamente envolto em nuvens carregadas. A estrada estava escura, acidentada, mas Suzaki acelerou cada vez mais. Dobrou a estrada à leste e estalou as rédeas de seu cavalo com mais força.

    — Rápido — gritava — Rápido, droga!

    O céu rugia com um trovão grosseiro, cedendo espaço para vozes, que ao entrarem no ouvido do príncipe, o fez forçar sua montaria ainda mais.

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