Índice de Capítulo

    Dentro dos corredores do palácio, casa das famílias nobres do Império Ao, um homem de colete de couro, que prendiam um arco de madeira, com empunhadura de ornamentos douradas, nas suas costas, corria deixando o rastro de terra e lama das suas botas pelo tapete preto. A cada um que passava por ele, a mesma pergunta.

    — O imperador — ele dizia — preciso falar com o imperador. Onde ele está?

    Alguns apontavam uma direção, outros apertavam o nariz com os dedos para afastar seu fedor e só o dispensavam dali, mas eventualmente ele ficou na presença de quem procurava. As orientações o levaram a um salão escuro, com vidraças altas, uma de cada lado da parede, de onde vinham a única luz do lugar, incidindo diretamente sobre o trono, onde ele estava sentado. De cada lado do trono, uma fila de Heishis aguardava a menor ordem que fosse. O pobre homem se prostrou diante dele aos gritos.

    — Imperador, eu vi ele.

    — O que uma criatura dessa faz diante do meu trono? — virou o rosto para o lado, evitando contato visual com o mensageiro —  Está sujando o chão por onde passa.

    — Por favor, é o príncipe. 

    — E por que as atitudes de Satoru me importam? Heishis levem esse infeliz daqui.

    Assim que os homens armados deram um passo à frente, o arqueiro jogou seu rosto no chão suplicando.

    — Eu imploro! Não é Satoru, meu amado imperador. É Suzaki! Suzaki está de volta.

    — Parem — Koji ergueu o braço a seus homens, que pararam de imediato — Escolha bem as suas próximas palavras.

    — Eu sirvo à vossa majestade nos arredores da montanha. Nossa guarnição avistou ele entrando nessa cidade há poucas horas. Como o contingente lá é baixo, eu me prontifiquei a vir aqui sozinho, mas tenho testemunhas que confirmam o que vi.

    — Ah, então está tudo explicado. Quer mendigar mais dinheiro e Heishis a um lugar sem a menor necessidade para tal. Homens, joguem o lixo fora — apoiou seu cotovelo no trono e inclinou a cabeça sobre o punho.

    As súplicas do arqueiro ecoaram pelo corredor, enquanto resistia à prisão dos Heishis, quando uma outra dupla chegava diante do Imperador para falar-lhe.

    — Imperador — o primeiro disse — Suzaki está às portas do castelo. Venha recebê-lo.

    Koji ergueu a cabeça.

    — Viram? — exclamou o arqueiro, ainda nos braços dos Heishis — É ele. Por favor, tenha misericórdia de mim, alteza.

    Descendo do trono em direção a saída, o imperador passou pelo homem que mandou prender e ordenou.

    Heishis, ensinem uma lição a esse infeliz, mas não o matem. Seu oportunismo por regalias sujou minha casa, isso não é uma boa servidão.

    O homem continuou a protestar, mas não havia nada a ser feito. Koji se uniu aos seus dois visitantes, que seguravam suas túnicas para que não tocassem no rastro de sujeira deixado pelo arqueiro, e se dirigiu ao muro da fortaleza onde podia ver os portões descendo para conectar o palácio à cidade. Era uma larga ponte movida a correntes, que se estendia para receber Suzaki do outro lado.

    Apoiado na mureta acima da entrada, Koji via seu filho sujo, envolvido em faixas manchadas de sangue, com as roupas rasgadas e cabelo solto, mas inteiro. Da cabeça aos pés, nenhum ferimento grave. Aquela vista o fez esboçar um sorriso sutil, que sumira no instante em que seu filho ergueu a cabeça para vê-lo. O garoto estava acenando para ele, mas recebeu apenas uma virada de costas em troca.

    O pátio de entrada recebeu Suzaki com bandeiras, faixas e uma pequena multidão, quase tão numerosa quanto o dia em que se tornou candidato ao cargo de Heishi Celestial. Os criados entravam e saíam do pátio, com tábuas nas mãos, erigindo um palco às pressas, enquanto Koji tomava a frente de Suzaki, junto com alguns Heishis, que formavam uma barreira entre eles e as pessoas.

    — Como era esperado — o imperador dizia — Suzaki, meu filho, retornou dentro do prazo — apontou o palco para Suzaki subir.

    Outros nobres se juntavam a Suzaki naquela plataforma de madeira, cercada por Heishis, durante o discurso de Koji.

    — Desde a guerra, estivemos à espera de alguém que fosse digno. Alguém escolhido para restaurar o respeito que nos foi por tanto tempo negado — levantou a mão de Suzaki — Hoje, é um recomeço para todos nós, pois o meu filho é o Heishi Celestial!

    A nobreza no palco batia palmas, os abaixo do palco e nas janelas faziam o mesmo, gritando o nome de Suzaki, que voltava seu olhar para o pai, cuja atenção estava por inteira na plateia abaixo de si.

    Será que consegui mesmo?”, pensativo, Suzaki analisou a plateia, encontrando um indivíduo com roupas imundas. O sujeito tirou uma moeda do bolso e atirou-a no palco. Assustado, o garoto encarava a moeda que ficou aos seus pés.

    — Depois de tanto tempo, essa será a nossa vez! O nosso tempo — o imperador ergueu o punho cerrado — o maior soldado do mundo conduzirá nosso império rumo à dominação do continente! 

    A declaração dessa vez arrancou um grito rancoroso da garganta dos azuis. Mais moedas eram jogadas no palco, aos pés de Suzaki, ao tempo que o garoto se assustava com as reações.

    — Em breve — continuou o imperador — Teremos nossa vingança contra o Reino de Sangue. Os vermelhos caíram sob nossos…

    — Espera! — gritou Suzaki, entrando na frente. 

    Koji interrompia seu discurso. Toda euforia cessava naquele instante, na medida em que a plateia ficava em silêncio absoluto. Suzaki engolia seco, surpreendido com a quietude súbita, sem saber o que falar, até que o imperador pegou em seu ombro.

    — Tem razão, vamos deixá-lo descansar. Essas questões podem esperar mais um pouco, agora é o momento de comemorar. Estejam nos jardins dos fundos esta noite. Não percam! 

    Os aplausos e as risadas retornaram ao ambiente, ao passo que os membros da corte deixavam o palco por trás, saindo do pátio e entrando nos corredores. Suzaki, que acompanhou seu pai pelo mesmo caminho, puxou-o pela manga da túnica.

    — Pai eu não queria ter falado aquilo — tentava se explicar. 

    — Entregue o relatório das suas viagens na reunião daqui a pouco. O resto trataremos depois. Agora, vá para seu quarto — respondeu prontamente, virando as costas para o filho. 

    As ordens de seu pai foram logo seguidas por Suzaki, que entregava sua bolsa aos Heishi’s locais. Se encaminhando até o palácio, olhou para a estrutura debaixo para cima como costumava fazer na infância. Adentrando seu lar, notava o mesmo acabamento, porém com novas peças, pedras preciosas decoravam com mais presença os corredores. O lugar ostentava uma riqueza nunca antes vista pelo jovem.

    Abrindo a porta de seu quarto, o local estava arrumado, aparentava não ter sido visitado por ninguém. Porém as prateleiras de livros e roupas de cama, estavam bem conservadas sem odor algum. Suspirando fundo, o príncipe se deitou com os olhos voltados para o teto. 

    “No internato estudamos várias coisas. Descobri que os nossos povos são rivais por uma guerra de décadas atrás. Já que você está voltando agora e eu me formando no exército, e se da próxima vez que nos encontrarmos, estivermos em lados opostos?” 

    Lembrou das palavras de Yanaho, se levantando da cama levou as mãos a testa por um momento, logo um espelho chamou sua atenção. Se atentando ao seu reflexo, abaixou sua veste percebendo a cicatriz de sua infância no ombro. 

    “Agora entendo o que estava querendo dizer sobre se sentir pequeno, Yanaho”, pensou retirando sua lona de viagem. “Mas, temos que continuar acreditando!” 

    O garoto encarava sua face no espelho, quando ouviu a porta ranger, virando-se arregalou os olhos frente a um homem com uma boina, surpreso. 

    — Ma-Masao?! — correu em direção a porta. 

    — Desculpa senhor — fechava a porta — eu pensei que ainda não estivesse…

    — Por que está se retirando? — interrompeu colocando a mão sobre a brecha — é muito bom te ver novamente.

    Os dois trocaram sorrisos. 

    — Igualmente — se curvou — você cresceu bastante. 

    O mordomo entrava no quarto analisando as roupas e novas cicatrizes do príncipe. 

    — Terei que aprontar uma jaqueta nova para você, e novas vestes para a festa de hoje — analisou do braço até o ombro do garoto — seu cabelo está muito grande, teremos que cortar também, além dessas cicatrizes. Nem imagino o que deve ter passado lá fora com as outras cores. 

    — Não é como pensa. Na verdade não é como nenhum de nós pensávamos — pegou no ombro de Masao — eu conheci pessoas em quase todos os territórios. Fiz amigos com alguns.

    — Só pode estar brincando — riu com a boca fechada — nos amarelos, verdes eu até posso acreditar. Mas nos vermelhos? Além deles nos odiarem, é difícil entrar lá. Imagina ser amigo de um deles — percebeu o sorriso permanente no rosto do príncipe — Espera aí, é sério mesmo? 

    — É sério. Às vezes era como se eles só tivessem mais medo da gente do que nós temos deles. Um deles me ajudou a perceber isso. Somos parecidos eu e ele. Queremos melhorar as coisas entre esses reinos — cerrou um dos punhos — é um sonho grande, mas eu sei que podemos conseguir. 

    — Minha mãe costumava dizer quando era viva— pegou a lona de viagem do príncipe no chão — que sonhos grandes formam grandes pessoas — se encaminhou até a saída — então, siga em frente alteza. 

    — Sim, obrigado, senhor Masao.

    — A-Alteza! — virou olhando para um lado e pro outro — já disse para não me chamar de senhor! — a atitude do mordomo arrancou uma gargalhada do garoto, que o fez sorrir, se curvando — Agora se me der licença, vou jogar essa lona imunda fora.

    Quando Masao fechou a porta, Suzaki desabou sobre sua cama, dessa vez fechando seus olhos para adormecer.

    Já havia pegado em um sono leve, quando novamente ouviu batidas na porta de forma mais bruta dessa vez. Se levantando, abria a porta. 

    — Senhor Suzaki — disse o visitante alto, que notava as olheiras no rosto do jovem — quanto tempo.

    — Daisuke, o que faz aqui? — abria a porta completamente. 

    — Se apronte e venha comigo, seu pai convocou uma reunião da corte.  

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota