Capítulo 63 - Inocentes
Mesmo a uma certa distância, ele pôde num piscar de olhos a nuvem saltar entre os espadachins, envolvendo-os numa névoa preta, que se contorcia e mudava de forma, até se dissipar ao redor do conflito revelando todos os lutadores no chão e somente aqueles mesmos dois jovens de pé.
Mais Senshis cercava os gêmeos enquanto Okada retornava para sua casa.
— Precisamos mesmo ir!
— Mas e nossa casa? — perguntou Rie.
— Tem que ser agora! Peguem só o que for realmente necessário! — agarrou ela pelo braço.
Com a corrida da família pegando pertences inseridos em sacolas, Okada reunia pertences de seu filho falecido, com as três sacolas recheadas. O homem carregava duas enquanto a mulher levava a mais leve, Akio estava sob os ombros do pai, que olhava para lápide do alto da casa por um momento.
— Pai, por que a gente tá indo? Eu quero ficar em casa — protestou Akio.
— Hajime irá protegê-la enquanto estamos fora, iremos voltar!
A família tinha pressa, vagando pela cidade. Muitos moradores se juntavam a eles numa pequena corrida até o destino final, igualmente desesperados e despossuídos, trazendo não mais do que as roupas do corpo. Rie ergueu seu filho do chão, segurando-o perto do peito, mas Akio podia ver por cima dos ombros de sua mãe o que eles estavam deixando para trás.
Os Senshis brandiam suas espadas contra a névoa escura, mas ninguém saía de lá vivo. Saindo dela, um dos invasores arremessou uma bomba contra uma das casas incendiando-a completamente em segundos. Aquela visão, fez a criança enterrar seu rosto no ombro da mãe, fechando seus olhos com força.
Por sua vez, Okada espiava o que havia deixado para trás, sempre com os olhos fixos na lápide de Hajime, ainda visível mesmo que distante. Contudo, as chamas finalmente atingiram sua casa e a nuvem escura bloqueou a vista para seu filho mais velho.
Quando atingiram o limite da vila, uma pequena multidão estava aglomerada ao redor de três transportes. Eram poucos os Senshis que estavam ali para mediar a transição e os primeiros passageiros brigavam entre si pela vaga.
Okada foi empurrando sua mulher e filhos multidão adentro, na esperança de colocá-la no primeiro veículo, mas ele foi embora antes que pudesse ter alguma chance. Foi então que seu filho ergueu a cabeça e começou a olhar ao redor.
— Pai, meu instrumento! — as lágrimas contidas esvaíram sob o rosto da criança.
— Não temos tempo para isso, meu filho — disse a mãe tentando acalmá-lo .
— Vocês precisam entrar! — reparou a segunda carruagem abrindo.
Akio continuou chorando, mas seus pais o ignoraram quando finalmente os Senshis colocaram Rie e seu filho para dentro do segundo transporte.
— Pronto, me esperem em Oásis — disse Okada, descendo do veículo — Eu vou na terceira carruagem.
— Ficou maluco, você não pode fazer isso — Rie tentou agarrá-lo mas o Senshi encarregado fechou a carruagem e os cavalos dispararam — Okada! — ela gritou pela janela.
— Papai!
Okada acenando para a carruagem em suspiro, percebia que a carruagem comportaria o restante dos moradores que ali estavam. Passando pelas pessoas, olhava para o solo, procurando pelo pertence de seu filho.
No entanto, a ameaça se aproximava, na medida em que os Senshis que faziam a guarda passaram a se deslocar para o combate. A nuvem negra dos invasores estava maior do que nunca, como uma iminente, presente até no ar que Okada respirava.
“Achei!”, disse ele enfiando a mão fundo na areia e puxando o instrumento.
Okada corria até a terceira carruagem com a flauta em mãos, quando a nuvem se expandiu outra vez. Dois Senshis andavam para fora mancos, acenando por ajuda quando uma mão se projetou da fumaça e agarrou um deles para dentro. O segundo se forçou a correr para alcançar a sua última chance de fuga.
Da fumaça, os dois invasores que Okada viu surgiam, com as roupas negras manchadas de sangue, andando vagarosamente até o Senshi que continuava a perseguir o transporte, mesmo que distante o veículo se encontrava parado.
— Anda logo! — o condutor estalava as rédeas.
Okada colocou a cabeça para fora e encontrou as rodas traseiras atoladas na areia. Ele gritou para o cocheiro que parasse de forçar os cavalos e desceu para empurrar o veículo. Outros homens que fugiam com o grupo desceram também para ajudar, quando a voz do Senshi ferido pôde ser ouvida.
— Não me deixem aqui, por favor — ele implorava — Eu já não sinto minhas pernas. Me ajudem!
Assim que a primeira roda começava a se desgarrar do solo, Okada largou o grupo que empurrava e correu para o Senshi, que já estava caído na areia. Chegando ao seu socorro, ele apoiou o homem ferido nos ombros.
— Anda, só mais um pouco — pediu Okada ao Senshi — Vamos sair daqui.
— Não consigo respirar… — dizia quase desmaiando nos ombros do morador.
— Não se preocupe, vamos sair daqui!
— Ei — Okada gritou para a carruagem que já saía do atoleiro — Espera, por favor!
Todos os passageiros que contribuíram para liberar o transporte subiram a bordo, exceto por um, que foi ao encontro para ajudar Okada. O condutor escolheu esperar e em pouco tempo, eles retornaram para colocar o Senshi ferido à bordo.
— Você é maluco — comentou o morador — Se esses caras chegarem aqui…
— Nem tudo vai ser deixado para trás — comentou Okada, apertando a flauta do filho com força, enquanto subiam no veículo.
Um pouco mais distantes, os gêmeos invasores, que já deixaram a vila entregue às chamas, observaram a carruagem, que ainda estava parada devido ao Senshi ferido.
— Eles nos atrasaram — comentou Hirojiyu, chutando a areia — Desgraçados! Essa luta não é de vocês!
— A informação deve ter chegado a eles a tempo — explicou Nagajiyu
— Pelo menos — retirou uma bomba do bolso correndo — esses não vão escapar! — arremessou a bomba caindo próximo ao veículo.
Com metade do pavio consumido. Quando todos estavam prontos para partir, Okada viu o projétil precipitar do céu e se impediu de embarcar.
— Não! — gritou Okada, saltando na direção da bomba.
Pegou a esfera e tentou atirá-la para longe, explodindo distante da carruagem, mas perto de Okada, que rolou no chão consumido pelas labaredas. O morador que ajudou a colocar o Senshi para dentro da carruagem, tomou a capa do lutador ferido e saltou do veículo.
Antes que a carruagem tomasse largada, ele envolveu Okada no tecido vermelho para apartar o fogo e o carregou nos braços de volta. Hirojiyu ao ver que a bomba não desacelerou o veículo, preparou outra para atirar, quando seu irmão o impediu.
— Sem desperdícios. Já gastou uma sem necessidade.
— Droga! — reteve a mão — vamos queimar todas as casas! Nenhum deles terá para onde voltar!

Os arqueiros que guardavam o muro de Oásis, capital do território Kiiro, encontraram naquela hora uma caravana às pressas e desordenada. Com uma carruagem chegando a cada dois minutos, uma mais apressada e despedaçada que a outra, mal resistindo a um sopro do vento, eles abriram a entrada para recebê-los.
Ainda era dia quando devolveram os cavalos aos estábulos e abriram a carruagem para ver os passageiros. Eram moradores de periferia, alguns feridos, outros intocados, porém todos ali dividiam o mesmo medo. Na primeira ordem, eles saltaram para fora dos transportes e fizeram fila, de onde os levaram para serem cuidados numa enfermaria próxima.
Não levou muito tempo para colocar todos sob o mesmo teto, menos ainda para o patriarca ser notificado da nova companhia. Entrando lá, estavam Kusonoki e Yasukasa ao seu lado, sendo igualmente informados do que se passava por um Kishi do local.
— Patriarca, os quartos estão todos lotados. Eles trouxeram mais moradores que encontraram pelo caminho nas vilas. As carroças mal suportam o peso. E no máximo três Senshis retornaram.
— Quantos Kishis retornaram?
— N-Nenhum, senhor — abaixou a cabeça.
— Como eu temia — suspirou olhando para baixo — Eles tem um alvo bem claro.
— Mas espera ainda tem coisa — Kusonoki dizia — Onde estão esses Senshis sobreviventes?
O Kishi apontou para o teto, indicando o andar de cima. Quando chegaram no corredor, um corpo enrolado numa capa vermelha era carregado para dentro de um dos quartos. Na porta, um Senshi manco espiava tudo, apoiado na parede.
— Cuidado com ele — ele pedia — Está muito mal.
— Com licença, sou o comandante Aka na operação das vilas — Kusonoki chegava por trás — Eu tenho uma pergunta para fazer a você. Estava em conflito ou foi evacuado nas vilas mais próximas?
— Senhor, olhe para mim — olhou para a perna — Eu nunca teria feito isso comigo mesmo. Só estou aqui por conta daquele morador — apontou com a cabeça para o quarto — foi um herói de verdade.
— Se nosso mensageiro chegou no horário, vocês são da vila mais externa. Quantos inimigos?
— Parecia um exército dentro daquela fumaça. Por onde você olhava tinha braços puxando, lâminas cortando, tudo era muito coordenado lá dentro. Mal dava para respirar também.
— Isso não adianta — interrompeu Yasukasa — Como assim estavam lá e não sabem?
— Eles se moviam numa nuvem negra — levava as mãos na cabeça — Incendiaram as casas com bombas e o incêndio alimentava a névoa. Ficava cada vez maior e não dava para ver.
— No deserto essa fumaça deveria dispersar — insistiu Yasukasa.
— Eles estão atacando sem deixar pistas — Kusonoki se colocou entre Yasukasa e o Senshi — assim fica difícil mandarmos os interceptadores.
— Tinha falado que um morador nesse quarto foi um herói — interrompeu Osíris — Como ele está?
— Péssimo, mas acho que vai viver. Eu seria deixado para trás, mas ele escolheu ficar e me trazer para a carruagem. Eles arremessaram outra daquelas bombas e ele tomou a explosão quase toda sozinho para escaparmos.
Ao ouvir o testemunho do Senshi, Yasukasa entrou no quarto rapidamente. Osíris a seguiu tentando impedi-la, enquanto Kusonoki permaneceu com o paciente.
Ao lado da cama de Okada, ela percebia um médico nativo com máscara, com as queimaduras do morador sendo envolvidas por esponjas d’água com constantes gemidos de dor.
— Uma bomba fez isso com ele? — perguntou Yasukasa botando uma das mãos à boca.
— Várias testemunhas relataram a mesma situação — disse o cuidador, pressionando as feridas — o que sei é que com essas queimaduras, o deserto talvez não seja um bom local para este homem morar.
Osiris chegava por trás encarando os olhos sofríveis amarelos do morador bem na sua frente:
— Yasukasa, deixe ele descansar.
Quando ela ameaçava virar as costas seguindo seu pai, em último impulso Okada se moveu para frente pegando-a pelo pulso.
— Es-espere, eles… como eles estão?
— Eles? — olhou para a mão de Okada, fechada ao redor de um tubo de madeira.
— Minha família evacuou na frente. Eu fiquei para — tirou os dedos de cima e mostrou a flauta improvisada — recuperar algo do meu filho.
Osíris a pegou repleta de rachaduras, estava frágil a qualquer toque. Com cuidado, a repousou na cabeceira, enquanto sua filha o questionava:
— Chegou a ver quantos eram? Ou conhece alguém que viu o ataque mais cedo?
— Eu fui um dos primeiros — lutava para puxar o ar para dentro — Pareciam dois deles, antes de tudo ficar preto só dele olhar para eles. Depois veio a fumaça e aí todos saíram correndo.
— Dois? — Yasukasa olhou para Osíris, que deu de ombros com a informação — Não é possível.
— Ei, acho melhor vocês saírem — Kusonoki aparecia na porta para avisar.
Após o aviso do Senshi Principal, uma mulher e uma criança correram para dentro do quarto.
— Okada, Okada! — a mulher chamava por ele, se aproximando da cama aos prantos.
Yasukasa se afastou do leito, ao passo que a criança gritando por seu pai, com os três abraçados, por um momento Okada sorriu em alívio. As duas autoridades se afastaram, enquanto o patriarca dava um passo à frente, pegando a flauta na cabeceira da cama. Chamando a atenção da criança, o patriarca agachou, ficando frente a frente com o menino.
— Eu sinto muito — entregou o instrumento para ele.
Com o gesto, Okada não conteve as lágrimas. Enquanto Yasukasa já havia saído do quarto, Osíris dava passos vagarosos até a saída, com os olhos fixos na família, que derramava lágrimas à beira da cama de Okada.
— Eles foram separados na evacuação — explicou Kusonoki — Achei melhor dar esse tempo junto para eles. Conseguiram o que queriam?
— Relatou apenas só dois Kuro — afirmou Yasukasa, levando a mão ao queixo — Mas tem que ter mais.
— Toda essa destruição — dizia Osíris olhando ao redor — Nosso plano realmente funcionou, Kusonoki?
— Patriarca, eu entendo a sensação de impotência, mas também compreendo a dificuldade, e por isso precisamos deixar nosso coração de lado aqui. Nossos homens, por mais frio que possa parecer, estão prontos para dar suas vidas em serviço. Um vilarejo inteiro praticamente foi evacuado por conta disso.
— Nós Kiiro não enxergamos nossos homens dessa forma, são companheiros não vidas descartáveis! — os dois trocaram olhares, até que Kusonoki colocou a mão em seu ombro em luto — Você é jovem, não posso pedir que entenda isso — desconversou Osíris.
— Eu disse que entendo, aliás, nosso plano ainda está em execução, o sucesso ou não dele dependerá bastante do próximo passo.
— Atacar! — cerrou os punhos — Pai, vamos atacá-los já! É a hora da interceptação, certo?
— Sim, se a evacuação já começou, só nos resta interceptá-los onde combinamos. Guardamos nossos melhores homens para isso — respondeu Kusonoki.
— Você não vai! — rebateu Osíris — Olhe ao seu redor, pensa que vai terminar diferente deles?
— Você me treinou melhor do que eles. Ou vai me dizer que confia mais em Senshis do que em mim?
— Não se trata disso, não se fala mais nisso!
— Olha só para você — comentou Yasukasa, negando com a cabeça, antes de sair andando pelo corredor.
Recostando-se na parede, respirando fundo, ele segurou seu braço esquerdo com força, enquanto escutava o jovem Senshi que ainda ficou do seu lado:
— Eu sei que deve ser difícil. Posso assumir essa primeira incursão para você, se quiser.
— Nada disso. Vamos até o Susumo para terminarmos isso de uma vez. Em algumas horas, devemos ter tudo pronto para enviar as tropas.

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