Índice de Capítulo

    Enquanto caía na areia, Yanaho desferiu seu kazedamu mais forte. O golpe atirou os gêmeos como uma bala de canhão, jogando areia e a fumaça para os lados ferozmente. 

    Até mesmo os cavalos dos homens previamente mortos, se dispersaram com o rugido dos ventos. Após lançá-los centenas de metros na direção desejada, Yanaho seguiu o rastro de seu golpe, que riscou as nuvens do céu antes de aterrissar os gêmeos nas dunas ásperas do deserto novamente.

    Chegando lá, os gêmeos cambaleavam para se manterem de pé, com seus ouvidos zumbidos e arranhões pela queda. 

    “Eu-eu consegui, eu os desviei! O ataque os afastou da estrada que leva a capital”, sua respiração pesava, “Ainda tenho mais um pouco para lutar, talvez deixá-los…”

    Seu pensamento foi interrompido, por algo na sua garganta, como garras perfurando o interior da sua traqueia. Ele agarrou seu pescoço, rangendo os dentes de tanta dor, ao passo que seus olhos notaram Nagajiyu, cerrando as mãos devagar.

    — Como? — a pergunta escapou da sua boca, quando caía de joelhos.

    Ele tentava puxar o ar pela boca, mas sentia uma trava pressionando seu pescoço por dentro. Seus olhos escureceram e seu corpo desabou na areia. 

    — Devia ter aproveitado a abertura para um golpe fatal em vez de nos empurrar mais — dizia Nagajiyu, agachando para olhar seu oponente nos olhos — achou mesmo que eu ia cair nessa de novo?

    — O que você fez comigo? — perguntou Yanaho, se contorcendo na areia.

    — Controlar a fumaça do lado de fora e na sua garganta difere apenas no fato de que preciso ser rápido antes que seus pulmões a absorvam completamente. Desde que você ainda tenha qualquer resíduo dela enquanto respira — ele cerrava a mão com força agora, esmagando a garganta de Yanaho ainda mais — eu posso fazer por dentro de você o que não consegui por fora.

    — Por-por que estão fazendo isso? — dizia Yanaho tentando se levantar de joelhos.

    — Só agora quer entender — chegava Hirojiyu, descendo sua lâmina sobre a barriga do mirim — tarde demais.

    Yanaho cuspia sangue, arregalando os olhos percebendo a espada o atravessando, em meio a dor aguda, caiu sob a areia já sem forças, ao tempo que a espada era retida, e Nagajiyu parava sua técnica dizendo:

    — Achou mesmo que ia ser o herói com essa capa?

    A vista do garoto abatido ficava cada vez mais frágil, ao tempo que ele encarava o corpo celeste do alto do domo.

    Estirado na areia, Yanaho apoiava suas mãos para se erguer, mas a dor de seu ferimento fazia seus braços vacilarem. Seus músculos tremiam ao menor esforço e a perda de sangue trazia um calafrio na espinha mesmo debaixo do Sol do deserto. 

    A sombra de Hirojiyu se projetava contra a luz na frente de Yanaho, que pela última vez tentou empurrar o chão para ficar de pé, somente para receber um chute nos braços do Kuro.

    — Sem últimas palavras, ô da capa vermelha? — comentou Hirojiyu — Já deve ter percebido que vai encontrar aqueles soldados e as pessoas daquele vilarejos daqui a pouco. Aceitar a crueldade, trará paz no fim.

    — Se esforçar só piora o sangramento — dizia Nagajiyu, relaxando as mãos para livrar Yanaho do sufocamento — De que adianta esse sacrifício insignificante? 

    Mesmo deitado, Yanaho girava o corpo e sacava sua espada. Apesar disso, Hirojiyu somente pisou no braço e imobilizou seus movimentos.

    — O que você pensa que está fazendo? Acabou! — chutou a espada das mãos do mirim — pare de lutar e apenas aceite, que este mundo é cruel! A crueldade chega para todos, não é muito diferente do que aconteceu com as vilas, seus companheiros e a gente. 

    — Quem você pensa que é para falar de crueldade, se vitimizando as custas desse massacre! — gritou Yanaho, com falta de ar — São covardes! Podem inventar a história que quiserem, nada vai justificar!

    — Então me fale você sobre a crueldade — provocou Hirojiyu, apoiando o braço sobre o joelho que pisoteava o garoto.

    — Vocês são cruéis! — os dois voltaram a se encarar — Em que lugar matar um filho que estava atrás do seu pai é justo? Separaram famílias, destruíram vilas inteiras. Elas nunca vão se recuperar, por sua culpa!

    Os gêmeos trocaram olhares indiferentes entre si. Hirojiyu acenou com a cabeça para seu irmão, que pegou a espada de Yanaho da areia antes de se dirigir a ele.

    — Está vendo essa espada? — se agachou, mostrando o metal reluzindo com o sol — Já vi crianças usando uma dessas antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome. O sangue escorrendo sob o solo, as casas que deixamos em chamas, me traz uma nostalgia, do que um dia nós sofremos. 

    — Não sei do que está falando — questionou Yanaho.

    — Depois que as cores primordiais conseguiram a vitória nas Guerras Separatistas, os Kuro perderam o controle do continente, se isolando em nosso território natal — contava Nagajiyu — Durante todos esses anos, nosso povo foi deixado à própria sorte. Sem dinheiro, sem comércio, somente nós em um território arrasado pela guerra. Entregues à miséria, enquanto esse continente prosperava. 

    As mães não tinham o que dar de comer para seus filhos. Os pais que retornaram vivos da guerra, sofriam com os traumas. Aos que não perderam a vida nem a sanidade, restava a religião para cuidar deles, já que seus líderes lavaram suas mãos.

    Foram décadas na sarjeta. Depois de tanto tempo, nos tornamos responsáveis pela nossa condição. O medo nos paralisou e com ele, veio a repressão e os muros que nos isolaram do resto do continente. Mas tudo mudou quando um novo rei foi coroado. Ele não tinha medo do mundo exterior, muito menos queria governá-lo. Ele desejava abrir nosso território para o mundo. Esse homem foi nosso pai.

    Como maior autoridade do território, ele acreditava que nós éramos uma cor como qualquer outra e lutou para que os Kuro fossem aceitos pelas outras cores. Mais do que tudo, era um lutador da liberdade. Ele queria ser um herói.

    Cinco anos atrás, a tensão entre meu pai e as autoridades de seu governo estava mais alta do que nunca. Somente um pequeno círculo de confiança entrava em sua casa. Nos Kuro, o rei só é destituído na morte e, portanto, um atentado parecia iminente.

    Mas papai suportou as pressões. Confinado em sua mansão, ele conseguiu redigir a primeira carta oficial do reino, a ser enviada para os outros territórios na hora certa. Os mensageiros foram enviados, mas nenhum retornou com uma resposta. Ele continuou tentando e tentando até que… a resposta veio na calada da noite. 

    Mediante a história os dois Kuro, reviviam a noite que mudariam suas vidas, em uma grande mansão com dois andares, cercada por coqueiros, tomada pelas chamas de uma hora para outra. No seu interior somente gritos e o desespero dos vivos.

    — Irmão! Não consigo… — tapava o nariz enquanto se apoiava em Hirojiyu. 

    — Vou te tirar daqui. Pai! Mãe! — gritava, com a fumaça percorrendo seus pulmões. 

    As paredes eram cozinhadas pelo fogo e o chão trepidava. A fumaça vazava pela porta do quarto, quando um solavanco pôde ser escutado vindo de fora. De repente, a porta foi arrombada e, de dentro da fumaça, surgia o pai dos garotos.

    Seu rosto estava enegrecido, com os fios da sobrancelha consumidos, e a pele de seus braços estava se esfacelando. Mesmo cambaleando, ele tomou Nagajiyu nos braços.

    — Por aqui, Hiro — estendia a mão livre para o irmão, que a segurou com força.

    O homem levou seus dois filhos até as escadarias, mas havia um buraco no caminho. Ele olhou para os lados atrás de uma saída, mas só havia labaredas. 

    — Hiro, eu preciso que confie em mim — ele disse, levantando a criança com o outro braço.

    — O que está fazendo pai?

    — Quando chegarem no chão, corram para a porta. Ignorem as chamas, só corram. Precisa me prometer que será corajoso.

    Hirojiyu acenou com a cabeça, mesmo engolindo seco.

    — Cuide do seu irmão, até eu voltar — pediu o rei, antes de arremessar seus filhos por cima do buraco, escada abaixo. 

    — Pai!! — o grito de Nagajiyu ecoou pela mansão.

    — Me esperem! Eu… vou salvar os outros — avisou seu pai.

    Hirojiyu pôs-se de pé rapidamente, pegou Nagajiyu e correu até a saída sem olhar para trás. Voltando para o presente, Hirojiyu estava de costas para seu irmão, que encerrava seu relato:

    — Não demorou muito para eu olhar para trás, e ver toda minha casa desabar em chamas, com todos meus familiares. Anos depois, descobrimos que o atentado foi orquestrado pelo círculo interno de meu pai. Eles adulteraram a última correspondência que escreveu, alegando que iriam invadir o continente se não obtivessem uma resposta e entregaram aos Kiiro. Fizeram um acordo de manter os Kuro isolados, desde que eles ajudassem a matá-lo. 

    — Entende agora? Isso vai muito além do que você pensa — comentou Hirojiyu pisando na ferida de Yanaho, que gritava de dor — Quem matou nosso pai, lidera os Kiiro hoje! Nós já matamos cada suposto amigo que conspirou contra minha família, exceto por ele. Essa paz que seu continente vive, é às custas do sangue da minha família! — Tirava seus pés do garoto, ficando a espada no chão — por que acha que espadas são forjadas?

    Dessa vez, não havia mais luta restante no corpo de Yanaho, que ficou estirado na areia, ofegante, olhando para o céu infinito.

    — A morte do meu pai não teve o resultado que os conspiradores queriam. Grupos dissidentes iniciaram uma guerra civil que só trouxe mais calamidade — pegou alguns grãos e observou o vento levá-los da sua palma — A sede por poder e o medo de perdê-lo é o que joga as cores umas contra as outras. Meu pai não queria enxergar isso e agora você também não. Você aponta a crueldade a nós, e nós apontamos a eles, mas a culpa não muda, só é passada adiante até o dia de nossa morte. Um ciclo, como uma doença interminável das relações humanas. O sonho do meu pai morreu e passar essa culpa, adiante… é o que nos restou.

    …isso é o que me restou — lembrava-se Yanaho das palavras de Yukirama, soltando um suspiro fraco.

    As mãos de Yanaho abraçavam a areia debaixo de seu corpo, machucando sua palma com a aspereza. Lágrimas escorriam do seu olho inchado e a cada soluço o corte em sua barriga ardia mais.

    — Então por que ajudar alguém que matou nosso pai, causou uma guerra e fez diversos inocentes sofrerem por todos esses anos? — questionou Nagajiyu.

    O garoto permaneceu sem resposta, virando o rosto para encarar o horizonte apenas.

    — Responde! Quem é cruel agora? Nós? Os Kiiro? Os Kuro do passado? Isso nunca vai ter fim! — terminou Hirojiyu trilhando o deserto — Agora vamos.

    — Chega de pensar que existem heróis neste mundo. Aqueles que querem ser um herói, se tornam o pior dos vilões — levantou-se e fez uma reverência. — Adeus, ô da capa vermelha.

    — Y-Yanaho… — o garoto balbuciou — Meu nome é Yanaho.

    — Encontre na morte, a paz que te faltou em vida, se liberte deste ciclo, Yanaho — despediu-se, Nagajiyu.

    Os dois partiam abandonando o desiludido aprendiz de Onochi, que tinha como companhia somente o entardecer, na medida em que a morte se aproximava.

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