Capítulo 40 - Ninho da Coruja
Longe dali, em poucas horas, Mitensai despertava ao menor sinal do amanhecer. Estava num galpão enorme, com as inúmeras crianças que ali dormiam junto dele, usando qualquer coisa improvisada de cama.
O lugar parecia morto para o jovem, que podia ouvir a sua própria respiração ao andar na ponta dos pés até a saída. Mitensai deu uma última olhada naquelas pessoas antes de abrir a porta.
Atravessando as estradas, passando por comércios e barricadas, chegando nos limites da cidade. Poucas pessoas, muitas casas abandonadas. Ele parou numa delas.
Dois andares, recém pintada, parecia nova exceto pelas dobradiças enferrujadas na porta. O local estava vazio, quando Mitensai bateu quatro palmas e imediatamente a porta se abriu.
— Você, logo cedo aqui? — Um homem alto, colocava um de seus olhos pela brecha da porta — é urgente?
— Mais que urgente, na real, acho que você não vai gostar nada do que vou te pedir — revirou os olhos levando as mãos para trás.
— Desembucha — girava a maçaneta.
— Eu preciso que me ajude a tirar alguém do Ninho da Coruja.
Pelo que parecia uma eternidade, os dois permaneceram num silêncio quebrado somente por Noriaki, que abriu a porta por completo, revelando seu rosto cansado, com cabelo rente à cabeça e barba mal feita.
— Espera — coçou o ouvido esquerdo — Eu acho que não ouvi direito. Livrar um prisioneiro? O que te faz pensar que posso conseguir isso?
— Você é o órfão mais velho e foi o que mais se aproximou dos assuntos da gangue. Deve saber algo que possa ser feito para reparar isso — gesticulou com as mãos.
— Ainda não entendi — levou a mão ao queixo — pedir ajuda a alguém que nem está na ativa, só por ter sido o primeiro que o Hideki adotou? Por que não tenta com o Dai? Soube que ele tem prendido uns foragidos.
— Esse é o problema, foi o Dai que prendeu ele — respondeu revirando os olhos.
— Nesse caso, só posso dar um conselho — suspirou, coçando o olho — Desista.
— Não posso fazer isso.
— Que bicho te mordeu, Mitensai? — cruzou os braços — Execuções nunca são revertidas. O que você tem a ganhar com isso?
— O prisioneiro é um estrangeiro! Não pretendo ganhar nada, é só que… a prisão dele é um erro.
— Se o Hideki não disse nada, eu duvido alguém tirar algo da cabeça dele — virou-se de costas — nem sempre o que é errado para você, é para os outros. A gente já falou sobre isso — estava prestes a fechar a porta novamente.
Foi então que o garoto avançou até a entrada impedindo que a porta fosse fechada dizendo:
— O prisioneiro não é um estrangeiro qualquer. É um príncipe do Império Ao que só quer voltar para casa. Temo que se ele for executado, os azuis terão motivos suficientes para invadir essas terras.
— Olha a gente que você se mete, Mitensai — Imediatamente Noriaki abdicou da força que fazia — Sabe que se Hideki descobrir isso você está fora, certo?
— Eu sei — se afastou — mas, a vida dele e a segurança do território vale mais que isso.
Noriaki coçou a barba após as palavras de Mitensai, logo se encaminhou até sua casa, olhando ao redor foi até uma escrivaninha, puxando um baú negro debaixo de uma mesa. Agachou a sua altura, destrancou o objeto e o abriu, revelando um machado. Voltando a porta, a trancou com uma chave, já do lado de fora junto ao órfão mais novo.
— Obrigado, Noriaki — disse percebendo a atitude do companheiro.
— Não estou fazendo isso por seu amigo, mas sim por dias menos piores para esse lugar — caminhou guardando o machado por dentro das vestes — vamos!
Mitensai concordou com a cabeça. Os dois saíram dali rumo à prisão, quando o dia já estava claro.

O tom de voz firme de Hideki fez prisioneiros acordarem. A cada passo dado por Dai, mais os detentos clamavam por ajuda. Hideki deixou o jovem seguir com sua tocha até uma escada sozinho, por onde subiu até a cela mais alta. Os guardas abriram a porta e entraram com ele. Lá, apenas um se fazia visível na luz, apoiado na janela com a cabeça baixa.
— Não consegue dormir? — perguntou Dai aproximando a tocha da cela.
— Por que está aqui? — respondeu Suzaki, ainda de costas.
— Esse lugar — dizia Dai, andando vagarosamente pela cela — foi batizado de Ninho da Coruja pelo antigo dono. Eu imagino que um azul como você saiba por que.
— Corujas usam os ninhos das outras aves — respondia Suzaki, passando a mão pela parede — A estrutura daqui é bem antiga e ninguém se importou em reformar. Vocês a roubaram, estou certo?
— Não é roubo pegar o que já foi abandonado. Esse lugar, nosso povo, vocês fizeram isso conosco — deu de ombros.
— Minha família olhou por essa região anos atrás. Duvido que largariam à própria sorte assim.
— Desde o nosso primeiro encontro, fiquei com a impressão de que uma hora você teria saudade de casa. Levou tempo, dinheiro, favores — apertava seu punho — Bati de frente com metade dos líderes da região para te colocar aqui. Depois de tudo isso, não esperava tanta ingenuidade.
— E qual seria meu ganho vendo o sofrimento dessa gente? — perguntou Suzaki — Se estiver ao meu alcance eu vou ajudar.
— Como vocês estão ajudando na floresta Hercínia? — provocou franzindo as sobrancelhas.
— Do que está falando?
— Não se faça de tolo! — gritou ao socar a parede, chegando mais perto de Suzaki — Sua laia, entocados ali como ratos há meses. Estão construindo alguma coisa e eu quero saber o que é. Eu te venci e mereço no mínimo uma explicação.
— Você não me venceu. Eu que causei uma bagunça e… — balançou a cabeça negativamente — Ninguém deveria se ferir com os meus erros. Tudo que eu quero é voltar para casa — virou-se para ele.
— Responda a minha pergunta — sussurrou, colocando a mão na espada em sua cintura — O que estão construindo na floresta?
— Eu não sei do que está falando — respondeu, olhando nos olhos de Dai.
— Era só o que faltava — colocou suas duas mãos na cintura — Vai continuar brincando? Pode parar de fingir, não tem ninguém olhando. Naquela debandada, se você achou que podia livrar seu nome me salvando, está muito enganado!
— Sabe porque te salvei e não quer admitir. Eu não tenho rixa com vocês.
— Mas eu tenho com você! E seu povo conosco! Sabe o que é passar fome? Deitar no chão frio à noite com mais uma dezena de crianças? Não, tudo que vocês fazem é nos observar lá do alto — apontou para as montanhas no horizonte — Nossos criadores, rindo da nossa miséria com suas barrigas cheias.
— Deve haver um motivo.
— Eu protegerei os meus de qualquer ameaça, interna ou externa. Até porque, somos só nós aqui, cuidando uns dos outros.
— Chama isso de cuidar? — Questionou, apontando para Munny — o ferimento dele está infeccionado. Mais alguns dias aqui e ele não vai sobreviver sem tratamento.
— Você só pode estar brincando — levou uma das mãos a boca, tentando conter suas risadas — está com pena do Munny, o caçador?
— Você não sabe nada sobre ele — falou mais alto, cerrando os punhos.
Ao menor aumento da voz, os guardas da porta puxaram suas espadas. Suzaki imediatamente recuou, de costas para a parede.
— Já ouvi tudo que queria — prosseguiu Dai — Esse homem está aqui porque matou alguns dos nossos. Está foragido há anos, e você quer que eu simplesmente ajude ele depois disso?
— Não pode estar falando sério — Suzaki olhava para Munny.
— Acho que me enganei sobre você — soltou uma gargalhada — Para a sua idade, não passa de uma criança de cabeça. Mas pode ficar tranquilo, até amanhã ele não vai estar mais nessa cela. Nenhum de vocês vai.
— Do que está falando?
— Achou que vim só para te ver? A gangue apressou os preparativos para a execução dos condenados do ninho — abria a porta para sair — Logo, logo vocês terão a única fuga que merecem: a dessa vida.
Os guardas fechavam a porta na cara de Suzaki que corria até a saída. O jovem pôde ouvir o estalo do cadeado.
— Sabe que isso só vai piorar as coisas — batia na porta — Dai! — continuava a gritar — Vai acabar arriscando seu povo por nada! — As súplicas de Suzaki caíram em ouvidos surdos.
Naquela noite a prisão por sua vez permanecia obscura em seus cárceres. O silêncio era ensurdecedor para Suzaki que não havia descansado por nenhum minuto. O garoto estava com o rosto sobre as duas barras de ferro, acompanhado por olheiras profundas.
Um dos homens da jaula fazia sua necessidade em um canto da cela, o odor do líquido exalou sendo acompanhado por toda imundice que já se encontrava no ambiente.
O príncipe azul, pela primeira vez, deitou sua cabeça, numa tentativa de esquivar do cheiro. Inclinando em direção ao caçador que dormia ao lado, após isso voltando-se para o teto fechou seus olhos.
“Tem que haver um jeito de sair daqui… só é difícil pensar em como fazer isso sem derramar sangue. Mas eu preciso voltar para casa”, relaxava finalmente, prestes a pegar no sono.
De repente sua visão obscura, clareou por algo que surgia acima do garoto. Por um milésimo de segundo ele pode sentir uma energia poderosa por perto, abrindo assim seus olhos espantados. Percebeu um pergaminho em queda, repousando sobre sua testa.
— Mas o que? — olhou para um lado e para o outro, percebendo que nenhum prisioneiro havia notado.
Na ponta do papel ainda amarrado, ele percebia uma escritura:
“Para: Suzaki Sora”

Amanhecendo, o garoto passou a noite toda buscando a claridade com o documento aberto. Ele se escorava na janela estreita, buscando o melhor ângulo por onde a luz entrava. Tentando colocar a mensagem contra os raios de Sol para ler. Mexia a cabeça de um lado para o outro, invertia o papel e o virava do avesso de minuto a minuto.
— Não consegue ficar parado um minuto, espertinho? — disse Munny, deitado ali perto.
— Mensagens importantes assim deviam vir cifradas — sentou-se ao lado do caçador — talvez haja uma pista para mim que estou perdendo — suspirou, fechando os olhos.
— Ficou a noite toda revirando esse papel. Uma coisa é o tédio, outra é a teimosia. Por que não faz que nem o resto? — gesticulou vagamente para o resto da cela, onde os outros estavam dormindo — Os guardas vêm a qualquer momento para levar a gente para morrer, não tem o que ser feito.
— Na verdade — desceu o papel lentamente com as mãos para o rosto de Munny — tem sim o que ser feito.
— O que é isso? — arregalou os olhos por um momento.
— Fale baixo — puxou o papel de volta para si — são instruções para condução dos condenados. É uma maneira de escapar.
— E como conseguiu isso, espertinho? — perguntou olhando ao redor.
— Não consegui, isso simplesmente caiu em cima de mim durante a madrugada — levou uma mão à testa.
— Ninguém entra no ninho sem ser visto — dizia Munny, deixando de deitar para sentar-se e ver o papel de perto — Algum guarda pode estar tentando tirar uma contigo.
— Eu pensei nisso, mas tem um detalhe — pegou do bolso um pedaço de papel que havia rasgado da mensagem para mostrá-lo — de alguma forma, o mandante desta carta sabe meu sobrenome.
— “Suzaki Sora” — leu munny — e o que isso significa?
— Os sobrenomes das famílias da corte são reservados apenas à nobreza do império. Ou a pessoas que confio…
— Quer dizer que aqueles Heishis nojentos estão vindo te buscar? — cruzou os braços — Quanta importância você tem.
— Isso não faz sentido, mas acaba sendo o mais provável — se ergueu do chão — teremos que ver para crer.
— Teremos? — riu — está sozinho nessa, espertinho.
Andando de volta para a janela, Suzaki parou para reparar Munny pálido escorado na parede e com sua mão esquerda que não saía de cima do ferimento.
“Pode ser uma armadilha. Mesmo assim, a melhor coisa que posso esperar disso é que seja você mesmo… Pai.”, pensou, amassando o papel em suas mãos.

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