Capítulo 12 - Dois Vencedores
As auras de poder iluminavam a sala escura, permitindo Suzaki notar os olhos arregalados do homem diante dele:
“Então meu observador de fato, é um Shiro. Seria arriscado lutar aqui, ele parece ser bem poderoso. Mas não vou ter escolha…”, ergueu a guarda.
— Melhor irmos com calma, certo? — levantava suas mãos — Sou Onochi Shiro, um dos sobreviventes do meu povo, apenas faço a vigilância da área — sinalizou com sua aura se enfraquecendo, — vamos lá garoto, eu não quero lutar com você.
Confuso, Suzaki desativou sua aura, mas manteve sua arma em mãos. Por sua vez, Onochi virou-se para Yanaho, estendendo a mão.
— Você deve ser o Yanaho, certo? — erguia-o do chão — Eu queria ter falado com você antes, mas as coisas saíram um pouco do controle.
— Como sabe meu nome?
— Digamos que conheço seu tio, já explico melhor. Ei! Você aí — exclamou para Suzaki que havia virado de costas.
“Eu devo fugir? Ele não tem como saber quem eu sou, ou o por que estou aqui. Mesmo assim ele é um Shiro, se ele pode me denunciar talvez eu…”, antes que pudesse raciocinar um segundo a mais, o homem já tocava sem ombro.
— Não é todo mundo que visita essas terras, muito menos sozinho, ainda mais nessa idade. O que te traz aqui?
— Eu sou apenas um viajante. Em minhas viagens, ouvi falar dessa região e imaginei que pudesse aprender mais sobre os Shiro.
— Nunca vi ninguém buscando saber sobre nós na sua idade — ria Onochi. — E você aí! Chega mais perto. Se apresente e diga o que faz aqui. — apontou para o outro garoto.
— Eu sou Yanaho Aka e quero aprender a usar essa energia Iro. Quero ser alguém importante.
— Achei que já fosse alguém importante — ironizou Suzaki.
— Nunca vi um simples viajante usando uma arma grande como essa — respondeu Yanaho.
— Sem brigas, foi tudo um mal entendido. Se os dois querem aprender mais sobre a os Shiro e suas técnicas, então poderiam se ajudar — apontou com um polegar para si mesmo, — e se precisarem de um professor…
— Vai mesmo nos ensinar?! — gritou Yanaho.
— Está ficando tarde e tudo aconteceu muito rápido. Seria melhor se me encontrassem aqui amanhã pela manhã.
— Com certeza! — respondeu o camponês.
— E você o que me diz, garoto? — perguntou Onochi novamente ao jovem de olhos azuis.
“Mesmo que eu fuja, não vou cumprir com meus objetivos e vou levantar mais suspeitas. Se eu for descoberto pode comprometer o Rito.”, refletiu Suzaki, organizando sua resposta:
— Eu aceito, como disse, estou de visita na região — finalizou Suzaki, se curvando.
— Ótimo! Aguarde aqui porque preciso encerrar um assunto. Na volta te mostrarei um lugar para passar a noite — sorriu Onochi. — Agora, você vem comigo.
— É? Mas pra onde? — perguntou Yanaho.
— Vou te levar para casa.
Antes de se retirar do local, Yanaho reuniu o pedaço cortado de sua espada de madeira, encarando Suzaki logo depois, antes de sua saída do mausoléu. Em direção às terras Aka, o garoto podia ver o céu escurecido recheado de estrelas por entre as árvores, refletindo ao tempo que reparava em Onochi quieto ao seu lado.
“Não lembro do homem da capa branca ser gordinho assim”, pensou observando sua barriga destacada, mãos grossas e rosto arredondado.
— O que está olhando? — reparou Onochi na curiosidade da criança.
— Nada não — Yanaho desviou o olhar, — É só que fiquei pensando em como você sabia meu nome.
— Ah sim, esqueci de falar — coçou a cabeça — eu estive de olho em você a pedido de seu tio por um tempo, sei que é um bom garoto.
— Sério? — estranhou — Bom, obrigado é… — ficava confuso.
— Onochi. Meu nome é Onochi — sorriu para o garoto.
Após o caminho, chegando na porta da fazenda onde morava, o Shiro se despedia do camponês que entrou às pressas. Tudo já estava quieto, passando pela porta de casa, notou que seu pai já havia adormecido e foi para cama fazer o mesmo.
O amanhecer chegava, o sol já estava em seu topo, Yoroho e a fazenda já estavam em atividade, porém dessa vez, Yanaho ainda babava na cama. Quando um raio de atingiu seu rosto, fazendo-o abrir lentamente os olhos antes de dar um salto da cama em desespero:
— Droga, tô atrasado!

Apenas o barulho da brisa que cruzava os corredores vazios do subterrâneo e balançavam as folhas das árvores, eram ouvidos por Suzaki e Onochi. A dupla aguardava Yanaho em um campo aberto, ainda verde, apesar de pouco distante de onde se encontraram pela primeira vez.
— Você disse cedo. Já estamos quase na metade do dia. Tem certeza que não é melhor começarmos? — questiona o príncipe — Nem sabemos se ele virá.
— Ele virá, tenho certeza. — finalizou Onochi.
Essas foram as únicas palavras trocadas pelos dois, Onochi descascava frutas compartilhando uma delas com Suzaki que recusou. Passado algum tempo, o garoto finalmente chegava na região ofegante, suado, apoiando-se nas árvores mais próximas quando avistou os dois que aguardavam.
— Finalmente chegou, Yanaho — acenou o Shiro.
— Me… Me desculpa… Por favor — disse colocando as mãos nos joelhos exausto.
— Não faz mal — disse Onochi encarando Suzaki. — Viu? Eu disse que ele viria.
Yanaho imediatamente ergueu seu olhar para seu algoz, que estava o encarando. Ao mesmo tempo um som fino e afiado surgiu entre os dois, Onochi tirava uma espada da empunhadura.
— Suzaki já está pronto faz um tempo — estendeu a lâmina a Yanaho. — Falta você se preparar.
— Obriga… — o agradecimento de Yanaho foi interrompido pelo peso do metal que acabou de receber, quase o derrubando-o ao chão.
“Como é possível usar uma coisa dessas?”, pensava tentando manter a arma erguida. O Shiro observava tudo contendo as risadas.
— O que você quer dizer com “pronto”? — questionou Suzaki.
— É uma tradição dos Shiro iniciarmos o treinamento com essa prática, que se chama: Dois Vencedores. É bem simples, vocês dois precisam lutar até que os dois vençam a luta.
— O quê?! Eu vou lutar contra ele? — apontou Yanaho — Explica isso direito.
— Numa luta só há um vencedor. Isso não existe — respondeu Suzaki.
— Eu não sei quem te disse isso — dizia Onochi, erguendo os braços — mas comigo vai aprender que não só é possível, como deve ser a única opção. Se acham que não podem cumprir com isso, podemos esquecer o treinamento e…
— Não, vamos dar um jeito! — interrompeu Yanaho segurando a espada de pé com as mãos trêmulas.
— É assim que se fala. Antes de mais nada se cumprimentem. Yanaho e Suzaki. — disse, trazendo ambos para perto.
O príncipe colocou a mão em seu peito, curvando sua cabeça. O camponês tentava imitar seu movimento, porém o peso da espada não o permitia curvar-se totalmente sem cair. Ao se afastarem, Yanaho espalhou as pernas, segurou a arma com força e esperou Suzaki fazer o mesmo.
“Droga, mas… como eu vou vencer esse cara? Ele até brilha! Olha aquela arma nas costas dele, é maior que eu”, uma gota de suor escorria pelo camponês, que engolia seco.
Tomando sua posição, Suzaki mantinha os olhos fixos em Onochi.
“O pobre coitado mal sabe segurar uma espada. Minha vitória é inevitável. O que esse Shiro está planejando? Pode ser uma distração, mas o que ele vai tirar de informação disso?”, pensou Suzaki, puxando sua lâmina de duas pontas.
— Certo, vençam! — exclamou Onochi, saltando para uma árvore atrás de si para observar.
“Como ele consegue saltar tão alto assim?”, se espantou Yanaho distraído.
Sem tempo a perder, Suzaki cruzou o campo de batalha lentamente arrastando sua lâmina de duas pontas pelo chão até seu adversário.
“Ele está vindo. Preciso fazer alguma coisa, ninguém pode vencer tremendo assim. Eu vou…”, pensou brandindo sua espada em direção ao oponente.
— Lutar! — gritou ao se lançar contra o príncipe.
A investida do camponês terminava com uma queda de cara no chão, como se o alvo que estava diante dele nunca estivesse na posição que vira segundos antes. Notando a sombra de Suzaki por trás, ele levantou rápido o bastante para esquecer sua arma no chão.
— Droga, ô branquelo! Como você quer que eu lute com esse cara?! — perguntou engatinhando para trás para pegar sua espada, na medida que o oponente se aproximava.
— A ideia não é apenas lutar — Onochi ria, — é vencer!
Após as palavras do observador, o garoto com olhos azuis acelerou seu passo em direção a Yanaho, que continuou andando para trás. Quando foi interrompido por um tronco que o impediu de se afastar, em uma reação impulsiva ergueu a espada novamente atacando o oponente.
Com golpes sem técnica e desequilibrado, o príncipe precisava apenas inclinar o corpo na direção contrária ao corte, desviando sem dificuldade. Seu oponente mal conseguia encostá-lo. Até que o príncipe estendeu sua perna e empurrou o camponês contra ela por trás, fazendo-o cair mais uma vez.
— Acabou, Onochi — apontava sua arma ao oponente rendido — eu venci.
— Eu não vou falar de novo sobre o exercício — mastigava um bolinho de arroz.
— O que está sugerindo é impossível. Ele mal consegue segurar a espada. Eu me recuso a machucá-lo.
— Então já está no caminho certo! Mas enquanto um de vocês estiverem no chão e o outro em pé, a luta não acaba. Continuem!
Após as palavras do Shiro, Suzaki dava espaço para Yanaho se reerguer de novo. O príncipe desviava de três golpes antes de desarmá-lo com um giro de sua lâmina dupla e jogá-lo no chão com os pés.
Uma vez após a outra, cada tentativa do camponês terminava com a terra do campo esperando por ele. O céu claro foi se tornando laranja e os dois jovens permaneciam no campo aberto, porém apenas um estava de pé dessa vez.
Suzaki estava inteiro, sequer tinha um grão de poeira sujando seu traje, ou qualquer gota de suor sob seu rosto. Já Yanaho se levantava mais uma vez, seu suor se misturava com a terra do solo. Sua respiração estava desequilibrada, seus olhos já estavam com olheiras, ainda assim ele correu em direção ao oponente com a espada.
O príncipe subiu sua guarda e aparou o golpe com a sua arma. Ambos dividiram a mesma posição, disputando força, quando o Aka soltou o metal com a mão direita bloqueada para pegá-la em queda livre com a esquerda. O movimento abriu espaço para uma estocada na barriga do príncipe.
— Agora! — gritou Yanaho.
Mesmo com o efeito surpresa, Suzaki percebeu a tempo e girou para suas costas. Seu contragolpe veio com uma cotovelada na nuca do camponês, que cambaleia, com os joelhos no chão.
“Já fazem horas. Os olhos dele brilharam em vermelho no último ataque. Pensei que o Onochi estivesse testando o limite dele. Se fosse o caso, ele já teria parado essa luta”, pensou Suzaki, percebendo o Shiro ainda se alimentando na árvore supervisionando. “A ideia não é apenas lutar…”, percebia.
Novamente Yanaho se levantava, seus braços cederam completamente ao seu instrumento. Contudo, nos olhos do garoto, não se via a mesma fraqueza. Seus grunhidos de dor para manter sua postura ecoavam pelo ouvido de Suzaki.
— Por que continua? — perguntou o príncipe.
— O que te importa? — disse Yanaho buscando subir sua espada.
— Sabe que não pode vencer, porém não questiona Onochi quanto a isso. Mesmo que consiga me acertar por sorte, não será o suficiente. Talvez a sua vitória seja abrir mão do orgulho e desistir de uma vez.
— Eu preciso continuar — ficou de pé novamente, — eu não tenho a menor chance, mas nunca vamos passar nesse teste se eu não continuar tentando.
— Que seja — se afastou de Yanaho, deixando-o recuperar sua arma — Venha!
Com a provocação o garoto cansado tinha golpes erráticos. Em um balanço desajustado, a força do golpe o fez ser carregado pelo peso da arma num giro. Suzaki salta no meio do movimento para interrompê-lo, com um golpe suave de sua espada. Imobilizando-o com as mãos entrelaçadas na nuca ele o adverte.
— Escute bem, isso não é um brinquedo! É uma arma que pode matar pessoas — pressionou a nuca de Yanaho mais fortemente. — Esse comportamento apresenta um risco para você mesmo. Se quer passar no teste precisa aprender.
Após a crítica do príncipe, o camponês foi liberado dos braços dele, porém permaneceu de pé.
— Seus pés, posicione-se direito — apontou Suzaki. — Segure o cabo da espada mais firme, com as duas mãos. Tente assumir uma postura confortável onde possa mantê-la erguida.
Yanaho seguiu as instruções corrigindo a postura.
— Certo. Respire fundo e tente um golpe — o ataque saía com mais força, defendido por Suzaki — Distribua seu peso corretamente para atacar com força máxima. Vamos! De novo.
As dicas fizeram Yanaho desferir ataques em repetições que começavam a desgastar a guarda de seu professor improvável.
— Parece mais leve, obrig…
— Você precisa avançar seu ataque — interrompeu, batendo metal com metal — Tente me surpreender como fez antes. Leia meu padrão de defesa.
— Seu padrão de quê? — se esquivou para trás.
— Perceba onde estou deixando brechas e ataque ali. Não acerte minha arma, acerte a mim.
Para testá-lo, o príncipe estendia seu pé para desequilibrar Yanaho como havia feito antes. Reconhecendo o movimento, o camponês plantou seus pés no chão. Seu revide atingiu de raspão a lona de Suzaki.
— Continua, Yanaho. Não pare! — disse apontando para o corte no tecido.
Onochi assistia sorrindo a melhora de Yanaho que acirrava a luta com o passar do tempo. Com o passar do dia para a noite, da defesa ao ataque, os fundamentos do garoto de olhos vermelhos melhoraram na prática, via tentativas e erros. Com a lua no topo do céu o confronto cada vez mais se transformava em uma luta de verdade.
Suzaki pela primeira vez limpava o suor de sua testa:
— Ótimo, agora é minha vez.
— Como assim?
Suzaki avançou com um golpe na vertical. Yanaho pensou ter defendido o golpe, mas quase foi atingido na canela pela lâmina de baixo do oponente. Seu contra-ataque pelos lados foi defendido por Suzaki, fazendo com que os dois cruzassem suas espadas se encarando.
Onochi inclinou-se para frente. Os olhos se arregalaram vendo a cena, com um sorriso espontâneo, que o fez descer ao local:
“Então isso é o que tanto espera, irmão?”, pensou consigo mesmo.
Yanaho cedeu ao cansaço caindo no chão de repente mais uma vez:
— Droga, eu não consigo me mexer.
— Basta — Onochi desceu até eles. — E então, quem venceu? — cobrou Onochi sorrindo.
Suzaki então soltou sua arma, e se jogou imitando o movimento de Yanaho, batendo com suas costas no chão, respondendo:
— Nós dois.
— O que? — se espantou o camponês..
— E porque? — questionou Onochi.
— Ensinar um novato me fez entender um pouco mais sobre ele. Mesmo que nem ao menos conseguisse encostar em mim, ele não parou, deu tudo de si. Yanaho venceu em sua persistência.
— E quanto a você Yanaho?
— Bom eu… Nunca pensei que conseguiria usar uma espada de verdade. Consegui isso graças a Suzaki, ele me ajudou e né, acabou comigo. Tô exausto…
— Parabéns, garotos — gargalhou Onochi — Vocês venceram. A vitória no treinamento não diz respeito ao resultado da luta tanto quanto o que se aprende com ela. Enquanto houver aprendizado, todos de alguma forma saem ganhando, esse é o dilema da tradição Shiro.
“Uma luta onde ninguém fracasse, interessante”, refletiu Suzaki notando as estrelas no céu, suspirando aliviado.
— Amanhã daremos início ao treinamento de vocês, como combinado.

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