Índice de Capítulo

    Já de noite, o grupo de prisioneiros, acorrentados uns aos outros, desembarcava na frente de uma cabana na floresta. O terreno era modesto, rodeado por cercas baixas, quebradas em alguns lugares, a única iluminação que alcançava os veículos, eram as luzes fortes vindas de dentro da casa, seguido por barulhos de esforço e risadas de quem estava lá. 

    Na medida em que desciam, os prisioneiros eram cercados por seus captores, homens fortes, portando espadas nas cinturas e uma fita verde no pulso. Eles gritavam palavras de ordem, enfileirando os condenados na frente da casa.

    — Chegamos, anda logo — um dos soldados batia na porta — Não temos o dia todo!

    De repente, os barulhos vindos da casa cessaram. A porta se abriu revelando seu morador. Um homem alto e careca, vestindo um avental outrora branco, agora encardido, tomado pelo vermelho de sangue, com luvas e botas sujas de mesma cor. Ele desceu as curtas escadas da sua varanda para ver a fila.

    — Hm — aproximou do primeiro da fila, puxando bem o ar para dentro de si. Depois tapou o nariz — Esse cheira mal. Vai ser um trabalho rápido.

    O guarda soltou as correntes que ligava o condenado à fila, permitindo que o homem da casa o escoltasse para dentro. Durante aquele curto caminho, o sujeito pedia repetidamente que o soltasse, chegando a agarrar um dos seus captores pela roupa. Seu desespero rasgou a roupa do guarda, premiando o infeliz com um soco e xingamentos, antes de entrar na casa.

    Dentre as fileiras atrás de uns dez sujeitos, um caçador reparava na cicatriz estampada no rosto do açougueiro. Marcas de garras afiadas em sua testa, descendo pelos olhos. Quando a porta se fechou, tudo que podiam ouvir do lado de fora eram gritos de desespero e risadas de prazer.

    No caminho até ali, Noriaki conduzia a carruagem dos órfãos dando carona a Suzaki e seus dois parceiros, os avisando quanto ao perigo que iriam enfrentar:

    O açougue não é apenas um nome folclórico, é chamado assim pelo perigo que ele apresenta. Quem entra naquele lugar, nunca mais volta dizia Noriaki para os que pegavam carona — Dizem que o carrasco deles não deixa ninguém para trás. Ele coleciona pedaços dos condenados e os conserva. Já falaram que debaixo da casa tem um esconderijo que ninguém nunca entrou.

    Quem é ele?perguntou Suzaki

    — Ninguém nunca o chamou pelo nome, só pela reputação. É o que dá nome ao local. Chamam de o açougueiro.

    — Quem diria que o açougue realmente tivesse um açougueiro — coçou a cabeça Mitensai, enquanto os outros olhavam para ele, o ironizando — o que foi?

    De repente o condutor do veículo freou suas rodas ao tempo que puxava as rédeas fazendo os cavalos relinchar. Noriaki apontava para um bosque à frente mostrando a Suzaki. 

    — Os guardas levam os prisioneiros para dentro dessas matas, acho que vocês vão achá-los seguindo os rastros das carruagens.

    — Então precisamos nos apressar — respondeu Suzaki, indo na direção da floresta.

    — Espera — gritou Noriaki — Mitensai, Kin, tem certeza que querem fazer isso?

    Os dois olharam um para o outro percebendo os olhares preocupados dos outros órfãos, antes de Kin responder.

    — Vão sentir falta de mim, é? — sorriu, ajeitando sua franja para trás. 

    — Não foi isso que eu quis dizer…

    — Não se preocupe com a gente, Noriaki — comentou Mitensai, se juntando aos outros dois — Você ainda não se livrou de mim.

    Com um sorriso estampado no rosto e as outras crianças aliviadas, Noriaki estalou as rédeas e seguiu em outra direção na estrada.

    Floresta adentro, não demorou muito para Suzaki encontrar as marcas de rodas na terra, muito menos segui-las até seu destino. Os três sentaram no chão, quando as luzes da cabana já estavam visíveis à distância, a iluminação forte do local tomava um tom avermelhado ao tempo que as execuções aconteciam.

    — É o seguinte, esse lugar não é muito longe da Floresta Negra — sussurrou Suzaki, olhando ao redor — Nossa fuga será pelo poço. Se tudo der errado, vocês vão sozinhos e eu fico.

    — Espera aí, como sabe que estamos próximo a Floresta Negra? — disse Kin o pegando pelo ombro.

    — É por lá que costumo escapar daqui — respondeu trocando olhares com Mitensai.

    — Por que está falando de nossa fuga? — gesticulou o garoto enquanto espiava por um arbusto — Agora que já to aqui, não vou deixar seguir sozinho. 

    — É só um caso extremo, mas — levou a mão ao braço ferido — estou longe de estar saudável, logo tudo pode acontecer —  depois tirou um saco de pano do bolso —  Tenho que ser mais inteligente.

    — Daqui — Mitensai apontou dentre os arbustos indo mais à frente — Dá para contar um punhado de guardas.

    — É para isso que vou precisar de um de vocês para executar o plano — mostrou o conteúdo do saco, pequenas bolas de pano — São bombas que encontrei no arsenal. A mais clara parece ser de fumaça e as escuras tem mais potência.

    A explicação de Suzaki se prolongou por alguns minutos, ao passo que a fila de executados era reduzida aos poucos. Berro por berro, Munny estava mais próximo do abatedouro, quando olhou ao redor e deu falta de um dos guardas. Alguns homens trocavam sussurros entre si, outros se dispersaram, como se estivessem em busca de algo. 

    O responsável por guardar a fila de condenados então fitou os homens que restaram, um trio de amedrontados, e quebrou o silêncio com uma voz rouca.

    — Estão com medo do escuro? Andem e procurem quem está por trás disso! — ordenou.

    O último clamor veio de dentro da cabana, sendo o último ouvido pelo caçador antes de sua vez. Em alguns minutos o executor saia do local uma vez mais.

    — Prontinho — limpou o sangue do rosto devagar — vamos logo para o próximo! — disse sorrindo. 

    Devorando o sujeito com os olhos, o açougueiro reparou no ferimento em seu ombro. Com suas luvas, ele apertou o flanco do caçador, como mais um pedaço de carne. A dor foi forte o bastante para Munny soltar um gemido.

    — Uma infecção e tanto hein — inspirou fundo o suficiente a ponto de fechar os olhos, apertando mais a ferida — É esse cheiro que eu gosto, você é um dos bons. 

    Depois que o caçador foi solto pelo guarda, das correntes que o ligavam à fila, o açougueiro o arrastou pela ferida para dentro da cabana. Quando a porta se fechou, uma pequena explosão foi ouvida pelo carcereiro, vindo dos arbustos, junto com o barulho de metal se espatifando no chão. O guarda levantou sua lanterna, encontrando um rastro de pólvora e outra bomba, rolando até ele antes de estourar. 

    Dessa vez, uma nuvem de fumaça cobriu os arredores da casa. Erguendo a guarda, o homem não percebeu um garoto se esgueirando por trás dele, com um galho em mãos. O golpe direto na cabeça, balançou sua vista, permitindo que mais dois o nocauteassem.

    — Ufa — respirou aliviado Mitensai — Agora para o último.

    A fumaça começava a se dissipar, e o jovem Midori via seu amigo montado nas costas do guarda restante, enforcando-o. O adulto se debatia, recostando-se em todo tronco que achava, mas não foi o bastante para soltar o príncipe de cima dele.

    — Pode voltar para Kin — tirou as mãos do pescoço do guarda — Eu cuido daqui.

    — Mesmo plano? — perguntou Mitensai, pegando a lanterna caída do carcereiro, assim como algumas chaves.

    — Sim, nos vemos no poço. 

    Os homens na fila para morte notaram as intenções dos garotos e começaram a pedir por ajuda. Rapidamente, Mitensai os libertava aquele punhado de homens das correntes. que se lançaram floresta adentro. 

    — Tem certeza disso? — perguntou Mitensai — Duvido que sejam tão inocentes quanto Munny.

    — Eles não vão longe e precisamos de uma distração para a fuga, provavelmente devem chegar reforços. Os condenados são mais importantes para Dai do que cavalos.

    Apesar de todo o barulho do lado de fora, a obsessão do assassino pelo caçador rendido o fez ignorar todo o resto. Na cabana, o açougueiro o amarrava em uma cadeira, com vista para a mesa onde escolhia seus instrumentos, de costa para a porta no qual haviam entrado. O vermelho sangue era evidênciado pelas luminárias, familiarizando o local ao gosto de seu dono. 

    — Você é o mais carnudo até então — disse medindo a grossura do braço da vítima — é uma raridade um desse tamanho — finalizou gargalhando.

    Munny analisava a cabana, vendo rastros de sangue no chão que levavam até depois da sala, atrás de uma parede, que parecia mais destacada que o resto da casa. No chão diversos pedaços de membros humanos espalhados, completamente entregue às moscas, e por fim um mecanismo no teto. Eram trilhos de ferro formando um caminho por onde navegavam ganchos suspensos no alto, que tinham corpos sem vida fisgados em suas pontas. 

    — Eu gosto quando minhas presas se debatem — deslizava uma faca na outra — Poderia me ajudar nessa excitação?

    — Não sou uma presa, muito menos você um caçador — respondeu Munny.

    Surpreso, o açougueiro gargalhou com as palavras do sujeito:

    — Mas eu era, acho que deu para perceber né? — largou tudo na mesa e pegou um espelho para se admirar — Já fui dons bons, mas depois de um tempo — passou a mão na ferida — descobri que a alegria não estava na caça. E sim em dilacerar qualquer corpo indefeso e sem vida. Mas e você, o que fez para estar aqui?

    — Abati pessoas que se pareciam com animais.

    As palavras do caçador eram acompanhadas do ranger da porta que cessou o semblhante satisfeito do açougueiro.

    — Quantas vezes eu preciso dizer. Ninguém me interrompe no traba… — o assassino interrompeu sua fala, surpreso, ao perceber um garoto com olhos azuis, arregalados. Logo lambeu os beiços pegando um cutelo que estava na mesa — Se importa de esperar um pouquinho? Já já eu cuido de você.

    Apenas o mero cheiro de sangue, carne em conserva e outras coisas inimagináveis, somado ao semblante daquele homem, foi o bastante para fazer um nó na garganta de Suzaki.

    — O que… o que você anda fazendo aqui? — perguntou com a voz trêmula.

    “Essa voz…”, pensou Munny, amarrado de costas.

    — Veja por você mesmo, garoto — apontou para as suas criações — está com medo? —Te garanto que foi tão gostoso de fazer quanto parece.

    A respiração do príncipe acelerou, pegando e expelindo o ar das narinas o mais rápido possível para não sentir aquela atmosfera de morte. Tirou a espada das costas e saiu gritando, correndo na direção daquilo que nem mais conseguia chamar de homem. 

    O carrasco respondeu, agarrando um dos corpos sem vida, enganchados no teto e o atirou, correndo pelo mecanismo, no garoto. Suzaki levantou a guarda para absorver o impacto, mas foi atirado à poça de sangue.

    “Um cadáver não deveria ser tão pesado. De onde veio tanta força?”, pensou, quando viu o sangue manchando suas roupas, “Isso… é doentio. Quem poderia ser capaz de…”

    Sem poupar tempo, o açougueiro caiu em cima de Suzaki, empurrando seu cutelo contra os olhos arregalados da sua vítima, que usava seus braços para atrasar o que parecia inevitável.

    — Não adianta lutar — dizia o homem, enquanto saliva escorria da sua boca, caindo no rosto do oponente — Tão jovem, tão inocente. Que sorte a minha alguém como você aparecer na minha porta sem eu nem pedir!

    — Sai de cima de mim — balbuciou Suzaki, com os olhos brilhando com a cor azul — Agora!

    Os braços de Suzaki cederam à força do açougueiro, mas foram bem sucedidos em desviar o cutelo de seu rosto. A lâmina triscou seu ombro, rente ao pescoço, fincando-se no chão da casa. O erro permitiu que o invasor encolhesse suas pernas para chutar o agressor para longe de si.

    Enquanto erguia-se do chão, olhou para suas roupas sujas com o sangue e, passando a mão no rosto, não sabia se por suas bochechas escorriam sangue ou lágrimas de seus olhos. 

    — Você vai pagar por tudo isso! — rangia os dentes e apertava a empunhadura de sua espada.

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