Índice de Capítulo

    Numa região mais alta da floresta, a prova alcançou seu pico. Usagi empunhava sua espada frente à escuridão do luar que denunciava o ápice da noite. Os pinheiros altos e amontoados, impedem até mesmo a passagem da grande chuva no local. 

    “É difícil enxergar assim. Tenho que respirar fundo, e usar meus outros sentidos”, pensou, enquanto reagia à cada som na mata, como se um predador estivesse o rodeando. 

    De repente uma luz vermelha surgia contra sua posição, a aura de Tsuneo era ativada para o combate. 

    — Toda essa cautela é medo? — provocou Usagi. 

    — Eu não vi essa coragem quando fui atrás dos seus parceiros — se aproximou arremessando um utensílio para o lado.

    — Isso é… uma maleta? — apontou para Tsuneo — Espera! Por que estão atacando se já estão com uma? 

    — Para mirins como nós, pegar só uma maleta, é piada. Temos que nos apegar a objetivos cada vez maiores! — a aura do mirim se apagou aos poucos, os dois retornaram à escuridão. 

    — Está arriscando a vida de seus companheiros apenas por uma luta comigo? 

    — Como se Etsuko fosse ter algum problema lidando com seus amiguinhos fracos — estavam a metros um do outro, cruzando espadas em postura — Além disso, o outro membro da nossa equipe está vagando por aí, ele nem conseguiu nos acompanhar. Essa provação é para encontrar os dignos do pelotão, não é para os fracos. 

    O primeiro avanço surgiu vindo de Tsuneo, que tentava romper a guarda alta de Usagi. Entre golpes de direita para esquerda, todos defendidos pelo melhor mirim. 

    Em uma esquiva mais rápida que o comum, Usagi defendia o ataque de Tsuneo, arrastando sua lâmina no metal do oponente na direção de seu ombro. 

    Prestes a atingi-lo, a espada encontrou o escudo carregado por Tsuneo. 

    “Ele veio preparado, não posso perder tempo aqui”, pensou mantendo a postura. 

    — Eu te conheço Usagi, sempre escondendo a sua força. Mas eu sei a verdade: ninguém nesse pelotão é tão bom quanto você no um contra um — sua mão que segurava o escudo brilhava em vermelho — e é por isso que preciso superá-lo!

    Ele correu em direção a Usagi usando o escudo como barreira. O parceiro de Aiko jogou seu ombro para repelir, porém Tsuneo desceu sua lâmina para acerta-lo, fazendo com que Usagi recuasse, tomando impulso para trás. 

    — Não pode fugir para sempre! — gritou, arremessando o escudo. 

    Ele desviou para o lado, enquanto o escudo ficou cravado em um tronco. Tsuneo continuou seu ataque, transferindo sua energia para o punho, que brilhava em vermelho como seus olhos. 

    Usagi tomou o escudo do tronco e encontrou o soco de seu adversário com ele. O impacto do punho de Tsuneo na proteção partiu o equipamento em inúmeros pedaços, soprando um vento que balançou as árvores e estremeceu o chão. Apesar disso, Usagi permanecia inatingido.

    — Mas o que?! — percebia o fracasso no ataque.

    — Nem sempre um punho rubi vai resolver a luta — respondeu Usagi — dizia, o empurrando com o ombro, pegando na mão que carregava a espada, apertou seu pulso enquanto apontou sua espada para o pescoço de Tsuneo.

    “Ele usou a energia de seu sangue além do escudo para amortecer meu punho rubi, e ainda conseguiu transferir a mesma potência de energia para os outros músculos”, pensou Tsuneo, soltando a espada já sem forças.

    — Acabou — disse Usagi derrubando Tsuneo com uma rasteira.

    Guardando sua arma, virou-se às costas em direção para onde foi sua equipe. 

    — Anda, pega a maleta. Você venceu! — esperneou Tsuneo — meu real objetivo não está aqui dentro, e sim em superar alguém lá fora! Se eu não presto nem para te derrotar, não mereço passar nessa prova! — finalizou gritando. 

    — A maleta não é minha, estou indo encontrar meus amiguinhos fracos, que estão com nossa maleta. 

    — Se você pode terminar a prova com duas e provar seu poder, por que não? 

    — Como você mesmo disse: É só uma maleta. Ter duas ou três não vai me deixar mais próximo dos meus objetivos fora daqui. 

    — Você ficaria mais próximo de se formar como Senshi — questionou Tsuneo.

    — Sabe, eu também quero superar alguém fora daqui, mas eu aprendi que não é poder que nos traz honra, mas sim disciplina — continuou adiante — Uma hora, você vai aprender isso também — finalizou abandonando o mirim. 

    O derrotado encarava a maleta, a poucos metros de distância dele, quando outro mirim chegava para se apossar dela. O jovem se assustou com a possibilidade de perder o objeto, quando se aliviou ao notar o membro da equipe abandonado.

    — Tsuneo, eu cheguei mas fiquei com medo do Usagi… Bem, desculpa — disse, o fraco membro de sua equipe pegando o objeto pela alça — pelo menos ainda temos a maleta. 

    “Então é disciplina que você tem, irmão?”, se questionava Tsuneo no chão, olhando para a lua tímida nas nuvens carregadas.

    Durante sua passagem pela floresta em busca da segunda maleta que selaria o acordo das duas equipes, os que não estavam feridos permaneciam acima nas árvores, buscando novos alvos. 

    Yachi percebia sua cicatriz se fechando enquanto raciocinava a respeito do contexto atual:

    “Já já vai amanhecer, não deu tempo. A chuva dificultou nossa sensorial das outras equipes. Também tivemos que abandonar Kento e Misugi…” 

    — Yachi — interrompia o pensamento se juntando ao mesmo galho onde ele se escorava — sentiu alguma equipe? — perguntou Umi. 

    — Não — segurava a maleta distanciando-a da mirim.

    — Entendo — os dois trocavam olhares, enquanto os outros companheiros estavam em outros galhos — sabe, eu e Jin também somos filhos de um importante Senshi

    — E o que eu tenho haver com isso? 

    — Nós quatro aqui temos, estamos destinados a percorrer o que nossos pais foram — dizia se aproximando lentamente, — mesmo que não seja nosso desejo, ou mesmo… se não estivermos prontos para isso — finalizou apontando para Nakama, chamando a atenção de Yachi para seu irmão.

    — Espera que eu entregue a maleta para o livrar disso? — sorriu Yachi concluindo. 

    — Eu admito, Jin foi selecionado muito mais pela influência de meu pai do que por suas capacidades — ela estendeu a mão, — mas, mesmo sendo injusto, eu preciso vencer essa prova para não dar problema pra mim. 

    — Entendo — levou a maleta à frente — porém eu já tenho uma escolha melhor para o destino do meu irmão e o meu! — Mostrou a ferida cicatrizada, ao tempo que jogou a maleta para Nakama que a segurava.

    Umi e Yachi puxaram suas espadas de suas cinturas, ressoando o som do impacto da disputa. Os dois desciam para o solo despertando suas auras.

    — Vai Jin! Eu lido com ele! — gritou Umi, ao tempo que seu irmão seguia Nakama.

    A garota vê seu oponente se aproximando e arrasta sua espada pela grama, jogando terra nos seus olhos. Ela gira para acertá-lo por trás, mas Yachi desvia e golpeia sua espada, desarmando-a, mesmo de olhos fechados. 

    — Eu não preciso te ver — limpou a sujeira dos olhos e pegou a espada de Umi — Somos Aka.

    — Que seja — resmungou Umi, tentando atacá-lo com os punhos.

    Sem permitir um passo a mais de Umi, seu inimigo riscou as duas espadas, criando uma faísca que fez arder a pele da mirim. O ar quente entrou até em seus pulmões, fazendo-a tossir sangue. No chão, tentando recuperar o fôlego, Umi já não tinha como combater Yachi.

    — Umi! — gritou Jin tentando quebrar a defesa de Nakama que usava a espada, segurando a maleta com a outra mão. 

    Os dois ainda estavam em um galho, brigando ao tempo que mantinham o equilíbrio, quando Yachi saltou pegando no tornozelo de Jin, puxando-o contra o solo. O mirim despencou de cima por uns cinco metros, batendo com as costas no chão, derrotado. 

    — Esse foi o trato, Umi — disse Yachi, pegando a maleta dada por seu irmão — por mais que pense, nós não somos iguais — os dois se aproximaram dos irmãos derrotados ao chão. 

    — A gente faz o que pode para vencer — respondeu Umi. 

    — Eu acredito que você faça mesmo — dizia Nakama — mas seu irmão? Desde sempre, nunca vi tanta falta de respeito com as tradições.

    — Que se dane as tradições, podem levar a maleta — disse Jin. 

    — Não tem respeito pela família que te colocou aqui? — respondeu Nakama, guardando sua espada 

    — Eu não pedi por isso! — socou o solo — não irei assumir nada que eu não quero! Mas fiquem tranquilos, em algum momento ele vai arrumar um jeito de graduar a gente. Ele acha que pode vencer com a insistência. 

    — Ora seu… 

    — Chega Nakama — interrompeu Yachi — deixe eles e vamos, já temos o que precisamos. 

    Nakama apenas deu as costas ao mirim para se juntar ao irmão, igualmente vitorioso. O amanhecer se aproximava, e eles partiram dali com uma maleta garantida. Umi, que se recuperava das queimaduras, se aproximou de Jin.

    — Anda, levanta, temos que voltar — estendeu a mão.

    — Voltar, voltar para que? — dizia amargurado — para tomar um sermão sobre como meu pai era? 

    — Já conversamos disso, é o nosso destino Jin. Se não temos outra escolha, melhor enfrentar e descobrir o porquê disso tudo. 

    — Chega. Só… chega — se levantava — vamos logo. 

    A chuva dava uma trégua no decorrer da madrugada. No centro do território, Yanaho terminava de apertar o nó em uma das várias armadilhas da caverna que o trio havia preparado. Ergueu a cabeça e enumerou elas. Uma parede de madeiras pontiagudas que Kazuya esculpia, pronta para ser ativada na saída leste, quando o mesmo sentiu a aproximação vindo de fora da gruta:

    — Se preparem. Não estamos sozinhos.

    Uma fina estalactite caiu sobre o lago da caverna, espantando os três que levaram sua atenção ao que vinha de cima. Katsuo percebeu algo caindo junto da formação geológica e correu para conferir.

    — Uma flecha? — pegava o projétil para dar uma olhada.

    Da entrada superior, três mirins surgiram. A luz da lua atravessava as nuvens timidamente, só permitindo ao grupo no chão vê-los pela silhueta naquela distância, mas a voz de um deles confirmou quem liderava o ataque.

    — Hoje não vai ter nenhum professor para me impedir de te ensinar uma lição, Yanaho.

    — Então é você, Yukirama — reconhecia Yanaho, pegando na sua espada.

    — Sem fugir, então? — perguntou Katsuo, preparando o estilingue.

    — Não. Pegue a maleta, nós vamos resolver isso — ativou sua aura — aqui e agora! 

    Katsuo tinha a maleta em mãos, Kazuya e Yanaho tomavam a frente com o mais alto entre eles questionando:

    — Se pegarem ele, nós perdemos o objetivo, tem certeza?

    — Proteja Katsuo das meninas — ordenou Yanaho, — Yukirama não quer a maleta, ele quer a mim! 

    A equipe de Yukirama descia pelas rochas, um salto de cada vez. A lua não permitia um breu completo, mas a visibilidade e a altura de onde vinham não permitiam erros quando se segue um caminho íngreme. Katsuo preparou um disparo com seu estilingue, que acertou de raspão onde o pé esquerdo de Emi se apoiava.

    A mirim escorregou e deslizou até o lago abaixo com força. Kazuya antecipa a queda, subindo a uma altura onde se arremessou no ar, agarrando Emi. Os dois colidiram um pouco acima do rio e aterrissaram do outro lado da margem, na saída leste.

    — Espera aqui, Yuki — ordenou Masori — eles plantaram armadilhas —  preparando seu arco com uma flecha com corda nas mãos.

    — Eu já esperei demais — resmungou Yukirama, saltando sobre o trio de Yanaho.

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