Capítulo 45 - O Poço da Fé
Kin aproveitava para dormir encostada numa das árvores. Por outro lado os dois Midori fizeram uma fogueira para sentar ao redor, acendida pela tocha carregada por Dai. O príncipe terminava de enfaixar seus ferimentos, sentado na margem da correnteza, antes de se unir a eles no calor da chama.
— Eu devia me preocupar com uma dezena de homens armados chegando aqui, Dai? — questionou Suzaki.
— Mitensai me contou o que aconteceu, realmente insistiu no meu prisioneiro até libertá-lo, né? — perguntou Dai.
— Isso não responde minha pergunta.
— É verdade — Dai cruzava as pernas — quando eu era criança ouvia histórias sobre o açougueiro que me amedrontavam. Sempre achei que fossem exageradas, feitas para nos avisar a não se meter com a gangue — voltou seu olhar ao companheiro verde.
— Como o senhor Hideki costuma dizer: Não é como se tivéssemos muita escolha por aqui — completou Mitensai.
— Agora pouco, eu vi aquele homem que me amedrontava na infância completamente destruído lá. E agora você, aqui, desse jeito — olhou para as juntas calejadas do príncipe — A pessoa que fez aquilo foi a mesma que poupou os guardas?
— Aquilo… Não era eu — pressionava o curativo no ombro com força — Eu nunca vi nada parecido com o que encontrei naquela cabana, mas perdi o controle.
— E ainda assim, poupou a vida do açougueiro. Suzaki, você fez em poucas horas o que ninguém nesse território teve coragem nesses anos todos — pegou um galho e começou a cutucar a fogueira — Nosso último encontro revelou muito sobre mim, mas o que vi hoje, esse sem dúvida é quem você é. E eu não tenho outra alternativa senão respeitá-lo por isso.
— Já sabe que aqueles eram fantasmas? — perguntou Suzaki.
— Não na hora, mas depois tudo fez sentido. Minha vida toda, acreditei que tudo que fazia era pelo bem desse lugar. Agora eu não tenho mais tanta certeza. Afinal de contas, aqui está você, cumprindo com sua palavra até o fim. Nenhum Midori morreu pelas suas mãos, salvou a vida daquele caçador e, ainda por cima, defendeu a minha própria mais de uma vez. Logo eu, aquele que mais te queria morto — jogou o graveto nas chamas.
— Eu não quero cobrar dívidas, Dai — respondeu Suzaki — Fiz tudo isso porque julguei ser o correto.
— E o que vou fazer também será pelo mesmo motivo — levantou-se — Não tem como voltar para casa, certo? Eu vou te ajudar. Mitensai, esqueça as testemunhas, você e Kin não serão acusados por nada.
— É sério isso? — disse Mitensai, olhando para Suzaki.
— Dai, você tem certeza disso? — questionou o príncipe.
— Absoluta — disse, andando até debaixo de uma árvore e deitando ali — Partimos antes do amanhecer.
Em poucos minutos a mente de Dai já estava longe, perdida em seus próprios sonhos. Aproveitando a solitude, Mitensai quebrou o silêncio com o amigo.
— Isso foi fácil até demais, será uma armadilha?
— Ele está diferente. A essa altura, não sei se tenho outra escolha — olhava para cima tentando alcançar a luz fraca da lua no alto do céu — Enfim, eu vou para casa.
— Lembrei — levantou-se — preciso te mostrar aquela coisa. Me segue.
Atravessando arbustos mais fundos, os dois chegavam até um poço. Suzaki notava que a corda do mecanismo para utilidade do local estava partido e os tijolos fora do lugar. Na beirada, viu que estava completamente seco, porém com diversas moedas no fundo.
— Como isso veio parar aqui?
— Não faço ideia, estava cercado por matas cheias de espinhos, passei tempo explorando a área até achar — colocou a mão no queixo — eu só sei que é algo de muito, muito tempo atrás — retirou duas moedas de prata do bolso — toma.
— Pra que isso?
— É assim — fechando os olhos, e respirando fundo, Mitensai arremessou uma das moedas no buraco.
— Jogou dinheiro fora? — questionou Suzaki.
— Na verdade eu fiz um desejo — riu — Você pega uma coisa valiosa para você e sacrifica para que algo que você queira aconteça.
— Eu não vejo garantias disso.
— Aí vai depender da sua fé, vai, sua vez — deu a moeda para o amigo, que olhou para o fundo do poço.
Logo Suzaki estendeu o braço fechando seus olhos, parou por alguns instantes, respirando fundo, abria a palma da mão, soltando o objeto que batia nas paredes do poço, reverberando em alto som, até chegar ao solo.
— Parece que você aprendeu rápido.
— Não é tão difícil assim.
— É, a parte difícil é: acreditar até o fim — respondeu olhando para o fundo do buraco — você pode não ter nada, mas se tiver fé, sempre haverá um novo dia para percorrer.
— Eu sei, amanhã vai ser um dia melhor — pegou no ombro do amigo — Mas vou melhorar Mitensai, não precisa me animar.
— Essa frase, quem me falou isso foi meu pai — disse com um olhar frio.
— Nunca me contou nada sobre eles.
— Achou que fui abandonado, certo? — colocou a mão sob o cabelo — é o que todos pensam. Mas a verdade é que, de certa forma, eu os abandonei — apoiou o cotovelo no poço.
— O que aconteceu?
— Assim que Midori se tornou independente dos Ao, parecia que as coisas finalmente melhoraram por aqui. Mas na verdade todas as angústias dos conflitos entre as cores recaíram sob nossas costas, entre a nossa própria gente. Foi então que começou uma guerra civil que envolveu todos que soubessem minimamente usar uma espada.
— Foi o conflito que deu origem a gangue — deduziu Suzaki.
— Meu pai era ferreiro, ele era obrigado a fazer espadas para um dos partidos. Assim como foi forçado a participar do conflito, e por isso, durante toda minha infância, eu o via poucas vezes. Então toda minha criação caiu na minha mãe. Ela se chamava Aysha — cerrou seus punhos — era durona, suportou aquilo tudo sozinha.
— Era né? Mitensai, não precisa continuar se não quiser.
— Eu tô bem, olha aquilo ali — apontou na direção de um tronco onde havia um papel pendurado — por toda a situação, minha mãe era muito preocupada. Pela falta de meu pai, eu acabei me tornando uma criança desobediente — eles se aproximavam da folha escrita.
No papel preso a árvore estava escrito com letras destacadas: “Lista de tarefas”.
— Não é por isso que seja culpa sua — disse Suzaki, lendo o papel.
— Ainda não cheguei lá — colocou a palma da mão sob o cabeçalho — Um dia antes de tudo acontecer, meu pai nos visitou mais preocupado que o normal. Ele dizia que tínhamos que nos mudar o mais rápido possível, e foi aí, que minha mãe me deu uma dessas, tinha que fazer tudo para partirmos logo. Mas eu me irritei, e rasguei a lista — retirou o papel do tronco, dando uma boa olhada nele.
O garoto de olhos verdes lembrava o momento exato no qual rasgava o papel dado por sua mãe.
— Por que toda essa pirraça agora? — Questionou sua mãe cruzando os braços.
— Por que já chega — respondia um Mitensai mais novo — eu não sou só um seguidor de ordens! — apontou o dedo para os pais.
— Mitensai, não temos tempo para isso! — seu pai se aproximou de seu rosto — precisamos aprontar as coisas para ir.
— Ir para onde? Por que isso tudo agora?
— Você vai entender quando for mais velho — respondeu pegando nos ombros de seu filho.
— Eu… eu estou cansado — afastou os braços do pai — vocês não me contam nada, minha mãe não me deixa sair de casa, nem fazer nada do que realmente quero e você nunca tá aqui para entender isso — dava passos para trás a cada palavra — Eu só sirvo para dizer sim, sim e sim?!
— Não é só você que está cansado! — gritou Aysha se aproximando do marido — Uma criança que falha com as ordens da casa não vai lidar com o mundo lá de fora — virou de costas — por isso, você só vai entender tudo isso quando for mais velho.
As palavras da mãe fizeram descer lágrimas pelas bochechas da criança. Encostada na parede, reparou na porta ao lado e, girando a maçaneta, cruzou a porta, correndo de seu lar.
— Mitensai! — gritou o pai, da porta — Volte aqui!
Enquanto sua mãe juntava os pedaços rasgados do papel, lutando contra as suas próprias lágrimas. O garoto seguia sua corrida, sem olhar para trás.
Voltando de suas memórias, Mitensai, agora mais velho, terminava de contar sua história.
— Eu corri até cansar. Depois que anoiteceu, percebi que não vieram atrás de mim. Na volta… — ficou trêmulo, levando suas mãos até seus olhos — só achei a casa destruída e os corpos deles queimados.
Os dois caminharam de volta ao poço, ao tempo que o Midori limpava suas lágrimas.
— Então, quem foram os responsáveis? — os dois olhavam para o buraco.
— Eu não busquei saber especificamente, mas veio da gangue, eles ganharam a guerra pouco tempo depois disso. Meu pai forjava armas para o inimigo, provavelmente estavam caçando o pouco que restava da oposição e encontraram ele.
— Mas então, porque está numa facção que matou seus pais? — perguntou Suzaki.
— Mesmo que eu quisesse, eu não conseguiria fazer nada contra eles. E quando tentava sobreviver nas ruas, Hideki me salvou da fome. Me deu casa, amigos, uma nova família. Fez a mesma coisa com outras dezenas de crianças. Tudo isso para nos proteger da gangue — respondeu pegando em outra moeda — Mau homem ele não é.
— Você tem que tentar. Eles precisam pagar por isso — questionou o príncipe.
— Pode até ser, mas não será pela vingança. Essa lista, minha mãe fez ela antes de morrer. É a mesma que eu tinha rasgado, a diferença é a mensagem que ela deixou atrás — mostrou o verso do papel — Foi a única coisa que levei daquela casa.
Suzaki leu a mensagem: “Desculpe por ser tão chata, é pelo seu bem”
— Foi então — continuou — que eu decidi seguir em frente! Decidi ser obediente, disciplinado, e fazer o que meus pais gostariam que eu fizesse. Até porque, a culpa de eu ainda estar aqui sem eles, é minha. Estar na gangue, ajudar os órfãos, é uma obrigação com Hideki. Você entende isso, não é?
— Então toda essa ajuda, foi tudo por isso?
— Exato, não me submeto a gangue, mas sim ao que meus pais desejariam para mim — levou a mão ao cabelo — nada vai apagar fazemos de errado, então só podemos fazer o certo daqui para frente.
Concordando com a cabeça, Suzaki sacava uma moeda, agora do seu bolso, e a arremessou. Ele parou para ouvi-la atingir o fundo, depois estendeu a mão para o amigo:
— Obrigado, Mitensai, por tudo.
— Muitos desejos, hein — apertou a mão do príncipe — sou eu quem devo agradecer.

Já durante a manhã, Suzaki e Dai já haviam partido para a floresta Hercínia. O filho de Hideki pegou tudo que podia para envolver o príncipe e esconder seu rosto, antes de voltar para a cidade fronteiriça e pegar uma carruagem. Em todas as barricadas, Dai teve sua passagem permitida de imediato, sem questionamentos. Quando atingiram o fim da estrada, ele amarrou os cavalos nos estábulos próximos, e os dois começaram a andar.
Em meio a rota alternativa, os dois permaneceram em silêncio durante todo o percurso, quando avistou um acampamento Midori, às margens de um rio raso.
— Falta pouco para não termos que nos preocupar com eles. Vamos mudar de direção, conheço um atalho.
— Por que está fazendo isso por mim? — sussurrou Suzaki.
— Tudo o que eu faço é apenas pelo meu povo — respondeu, indiferente — Mesmo que eles me recusem agora.
— Entendo — lembrou-se dos olhos verdes de Seth — Dai, a construção de que falou. Ela está por perto?
— Interessado na aberração que seu povo está erguendo? — revirou os olhos.
— Eu quero entender o que está havendo, não quero que tenha nenhuma desconfiança entre os dois povos — disse franzindo as sobrancelhas. O mais velho refletiu por alguns minutos frente a proposta do príncipe.
— Depois daquele soco que você me deu anos atrás, eu senti como se os Midori estivessem novamente levando um golpe do império — cerrava os punhos — Você é um azul, eu sou verde. Eles nem sequer ligam para o que acontece aqui, como posso confiar que você…
— Eu prometo — segurou no braço de Dai, interrompendo seu andar — que vou descobrir o que está acontecendo. Farei de tudo para nossos territórios conviverem em paz!
Dai virou para trás, encarando Suzaki, Enquanto o sol começava a nascer. Quando passaram pelo último acampamento Midori, encontraram um campo aberto, onde no centro, repousava um templo. Alto, feito de mármore que reluzia à luz do sol daquela manhã. Suzaki chegou mais perto e percebia algo no centro dos ornamentos, bem na fachada, acima dos pilares da entrada: o mesmo brasão estampado nas costas da sua jaqueta.
Suzaki reparou na porta enorme, quase o dobro da sua estatura, trancada por um mecanismo de correntes. Ele devorava cada centímetro que podia daquela fachada com os olhos.
— Eu estava errado sobre você — disse Dai — Você realmente não sabia de nada disso, né?
— Quando dei início a viagem não havia nada disso aqui.
— Depois que dei as costas para o meu pai, pensei que seguindo o que a gangue queria para mim, pudesse conquistar respeito para proteger os demais. Mas agora percebo que, assim como a gangue não cuida dos Midori, eu não estava cuidando dos que estão comigo. — disse encarando a palma das duas mãos — Me tornei um fraco, seguidor de ordens.
— Ainda pode ter uma segunda chance — respondeu Suzaki com um sorriso
— É o que pensa de Munny, o caçador?
— Se tiver fé, sempre haverá um novo dia para percorrer. Só espero que ele esteja bem.
— Não sei se posso impedir uma execução dele, mas — pegava uma lança quebrada e perdida no chão — Vou cessar as buscas por aqui quando voltar. Não tem mais necessidade.
— Eu fico feliz em saber disso.
— Você prometeu que mudará as coisas por lá, pois eu te digo que farei o que for preciso para melhorar tudo por aqui. Se seguir em frente daqui, estará em solo imperial — virava de costas para o templo.
— Obrigado, Dai — desceu as escadas e seguiu na direção oposta.
Retomando a viagem sozinho, seu peito começava apertar na medida de cada passo que o guiava para casa. Passando pelas grandes árvores, reparou nas montanhas ao fundo ficando cada vez maiores. Arregalou os olhos sob o amanhecer, com o sol despertando sob o horizonte.
“…Eu sei que você vai conseguir, porque eu escolhi você!”, lembrou das últimas palavras ditas por seu pai, antes de continuar sua caminhada.
— Já fiz o meu desejo, pai — disse para si mesmo.

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