Índice de Capítulo

    Suzaki sacou sua espada e defendeu-se do ataque à direita, colidindo sua lâmina com a espada do inimigo. A disputa por espaço durou pouco, pois vendo os outros dois oponentes se aproximando de Minoru e seu trabalhador ferido, o príncipe joga seu peso para o lado, fazendo com que sua lâmina acerte o chão, disparando uma corrente elétrica que paralisa a todos por um instante.

    Rapidamente, o jovem soca o primeiro e corre atrás dos que restam, afastando o segundo com um chute, mas ao chegar a hora do terceiro, o efeito de seu ataque com iro, perdia o efeito. Os dois trocam golpes, um tentando penetrar na defesa do outro, batendo metal com metal até que o agressor se vê encurralado pelos escombros atrás de si.

    — Não tem como correr — disse Suzaki apontando sua espada — Renda-se e venha comigo.

    O homem riu por baixo da máscara, alcançando algo no bolso amarrado na sua cintura. Era uma pedra com um brilho incandescente. Ele a apertou com força, fazendo-a piscar na cor azul, antes de arremessá-la contra Suzaki. 

    Durante seu trajeto o pequeno minério explodiu em incontáveis pedaços, liberando também uma corrente de calor intensa. Suzaki ergueu os braços para se proteger do arremesso, porém sentiu sua pele borbulhando ao ponto de arder. Aqueles que estavam nas suas costas, também receberam uma parte da explosão. 

    O trabalhador já ferido converteu seus gemidos para gritos de desespero. Minoru perdia o controle sobre aquele homem, deixando-o cair no chão.

    — Como esses caras sabem? — balbuciou Minoru, rangendo os dentes de dor.

    Assim que a luz da explosão se esvaiu, não havia mais ninguém na frente de Suzaki. Olhando ao redor, reparou que todos os invasores já haviam sumido dali.

    “Uma faca atirada na escuridão, pedras explosivas, toda essa organização numa completa cegueira. Existe treino e preparo, mas isso é diferente.” pensou consigo mesmo. Então, os estalos do prédio começaram a ficar mais frequentes. “Esse lugar vai desabar logo. Tenho que correr”.

    — Sai daqui — ordenou a Minoru, pegando o trabalhador nos braços — Eu levo ele.

    Erguendo-o do chão, a dor do homem aumentava. Seus gritos faziam Suzaki lembrar-se da sua própria angústia, que apesar silenciosa, corroía o príncipe por dentro. Com dois passos, o peso de seu fardo o botou de joelhos, sua visão ficava turva e Minoru disparava em direção a saída. Quando se forçava a levantar para colocar nem que fosse um pé na frente do outro, uma sombra diferente emergia da fumaça.

    — Demorei demais? — disse Ryo, pegando o trabalhador ferido para dividir a carga com Suzaki — Ouvi a explosão e soube exatamente onde estava.

    — C-Como — Suzaki tentava falar — Eu achei que você…

    — Depois explico, vamos logo.

    Juntos, os dois conseguiram cruzar a saída. O homem ferido foi tomado das mãos da dupla de jovens pelos Heishis, que já cercavam o local.

    — Ei, o que estão fazendo? — Minoru tentava impedir que levassem o homem.

    — A situação está sob controle — Toshi chegava, afastando o dono da mina com um empurrão — Nós assumimos daqui, fique junto dos outros.

    Por sua vez, Suzaki desabava no chão, recuperando seu fôlego. Poucos minutos depois, o prédio desabou por completo. Uma nuvem de poeira e fumaça crescia para cobrir aquele pequeno quarteirão.

    “Essas chamas não vão parar. Numa caverna isso é muito pior. Preciso apagá-las, preciso…”, pensava Suzaki, enquanto se erguia de mãos unidas.

    — O que vai fazer? — perguntou Minoru 

    — Ficou maluco? — Ryo pegou no seu ombro.

    — Só fica longe! — avisou Suzaki, afastando o parceiro.

    As mãos do príncipe cintilavam com uma luz branca. Suzaki respirou fundo, suas mãos tremiam. 

    “Esse não pode ser um kazedamu qualquer. Se for fraco, posso atiçar as chamas no lugar de extingui-las. Ainda assim, eu preciso resolver as coisas por aqui!”.

    Parando por um segundo, ele desferiu o kazedamu contra as chamas. O sopro foi forte o bastante para apagar boa parte do fogo, chegando a atirar alguns escombros menores para longe, embora sem acertar ninguém. A fumaça que se originou da destruição também foi dissipada pela técnica de Suzaki, que direcionou a nuvem negra no caminho da saída. 

    Boquiabertos, tanto Heishis, quanto Minoru e Ryo viam Suzaki recuperar-se de seu feito. O jovem cambaleou até ficar de pé no momento que conseguiu, seus olhos só conseguiam ver preto. Suzaki desabou ali mesmo, inconsciente, sendo pego por Ryo por trás. 

    A vista de Suzaki se abria lentamente para encarar o teto de onde acabara de acordar. Levantou a cabeça e viu um espelho na sua frente, depois a deixou de lado e viu tochas na parede, abaixo delas Ryo descansava em uma cadeira, cabisbaixo. Quando puxou ar com mais força seu acompanhante imediatamente se ergueu. 

    — Finalmente acordou — disse Ryo, caminhando até a cama — Que susto você deu na gente.

    — Como eles estão? — perguntava Suzaki, com uma voz fraca.

    — Nenhuma morte pelo que os Heishis me disseram.

    O jovem respirou aliviado, mas alguma coisa atormentava as suas costas. Uma dor a cada movimento. Ele olhou para si mesmo e reparou nos lençóis brancos, cobrindo todo o seu corpo exceto pela cabeça.

    — O que aconteceu comigo? — perguntou Suzaki.

    — Você pegou a pior parte daquela explosão, e aquela técnica que usou, não sei como mas ela abriu um corte na sua barriga. Te levamos sangrando para cá, mas os Heishis deram um jeito de te deixar inteiro.

    — Mas a explosão, o que ela fez comigo?

    — É melhor que veja por si mesmo — pegou Suzaki pelos ombros — isso deve doer um pouco.

    Quando Ryo ergueu o príncipe, que gritou alto de dor, seus cobertores caíram para o lado e pôde encarar a si mesmo no espelho. O abdômen estava marcado com uma cicatriz que cruzava de um flanco para o outro. Girou o corpo o máximo que pôde e reparou nas costas vermelhas, queimadas superficialmente. 

    — Onde está Minoru? — pôs-se de pé e começou a olhar em volta — Preciso das minhas roupas.

    Encontrando sua camisa e jaqueta num cabideiro ao lado da porta, Suzaki pôde ouvir passos no corredor do lado de fora. Enquanto vestia sua jaqueta, a porta foi aberta, e dela saíram Toshio e mais dois Heishis.

    — Ryo, ele já acord… — viu a cama vazia — Para onde foi a alteza?

    Ryo conteve o riso, escondendo a boca com uma das mãos e apontando para atrás da porta.

    — Não está muito velho para brincar de esconde-esconde, Heishi Celestial? — perguntou Toshio, cruzando os braços.

    — Eu preciso saber o que aconteceu durante o tempo que fiquei aqui — pegou sua espada e colocou nas costas — Quem eram aqueles caras? Foram eles que queimaram o lugar?

    — Do que você está falando? Aquilo foi um acidente na fábrica. Irresponsabilidade do dono, como sempre. Sorte dele que estávamos ali para cuidar dos trabalhadores.

    — Espera um minuto, foram vocês que se recusaram a ir lá quando vi a fumaça.

    — Ryo, o príncipe tomou os seus remédios? Acho que está com problemas para se lembrar do trabalhador que salvamos daquele incêndio.

    — Eu o entreguei a vocês, depois que chegaram atrasados e todos já haviam sido evacuados.

    — E qual o problema então? Acabou de admitir que ajudamos — colocou as mãos na cintura — E além do mais, eu não vi você depois que o incêndio foi contido. Trabalho demais para um príncipe que nem você?

    — Na verdade, foi Suzaki que acalmou aquele fogo todo — interrompeu Ryo.

    — Ora, onde já se viu, sendo judiado por um filhinho de papai que nem você? Mas, como eu ia dizendo, Heishi Celestial, acho que devia parar de brincar de herói. Vai acabar se machucando. Deixe isso para nós, Heishis, somos treinados para isso.

    — Conheço meus limites, mas vou respeitar o seu conselho. Entretanto, como superior de vocês, exijo que isso nunca mais aconteça. — retrucou Suzaki, os dois trocavam olhares no momento que o capitão revirava o seu murmurando — fui claro? — chamou atenção.

    — É para que essas situações nunca mais aconteçam que estamos em processo de confisco da mina. Depois do incêndio, aquele homem não pode mais ficar encarregado do lugar.

    — Eu já falei que aquele incêndio foi provocado — justificou Suzaki — Ryo, você estava lá comigo.

    — Suzaki — Ryo deu de ombros — Eu não vi ninguém. Houve uma explosão, mas o fulgur pode se comportar mal. Um acidente ou desatenção — bateu palmas —  bum — cruzou as pernas levando as mãos ao queixo. 

    — Minoru não me disse isso — disse Suzaki, abaixando a cabeça e cerrando os punhos.

    — Pois é — Toshio colocou as mãos atrás das costas — O trabalhador que se feriu nessa confusão toda está tendo os cuidados que o chefe negou a ele. No tempo certo, prestará queixas e em poucos dias você estará voltando para casa, Heishi Celestial, com o dever cumprido.

    Um Heishi abriu a porta atrás de Toshio, que se despedia dos dois rapazes com um aceno antes de cruzar a saída com seus companheiros.

    — Do jeito que está, melhor você descansar. Já fez bastante e essa mina vai estar com os Heishis em alguns dias — disse Ryo — termine o dia como uma vida comum da realeza, deite e descanse, caro príncipe. 

    Após a saída do capitão, Ryo manteve a postura observando seu superior com os olhos ao chão e as sobrancelhas franzidas: 

    — Relaxa, Toshio não foi promovido à toa — usava seus dedos batendo sequencialmente no encosto de onde estava sentado.

    — Você não estava lá — balançou a cabeça — Havia pessoas armadas, bem treinadas, lá dentro. Elas sabiam que as propriedades do fulgur, jogaram aquilo na gente sabendo o que poderia acontecer.

    — Eu posso até acreditar que um ou outro apareceu para tirar vantagem da situação, mas um grupo coordenado? Além do mais, que vantagem um bandido teria atacando a fábrica? Mais sorte e seguro atacando a mina.

    — Não sei. Mas o único jeito de começar a entender isso é falando com Minoru — andou até a porta.

    — Se for o caso — levantou retomando a postura — Eu vou com você, melhor não sair ferido por aí.

    Assim que colocaram os pés para fora da pensão onde estavam, Suzaki foi esbarrado por um dos transeuntes. A rua era estreita, casas coladas umas nas outras, em cima, do lado, todas pequenas e disformes, como se o telhado fosse desabar a qualquer momento. Por dentro delas, a mesma luz fraca que vira quando chegou. O príncipe pôde espiar uma mais de perto, e reparou nas lâmpadas a óleo. 

    — Tá vendo? — apontou Ryo — Óleo quase não chega por aqui, pelo que os Heishis me disseram. Quanto tempo essas tempestades duram? Todo esse tempo sem ver um raio de sol.

    — A escuridão é a norma — disse Suzaki, virando o rosto na direção da mina, de onde uma luz mais forte emanava ao fundo da caverna — Exceto por um lugar.

    — Se quer saber a minha opinião, aqui não é tão escuro como imaginei — provocou Ryo, seguindo logo atrás do príncipe.

    Assim que chegaram nas minas, subiram a rampa que leva às jazidas, cruzando as torres de vigia. Suzaki ergueu a cabeça e chamou por um dos homens do alto.

    — Eu preciso falar com Minoru! — gritou — Onde ele está?

    — Aqui não é lugar para criança, moleque. Sai fora.

    — E para um Heishi, é lugar? — retrucou Ryo — Por que é isso que vão ter se não deixar ele entrar.

    Imediatamente os trabalhadores circulando por lá interromperam tudo o que faziam, travando olhares no jovem Tsuki.

    — É isso mesmo — Ryo estendeu os braços — E se tiverem algum problema podem…

    — Só queremos falar com Minoru — Suzaki tapou a boca de seu subordinado num sobressalto — Sou o Heishi Celestial, vim a pedido dele.

    Um trabalhador passou por eles, com uma picareta numa das mãos, apoiada nos ombros.

    — É uma coragem e tanto aparecer aqui depois do que fez — sussurrou chegando próximo a face do príncipe que não se intimidava.

    Outros mineradores cercaram a dupla, cada um com um instrumento diferente nas mãos.

    — Ei, vocês realmente querem arrumar confusão aqui? Sabe o que vai rolar se encostarem um dedo nele? — um homem gritou de longe.

    De súbito, todos pararam suas ameaças, vendo quem estava falando com eles. Minoru, saía de uma cabana no alto da rampa por onde Suzaki e Ryo subiam até a mina. Dessa vez estava com roupas largas e uma luva enorme, esticada até o antebraço. Seus olhos estavam cobertos por uma tinta preta, que combinava com a impregnada no seu rosto como sempre.

    — Patrão, nós pensamos que…

    — Pensaram errado — Minoru bateu palmas e apontou para trás dele, onde as jazidas ficavam — Eu convidei ele e fiquei sem tempo para recebê-lo até agora. Vamos alteza — virou de costas — temos o que conversar.

    Suzaki e Ryo por sua vez, acompanharam Minoru para dentro de sua cabana, às margens das jazidas. Lá dentro havia somente uma lâmpada, presa no teto, não parecia ser feita de óleo. 

    Mesmo contornada por um pano espesso e escuro, seu brilho irradiava todo aquele lugar. Era possível ver, claro como dia, a escrivaninha, com o mapa do local rascunhado em folhas em cima de folhas, camadas de níveis diferentes da caverna. 

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