Capítulo 29 - Yanaho e Suzaki
Entre árvores frondosas, um cercado envolvia uma enorme área preenchida por animais de diferentes tipos. Uma brisa chacoalhava gentilmente a vegetação naquele dia iluminado, quando um vendaval fez o balançar das árvores quase derrubá-las, além de assustar os animais, que gritavam inquietos uma vez mais.
A partir disso um garoto se estirar no chão despido de sua blusa, ele fitou seus olhos com o sol no alto fechando-os logo depois para proteger a visão quando de repente notou o calor e claridade serem obstruídos por uma sombra:
— Se superando a cada tentativa. Está quase lá, eu diria, Yanaho. Levante-se, vamos mais uma vez.
Ao abrir os olhos notava Onochi com as vestes brancas sorrindo para ele de cima para baixo.
— Logo você que sempre dá uma pausa — respondeu se levantando, — tá querendo me segurar aqui o dia todo?
— Este é o seu último dia antes da sua volta ao internato. Não podemos deixar nada no prato, vamos dizer assim — abraçou o garoto pelo ombro.
— Quer saber, isso me deu sede — disse vestindo sua blusa.
Os dois caminhavam por entre as árvores frondosas, Onochi notava a postura cabisbaixa Yanaho, fazendo o caminho de volta para sua casa na fazenda em território Shiro.
— Este é seu último dia — abraçou o jovem de lado pelos ombros — Será que você não consegue ficar um pouquinho além do tempo? É importante que seja um especialista na técnica.
— Não é cansaço — virou o rosto — Toda vez que treino, lembro que já fazem dois anos e sem ver meu pai, e ele ainda está na fazenda.
— Yanaho… — coçou a cabeça — Eu entendo, de verdade. É por isso que você está aqui, em alguns meses você vai ter o dinheiro.
— Se dinheiro fosse o problema… — tirou o braço de Onochi do ombro — Quer saber, não adianta. A gente já teve essa conversa antes — acelerou o passo e se distanciou.
Mesmo separados, o dono do local tinha olhos para Yanaho, até que uma nota musical soprada ecoou em seus ouvidos, o colocando para correr. Onochi notou a sinfonia, não se importando de perder o garoto de vista.
— Suzaki! — já podia ouvir o grito do aluno.
— Ainda bem que chegou antes do que pedi — disse Shiro, percebendo o visitante descendo do cavalo.
— Sempre é bom te ver, Yanaho — apertou a mão do jovem, — e é um prazer, mestre.
— Que papo é esse, vocês combinaram? Prolongar o treino era para ele chegar? — perguntou Yanaho, soltando o amigo — Eu não sabia, já faz algum tempo que não te vejo.
— Onochi me pediu para vir — guardou sua ocarina em um bolso da cintura.
— Se você soubesse, não seria uma surpresa — respondeu o Shiro, rindo e encarando seu aluno — creio que Yanaho tenha uma coisa para te mostrar.
Yanaho apenas devolveu o sorriso deixando Suzaki curioso, mas percebia o estado desgastado do aluno de Onochi deduzindo:
— Muito bem, segure isso para nossa luta, quero ver o que aprendeu.

Yanaho se alongava em um campo aberto, Suzaki por sua vez era observado por Onochi que se aproximava percebendo o amadurecimento do garoto. Cabelos soltos na altura do ombro rodeavam um rosto cansado, mas, ousaria supor, alegre. No momento que o príncipe iria se unir ao amigo, ele o segurou pelo braço:
— Obrigado por aparecer. Ele precisava muito disso.
— Por favor — esfriou seu rosto repentinamente, tirando a mão de Onochi do braço, antes de voltar a sorrir — Pode deixar, pelo que conheço dele, só precisa de um empurrão.
O Shiro observava os dois frente a frente em uma visão nostalgica. Yanaho já ensaiava movimentos com sua espada ao mesmo tempo que Suzaki largava seu manto ao vento, revelando sua arma nas costas.
— Até vencermos! — afirmou Suzaki.
Yanaho acenou com a cabeça, mas começou andar circularmente, sem agredi-lo. Suzaki reparou isso na hora disparou como um tiro de canhão, ativando sua aura que seguia seu movimento num rastro de luz azul.
Ele rodopiou pelo ar, terminando seu giro chocando espadas com Yanaho, que jogou o peso de seu corpo no flanco. Empurrado para o lado, os pés de Suzaki cavaram fundo na terra.
“Como eu pensei, está mais forte agora. E mais defensivo que o normal.”, pensou Suzaki, freando seu movimento com a espada.
O príncipe transferiu seu impulso para a arma, a usando de apoio para ricochetear de volta com um chute. Yanaho agachou do ataque, que passou rente à sua cabeça.
Em pleno ar, Suzaki estendeu a mão, criando anéis de energia ao redor de seus dedos. O iro de Suzaki tomou forma de correntes que ligaram-se à empunhadura da arma que deixou para trás. Com um puxão do antebraço, sua espada saltou da terra de volta às suas mãos.
Onochi acompanhava a luta, vendo Suzaki prestes a atacar o ex-camponês indefeso na descida, percebeu o movimento do seu aluno dizendo pra si mesmo:
— É agora — sorriu o mestre.
Os olhos do azul expandiram de surpresa vendo que ao agachar, Yanaho juntou suas mãos. Sua aura brotava do corpo naquele instante com um vermelho esbranquiçado, soprando um vento intenso contra o príncipe.
“Kazedamu?! Não vejo nenhum ferimento em seu braço. Ele dominou a técnica completamente”, se impressionou, batendo com força na cerca, rompendo-a.
Uma joelhada voadora veio na direção do rosto do príncipe, que saltou para o lado, observando a cerca se estilhaçando em pedaços. O mirim agora mirou sua lâmina contra os pés de Suzaki, mas ele os protegeu com a ponta inferior de sua arma.
Ele respondeu erguendo a arma, levando a espada de Yanaho junto para abrir sua guarda, porém o ex-camponês usou seu ombro como um aríete contra o peito do oponente.
Por um breve momento antes de continuarem, os dois puderam ver o sorriso um do outro. Como uma conversa, um perguntava, o outro respondia e vice-versa, numa luta que mais parecia uma brincadeira entre duas crianças. Essa conexão entre os dois, no entanto, foi quebrada quando Yanaho entrelaçou braços com Suzaki.
Ele largou a própria espada, juntando as palmas das mãos em um kazedamu para o alto, que espalhou os braços do adversário. Com o viajante azul exposto, Yanaho cerrou o punho direito, canalizando uma energia vermelha em um soco, que acertou ele em cheio no abdômen.
— Esse é o Punho Rubi — seu membro deixando de brilhar em vermelho, quando percebeu seu parceiro cambaleando, — Suzaki? — se preocupou.
Seu amigo correu para averiguar sua saúde, mas recebeu um olhar frio e diferente do mesmo. Quando sua aura azul surgia com nova intensidade. Direto do chão, uma ventania intensa vinda das suas mãos unidas colocou Yanaho em defensiva.
Suzaki trocava a origem de seus golpes de um lado para o outro, quando tomou distância atirando sua lâmina como uma lança. Yanaho desviou, já virando para o outro lado à espera de seu retorno para as mãos do príncipe, mas ele controlou sua espada para descer sobre o chão como um cajado, liberando uma descarga que paralisou seu adversário.
Derrubado com um chute, a paralisia perdia seu efeito sob o jovem Aka, que preparava outro Punho Rubi para se defender de Suzaki já de espada em mãos, quando Onochi se colocou entre os dois.
— Calma, vocês não precisam ir tão longe — o mestre parou a luta impondo a mão no peito do príncipe.
— O-no-chi — despertou Suzaki de seu transe.— Desculpe. Me desculpa.
— Está tudo bem? — disse Yanaho, sendo erguido do chão — Parecia que você tinha enlouquecido por um momento.
— Não foi nada, eu só exagerei demais — riu — Você também ficou assim. Aquele soco vai doer por uns dias.
— É, eu também me deixei levar um pouco.
— Eu tentei me segurar no começo, mas você está muito melhor que antes.
— Por hoje é só — disse o Shiro, reparando no braço de Suzaki escorrendo sangue para fora da manga — Estão feridos e deviam descansar.
Logo depois da menção de Onochi, Suzaki escondia o braço ferido atrás das costas e acompanhou ambos até a casa. Ele se recolheu a um quarto vazio para fazer os curativos, antes de se sentar à mesa com seu amigo e outrora professor. Reunidos, fizeram uma refeição para depois deixarem a casa pelos fundos.
— Vem comigo, tem algo que quero mostrar — chamou Suzaki, em direção aos estábulos.
— Não demorem muito lá — pediu o mestre da janela.
— Meu cavalo pode nos levar lá — disse Suzaki, subindo no animal.
— Nada disso — alegou Yanaho, subindo no seu — Vamos!
Enquanto os dois seguiam com o passeio, dentro da casa, Onochi percebeu um feixe de luz branca indo em direção da porta da frente de sua casa. Ouvindo barulho da maçaneta sendo aberta, retrucou:
— Qual a sua desculpa para não falar com eles agora?
— Não sou nenhum senhor do tempo. Ando ocupado, irmão — disse Imichi se sentando na mesa de jantar.
— Então o que é mais importante que os meninos para você aparecer aqui?
— Eu estou acabando de decifrar o templo e por isso, vou ter tempo para completar seu treinamento.
— Entendi — levou a mão no queixo — Mas vou terminar somente depois de ver como Yanaho vai se sair nessa etapa do internato. Não gosto da ideia de deixá-lo sozinho nesse momento.
— Pelo que você vem me falando, ele vai muito bem. Por que tanta preocupação? Isso tem relação com o outro?
—A falta de foco de Yanaho que me preocupa. Às vezes nem parece estar aqui. Isso pode ter relação com o Suzaki, mas ele mesmo já possui problemas. Tem algo mal resolvido dentro dele.
— Ele continua sem controlar as técnicas Shiro, correto? — reclinou-se na cadeira — Está muito distante dele, irmão, não pode chamá-lo para treinar mais?
— Imichi, ele não me deixa. Está sempre viajando — suspirou — Será que o futuro dos dois é de paz? — viu os dois garotos se distanciando a cavalo pela janela.
— O que eu acho não importa. Temos que confiar na ordem — levantou, tomou a frente do irmão e fechou a janela — Ela vai guiá-los pelo caminho certo.

Pela planície os dois cavalgaram até Suzaki fazer uma curva acentuada por um bosque estreito. Trotando em fila, ao som das corujas e grilos da floresta, eles seguiam em direção ao destino. Com o avanço dos dois jovens rumo ao local, os trotes dos animais se tornaram mais lentos no momento em que o príncipe percebia uma expressão desanimada do companheiro.
— Onochi está preocupado com você — indagou Suzaki.
— Ele disse alguma coisa? Não é nada, sabe como ele é, se preocupa mais que o necessário, como agora na luta — respondeu.
Suzaki cerrou um pouco os olhos, lembrando de mais cedo.
— Foi por isso que ele te chamou aqui? — perguntou Yanaho.
— Não apenas. Para mim, serviu para checar como andam as coisas nos Aka. Desde o acordo, parecia que a cada canto que olhava no deserto tinha um Senshi. Conheço algumas pessoas lá e não posso negar que as coisas melhoraram.
— Melhoraram, é? Que baita alívio — deu um breve sorriso, mas chacoalhou a cabeça em negação, — pelo menos uma coisa boa daquilo tudo.
— Também fiquei sabendo que amanhã é seu aniversário — virou-se para ele, — vim te parabenizar.
— Onochi é um fofoqueiro mesmo, mas para onde estamos indo?
— Paciência, já estamos chegando — tomou a frente.
A pequena trilha levava a um jardim, rodeado por flores brancas, com um lago no fundo, que refletia as luzes no céu. Pareciam ondas coloridas, vibrando em sintonia em um telão escuro pincelado por estrelas. Os olhos de Yanaho dançaram pelo terreno. Pisar na terra era leve, como andar em nuvens.
— Mas isso é…— segurou a respiração, sem encontrar palavras — Eu nunca vi nada assim antes.
— São auroras. Os Shiro vinham aqui rezar. Mesmo depois que se foram, o lugar permaneceu imaculado — respondeu o príncipe. — Encontrei esse lugar numa das minhas visitas ao Onochi nesses anos.
Após prenderem os cavalos numa árvore próxima. Os dois se aproximaram do lago.
— Obrigado por isso, Suzaki. E eu acho que eu deveria pedir desculpas pela luta de mais cedo — disse Yanaho.
— Nada disso. A culpa foi minha — respondeu, pegando uma pedra na margem para arremessar — Depois de tanto treino, melhorei tudo que pude, menos no controle da energia Shiro. E agora olha para você, já está no controle. Eu joguei minhas frustrações em você e sinto muito — segurou o braço ferido.
— Quer saber, Suzaki — se interrompeu, pegando sua pedra e a arremessando, — eu já devia ter te falado antes. Meu pai… Ele está doente.
— Doente? Mas é grave?
— Ninguém sabe ao certo. Soube que foi por conta dos ferimentos que sofreu quando lutou na vila. Ele se curou das lesões, mas pelo o que entendi ele está esquecendo das coisas — jogou outra pedra, que afundou no rio sem quicar. — Onochi disse que pode ser uma doença progressiva.
— Pode ser não quer dizer que seja. Pode ficar saudável a qualquer momento.
Os dois pegavam mais uma pedra quase ao mesmo tempo enquanto conversavam.
— Fica difícil de acreditar a cada notícia — jogou o pedaço, que foi arremessado mais longe que todas as outras — mal consegue trabalhar mais. Por isso, a única coisa que posso fazer é me formar como um Senshi e conseguir o dinheiro para comprar a parte do meu pai da fazenda. Mas isso me custa estar distante dele.
Suzaki aproveitou a deixa, para arremessar seu pedaço que alcançou até o outro lado do lago, respondendo:
— Yanaho, tem um motivo pelo qual estou te visitando na véspera do seu aniversário. Está chegando a hora de eu voltar para casa. — olhou para baixo, — Fiquei dois anos sem ver meu pai. Ele não está doente, mas penso nele todos os dias. Acho que entende bem isso.
— Sim — sorriu gentilmente, — Aposto que isso era tudo que você queria. Digo, voltar para casa.
— Eu acho que sim — disse sorrindo para o amigo — No começo, eu nem me imaginava aqui, do lado de fora, vendo o mundo. Então para além de voltar, eu espero poder trazer esse mundo para dentro de casa.
— Então é isso. Vamos nos despedir…
— Isto não é um adeus. Eu te prometo.
— No internato estudamos várias coisas. Descobri que os nossos povos são rivais por uma guerra de décadas atrás — se preparou para mais um arremesso
— A guerra do sangue — sussurrou Suzaki.
— Já que você está voltando agora e eu me formando no exército, e se da próxima vez que nos encontrarmos, estivermos em lados opostos? — completou o arremesso dessa vez alcançando o outro lado.
— Eu não vou deixar isso acontecer, me ouviu bem? Nunca! Eu e você fizemos uma promessa e vou colocar tudo na linha por ela! Não duvide por um segundo disso.
— O que nós prometemos naquele dia foi grande demais. Eu vejo isso agora. É tudo tão grande e nós tão pequenos.
— Vou fazer grandes mudanças se for preciso! — pegou no ombro do garoto, que sorriu com a resposta do príncipe — Se acha que é pequeno para mudar as coisas, comece pelos detalhes, assim como foi naquela promessa. O que não podemos fazer é ficarmos parados sem fazer nada.
— Você está certo — estendeu a mão, ao tempo que tocaram os punhos em acordo — Eu já cheguei muito longe para deixar isso me impedir.
Os dois deitaram no campo aberto olhando as luzes acima deles, como costumavam fazer na época que se conheceram.
— Então se a gente se encontrar de novo…
— E vamos.
— É. E quando chegar a hora, podemos vencer novamente — afirmou Yanaho.
Capa Oficial Volume II


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