Índice de Capítulo

    “I-Imprestável! Anda, faz alguma coisa!”, pensou Suzaki se pondo de pé.

    Seu pai já cruzara a porta, desistindo do treinamento. Olhou para as suas mãos, seus pés, seu corpo, mas nenhum brilho azul. 

    — Falta foco. Falhou quando teve calma e assim não vai conseguir mesmo — disse o instrutor que não havia saído.

    A criança escutou a queixa de seu mestre, levando as mãos a uma espada pendurada na cintura. Era grande, pesada demais para seus braços pequenos. Então ele sentou-se no chão e posicionou sua ponta na direção de seu ombro. Já conhecia o corpo humano das aulas que tivera, não prejudicaria nenhum órgão vital. O instrutor viu aquilo e decidiu interferir.

    — Não! Suzaki, para! — gritou.

    O metal frio penetrou em seu corpo frágil, causando uma dor aguda. Ele empurrou a lâmina mais fundo e sentiu a energia dentro de si crescendo. Seu professor tentou impedir tarde demais. 

    Uma luz azul intensa cegou os seus olhos por segundos antes de recuar, formando a aura de Suzaki pela primeira vez. Aquele lampejo, vazou para os corredores internos, captando a atenção do imperador, que retornou para o pátio, aplaudindo.

    — Muito bom, é por isso que você é meu filho — disse Koji, com a mão na cabeça no menino.

    — Alteza, precisamos tratar os ferimentos do garoto.

    — Temos que tratar de continuar o treinamento — disse ao instrutor antes de cochichar no ouvido de Suzaki — Não há tempo a perder, não é Suzaki? 

    Ele só concordou acenando com a cabeça, enquanto retribuía o abraço do pai.

    Anos depois, sua mão estava trêmula com a corneta nas mãos, lembrava-se das palavras de seu pai que martelavam em sua cabeça, quase convencendo-o a tocar o instrumento. Enquanto se lembrava da ordem de Daisuke:

    — Isso é um instrumento de guerra. Quando estiver na floresta, nossas tropas na região vão estar esperando ouvi-lo para começar a incursão.

    “Se eu tocar a corneta, podemos vencer mais facilmente, só que eu não consigo saber o que pode acontecer depois…”, refletia ainda perplexo.

    — A gente tem que ir lá, ajudar, Suzaki — chamou atenção do amigo. — Yanaho e Yasukasa foram descobertos. 

    — Desculpa — balançou a cabeça,— temos que aproveitar essa desordem. Arrume um veículo sobre rodas para os outros. Eu vou usar um cavalo.

    Suzaki subiu no animal e foi em direção ao conflito. Perto da caverna, Yasukasa puxava Yanaho para dentro, ativando sua aura para iluminar o local. 

    Era um corredor de pedra longo, com inimigos de espadas em punho. Ela colocou sua mão na terra sob seus pés, criando duas ondas, uma para cada lado, que varreram os inimigos contra as paredes laterais. A terra chegou a apagar as tochas penduradas. 

    — Alteza! — se aproximou Yanaho — sua aura está enfraquecendo. 

    — Essa terra é mais pesada do que a areia que costumo controlar, mas não temos tempo pra isso — disse em suspiros apontando para frente.

    Lá estava uma aura vermelha que junto a da princesa iluminavam os arredores da caverna.

    — Então vieram pegar o que é seu? — apontou para Hoshizora amarrada logo atrás dele.

    — Solta ela! — empunhou sua espada.

    — Eu soltaria, se o Patriarca não fosse tão estupido, onde está ele para negociarmos? 

    — Eu sou a filha dele, podemos resolver isso de uma vez! — sua aura crescia. 

    — Que coragem a sua, fico admirado que tenha nos achado aqui. Eu sou Isao Tatsu, líder dos Hanmã e mandante do sequestro da sua irmãzinha… o plano só irá parar quando eu estiver no chão! — Sacou sua espada.

    — Yasukasa, eu acho melhor você — ouviu o relincho de cavalos — olhar para trás.

    A princesa virava para perceber duas carruagens fechando a saída da caverna.

    — Não vai dar para o Suzaki ajudar a gente aqui — percebeu Yanaho.

    — Que se dane ele — disse Yasukasa se lançando contra seu inimigo.

    “Vai sobrar para mim”, pensou Yanaho ativando sua aura para auxiliar na luta.

    “Então esse é o moleque Aka. Seria um mirim?”, refletiu o líder da Hanmã.

    A dupla atacou pelos lados e Isao saltou por cima deles, virando até as costas da moça e a agarrando pelo pescoço, suspendendo-a do chão. 

    — Acha mesmo que seu pai vai gostar de você ter ajuda de um Aka? — aproximou sua lâmina da garganta — ele começou com isso tudo, por que nos inveja! 

    — Meu pai não é problema seu — chutou ele no rosto, se soltando de suas mãos — Mas eu sou.

    Batendo espadas, eles ficaram presos num duelo de forças, que durou pouco tempo. O camponês, que tentava pegar Hoshizora, não percebeu o corpo da princesa mais velha sendo arremessado na sua direção. Yasukasa ainda no chão levou as mãos à terra, criando outra onda, mas Isao saltou pelas paredes, passando por cima da técnica da princesa. 

    — O patriarca não está aqui para te salvar, princesa. Enquanto ele planeja a ofensiva, aqui está você tentando me impedir de negociar com ele.

    — Isso tudo só aconteceu por você — levantou-se Yasukasa.

    — Você engana a si mesma. Teria acontecido cedo ou tarde, exceto que agora eu controlo os dois lados. Com você e sua irmã, Osíris não poderá negar um acordo.

    — Primeiro vai ter que sair vivo daqui.

    A princesa olhou para o alto e viu estalactites. Despertou sua aura, atirando sua espada contra a rocha pontiaguda logo abaixo do oponente. Isao escapou rolando para o lado. 

    “É agora, preciso ajudar!”, pensou Yanaho indo em direção ao inimigo.

    Prosseguiu o agredindo com ataques sucessivos. Nesse meio tempo, Yasukasa recuperava sua arma e, assim que o criminoso afastou o mais novo com um soco, ela entrou na sua brecha acertando seu ombro de raspão, ao tempo que ele segurava o braço dela esticado.

    — Eu devo admitir, seu pai te treinou bem mocinha — sorria Isao. 

    Reagiu rápido acertando o queixo da garota, que desabava. Os dois jovens agora estavam no chão, derrotados pelo chefe dos criminosos. 

    Do lado de fora, Suzaki derrubava alguns em seu caminho com seu cavalo, quando desceu da montaria para ver a barragem mais de perto.

    “Só tem um jeito de liberar passagem” pensou, juntando as mãos.

    A barreira foi despedaçada voando caverna adentro, separando o carro dos cavalos que fugiram para longe. Suzaki se recuperava do kazedamu, quando um laço enrolou seu pescoço, arrastando-o pelo chão para debaixo da sola de um conhecido.

    — Então foi você, cara de bebê— dizia Sota — sabia que ia voltar, só não esperava que fosse em um momento tão oportuno. 

    Ele girou o corpo, puxando sua espada das costas para cortar o laço em seu pescoço, mas Sota pôs seu outro pé no braço do príncipe para que não se movesse, chutando a arma para longe com a outra. O jovem esperneava para fugir sem sucesso, até que viu alguém saindo da caverna.

    — Eu não ia deixar você escapar depois daquela vez — sorria apontando para saída da caverna. — Olha quem vem ali. 

    Com uma mão na ferida e outra segurando Hoshizora, Isao saía da caverna vitorioso.

    — Sota, entre e pegue a outra princesa — ordenou Isao, — eu a derrotei, vamos aproveitar e levar as duas. Onde estão as carroças?

    “Yanaho e Yasukasa, droga! O que aconteceu lá dentro?”, pensou Suzaki, deixando sua aura crescer. 

    O príncipe tentava alcançar a espada, mas Sota percebeu e pisou com mais força em suas costas, porém a mão do viajante criou linhas de conexão com sua própria arma, que voou para sua mão como um imã. No contato dela com seu dono, liberou uma descarga elétrica que paralisou o oponente.

    — V-V-Você é bom— gaguejou Sota, vendo o Suzaki se levantar, — Mas não vai ser suficiente pra sair vivo daqui. 

    Suzaki ouviu o barulho de rodas e cavalos vindo por trás dos inimigos. Eram três transportes a serviço de Isao. Estacionaram perto da caverna, onde colocavam Hoshizora dentro de um deles. O príncipe lançou-se contra o líder dos Hanmã, enquanto os outros homens buscavam Yasukasa dentro da caverna.

    — O que você vai ganhar ajudando os Kiiro? — provocou Isao — Provavelmente o império está a favor de Osíris, ou então você só um andarilho atrás de grana. 

    — O que eu iria querer com dinheiro? — retrucou Suzaki.

    Seu braço machucado o negava a velocidade de outrora nos ataques bloqueados por Isao. Por trás do príncipe, Sota tentou enforcá-lo com sua corda, mas Suzaki partiu-a com sua espada. 

    Os jovens e seu chefe cercavam o príncipe, quando de repente gritos surgiram de dentro da caverna. Esbravejando Yasukasa saia correndo de dentro com sua aura crescente, quando foi interceptado por outro homem pelas costas, os dois rolaram no chão ao tempo que Suzaki correu em direção dela.

    — Disse que tinha dado um jeito nela! — reclamou Sota. 

    — Eu não podia matá-la, senão já teria feito o mesmo com a mais nova — disse entrando na carruagem. — Vamos logo! 

    Sota embarcava no veículo perguntando logo depois:

    — Para onde vamos?

    — Takeda espera por nós — estalou as rédeas Isao, — Nos resta deixar a mais velha de lado.

    Yasukasa tinha o homem em cima de si pressionando seu pescoço prestes a sufocá-la quando Suzaki o esbarrou para o lado, enterrando a sola de sua bota em sua face, fazendo-o desacordar. 

    Enfurecida a irmã mais velha da sequestrada ameaçou descer com sua espada no peito do homem em indefeso, mas Suzaki a segurou:

    — Não!

    — Em que mundo você vive para defendê-lo?! Acabou de tentar me matar! — tentava soltar as mãos.

    — Sem mortes! Como está Yanaho — perguntou Suzaki.

    — Estou aqui — saia lentamente com a mão em sua cabeça sangrando — não consegui… de novo. 

    — Droga — se soltou virando-se de costas, — veja você, eu preciso pegar minha irmã — ela corria. 

    — Espera, eu sei para onde vão.

    De repente mais cinco sujeitos desciam encurralando os três na saída da caverna, andando para trás Suzaki tomou a frente quando uma carruagem desgovernada atropelou os restantes e estacionou na entrada da caverna. 

    — Cheguei bem na hora — disse Mitensai, — onde tá a princesa?

    — Eles vão seguir pela estrada abandonada que leva aos Aka — disse Suzaki, — Ainda há tempo.

    — Por que demorou tanto? — reclamou Yasukasa.

    — Suzaki insistiu em ajudar vocês. Eu tava esperando a poeira baixar, senão eu nem estaria aqui — explicou Mitensai.

    — Eles são muito mais fortes que eu — se queixou Yanaho, ameaçando não subir, — não dá.

    — Vai dizer isso para o seu pai? — zangou Suzaki puxando Yanaho pela camisa.

    — Eu já tentei, eu não tenho como lutar contra eles.

    — Recusar a luta não é uma escolha, com seu pai correndo risco — levantou a voz o príncipe.

    — Vamos, Hoshi precisa de nós! — anunciou Yasukasa.

    Descendo do transporte, Suzaki tomava o cavalo que havia usado mais cedo e olhou sua corneta pela última vez. 

    “Nada é por acaso” pensou, jogando o objeto na estrada antes de ir junto de Mitensai.

    O sol já deixava o céu mais claro, o grupo se aproximava do alvo quando chegaram em um desfiladeiro, com um rio correndo logo abaixo. Yasukasa pendurou-se na borda da carroceria para pôr as mãos na estrada, provocando um desnível metros à frente. O acidente provocou uma queda de ladeira abaixo, deixando apenas um transporte sobrando, o de Isao e Sota.

    — Chega mais perto, Mitensai — gritou Yasukasa — ou vamos perdê-los de novo.

    O caminho percorrido por fugitivos e perseguidores chegava em um ponto de convergência com outra estrada. Com mais espaço, os veículos se emparelharam. O choque entre as laterais custou uma das rodas de Mitensai.

    — Eles não vão fugir de mim! — gritou Yasukasa, roubando as rédeas de Mitensai.

    A princesa virou os cavalos contra os inimigos, derrubando os dois transportes no rio. Vendo aquilo, Suzaki descia até a altura do rio para buscar seus amigos. 

    Daquele rio, saíram Isao e alguns homens, incluindo Sota, que segurava Hoshizora semiconsciente. Yasukasa emergiu rapidamente depois. Passaram-se alguns minutos até que Yanaho surgisse. 

    “Consigo perceber outros Aka. São mais do que parecia ter naquela carruagem. Eles não podem ter ido longe. Até Suzaki chegar, eu tenho que impedi-los!”, pensou quando ouviu um grito.

    — Socorro!

    Correu até a origem confirmando sua suspeita, com Hoshizora sendo carregada por Sota, ainda ferido, apertando a corda que segurava os pulsos da princesa mais nova. 

    — Ninguém vai te ouvir aqui, mocinha. Espera só o Isao voltar com a cabeça da sua irmã. Você vai ficar quieta rapidinho.

    — Alguém me ajuda! 

    — Você — disse Yanaho despertando sua aura, — solta ela.

    — Soltar? — riu — Por que você não vem aqui e me obriga.

    Yanaho correu para uma estocada e terminou acertando o tronco de uma árvore. Sota, que havia desviado, chutou sua barriga até cair de dor para repetir o golpe no chão. 

    — Você é o único jovem entre eles — percebia Yanaho — por que está fazendo isso?

    — É o caminho mais estreito, mas é o que vai realmente salvar os Aka dessa situação toda — se encaminhou no garoto no chão, — nós Hanmã só fazemos o trabalho difícil. 

    Ele enterrou a sola no corpo de Yanaho, porém o camponês pegou no pé de seu agressor e fez força contrária para escapar. Desequilibrado, Sota permite que ele pegue sua espada do tronco para atacar novamente. 

    — Vocês só estragaram tudo! Meu pai está na vila da providência — avançou com a espada. 

    — Então você devia estar lá para protegê-lo, não fomos nós que atacamos a vila, foi o pai dessa garotinha! — defendeu o golpe com sua lâmina — Percebe, você está do lado errado. 

    Os dois disputavam força na espada, porém os braços de Yanaho fraquejaram a cada passo do criminoso que sorria. Foi quando Hoshizora rastejoupara mais perto. Empurrando seu seu corpo contra os tornozelos de Sota, o desequilibrando. 

    — Eu estou do lado do que vai acabar com isso! — empurrou a espada. 

    — Droga! — gritou com a aproximação de Yanaho.

    O camponês cravou sua espada no braço do jovem contra uma das árvores. Após isso socou o rosto do sequestrador que riu cuspindo sangue: 

    — Acho que eu lembro de você — riu Sota — É o garoto do deserto, você é um mirim é?

    Yanaho parou por um momento com a pergunta, mas resolveu respondê-la com mais um soco.

    “Não para. Você só tem essa chance. Ignora a dor, ignora tudo. Bate, bate, bate mais forte”, pensava esmurrando o homem na sua frente, na medida em que sua aura brotava do corpo para aumentar sua força.

    — Eu também já fui um mirim garoto, o mundo não é o idealismo hierárquico do nosso Reino, ele é muito maior que isso. Se acha que vai ganhar uma medalha por isso, espere até o mundo querer compensar o certo com o errado… — disse Sota segurando no ombro do garoto com a outra mão — Uma hora chega a sua vez.

    — Não sou um mirim, sou um cidadão — preparava o último soco. 


    — Que seja — ria Sota prestes a desacordar, — Ajudar seu inimigo pode parecer um ato de justiça, mas essa tarefa é para pessoas perfeitas, que não pertencem a esse mundo, não para garotos como você — finalizou, recebendo o último soco.

    A consciência parecia ter saído do corpo de Sota, ao tempo que o garoto se queixava de dor, pela adrenalina não havia notado suas mãos com punhos ensanguentados. Respirando forte, ele olhou em volta antes de pegar Hoshizora nos braços.

    — Você está bem? — perguntou Hoshizora — E a minha irmã?

    — Tem mais deles vindo — disse Yanaho com os arregalados.

    — Do que está falando?

    — Eu posso senti-los, não vai dar para escapar assim — sua aura crescia, — eu pensei que eram os últimos, mas sinto diversos Aka ao nosso redor. Estamos cercados! “I-Imprestável! Anda, faz alguma coisa!”, pensou Suzaki se pondo de pé.

    Seu pai já cruzara a porta, desistindo do treinamento. Olhou para as suas mãos, seus pés, seu corpo, mas nenhum brilho azul. 

    — Falta foco. Falhou quando teve calma e assim não vai conseguir mesmo — disse o instrutor que não havia saído.

    A criança escutou a queixa de seu mestre, levando as mãos a uma espada pendurada na cintura. Era grande, pesada demais para seus braços pequenos. Então ele sentou-se no chão e posicionou sua ponta na direção de seu ombro. Já conhecia o corpo humano das aulas que tivera, não prejudicaria nenhum órgão vital. O instrutor viu aquilo e decidiu interferir.

    — Não! Suzaki, para! — gritou.

    O metal frio penetrou em seu corpo frágil, causando uma dor aguda. Ele empurrou a lâmina mais fundo e sentiu a energia dentro de si crescendo. Seu professor tentou impedir tarde demais. 

    Uma luz azul intensa cegou os seus olhos por segundos antes de recuar, formando a aura de Suzaki pela primeira vez. Aquele lampejo, vazou para os corredores internos, captando a atenção do imperador, que retornou para o pátio, aplaudindo.

    — Muito bom, é por isso que você é meu filho — disse Koji, com a mão na cabeça no menino.

    — Alteza, precisamos tratar os ferimentos do garoto.

    — Temos que tratar de continuar o treinamento — disse ao instrutor antes de cochichar no ouvido de Suzaki — Não há tempo a perder, não é Suzaki? 

    Ele só concordou acenando com a cabeça, enquanto retribuía o abraço do pai.

    Anos depois, sua mão estava trêmula com a corneta nas mãos, lembrava-se das palavras de seu pai que martelavam em sua cabeça, quase convencendo-o a tocar o instrumento. Enquanto se lembrava da ordem de Daisuke:

    — Isso é um instrumento de guerra. Quando estiver na floresta, nossas tropas na região vão estar esperando ouvi-lo para começar a incursão.

    “Se eu tocar a corneta, podemos vencer mais facilmente, só que eu não consigo saber o que pode acontecer depois…”, refletia ainda perplexo.

    — A gente tem que ir lá, ajudar, Suzaki — chamou atenção do amigo. — Yanaho e Yasukasa foram descobertos. 

    — Desculpa — balançou a cabeça,— temos que aproveitar essa desordem. Arrume um veículo sobre rodas para os outros. Eu vou usar um cavalo.

    Suzaki subiu no animal e foi em direção ao conflito. Perto da caverna, Yasukasa puxava Yanaho para dentro, ativando sua aura para iluminar o local. 

    Era um corredor de pedra longo, com inimigos de espadas em punho. Ela colocou sua mão na terra sob seus pés, criando duas ondas, uma para cada lado, que varreram os inimigos contra as paredes laterais. A terra chegou a apagar as tochas penduradas. 

    — Alteza! — se aproximou Yanaho — sua aura está enfraquecendo. 

    — Essa terra é mais pesada do que a areia que costumo controlar, mas não temos tempo pra isso — disse em suspiros apontando para frente.

    Lá estava uma aura vermelha que junto a da princesa iluminavam os arredores da caverna.

    — Então vieram pegar o que é seu? — apontou para Hoshizora amarrada logo atrás dele.

    — Solta ela! — empunhou sua espada.

    — Eu soltaria, se o Patriarca não fosse tão estupido, onde está ele para negociarmos? 

    — Eu sou a filha dele, podemos resolver isso de uma vez! — sua aura crescia. 

    — Que coragem a sua, fico admirado que tenha nos achado aqui. Eu sou Isao Tatsu, líder dos Hanmã e mandante do sequestro da sua irmãzinha… o plano só irá parar quando eu estiver no chão! — Sacou sua espada.

    — Yasukasa, eu acho melhor você — ouviu o relincho de cavalos — olhar para trás.

    A princesa virava para perceber duas carruagens fechando a saída da caverna.

    — Não vai dar para o Suzaki ajudar a gente aqui — percebeu Yanaho.

    — Que se dane ele — disse Yasukasa se lançando contra seu inimigo.

    “Vai sobrar para mim”, pensou Yanaho ativando sua aura para auxiliar na luta.

    “Então esse é o moleque Aka. Seria um mirim?”, refletiu o líder da Hanmã.

    A dupla atacou pelos lados e Isao saltou por cima deles, virando até as costas da moça e a agarrando pelo pescoço, suspendendo-a do chão. 

    — Acha mesmo que seu pai vai gostar de você ter ajuda de um Aka? — aproximou sua lâmina da garganta — ele começou com isso tudo, por que nos inveja! 

    — Meu pai não é problema seu — chutou ele no rosto, se soltando de suas mãos — Mas eu sou.

    Batendo espadas, eles ficaram presos num duelo de forças, que durou pouco tempo. O camponês, que tentava pegar Hoshizora, não percebeu o corpo da princesa mais velha sendo arremessado na sua direção. Yasukasa ainda no chão levou as mãos à terra, criando outra onda, mas Isao saltou pelas paredes, passando por cima da técnica da princesa. 

    — O patriarca não está aqui para te salvar, princesa. Enquanto ele planeja a ofensiva, aqui está você tentando me impedir de negociar com ele.

    — Isso tudo só aconteceu por você — levantou-se Yasukasa.

    — Você engana a si mesma. Teria acontecido cedo ou tarde, exceto que agora eu controlo os dois lados. Com você e sua irmã, Osíris não poderá negar um acordo.

    — Primeiro vai ter que sair vivo daqui.

    A princesa olhou para o alto e viu estalactites. Despertou sua aura, atirando sua espada contra a rocha pontiaguda logo abaixo do oponente. Isao escapou rolando para o lado. 

    “É agora, preciso ajudar!”, pensou Yanaho indo em direção ao inimigo.

    Prosseguiu o agredindo com ataques sucessivos. Nesse meio tempo, Yasukasa recuperava sua arma e, assim que o criminoso afastou o mais novo com um soco, ela entrou na sua brecha acertando seu ombro de raspão, ao tempo que ele segurava o braço dela esticado.

    — Eu devo admitir, seu pai te treinou bem mocinha — sorria Isao. 

    Reagiu rápido acertando o queixo da garota, que desabava. Os dois jovens agora estavam no chão, derrotados pelo chefe dos criminosos. 

    Do lado de fora, Suzaki derrubava alguns em seu caminho com seu cavalo, quando desceu da montaria para ver a barragem mais de perto.

    “Só tem um jeito de liberar passagem” pensou, juntando as mãos.

    A barreira foi despedaçada voando caverna adentro, separando o carro dos cavalos que fugiram para longe. Suzaki se recuperava do kazedamu, quando um laço enrolou seu pescoço, arrastando-o pelo chão para debaixo da sola de um conhecido.

    — Então foi você, cara de bebê— dizia Sota — sabia que ia voltar, só não esperava que fosse em um momento tão oportuno. 

    Ele girou o corpo, puxando sua espada das costas para cortar o laço em seu pescoço, mas Sota pôs seu outro pé no braço do príncipe para que não se movesse, chutando a arma para longe com a outra. O jovem esperneava para fugir sem sucesso, até que viu alguém saindo da caverna.

    — Eu não ia deixar você escapar depois daquela vez — sorria apontando para saída da caverna. — Olha quem vem ali. 

    Com uma mão na ferida e outra segurando Hoshizora, Isao saía da caverna vitorioso.

    — Sota, entre e pegue a outra princesa — ordenou Isao, — eu a derrotei, vamos aproveitar e levar as duas. Onde estão as carroças?

    “Yanaho e Yasukasa, droga! O que aconteceu lá dentro?”, pensou Suzaki, deixando sua aura crescer. 

    O príncipe tentava alcançar a espada, mas Sota percebeu e pisou com mais força em suas costas, porém a mão do viajante criou linhas de conexão com sua própria arma, que voou para sua mão como um imã. No contato dela com seu dono, liberou uma descarga elétrica que paralisou o oponente.

    — V-V-Você é bom— gaguejou Sota, vendo o Suzaki se levantar, — Mas não vai ser suficiente pra sair vivo daqui. 

    Suzaki ouviu o barulho de rodas e cavalos vindo por trás dos inimigos. Eram três transportes a serviço de Isao. Estacionaram perto da caverna, onde colocavam Hoshizora dentro de um deles. O príncipe lançou-se contra o líder dos Hanmã, enquanto os outros homens buscavam Yasukasa dentro da caverna.

    — O que você vai ganhar ajudando os Kiiro? — provocou Isao — Provavelmente o império está a favor de Osíris, ou então você só um andarilho atrás de grana. 

    — O que eu iria querer com dinheiro? — retrucou Suzaki.

    Seu braço machucado o negava a velocidade de outrora nos ataques bloqueados por Isao. Por trás do príncipe, Sota tentou enforcá-lo com sua corda, mas Suzaki partiu-a com sua espada. 

    Os jovens e seu chefe cercavam o príncipe, quando de repente gritos surgiram de dentro da caverna. Esbravejando Yasukasa saia correndo de dentro com sua aura crescente, quando foi interceptado por outro homem pelas costas, os dois rolaram no chão ao tempo que Suzaki correu em direção dela.

    — Disse que tinha dado um jeito nela! — reclamou Sota. 

    — Eu não podia matá-la, senão já teria feito o mesmo com a mais nova — disse entrando na carruagem. — Vamos logo! 

    Sota embarcava no veículo perguntando logo depois:

    — Para onde vamos?

    — Takeda espera por nós — estalou as rédeas Isao, — Nos resta deixar a mais velha de lado.

    Yasukasa tinha o homem em cima de si pressionando seu pescoço prestes a sufocá-la quando Suzaki o esbarrou para o lado, enterrando a sola de sua bota em sua face, fazendo-o desacordar. 

    Enfurecida a irmã mais velha da sequestrada ameaçou descer com sua espada no peito do homem em indefeso, mas Suzaki a segurou:

    — Não!

    — Em que mundo você vive para defendê-lo?! Acabou de tentar me matar! — tentava soltar as mãos.

    — Sem mortes! Como está Yanaho — perguntou Suzaki.

    — Estou aqui — saia lentamente com a mão em sua cabeça sangrando — não consegui… de novo. 

    — Droga — se soltou virando-se de costas, — veja você, eu preciso pegar minha irmã — ela corria. 

    — Espera, eu sei para onde vão.

    De repente mais cinco sujeitos desciam encurralando os três na saída da caverna, andando para trás Suzaki tomou a frente quando uma carruagem desgovernada atropelou os restantes e estacionou na entrada da caverna. 

    — Cheguei bem na hora — disse Mitensai, — onde tá a princesa?

    — Eles vão seguir pela estrada abandonada que leva aos Aka — disse Suzaki, — Ainda há tempo.

    — Por que demorou tanto? — reclamou Yasukasa.

    — Suzaki insistiu em ajudar vocês. Eu tava esperando a poeira baixar, senão eu nem estaria aqui — explicou Mitensai.

    — Eles são muito mais fortes que eu — se queixou Yanaho, ameaçando não subir, — não dá.

    — Vai dizer isso para o seu pai? — zangou Suzaki puxando Yanaho pela camisa.

    — Eu já tentei, eu não tenho como lutar contra eles.

    — Recusar a luta não é uma escolha, com seu pai correndo risco — levantou a voz o príncipe.

    — Vamos, Hoshi precisa de nós! — anunciou Yasukasa.

    Descendo do transporte, Suzaki tomava o cavalo que havia usado mais cedo e olhou sua corneta pela última vez. 

    “Nada é por acaso” pensou, jogando o objeto na estrada antes de ir junto de Mitensai.

    O sol já deixava o céu mais claro, o grupo se aproximava do alvo quando chegaram em um desfiladeiro, com um rio correndo logo abaixo. Yasukasa pendurou-se na borda da carroceria para pôr as mãos na estrada, provocando um desnível metros à frente. O acidente provocou uma queda de ladeira abaixo, deixando apenas um transporte sobrando, o de Isao e Sota.

    — Chega mais perto, Mitensai — gritou Yasukasa — ou vamos perdê-los de novo.

    O caminho percorrido por fugitivos e perseguidores chegava em um ponto de convergência com outra estrada. Com mais espaço, os veículos se emparelharam. O choque entre as laterais custou uma das rodas de Mitensai.

    — Eles não vão fugir de mim! — gritou Yasukasa, roubando as rédeas de Mitensai.

    A princesa virou os cavalos contra os inimigos, derrubando os dois transportes no rio. Vendo aquilo, Suzaki descia até a altura do rio para buscar seus amigos. 

    Daquele rio, saíram Isao e alguns homens, incluindo Sota, que segurava Hoshizora semiconsciente. Yasukasa emergiu rapidamente depois. Passaram-se alguns minutos até que Yanaho surgisse. 

    “Consigo perceber outros Aka. São mais do que parecia ter naquela carruagem. Eles não podem ter ido longe. Até Suzaki chegar, eu tenho que impedi-los!”, pensou quando ouviu um grito.

    — Socorro!

    Correu até a origem confirmando sua suspeita, com Hoshizora sendo carregada por Sota, ainda ferido, apertando a corda que segurava os pulsos da princesa mais nova. 

    — Ninguém vai te ouvir aqui, mocinha. Espera só o Isao voltar com a cabeça da sua irmã. Você vai ficar quieta rapidinho.

    — Alguém me ajuda! 

    — Você — disse Yanaho despertando sua aura, — solta ela.

    — Soltar? — riu — Por que você não vem aqui e me obriga.

    Yanaho correu para uma estocada e terminou acertando o tronco de uma árvore. Sota, que havia desviado, chutou sua barriga até cair de dor para repetir o golpe no chão. 

    — Você é o único jovem entre eles — percebia Yanaho — por que está fazendo isso?

    — É o caminho mais estreito, mas é o que vai realmente salvar os Aka dessa situação toda — se encaminhou no garoto no chão, — nós Hanmã só fazemos o trabalho difícil. 

    Ele enterrou a sola no corpo de Yanaho, porém o camponês pegou no pé de seu agressor e fez força contrária para escapar. Desequilibrado, Sota permite que ele pegue sua espada do tronco para atacar novamente. 

    — Vocês só estragaram tudo! Meu pai está na vila da providência — avançou com a espada. 

    — Então você devia estar lá para protegê-lo, não fomos nós que atacamos a vila, foi o pai dessa garotinha! — defendeu o golpe com sua lâmina — Percebe, você está do lado errado. 

    Os dois disputavam força na espada, porém os braços de Yanaho fraquejaram a cada passo do criminoso que sorria. Foi quando Hoshizora rastejoupara mais perto. Empurrando seu seu corpo contra os tornozelos de Sota, o desequilibrando. 

    — Eu estou do lado do que vai acabar com isso! — empurrou a espada. 

    — Droga! — gritou com a aproximação de Yanaho.

    O camponês cravou sua espada no braço do jovem contra uma das árvores. Após isso socou o rosto do sequestrador que riu cuspindo sangue: 

    — Acho que eu lembro de você — riu Sota — É o garoto do deserto, você é um mirim é?

    Yanaho parou por um momento com a pergunta, mas resolveu respondê-la com mais um soco.

    “Não para. Você só tem essa chance. Ignora a dor, ignora tudo. Bate, bate, bate mais forte”, pensava esmurrando o homem na sua frente, na medida em que sua aura brotava do corpo para aumentar sua força.

    — Eu também já fui um mirim garoto, o mundo não é o idealismo hierárquico do nosso Reino, ele é muito maior que isso. Se acha que vai ganhar uma medalha por isso, espere até o mundo querer compensar o certo com o errado… — disse Sota segurando no ombro do garoto com a outra mão — Uma hora chega a sua vez.

    — Não sou um mirim, sou um cidadão — preparava o último soco. 


    — Que seja — ria Sota prestes a desacordar, — Ajudar seu inimigo pode parecer um ato de justiça, mas essa tarefa é para pessoas perfeitas, que não pertencem a esse mundo, não para garotos como você — finalizou, recebendo o último soco.

    A consciência parecia ter saído do corpo de Sota, ao tempo que o garoto se queixava de dor, pela adrenalina não havia notado suas mãos com punhos ensanguentados. Respirando forte, ele olhou em volta antes de pegar Hoshizora nos braços.

    — Você está bem? — perguntou Hoshizora — E a minha irmã?

    — Tem mais deles vindo — disse Yanaho com os arregalados.

    — Do que está falando?

    — Eu posso senti-los, não vai dar para escapar assim — sua aura crescia, — eu pensei que eram os últimos, mas sinto diversos Aka ao nosso redor. Estamos cercados! 

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