Capítulo 41 - Desafio
Um homem de capuz marrom conduzia um jovem de blusa abotoada branca, com uma fita verde amarrada em seu tornozelo, por uma colina. Eles davam passos erguendo os joelhos até a cintura por conta da mata densa e terra úmida, que se confundia com a lama grudenta no topo do morro.
A partir dali, os dois subiram nas árvores, pulando cuidadosamente de tronco em tronco, de galho em galho. Até que o mais novo de repente pisou em falso, sendo segurado pelo seu companheiro no último instante.
— Cuidado — disse Noriaki, escorando no tronco — Segurar os galhos com força pode te machucar, melhor darmos uma pausa — comentou, percebendo a palma da mão do amigo sangrando.
— Nem pensar — respondeu Mitensai, escondendo o ferimento — já perdemos muito tempo.
— Próximo ao ninho da coruja há diversas armadilhas espalhadas — se reergueu — então se quiser ter a mínima chance de negociar por seu amigo…
— Temos que andar com cuidado — interrompeu levando a mão ao tornozelo — Já entendi, mas isso não quer dizer que devemos parar.
Retirou o laço verde que ali estava e começou a amarrá-lo em sua mão. Quando terminava de improvisar o curativo, Noriaki o puxou para trás de si bruscamente.
— O que foi? — sussurrou Mitensai.
— Tem gente se aproximando — respondeu, tampando a boca do garoto.
Ele observava o matagal se movendo, no solo, como um predador em sua direção. Os que estavam atravessando certamente não tinham cuidado algum com onde pisavam. O som dos passos da nova companhia estava mais perto.
Noriaki tirava a mão da boca de Mitensai, saltando para um galho mais próximo do chão. Assim que passaram por um arbusto ficou de frente com o órfão mais velho e caiu para trás com gritos, que ressoavam pela floresta. Mitensai, que viu tudo, saltou para o tronco do companheiro:
— Espera Nori… — tentou chamar por ele, mas engoliu o resto das suas palavras ao ver o grupo.
Eram oito jovens com mais ou menos sua idade. Todos rostos muito familiares para ele.
— Quer matar a gente de susto, Noriaki?! — uma delas tomou a dianteira gritando.
— Kin?! Pessoal?! — Mitensai pulou para o solo — O que estão fazendo aqui?
— Por que trouxe as crianças? — indagou Noriaki — Quem mais você avisou Mitensai?
— Mas eu não avisei ninguém.
— Para de baboseira vocês dois, esses são os mais velhos. Nem nos falamos, mas eu tô sabendo do que tem que ser feito — Kin interrompeu os dois.
— Como assim, Kin?
— Alguém quer que o prisioneiro de ontem seja solto, e tá pagando um dinheiro bom por isso. Falando nisso, por que estavam nos galhos?
— Por causa das armadilhas — respondeu Mitensai coçando a cabeça — Espera, alguém tá pagando vocês para resgatar o Suzaki?
— É bom vocês terem uma ótima explicação para isso — cruzou os braços Noriaki — e rápido.
Kin puxou do bolso um pergaminho, abrindo-o de baixo para cima:
— Ele disse ser um cara da gangue, tinha a braçadeira e tudo.
— E você acreditou nele? — questionou Noriaki.
— Acreditei no baú de dinheiro que ele me mostrou. E sobre esse lance das armadilhas — disse com um sorriso de canto, o papel era um mapa do terreno com uma trilha desenhada — vejam.
— Uma rota para os ninhos, sem armadilhas? Então por isso conseguiram chegar até aqui pelo solo — apontou Noriaki, deslizando o dedo pelo desenho — Tá, vamos supor que seja isso. Quem aqui dentro iria querer soltar esse cara que só o Mitensai conhece?
— Talvez não seja só ele que conheça — supôs Kin, dando de ombros.
— Isso é mau, mas não temos outra escolha. Vamos seguir o plano, pegar o Suzaki e depois o que ele pediu para fazermos? — perguntou Mitensai.
— Ele deixou uma carruagem a alguns metros daqui. Também disse que os fundos estariam sem guarda pela tarde. É pegar, entrar pelos fundos do Ninho que o Suzaki ia tá ali. Depois levamos ele para cidade, onde ele vai pagar a gente.
— Não tem nada garantido nisso — insistiu Noriaki.
— Ele cumpriu todas as promessas até aqui. O cara é sério e qualquer coisa eu falo que foi tudo ideia minha, pode ser? — disse Kin, indo na frente — Não tenho nada a perder mesmo.
— Então vamos — disse Mitensai enquanto Noriaki apenas assentiu indo atrás de todos.

Já era de tarde no Ninho da Coruja, quando abriram a porta da cela dos condenados. Em fila, os homens entraram portando espada na cintura e grilhões nas mãos. Suzaki, guardou a carta no bolso da calça, enquanto acorrentavam todos.
Os presos faziam uma única fila, ligada pelos elos de uma corrente que foi puxada por um dos guardas até o pátio. Na medida em que suas vistas se acostumaram com a clareza do lado de fora, Suzaki voltava sua atenção para as torres nos extremos.
“Se a carta estiver correta…”, pensou Suzaki, “Só falta…” olhou para cima.
Do ponto onde Suzaki estava, o vigia que andava pela sacada da torre oeste estava prestes a ficar no ponto cego, obstruído pela própria torre de olhar o pátio principal. Quando ele finalmente saiu do seu campo de visão, as correntes nas suas mãos de repente se soltaram.
Ao mesmo tempo, um grito vindo da torre leste foi ouvido pelos guardas.
— Socorro! O que está acontecendo?
Suzaki aproveitou da distração para mergulhar na mata densa do jardim. Observando o movimento brusco do garoto, estava Munny seguindo a fila dos prisioneiros, pensando:
“Adeus, espertinho”
Ainda com os olhos na torre oeste, Suzaki repara que o homem ali, nunca mais apareceu.
“Será que…”, ponderou antes de dar um passo em falso.
Distraído, seu pé entrou no que parecia um vácuo, que o engoliu por completo. Por um breve instante, ele parecia cair num buraco, aquela escuridão cessou rapidamente e ele pôde ver seus arredores. Estava nos fundos da prisão, atrás do castelo.
“Como eu vim parar aqui?!”, pensou espantado.
Antes que pudesse construir uma explicação para o que acabara de acontecer, uma carruagem entrava no terreno pelos fundos e estacionou bem na sua frente. Suzaki já se preparava para lutar, quando uma voz saiu de dentro do veículo.
— Suzaki! — A porta se abriu e Mitensai descia dela dando um forte abraço em seu amigo.
— Então é você — sorriu Suzaki por um momento.
— O que você está fazendo aqui?! Como conseguiu fugir?
— Espera, pensei que você tinha feito tudo, eu só… — alcançou o papel no seu bolso e mostrou a Mitensai — Recebi essas instruções na cela e… pensei que poderia ser meu pai também.
— O importante é que deu certo, estamos aqui — apontou para a carruagem com Noriaki e Kin — sobe, precisamos te levar…
— Negativo. Eu preciso voltar — interrompeu Suzaki, virando para o castelo
— Ei bonitão — Kin se aproximava — agora lembrei de você, agora entre nessa carroça e para de enrolação.
Os dois abordaram Suzaki enquanto Noriaki cruzava os braços, aguardando no veículo com os outros.
— Espera, você acabou de escapar! — pegou Suzaki pelo ombro.
— Minha arma ainda está lá. E… Um amigo também — virou-se respondendo.
— Quem é esse seu amigo? De onde você tira essas coisas?
— É complicado, confie em mim. Eu só vou pegar minha arma, e volto para explicar tudo — já se adiantava em direção ao castelo.
— Ei maluco, isso tá valendo grana, então não demora hein! — dizia em direção ao príncipe — as armas confiscadas ficam no porão do castelo. Me falaram que só vai ter que achar a entrada.
— Certo — respondeu partindo.
Depois de escutar a conversa, observando o avanço de Suzaki, Noriaki pensava:
“Quem quer que seja estar por trás disso, está sob total controle da situação… Isso parece estar acima das questões da gangue. Precisamos sair dessa logo”.

Suzaki seguiu seu caminho de volta à prisão de onde saíra. Do outro lado, a súbita aparição do vigia da torre oeste fez com que os guardas se mobilizassem pelo pedido de socorro. Dai chegava naquela mobilização, rodeado por seus homens, além da fila de condenados de onde Suzaki havia escapado, agora sob sua custódia.
— Posso saber quem foi que ordenou essa insubordinação?
— É que houve um acidente e… — um dos guardas justificava.
— Eu vou te mostrar o acidente — mostrou os grilhões rompidos de Suzaki em suas mãos — Sabe de quem é isso aqui?
— Senhor, como isso aconteceu?
— Não importa! — gritou, entregando os condenados a um guarda do seu lado — levem eles daqui. Se quer algo bem feito, faça você mesmo. Venham comigo, eu sei bem o próximo passo dele.
No castelo, Suzaki entrava por uma das janelas dos lados. O corredor estava vazio e se esticava de ponta a ponta com paredes gastas, revelando algo por trás da mobília. Estava escuro, mas a luz da tarde, que passava pela janela, revelava uma escada, descendo até as profundezas do castelo. Suzaki desceu ao fundo, onde encontrou uma porta. Girou a maçaneta e, para sua surpresa, estava aberta.
Entrando lá, viu fileiras de armários de carvalho escuro, com portas de vidro empoeiradas. Passando a mão por aquela densa camada de sujeira, viu seu conteúdo: espadas, escudos, até mesmo bombas. Um verdadeiro arsenal repousando na base do castelo.
Então um barulho cortou o silêncio: algo arrastando no chão, um som agudo. Metal, rasgando madeira, lentamente.
— Então — virou-se rapidamente Suzaki — é você de novo.
— Em todos esses anos — respondia Dai trazendo a lâmina de Suzaki em suas mãos mais para perto, admirando-a — nunca vi nada parecido. O material, a leveza, o poder.
— Pretende usá-la contra seu dono? Logo você que diz querer acabar com esses problemas.
— E eu vou — apertou a arma com força, ativando sua aura — eu, Dai, o desafiante, te desafio a uma luta um contra um — apontou a lâmina que reluzia com um brilho verde.
— Essa violência tem que chegar ao fim — erguia os punhos em postura de luta — do jeito certo — sua aura azul crescia a partir de seus olhos determinados.
No arsenal escondido por baixo do Ninho da Coruja, Suzaki e Dai não tiravam seus olhos um do outro. Naquele silêncio podiam ouvir as respirações tensas um do outro. O príncipe recuava em busca de algo para usar nos armários, quando, temendo pelo pior, seu oponente avançou com toda velocidade contra ele.
O príncipe socou o vidro à sua esquerda, pegando o máximo de facas que conseguia juntar com as mãos. Arremessou as lâminas contra o Midori, que fez brotar espinhos de energia da sua espada, que interceptaram os tiros de Suzaki.
“Com o material da minha espada ele não precisa cortar o ar para criar os espinhos”, pensou.
Dai se aproximava e, com três facas numa das mãos, Suzaki pegou uma lança no armário que quebrou, além de uma bola de pano que guardou no bolso. Suzaki tomou impulso e correndo, fincou a lança no chão, para saltar por cima do inimigo, que cortou o cabo para desestabilizá-lo. No entanto, o príncipe já estava no ar, e lançou suas três lâminas contra Dai. Uma penetrou nas suas costas, enquanto as outras foram interrompidas pelos espinhos.
“Ele é muito rápido”, pensou Dai retirando a faca das costas.
Tentou concluir um simples raciocínio, quando seu inimigo encontrou uma corrente presa a uma bola de ferro num dos armários. Suzaki balançou-a contra Dai, que rodava as duas pontas como uma hélice para se defender. A cada choque entre os metais, o viajante continuava montando mais inércia para golpes mais fortes.
O filho de Hideki desviou da bola, que atravessou o armário atrás dele, se colocando entre as correntes para acertar Suzaki, mas com uma puxada de seu braço oposto, as manilhas voltaram, entrelaçando-se no pescoço do Midori, que rapidamente cortou a corrente com a arma de duas pontas. Aproveitando a brecha, seu rival se aproximou, pegando na empunhadura de sua arma, disputando força com aquele que a tomou.
“Te peguei!”, sorriu Dai, trazendo o príncipe para próximo.
Infundindo sua energia com a arma, espinhos cresceram em direção do dona da arma. Em seu reflexo, Suzaki se afastou rapidamente sendo atingido por muito pouco.
Foi então que o príncipe saltou para trás, deixando uma bola escura, com um pavio queimando, rolando até o oponente.
— Droga! — gritou Dai, correndo para se proteger, sendo atingido pela falta de tempo.
O impacto o arremessou contra os armários, derrubando-os. Já no chão, o filho de Hideki estendia a mão tentando alcançar a lâmina de duas pontas, que era afastada dele pela bota do no seu dono, o vitorioso do duelo.

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