Índice de Capítulo

    Daisuke abriu a porta para Suzaki, que se deparou com uma longa mesa, cruzando a sala, onde na cabeceira estava seu pai, com uma cadeira vazia ao lado. Enquanto andava até seu assento, reparava nos homens ali. 

    A maioria tão velhos quanto seu pai. Se não estavam com coletes alinhados, estavam com longas túnicas que desciam até os pés das cadeiras. O conjunto estava debruçado sobre a mesa, olhos fixos em Suzaki, com papéis nas mãos.

    — O retorno de meu filho é importante — dizia Koji, enquanto Suzaki se sentava — Mas tão importante quanto, são os resultados de sua viagem. Diga-me, o que viu nos seus dois anos no continente?

    — O continente é dividido, tanto quanto me ensinaram nos meus primeiros anos aqui. Mesmo o território Kuro — o jovem parou por um instante, contendo suas mãos trêmulas — está em um conflito armado pesado. 

    — Há dois anos atrás não foi o que pareceu, meu jovem — um dos senhores disse — Tem certeza que o seu filho viajou pro mesmo continente que conhecemos, Koji?

    — Ele obviamente está falando em comparação com nós, que somos organizados e unidos — respondeu Koji — Apesar de sermos três famílias, esse palácio nunca foi espaço para disputas. Chisei, Tsuki e Sora, todos unidos em um mesmo propósito.

    — Então — continuou Suzaki, desobstruindo a garganta — Essas disputas por outro lado são a exceção do outro lado do continente. Aka e Kiiro estreitaram laços. Praticamente, os Senshis controlam as vilas do deserto. 

    — E depois daquele fiasco no cerco, Osíris não quer ouvir nossas propostas — completou Daisuke — É como se os Aka soubessem do nosso acordo e fizessem uma contraproposta ao patriarca pelas nossas costas. 

    — Eu não posso dizer que foi maléfico — retrucou Suzaki — Estive nas vilas desérticas antes e depois da intervenção dos Senshis e o resultado foi impressionante. A vida lá realmente melhorou.

    Alguns sentados ali engasgaram, outros soltaram uma risada discreta, enquanto o Imperador cerrava as sobrancelhas. Mesmo de seus jeitos particulares, a fala de Suzaki arrancou reações de todos ali sentados.

    — O que está sugerindo, Heishi Celestial? Que deixemos nossos objetivos de lado em prol dessa… gente do deserto? — outro questionou.

    — Na verdade, eu…

    — Isso nunca esteve em questionamento — interrompeu Koji — Todos nós sabemos que nosso revés há dois anos se tratou de uma antecipação dos Senshis. Suzaki nos reportou na época, e tenho certeza que não mudou sua versão dos fatos, estou certo filho?

    — Sim, mas…

    — É isso que importa. Com você aqui, podemos fazer diferente do passado.

    — Eu concordo — continuou Suzaki — Por isso gostaria de falar com vocês sobre os Midori. Eu vi um templo na Floresta Hercinia, com o brasão da família real, o que está lá dentro? Por que os Midori se sentem ameaçados por aquilo?

    Dois homens do outro lado da mesa começaram a escrever ferozmente com suas penas. Um deles juntou o papel de ambos e saiu pela porta. 

    — Alteza, eu sinto muito — um deles se levantou da cadeira — Mas a família Chisei não está interessada nos problemas dos outros reinos. Chamem por nós quando tiverem nosso bem-estar em primeiro lugar.

    Aquele que se retirava, levou consigo outros juntos de si, todos com espadas na cintura. O contingente da mesa foi reduzido quase pela metade e Koji apenas reclinou-se na cadeira.

    — Então, filho, o que mais você tem a dizer? — estendeu os braços — A mesa é sua.

    — Eu só queria saber qual era o motivo. Fui pego de surpresa por aquilo no caminho de volta.

    Heishi Celestial, se quer mesmo ser digno desse título, sugiro falar com mais respeito — respondeu Daisuke — suponhamos que tenhamos construído algo na Floresta Hercínia. Qual seria o problema, já que os Midori pertencem a nós? Quem além deles mesmos reconhecem aquela pocilga como independente?

    — Não quis ofendê-los. 

    — Pois, ofendeu — levantou-se da cadeira também, agora se dirigindo a Koji — Me perdoe, imperador. Pode conversar depois, quando estiver em melhor companhia.

    Koji voltava a se apoiar na mesa. Cerrando os punhos, ele soltou um grunhido baixo, mas que foi ouvido por Suzaki, antes de erguer a cabeça aos que restavam na mesa, agora com um sorriso estampado no rosto.

    — Obrigado pela presença, senhores. Esse inconveniente é passageiro e espero contar com vocês no futuro. Estão livres para ir.

    Todos se retiravam da sala, deixando Suzaki e Koji à sós, embora não por muito tempo. O Imperador andava em direção à porta, quando Suzaki se colocou entre ele e a saída.

    — Pai, o que está havendo? Desde que cheguei tem estado assim comigo e agora essa reunião, por que não me respondem?

    — Era só o que faltava. Desde que você chegou, tem agido dessa forma desrespeitosa conosco. Primeiro me interrompe no palco depois me faz parecer um idiota na frente dos meus homens, e agora esse desaforo? Suzaki, você realmente espionou os territórios, ou ficou escondido por dois anos?

    — Pai… Como você diz uma coisa dessas? — disse, abrindo um pouco a jaqueta para revelar as feridas enfaixadas.

    — Seu irmão incompetente voltou sem um braço. Se quisesse imitar ele era só dizer e não te mandaria para o Rito de Passagem. Era isso que você queria, me fazer passar vergonha que nem ele?

    — Não, senhor — interrompeu, abaixando a cabeça.

    — Foi o que pareceu! Seguinte, eu sei que não gosta de mim, mas enquanto estiver nesse teto, exijo um mínimo de respeito. Você me desapontou.

    O coração do príncipe afundou em seu peito. Recuou sua jaqueta, escondendo as feridas.

    — Saia da minha frente — ordenou Koji, abaixando a cabeça para olhar Suzaki nos olhos.

    O príncipe deu um passo para o lado, deixando que seu pai fosse embora. Ele recostou-se na parede da sala, respirando pesadamente, e ficou ali até recuperar o fôlego. Quando sentiu-se melhor, subiu para os andares superiores onde seu quarto, principalmente sua cama, esperavam por ele. 

    Mesmo com a reunião terminada, as palavras de seu pai assombravam sua mente como um ruído ensurdecedor. Suzaki ergueu-se da cama, sentado na sua beirada, de frente para o espelho, onde podia trocar seus curativos. Durante o processo, avistou novamente a sua cicatriz mais antiga, foi então que Masao apareceu no quarto.

    — Senhor Suzaki, a festa já vai começar — dizia pela porta entreaberta — O Imperador ordenou que te pusesse nas condições adequadas.

    — Eu só preciso terminar isso aqui — dizia, removendo as faixas de seu corpo.

    — Nada disso — o mordomo abria a porta — Isso não é trabalho para um príncipe. Venha comigo — o pegou pela orelha.

    Ainda que contra a sua vontade, Suzaki teve suas feridas cuidadas por Masao, que depois o levou a outro lugar no castelo para ter seu cabelo cortado, amarrado e roupas novas e limpas, incluindo uma outra jaqueta, com as mesmas cores embora tenha uma gola mais achatada.

    Chegando nos fundos do castelo, Suzaki encontrou um jardim enorme, se estendendo até os muros do outro lado do castelo, que dali parecia pequeno em comparação às árvores bem cortadas, em formato de cones. Aos seus pés, fileiras sem fim de flores, rodeando um gramado largo, com cadeiras e mesas distribuídas. Os convidados ficavam debaixo das árvores mais frondosas ou sentados nas mesas. Mais perto dos prédios, havia uma mesa com um banquete servido.

    “Você me desapontou”, as palavras de seu pai martelavam em sua cabeça, assim que Suzaki viu seu pai. Ele estava de pé, sorrindo, apertando mãos e recebendo convidados. Quando avistou o filho, chamou ele para perto. 

    — Venha, meu filho — ordenou, acenando para os servos que carregavam um quadro retangular coberto por um tecido — Já que completou sua jornada, gostaria que visse isso.

    Os criados levaram o quadro a um tripé, onde apoiaram o objeto no suporte. Koji chamava todos para perto, ao passo que Suzaki notava alguns no fundo, conversando ao pé do ouvido um do outros, observando o quadro. Pouco depois, o pano era removido e o quadro revelado. 

    As bordas douradas e o acabamento de madeira envernizada eram pouco chamativos ao garoto, comparados ao retrato pintado. Suzaki ficou trêmulo, seu peito apertava outra vez.

    — Essa é… 

    — Ainda reconhece ela depois de tanto tempo fora — colocou a mão no ombro do filho, antes de gritar, virado para os convidados — Ela é sua mãe, a falecida imperatriz, Yua Sora. Há muito tempo, tinha esse quadro escondido por vergonha. Pensei que nunca teria coragem de vê-lo, mas seu retorno me encheu de coragem. Depois de tudo que passou, não havia presente melhor.

    — P-Pensei que havia se livrado disso — disse Suzaki, soluçando.

    — Ora, eu nunca me livraria da sua mãe — o agarrou, trazendo para perto com um abraço — Tenho certeza de que ela estaria orgulhosa de você agora, como eu estou.

    — E-Eu não… Obrigado — correspondeu, abraçando Koji de volta.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota