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    Com a brisa aumentando a intensidade em meio ao deserto, o silêncio ao redor era pertubado por gritos e gemidos do mirim que ali estava. Os minutos passavam enquanto usava uma das mãos brilhando em cima do grave ferimento, puxando com a outra uma linha com agulha, costurando a própria pele.

    “Não é o ideal para um corte desta profundidade, mas estou quase lá… logo irei conseguir me levantar”, pensou enquanto observava uma trilha de pegadas. “E-eu vou atrás de vocês, com certeza”. 

    Os pensamentos de Yanaho eram como uma ordem. Cada vez que a agulha penetrava em sua pele, um gemido de dor, ao mesmo tempo que usava da sua energia vermelha para estancar o sangramento.

    Após longos e dolorosos minutos, o jovem se levantava com a vista duplicada e o estômago anestesiado de dor. Vagando pelo deserto, ele podia ver alguns restos dos Senshis e Kishis que morreram a pouco, antes de assobiar para um cavalo à vista.

    “A missão ainda não acabou”, forçou-se a montar no animal que chegava ao seu encontro.

    Quando Susumo descia pelas dunas, Hirojiyu puxava seu irmão consigo, que não parava de coçar os olhos.

    — Ele pode usar o iro para manipular a luz, toma cuidado — balbuciou Nagajiyu — Droga! A fumaça restante já se dissipou. Estão nos desgastando igual àquele moleque.

    — Se pudessem nos matar já teriam feito — respondeu Hirojiyu, colocando seu irmão de lado e correndo até o Kishi — Eu vou acabar com ele.

    — Não, espera. Ele está sozinho! Cadê o rei? — chamou, mas Hirojiyu não deu ouvidos.

    O lugar ao redor deles começou a balançar. Os tremores o desequilibraram novamente ao passo que areias escorriam para um buraco que fora aberto perto dele. Enquanto era sugado, um brilho intenso emanou de Susumo outra vez, mas Hirojiyu deu pouca importância. Mesmo com os olhos vendo nada além de branco, ele girava seus membros atrás de seu oponente. 

    “Eles serão sugados daqui a pouco”, pensou Nagajiyu, “Um plano suicida? O culpado di/sso tudo está fugindo… esse cara quer nos levar junto dele”, concluiu ele, rangendo os dentes.

    — Eu não vou deixar! — gritou Nagajiyu.

    O ataque desesperado de Hirojiyu foi desviado e assim que Susumo preparou para estocá-lo no peito com sua espada, Nagajiyu subiu em suas costas. Apesar disso, o Kishi completou o movimento, ainda que tenha acertado mais abaixo, na barriga de seu alvo. O segundo irmão puxou sua adaga e espetou o peito de Susumo, que o jogou de volta no chão. 

    Os terremotos cresceram e o buraco no chão crescia. Susumo e os dois gêmeos foram atraídos por ele novamente, quando no meio do caminho, Hirojiyu, ainda com a lâmina atravessada em seu corpo, agarrou o cavaleiro do patriarca pelo pescoço. Ele lutou para se libertar, mas cessou seus esforços quando Osíris apareceu no alto das dunas.

    — Está feito — sussurrou, se rendendo ao inimigo.

    “Susumo, obrigado”, pensou ele, vendo Hirojiyu partir o pescoço de seu cavaleiro.  

    Depois do estalo, outro barulho irrompeu no deserto. Do buraco, brotava uma pirâmide que parecia esticar-se até o céu, pouco depois do corpo desfalecido de Susumo cair no precipício. Os gêmeos, que atrasaram sua queda, se apoiaram na base, onde Hirojiyu retirava a lâmina de sua barriga. 

    — Mas, o que é isso? — comentou Nagajiyu — Então esse era o plano. Era melhor não se precipitar. 

    — Eu… Ainda tenho mais um pouco — respondeu Hirojiyu aos gemidos, enquanto o ferimento brilhava em preto.

    — Olha só para você, a cada golpe sua capacidade de recuperação diminui. Cortes e perfurações não são a mesma coisa que golpes de impacto.

    — Cadê o culpado, agora?!

    Nagajiyu olhou ao redor, quando viu o homem que procurava, correndo até a pirâmide. Com um gesto da mão, ele fez os blocos que a compõem se projetarem para frente, como uma plataforma onde podia subir. 

    — Vou terminar isso — disse Nagajiyu, começando a escalar a pirâmide.

    Mesmo atrás, Hirojiyu seguiu seu irmão, que arremessava de seu bolso sua última bomba de fumaça no topo. A névoa rapidamente se concentrou no topo, projetando um braço que esmagou o patriarca contra a pirâmide.

     — Sem mais surpresas — dizia Nagajiyu, chegando onde Osíris estava preso.

    Nagajiyu puxava sua adaga para finalizar sua presa, quando sentiu um forte sopro vindo de baixo. Ele olhou para seu irmão e o viu cair para a base da pirâmide. Ao olhar para trás, só pôde ver um corpo se aproximando dele em alta velocidade, como se pairasse no ar. Os dois se chocaram, mas somente Nagajiyu perdeu o equilíbrio, se segurando com as mãos para na borda.

    “Impossível”, pensou enquanto reconhecia a capa vermelha em sua frente.

    O braço rígido de fumaça se desfez, permitindo que Osíris se libertasse.

    — O que você faz aqui?! — perguntou ele, reconhecendo o garoto.

    — Eu… vim parar vocês.

    Osíris de imediato criou mais degraus. Faltava pouco para chegar ao topo, enquanto Yanaho andava logo atrás dele. Na borda, Nagajiyu reparava no seu irmão, que já tinha feito todo o caminho de volta para onde caiu. 

    — Hiro — gritou, tirando a última bomba do bolso — Arremessa na fumaça! Rápido!

    O objeto arremessado atingiu as mãos de Hirojiyu e assim que o mirim se virou para ver o que planejavam, ele correu até o patriarca, que subia em direção à nuvem negra.

    — Ei, cuidado! 

    Seu chamado, contudo, veio tarde demais. A explosão dentro da fumaça se intensificou de modo que a própria pirâmide chacoalhou nas bases. Yanaho e Osíris precipitaram do topo, quando a poeira ainda era densa. Durante a queda, um bloco da pirâmide se desloca para fora, criando uma abertura por onde ambos caem. Assim que o bloco se fechou, cobrindo a única saída, restava somente a escuridão, exceto por um fio de luz saindo do topo.

    Yanaho apoiava-se nas paredes para ficar de pé, enquanto Osíris recostava-se do outro lado, ainda sentado no chão. Observando o homem de vestes amarelas percebe sua expressão e o reconhece:

    “Este é o Patriarca?”, pensou indo em sua direção.

    — O que você fez? Estamos dentro da pirâmide? — perguntou Yanaho, olhando ao redor — Como vamos sair? Eles vão escapar! — sentiu uma dor aguda na perna, começando a mancar — Que droga! O que tinha na fumaça para amplificar aquela explosão? Eles guardaram para o final.

    Partindo para ajudar o patriarca, ao menor esforço para erguê-lo do chão, Osíris cuspiu uma pequena poça de sangue. Mesmo de pé, ele continuava reclinado nas paredes, ofegante.

    — É só temporário… — comentou Osíris, tirando as mãos de Yanaho de si — Preciso descansar.

    — Mesmo comigo na frente você recebeu uma parte da explosão. Está muito ferido para continuar — disse Yanaho, enquanto o rei se sustentava em uma das paredes.

    — Não estou ferido, garoto — mostrava suas mãos sujas de sangue — estou doente. Susumo se sacrificou, para que eu erguesse essa pirâmide, porém essa não é uma tarefa para uma pessoa. Muito menos um moribundo como eu.

    Com as palavras de Osíris, o garoto deu passos para trás. Olhando o patriarca da cabeça aos pés, seu rosto debilitado, sua postura reclinada, tudo remetia a algo muito familiar. 

    — Foi… foi você, não é? O responsável por isso tudo. 

    — Sim — empurrou a parede com as costas, ficando de pé sem o apoio.

    — Anos atrás… você atacou minha vila, matou tanta gente — dizia Yanaho, com Osíris vagando pela pirâmide como se procurasse por algo — Meu pai está doente até hoje por conta daquilo! Qual é o motivo para tudo isso? Está me ouvindo?!

    Os berros do mirim ecoaram pelo local, caindo em ouvidos surdos. O patriarca ficou sob o feixe de luz que vinha de baixo e esticando a mão para o alto, fez brilhar em amarelo marcas circulares pelo local, que acenderam as diversas tochas ao redor. As brasas revelaram uma galeria infindável de sarcófagos, incrustados nas paredes com nomes gravados em cada um deles.

    — Que lugar é esse?

    — Aqui é onde os antigos Patriarcas descansam — respondia, parando na frente do sarcófago mais próximo — O motivo disso tudo vai muito além de mim ou de você. Mas eu posso contar a minha perspectiva. 

    Chegando mais perto, Yanaho observava que a fileira tinha dois sarcófagos menos desgastados. O mais recente carregava o nome de “Yasuma” e seu antecessor, “Amón”. Osíris revisitou memórias de sua infância enquanto contava:

    [Desde meu nascimento eu carregava a maior responsabilidade da dinastia Kiiro, nas minhas costas. Mas eu sempre tive um objetivo em mente: eu queria ser igual a ele. 

    Uma criança corria pela fileira de homens ajoelhados, para encontrar o único de pé na frente deles, cuja sombra cobria o brilho do dia para ela. O Sol por trás daquele homem, transfigurou seus cabelos longos e grisalhos e largo bigode aos olhos daquele garotinho.

    — Osíris, o que faz aqui? — perguntou o homem.

    — Eu não achava você, vovô. Fiquei com medo — puxava a manga do rei.

    — Outras pessoas podem sentir medo, mas não você — o homem rejeitou o pedido da criança, virando-a para os Kishis diante dela — Um dia esses homens todos vão se ajoelhar a você, minha criança. O que dirá para eles se sentir medo? 

    Meu avô, Ámon, foi um dos Patriarcas mais influentes e importantes da história. Era autoritário, mas era porque acreditava em nós. Acreditava no que podíamos ser. Ele conquistava a todos, e eu não fui diferente. Para ser um bom Patriarca no futuro, já quando criança eu entendi: Eu teria que ser como meu avô. 

    No alto do maior edifício de Oásis, um jovem rapaz descansava na sacada com seu avô, que permanecia sentado, embora seus olhos vagaram por tudo que se passava abaixo na cidade. 

    — Osíris, o que você vê?— apontou para baixo. 

    — Um povo unido e próspero — respondeu, sorrindo para Ámon. 

    — Isso tudo foi construído através de muito trabalho. Doloroso trabalho. As pessoas abaixo de nós, correm dessa dor porque tem medo dela. Mas nós precisamos abraçá-la para podermos deixar esses frutos para elas. Mesmo que isso nos coloque em conflito com outros povos, ninguém irá cuidar do nosso povo por nós. 

    — Mas somos fortes, não devemos temer a qualquer ameaça.

    — Não se engane pelo agora, Osíris — ergueu-se da cadeira e colocou a mão sobre sua cabeça — independente do progresso, o que determina o legado de alguém não é o começo, e nem o meio, mas o fim e até depois dele.

    Aquelas palavras dele martelaram na minha cabeça. Eu pensei ter entendido na época, mas qualquer certeza que pudesse ter, ficou de lado quando meses depois meu avô encontrava seu fim. Meu pai, Yasuma, assumiu e foi então que consegui entender um pouco do que meu avô quis dizer. 

    Dentro da pirâmide, Osíris se via diante do túmulo fechado de seu avô, cerrando os punhos e rangendo os dentes para conter as lágrimas. Ao sentir a pirâmide estremecer, abrindo uma passagem, ele avistou um sujeito com cabelo amarrado e barba feita. O visitante foi para junto de Osíris, dizendo:

    — Filho, a cerimônia já acabou. Todos já foram, exceto você. Vamos — colocou as mãos sobre os ombros de Osíris.

    — Pode me enterrar aqui se quiser — estapeou o braço do pai —  assim como fez com os planos de Ámon!

    — Hoje não.

    — Todos os dias, se preciso! Você desfez tudo! Reatou relações com os Aka, ignorou a ameaça dos Kuro e ainda por cima reconheceu a independência dos Midori. Pior, abandonou a expansão do território.

     — Já conversamos sobre isso, se você não quiser entender, não irei obrigá-lo. Mas me deve respeito!

    — Eu não devo nada a você, muito menos respeito. Você que devia respeito a ele! Ele foi o grande homem, não um medroso como você! — Com o berro do príncipe, o silêncio perdurou por alguns segundos — Você foge da dor igual aos outros, e por isso jogou o legado de seu pai no lixo!

    — A dor traz frutos sim — caminhou até a saída —  Mas isso não é justificativa para sermos inconsequentes.

    Eu nunca me entendi com meu pai depois daquilo. O reinado dele se preocupou em melhorar o que tínhamos em vez de expandir. Isso desagradou o conselho e frustrou a população dos desertos, que já não tinha dinheiro para voltar a Oásis. Eu passei todos os anos de seu reinado esperando pela minha vez, disputando cada decisão do meu pai e costurando alianças com o conselho. E quando a hora chegou.

    Osíris passava a mão imagem de seu pai, esculpida na tampa de seu sarcófago de bronze, terminando sua história: 

    — As últimas palavras do meu pai para mim foram: “Assim como fiz, pode pegar todo o meu legado e desfazer, mas lembre-se de que as pessoas não podem pagar pelo seu erro.”

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