Capítulo 36 - Duelo de Aliados
Quando viram o filho de Yuri se precipitar sobre o chão, Yanaho afastou Katsuo, protegendo-se do impacto, que jogou pedras para os lados e abriu uma pequena cratera à beira da água.
Masori atirou sua flecha que atravessou a caverna com uma corda, onde pôde deslizar com seu arco até a luta que estava para começar. Sobrevoando o campo de batalha, ela reparou nos movimentos de Katsuo por trás de Yanaho.
Quando o camponês avançou, seu amigo estava logo atrás. Yukirama subiu sua espada, defendendo o projétil atirado por Katsuo e Yanaho buscou mudar a guarda do seu adversário ao escolher atacar pelo lado. Mudando sua postura, Yukirama defendeu o corte lateral e girou, ficando costa a costa com Yanaho e de frente para Katsuo.
O aprendiz de Onochi tentou virar rapidamente com um corte giratório, porém Yukirama já havia se distanciado dele, lançando-se sobre Katsuo, que trocava seu estilingue por uma espada. O metal dos dois colidiram
“Ele está muito na ofensiva, preciso afastá-lo!”, pensou Yanaho, guardando sua espada para unir as mãos.
Elas piscaram com um brilho branco, o que despertou a atenção de Yukirama que chutou Katsuo no peito. Mesmo com a maleta amostra, preferiu avançar em direção ao segundo inimigo. Yanaho aparou a espada com o próprio antebraço brilhando em vermelho, empurrando Yukirama para trás e puxando sua própria arma.
— Continua me enrolando? Anda, mostra a sua técnica — provocou Yukirama, mirando no peito de Yanaho.
— Se insiste!
Com sua outra mão, lançou um vento forte que jogou Yukirama para cima, na saída norte da caverna. Ele se chocou contra as paredes, o que balançou o mecanismo de madeira que sustenta o caminho de pedras onde havia caído, o mesmo que o grupo inimigo havia plantado uma armadilha.
Yanaho correu para encontrar Yukirama. Katsuo se levantava tentando acompanhar seu amigo enquanto pensava, alcançando novamente a maleta:
“Estamos quase lá, Kazuya está lidando com Emi, e estamos conseguindo lidar com Yukirama. Só mais um pouco e…”, era interrompido por uma flecha que acertou seu tornozelo de raspão.
O grito de dor do garoto ressoou pela gruta, chamando atenção de todos.
— Sinto muito — disse Masori chegando por trás, evitando as armadilhas, e observando a luta dos outros dois.
Mesmo percebendo que o mirim ferido carregava a maleta, ela prosseguiu para região onde estava Yukirama que se recompunha do kazedamu.
Yanaho o cercava pela passagem estreita, aproveitando do momento a sós para dialogar com o rival:
— Eu sei sobre seu pai, Yukirama. Ele foi um grande Senshi.
— Cala a boca — se levantou socando a parede rochosa ao lado.
— Devemos honrar a memória dele com nossa dedicação.
— Eu mandei — empunhou sua espada — você calar a boca!
O ataque desesperado de Yukirama parou na lâmina de Yanaho. Os dois disputavam em força com o atrito de suas espadas ecoando pela caverna.
— Seu pai foi um herói — continuou Yanaho — temos que buscar ser alguém como ele.
— O que você entende sobre isso? Você nem ao menos é um Senshi — recuou Yukirama, tentando outro golpe — Meu pai queria voltar. Se ele cumprisse seu dever de fato, não teria morrido!
A força da espada de Yukirama estremeceu o chão, enfraquecendo os troncos que Yanaho e Kazuya colocaram abaixo da arena onde os dois lutavam. Os pés do camponês arrastaram para trás com o impacto de seu bloqueio. Além do chão quase cedendo, ele estava à beira de cair no lago abaixo.
— Errado! Ele morreu justamente por cumprir o seu dever.
— Meu pai morreu porque foi fraco. Eu vou ser forte. Forte para viver e nunca perder para ninguém.
— Você não pode ter certeza disso. Somos fortes para dar nossas vidas pelos cidadãos.
— Que se danem eles! — golpeou Yanaho do lado, jogando agora contra parede — Por acaso os cidadãos deram conta do sofrimento de minha mãe? Da estabilidade e amor que tínhamos com ele?
Encurralado, Yanaho balançou sua espada para afastá-lo, mas Yukirama agachou o corte e o acertou com uma cabeçada contra as paredes da caverna. Terminou chutando seu inimigo até o chão.
— Não, no final de tudo só eu tive que dar conta disso. Eu que tive que ser forte! — levantou a espada — E depois de todo esse tempo aparece um fraco como você pedindo para eu parar? Quem é você para me dizer isso?!
Yanaho cerrou os dentes. De bruços ele uniu suas mãos. Quando virou para encarar o ataque de Yukirama, empurrou seu braço contra o dele, afastando a lâmina que vinha para o seu pescoço. Usou seu punho, para desferir um soco bem no queixo de seu rival surpreso com o movimento.
— Eu sou um Aka, um mirim, assim como você. Sinto muito por tudo o que aconteceu com você, mas não precisa ser assim. Yuri não pode ter morrido por nada, muito menos para você pensar assim — estendeu as mãos ao lutador caído.
— Eu já falei — Yukirama energizava sua mão, canalizando sua energia em seu punho — cala a sua boca!
Ao avançar, tentando socá-lo, foi bloqueado pela espada do mirim no último instante. A força o jogou para trás. Verificando sua espada, Yanaho viu rachaduras.
Sem tempo para pensar, Yukirama saltou com um grito desesperado por cima dele.
“Isso não!”, pensou Yanaho, percebendo o punho rubi junto a aura do adversário que crescia.
No último reflexo o mirim desviou para o lado. O soco de Yukirama atingia o solo comprometendo a estrutura da armadilha de Yanaho, derrubando a plataforma de pedra onde estavam. Ambos caíram direto no lago, mas durante a queda, uma pedra acertou o filho de Yoroho na cabeça. Desorientado, ele caiu nos braços do lago escuro.
Katsuo, que se arrastava para observar a luta, viu seu amigo cair sem consciência nas águas escuras das cavernas e tentou ajudar, mas teve que voltar sua atenção a Masori que o cercava.
Da saída leste, um grito pôde ser ouvido pelos lutadores, assim como o barulho de uma corda arrebentando. Masori se virou para olhar e percebeu Emi, presa contra a parede, com espinhos de madeira cercando todo seu corpo. Estava presa e sem saída.
— Droga! Esse moleque me pegou. Cuidado, Masori! — gritou ela.
Antes que a atiradora pudesse entender o que se passava, Kazuya surgiu por trás, investindo contra ela com um tranco. Os dois caíram no chão, com o mirim mais forte por cima.
— Pegue a maleta e fuja — disse Kazuya, segurando Masori pelos braços.
— Mas, mas e Yanaho?
— Você está ferido, se quiser ajudá-lo, vai. Mas não espere conseguir manter a maleta. Decida! — respondeu Kazuya, afastando a garota com o arco.
Observando o lago à frente, percebeu Yukirama saindo das águas suspirando em cansaço com sua mão direita segurando a esquerda, imobilizada.
“Droga, mesmo tendo sido de raspão, mal consigo correr. Yanaho não voltou da queda… mas se eu perder a maleta…”, encarava o objeto, enquanto refletia.
Foi então que franziu as sobrancelhas, se erguendo ainda manco indo em direção do seu real objetivo, ainda com a maleta em mãos. Se colocou à frente da beira do lago, onde saia Yukirama desarmado.
— Quer ser o próximo? — ameaçou Yukirama.
Katsuo engolia seco frente a cena, não dizia nem fazia nenhum movimento, como se estivesse esperando a ofensiva do inimigo.
— Anda, me dê logo essa maleta!
— Sai da frente — Katsuo usou o próprio objeto para bloquear o soco do oponente — eu vou salvar meu amigo! — Em sua esquiva se lançou ao lago, deixando para trás o item.
— Yuki, o que aconteceu? — perguntou Masori, ainda em disputa com Kazuya.
Seu parceiro entrou entre ela e o adversário com um golpe, que o atrapalhou. Kazuya se afastou notando que estava sozinho, parando de lutar, percebendo a escolha de Katsuo, e a derrota de seu grupo.
— A maleta tá com a gente, vamos — disse Yukirama, erguendo-a do chão.
— Espera — empurrou Yukirama — Você vai deixar Yanaho ali? Ficou doido?
— Vamos voltar porque já conquistamos o objetivo — deu as costas — Aproveita e tira a Emi da armadilha.
— Volta aqui, Yukirama!
Ela gritou para o garoto que seguiu caminho, abandonando todos ali. Masori resgatou Emi na parede e se juntou a antes seu oponente Kazuya, que aguardava a volta dos dois companheiros submersos.
Mergulhando no rio, o iro de Katsuo pode guiá-lo para seu amigo, coberto por pedras de diversos tamanhos. A escuridão do lago foi inundada pela luz da aura de Katsuo, que usou toda sua força para livrar o amigo da sua prisão. Em poucos minutos, retornava à superfície com seu amigo.Saindo da água, notou o céu mais claro. O sol já estava no horizonte, a prova havia acabado.
— Está tudo bem com ele? — perguntou Masori.
— Yanaho engoliu muita água — balançou a cabeça — Eu não estava em condições para enfrentar o Yukirama. Poxa, perdemos logo no final — Kazuya tomava posse de Yanaho desacordado.
Após pressionar o peito do mirim algumas vezes, ele despertou, deitando de lado para tossir toda a água.
— Ainda bem, que susto você deu na gente — comentou Katsuo.
— A maleta — dizia Yanaho, passando a mão na testa para sentir seu sangue — Perdemos? — notava Masori e Emi junto a eles.
— Levanta — disse Kazuya.
— A maleta não estava com você, Katsuo? — perguntou Yanaho.
— Você não saiu do rio, o Yukirama sim. Eu achei que…
— Ele entregou para o Yukirama, que nem se importou em te salvar — explicou Masori interrompendo.
— Aquele esquentadinho, fez tudo em benefício próprio — dizia Emi irritada — mas… pelo menos eu vou passar — respirava fundo.
— Sem a maleta você… vai ser reprovado — percebeu Yanaho. — Como fica você?
— Como fica você! — suspirou — sua vida vale muito mais que toda minha carreira militar, poxa, tenho certeza disso — disse com um olhar voltado para o chão.
Yanaho se levantou e abraçou o amigo, que dizia:
— Me desculpa. Eu queria passar, mas não desse jeito — disse Katsuo.
— Eu errei, devia saber que ele estava disposto a tudo — lamentou Yanaho.
— Não foi culpa sua — explicou Masori — Somos aliados, isso aqui é só uma prova! — cerrou seus punhos.
— Katsuo — dizia Kazuya, se reerguendo — Voltem todos vocês. Já amanheceu.
— Espera, e você? Para onde vai?
O mirim mais alto seguiu sem ao menos responder a súplica do garoto.
— Deixa ele — dizia Yanaho, — cada um lida com a derrota do seu jeito.

Quando retornaram à entrada da floresta, o grupo encontrou vários mirins sentados na grama. Alguns feridos, outros inconscientes, todos esgotados. Katsuo deixou Yanaho descansar na sombra de uma árvore, enquanto Tomio, que passava pelas equipes.
Após a entrega do objetivo de Yukirama, as duas restantes da equipe se aproximavam, com uma indo com pressa em sua direção.
— Yukirama! — gritou Masori, o puxando por trás. A garota deu um tapa no rosto dele na frente de todos.
— Você quebrou todos os seus dedos por causa do seu orgulho! Tenho certeza que seu pai nunca deixaria nenhum companheiro para trás. Você… você nunca vai honrar ele assim!
Todos observavam a cena perplexos, Yukirama apenas se soltou de suas mãos, virou-se e se afastou dos demais dizendo:
— Que seja.
Masori seguiu para o lado inverso, se juntando aos outros companheiros. Após a maioria se reunir, e a entrega das maletas restantes, os professores contavam as maletas avaliando.
— Espera um pouco — dizia Tomio, olhando em volta — Cadê a restante?
— Do que está falando? — questionou Katsuo.
— Pensamos que só tinham quatro — disse Umi, enquanto os outros mirins ficaram espantados.
— Pensaram é? — insinuou Arata, rindo e apontando para o último mirim a se reunir.
Kazuya, chegava encharcado com uma maleta em mãos. O objeto estava extremamente úmido, sem marcas de sangue, irrastreável pelo iro vermelho.
— Kazuya, como você… — Yanaho tentava encontrar as palavras.
— Era para encontrar a maleta. Eu encontrei e escondi debaixo do lago logo quando chegamos na gruta — respondeu inexpressivo.
— Então nós… — Katsuo se aproximava incrédulo — Passamos! — De repente, pulou nas costas do companheiro com a maleta, comemorando.
Kazuya não esboçou nenhuma reação ou incômodo com o garoto em suas costas. Tomio recuperou a maleta das mãos do mirim, avaliando:
— Ter a maleta também era um sinal para os outros te atacarem. A ideia era que remover a marca tornaria o rastreio mais difícil, mas você adaptou essas regras para vencer. Estão aprovados.
Enquanto Katsuo comemorava com os braços para o alto, Yanaho se deixava cair, deitado na grama para observar as folhas que caíam da árvore, em meio a brisa da manhã, rindo sem se segurar.
“De todas as pessoas, logo o Kazuya. É mestre Onochi, nada é por acaso”, refletiu ao tempo que uma folha gentilmente repousou sob sua testa.

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