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    Com desdobramentos das buscas por seu amigo, Mitensai mudava a rota olhando de um lado para o outro freneticamente, encontrando um estábulo. O garoto procurava qualquer coisa que pudesse usar como distração. 

    Era um lugar grande, recheado de cavalos em todas as baias, exceto a mais perto da saída, do lado direito.

    Próximo dela também havia uma cadeira no chão junto ao feno. O corredor era iluminado por lâmpadas de vidro com velas dentro. Por outro lado, nenhuma pessoa dentro ou fora para vigiar.

    “Quem quer estivesse aqui, pegou um cavalo e seguiu perseguindo Suzaki. Isso vai me dar o tempo que preciso”

    O garoto pegou a cadeira e a colocou logo abaixo da lâmpada mais ao fundo. Antes de subir, chutou as portas das baias para abrir caminho aos cavalos. Quando subiu, puxou um facão que escondeu debaixo da camisa e cortou a corda que suspendia a vela no alto. Em poucos segundos, os cavalos saíram galopando rua afora e os estábulos foram consumidos pelas chamas. 

    Mais a frente, Suzaki cuspia a terra da sua boca, se contorcendo no chão enquanto Dai abaixava para próximo dele. O príncipe virava o rosto para o céu noturno, admirando o dobro de estrelas com sua visão turva.

    Sua contemplação duraria poucos segundos, já que uma sola prateada aparecia no centro da sua vista, pronta para amassar o seu rosto. Ele colocou as mãos sobre o rosto, recebendo o pisão entre os dedos. Suzaki fez força, empurrando seu corpo não apenas para erguê-lo do chão, como também para afastar seu agressor.

    — Achei que você só fugia — dizia Dai, batendo a bota no chão.

    “Eu fiz uma bagunça e tanto aqui. Talvez se vencê-lo, esses homens fiquem mais preocupados com ele do que comigo”, pensava Suzaki, pegando sua espada. 

    — Vai continuar sem dizer nada? Eu vou tirar essa arrogância de você daqui a pouco — ele dizia antes de lançar uma ordem aos seus homens  — Deixem ele comigo. 

    Seus subordinados formavam uma roda ao redor dos lutadores. Suzaki notou que sua audiência não estava aos guardas. Pelas janelas, outros moradores assistiam ao duelo. 

    — Isso é tudo uma exibição para você? — questionou Suzaki.

    — Não, é um aviso — respondeu.

    Os dois correram juntos, encontrando-se no centro da roda, espada com espada.

    — Pensa que a sua laia pode entrar e sair daqui como se fossem donos? — empurrava sua espada contra a de Suzaki — Vou te ensinar uma coisa.

    Dai deu um passo para trás, tomando impulso para um corte horizontal. Sua lâmina cortava o ar, que por sua vez criava um rastro esverdeado. Esse feixe ganhava forma de espinhos, como os de antes.

    Seus ataques acertavam duplamente a defesa de Suzaki, uma com o metal, outra com a energia iro de Dai. A cada golpe, o jovem tinha seus pés arrastados no chão pelo impacto.

    “Ele está usando a terra do chão e o ar para manipular o iro, mas a sua espada não pode conduzir a energia, é só um abridor de caminho. Uma técnica forte, para quem desconhece o iro”, raciocinava Suzaki. “Mas eu conheço”.

    Assim, sua lâmina começou a brilhar na cor azul de sua energia. Os golpes pararam de mover seus pés. O mesmo não ocorreu com Dai, que era levado pela própria inércia do seu ataque, perdendo o equilíbrio do corpo na defesa, cambaleando na frente de Suzaki, que retaliou jogando sua empunhadura bem no pescoço. 

    Dai engasgava bem na sua frente. Suzaki prosseguiu um giro com sua lâmina bem na altura do peito e depois um chute no maxilar. 

    Seu adversário caía na terra, levantando de sobressalto, quando sentiu algo na região do corte. Desceu a cabeça assustado e, com as mãos trêmulas, Dai deslizou os dedos pela ferida e sentiu sua cota de malha rasgada. Era sangue, exposto para todos verem.

    — Eu não vou pedir de novo — disse Suzaki, estendendo a ponta da sua lâmina suja de sangue para Dai — Deixe-me ir. Não tenho interesse em prejudicar você ou o seu povo.

    — Até parece — dizia Dai com uma leve risada — Se fosse assim, porque estaria aqui?

    O diálogo entre eles era interrompido por um barulho violento, sucedido por pequenos tremores no chão. Assim que os relinchos foram ouvidos, todos das janelas e da roda, olharam na direção da origem. Inúmeros cavalos, galopando em alta velocidade, vindo na direção deles. 

    Imediatamente, aqueles homens fugiram para as ruas paralelas. Suzaki moveu-se junto com a multidão, porém Dai investiu contra ele no meio do pandemônio. Virando-se para se defender, o príncipe recebeu o golpe, girando para a direita até ficar de frente para os cavalos. Dai continuava a atacar, sem dar muita atenção à debandada nas suas costas. Quando um cavalo vinha na direção dos dois, prestes a acertar o Midori desavisado, Suzaki, então salta sobre seu corpo para desviá-lo do animal. 

    O membro da gangue foi salvo, mas Suzaki foi atropelado pelos últimos cavalos que passaram. Ele rolou pelo chão desacordado, ao passo que Dai estava ileso.

    — Senhor Dai, você está bem? — um subordinado se aproximava — esse cara, ele te…

    — Pegue esse idiota logo — interrompeu apontando para o corpo de Suzaki — arrumem um transporte, vamos levá-lo para o Ninho da Coruja.

    Aos poucos, os homens de Dai seguiam as ordens. Por perto, Mitensai retornava do incidente que provocou para encontrar Suzaki desacordado.

    “Não é possível. Os cavalos… Suzaki devia ter conseguido fugir. Eu… eu causei isso?!”, pensava Mitensai, escondido em um dos becos, coçando sua cabeça.

    Em poucos minutos uma carruagem chega para conduzir Dai e seu prisioneiro. Suzaki foi depositado na área de carga, junto com sacos e entulhos. Alguns homens foram junto dele para amarrá-lo, ao mesmo tempo que outro grupo recolhia sua espada de duas pontas para levar em outro transporte. 

    As horas passaram, quando em uma parada brusca, acordou Suzaki, sentindo as mãos e os pés amarrados. Ele inclinou a cabeça para a saída, uma fresta pela tenda de pano, por onde espiava o céu noturno. Daquela abertura, entrava Dai, que ordenou seus homens a tirá-lo dali.

    Descendo do transporte, eles o levaram a um grande portão de ferro, guardado por outros homens com fitas verdes nos pulsos. Muro adentro, havia jardim mal cuidado, crescido para além dos limites impostos pelas cercas. No fundo, um castelo de pedra com vidraças quebradas, exibindo grades as cobrindo do lado de fora e duas torres em cada ponta. 

    Suzaki recobrava a consciência a cada passo, até conseguir visualizar seu destino na torre leste. Na base o carcereiro abriu a porta de madeira, revelando um caminho para a escada caracol até o topo. Quando atingiram o topo, abriram a porta da cela e arremessaram Suzaki lá dentro.

    — Aproveita para conhecer os seus novos amigos — provocou um dos guardas, fechando a porta.

    A cela tinha uma única vela, que já estava nas últimas, envolvida por uma grade de aço, presa no canto direito. Suzaki tentou fazer força para se libertar das amarras dos braços, mas ainda estava fraco. Um dos homens da cela percebeu e chegou mais perto, fazendo com o que o garoto se arrastasse para longe.

    — Calma, garotinho — estendeu as mãos — Eu não vou te machucar.

    — Eu não devia estar aqui — parou de fugir — Não sou um criminoso.

    — Todos dizem isso por aqui — colocou uma das mãos entre os pulsos de Suzaki e fez força para afrouxar — Poucos falam a verdade.

    A proximidade permitiu a Suzaki dar uma boa olhada no homem. Seu rosto estava inchado, repleto de hematomas e feridas. Suas mãos tinham unhas negras e lascadas, mas tinham a força necessária para libertar o jovem das suas primeiras amarras. O príncipe fez o resto, desatando o nó nas pernas. Quando voltou para o seu canto, o homem que o ajudou o fez mancando.

    — E o que você fez para acabar aqui? — perguntou ele, recostando na parede.

    — Sou um estrangeiro, tentando voltar para casa.

    O homem se aproximou mais um pouco percebendo a cor dos olhos do garoto:

    — Que engraçado — o homem soltava um riso, virando-se para outro companheiro de cela — Então você é azul? Aí, Munny, um azul logo aqui!

    — Munny? — questionou Suzaki.

    O homem cujo nome foi chamado, estava do lado mais escuro da cela, deitado no chão, virado para a parede. Suzaki não via seu rosto, mas o casaco de pele não deixava dúvidas. O jovem foi até ele para ter certeza.

    — É você mesmo?

    — Sim, é o Munny, o Caçador em pessoa — disse o prisioneiro que ajudou Suzaki — a história dele foi parar no império Ao também.

    — Não, eu conheci ele anos atrás — caminhou lentamente na direção do homem. 

    O homem inclinou o rosto lentamente, revelando uma cicatriz descendo da sobrancelha esquerda até o lado do rosto, tangenciando o olho. 

    — Então é você — revelou sua voz fraca, não demonstrando nenhuma surpresa — arranjando encrenca de novo, espertinho? 

    — C-Como?

    — Como? Foi você mesmo que me fez mudar de habitat. Eu corri o risco — ergueu-se lentamente, sentando de frente para Suzaki — assim como você, pelo visto. 

    — Mas o que você fez para estar aqui? Quer dizer, você é um verde como os outros.

    — E quem disse que deixei de ser? Nesses anos, qualquer um que se mete na floresta Hercínia acaba topando com os desgraçados. Antigamente não era assim — olhou para o teto, como se uma memória distante lhe cruzasse a cabeça.

    — Provavelmente aumentaram depois da invasão dos Heishi’s há três anos, e claro… minha visita.  Acabou que você foi uma vítima disso.

    — Eu não sou uma vítima de nada! — levantou a voz expressando uma certa frustração. Depois tossiu como se tivesse alcançado seus limites físicos apenas pela fala.

    — Você está aqui por causa de mim, não posso permitir isso. Vou nos tirar daqui. Essa cela tem uma janela sem grade, quando recuperar minhas forças…

    — Isso se você conseguir descer dessa torre vivo. Já viu a altura que estamos?

    — Posso enfrentá-los. Já fiz isso antes.

    — Bom — abanou os braços, deitando novamente — se quiser livrar alguém, escolha outro da cela. Eu não disse que quero escapar — voltou a tossir.

    — Então me diga, o que você fez para estar aqui? 

    — Me deixa dormir. 

    — Não adianta fugir dos problemas — disse estendendo o braço tocando no ombro de Munny. 

    O caçador reagiu com uma cotovelada. O golpe passou no vazio, mas os dois ficaram parados ali, se encarando, quando Munny soltou um gemido forte de dor.

    — Não adianta tentar consertar, o que não tem conserto — dizia Munny, dando as costas para Suzaki — Desiste, espertinho.

    — Ficar parado enquanto outro sofre por sua culpa é errado — aproximou-se Suzaki da escuridão e percebeu sangue brotando abaixo da costela de Munny — Ei, você está ferido! O que fizeram com você?

    — Vai cometer erros piores no futuro, não se preocupa em corrigir os menores.

    — Deixar você aqui assim é o pior erro pra mim — apertou seu punho. 

    A resposta do homem veio em seu ronco. O interlocutor de Suzaki havia adormecido num piscar de olhos. Aproximando-se um pouco do ferimento, sentiu um forte odor, pensando: 

    “Está infeccionado, com isso ele não irá durar muitos dias. Preciso ser rápido! Eu não vou deixar alguém morrer por minha causa!”

    Ainda na madrugada, a lua já se aproximava do horizonte sendo encoberta por uma nuvem desavisada, carregada pelos ventos frios da região. Em outro lugar do castelo, dois indivíduos atravessavam um corredor estreito. O mais velho carregava uma tocha que iluminava o caminho pela fileira de celas.

    — Não pensei que iria tão longe por algo do passado — dizia o mais alto, que carregava a tocha em mãos — qual sua intenção com isso tudo? — questionou o homem com barba espessa. 

    — Do que está falando, pai? Esse cara veio aqui diversas vezes, além de ser um azul. Até parece que ele pode vagar por aí visitando territórios como bem entender — respondia Dai, cruzando os braços — ele está errado, e por isso o prendi. Essa é minha intenção. 

    — Isso não explica o por que insistiu tanto para vir comigo. Em momento nenhum citei o certo e o errado — o homem aproximava a chama de seu rosto, revelando seus olhos verdes profundos — Dai, se está fazendo tudo isso por que Raito foi promovido, pode esquecer! A gangue não é e nunca foi sobre conquistar patentes com méritos. 

    Quando atingiram a ponte que levava à torre leste, Hideki aproveitou o ar livre por um instante e contemplou o lado de fora. Guardas em toda volta. Seu filho já continuava andando.

    — Quem está dizendo é um dos líderes da facção, certo? — provocou o pai, ao tempo que os guardas liberaram suas entradas — por que você não me diz então sobre o que a gangue é? — disse acendendo uma tocha por conta própria, antes de entrar na torre.

    O som das palavras do jovem reverberou sobre todo local por conta das suas paredes achatadas. O frio do local fazia o fogo cambalear, mesmo assim o garoto seguiu adiante em meio às celas, enquanto seu pai observou, respondendo:

    — Você não precisa saber, na verdade, ninguém precisa! 

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