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    No alto da torre da maior estrutura da capital, o Patriarca observava o mesmo sol deslizando suas mãos sobre a mureta da sacada, sentindo o concreto áspero pelos pequenos grãos de areia cobrindo o edifício. Uma parte do deserto que o vento levou até a ponta de seus dedos. Até que desceu sua vista observando sua despreocupada capital abaixo, enquanto o deserto no horizonte posava no canto da sua vista como um espectro na sua consciência.

    — Patriarca — Kusonoki se anunciou, acompanhado por outros guardas — O dia já passou da metade e só conseguimos minimizar as perdas — colocava as mãos nos bolsos, observando o sol descendo sob o topo do céu — Começo a duvidar do resultado da nossa última investida contra o inimigo.

    — No mínimo, as tropas de interceptação já cruzaram com o inimigo — encostou-se na mureta com os cotovelos — Se tivessem sido aniquilados os gêmeos já estariam batendo na nossa porta — inclinava a cabeça para baixo — Meu temor é que o mirim não tenha conseguido cumprir com objetivo.

    — Ele deveria mesmo já ter retornado, mas ao mesmo tempo Ryoma não o enviou por acaso. Quero acreditar em sua utilidade.

    De repente, um servo entrou na sacada no meio dos guardas, carregando duas taças de vinho numa bandeja de prata, colocando-as na mureta para os dois beberem. Kusonoki mudou seu olhar para o fundo da taça, balançando ela com as mãos.

    — Você é o que mais tem falado sobre cautela. Eu sugiro um plano reserva.

    — Eu tenho pelo menos uns três — respondeu Kusonoki, tomando de sua taça — Não consigo decidir qual usar.

    — O poderio militar da fortaleza, mesmo contando com mais homens, é semelhante ao da interceptação. Se falharmos, não há quem proteja a chegada deles a Oásis. Uma evacuação é a única saída. Começamos por aqui até levarmos todas as cidades centrais nessa caravana. 

    — Esse era um dos meus planos caso o mirim voltasse sem informações — disse, virando a taça — garantir a segurança dos civis é o mais apropriado. Melhor que lançar outra ofensiva às cegas.

    — Minhas filhas podem garantir que isso ocorra da melhor maneira — virava-se para o Principal — Depois, a família real deverá seguir o mesmo caminho. 

    — Entendo — deu um leve sorriso — o Supremo me mandou para cá, para impedir que você fizesse alguma bobagem. Mas tudo que vejo é um líder preocupado com seu povo e um pai com sua família — esticou a mão.

    — Sou eu quem devo agradecer, Kusonoki — os dois apertaram as mãos — O tempo tem sido um grande professor. Meu pai me contou uma vez que um homem ciente de quem é, pode entender o passado e prever o futuro.

    — Você mudou Osíris, tenho certeza que juntos vamos achar um jeito de… — de repente sua visão ficou turva.

    O principal sentia seu corpo dormente e anestesiado. Prestes a desabar, o Patriarca segurou sua mão com o outro braço, descendo-o até o chão lentamente.

    — Você ajudou mais do que o suficiente, mas um líder precisa impedir que as consequências de suas ações caiam sobre seu povo — segurava o jovem Principal nos braços. 

    — Osíris… O que você fez? — balbuciou. 

    — Na sua bebida — disse mostrando um frasco vazio. — Você é um Aka, tive que exagerar no sonífero. Agora, preciso acabar com isso.

    As palavras do Principal entalaram e seu corpo não obedecia mais sua consciência gritante. Tudo que restava era adormecer na visão dos olhos dourados de Osíris, que se levantava do chão para continuar seu plano.

    A caminho da fortaleza, onde seus homens se preparam para receber os invasores Kuro, a mente de Osíris regressava ao momento antes de sua partida. Cada moradia de Oásis estava sendo evacuada e seus moradores postos no primeiro transporte para partirem. Yasukasa, que conduzia uma fila que dobrava a rua, dava ordens aos Kishis, quando seu pai chegou.

    — A evacuação está mais rápida do que pensei.

    — Não poderia estar de outra forma — dizia Yasukasa, colocando as mãos na cintura, de olho na rua recheada de carroças e cavalos — Eu vou ajudar no que posso.

    — Eu sei, por isso que seu lugar é com eles.

    — Um dia, sim — fazia sinal para uma carruagem que parou para que ela subisse — Pelo menos nisso, concordamos. 

    De repente, Osíris sentiu um aproximar por trás. Ao se virar, reconheceu Hoshizora, com sua mãe vindo logo atrás. As duas com as malas prontas para entrar no transporte. 

    — Pai, por que essa evacuação repentina? Onde está Yanaho? 

    — Estamos tomando precaução, vai ficar tudo bem — colocou a mão sobre a cabeça da filha — sobre o garoto, fique tranquila. Ele está numa missão de reconhecimento, devo recebê-lo aqui em breve. 

    — Eu não entendo, por que o senhor irá ficar?

    — Eu ainda tenho assuntos a tratar com Kusonoki — dizia Osíris, trocando olhares com sua esposa — Continue de olho na sua irmã. Ela vai precisar de você.

    Com os braços pesados, o patriarca se desfez do abraço da filha, que entrou na carruagem cabisbaixa. Diante do chefe de família, restava apenas sua esposa.

    — Acho bom não estar escondendo nada de mim dessa vez — disse Kasa, colocando a mão sob o rosto de Osíris. 

    — Nada que você já não saiba — respondeu, unindo suas mãos com as dela, antes de abraçá-la — sem surpresas dessa vez. 

    — Faça o que for necessário — se despedia, indo para carruagem — Eu te amo.

    O patriarca permaneceu na calçada, vendo o veículo partir junto com os demais, quando sua consciência retornava ao aqui e agora. Ele havia chegado à fortaleza no deserto. Uma grande estrutura cercada por uma murada de madeiras pontiagudas, com torres de vigia nas pontas e preenchida por tendas recém-formadas, de onde saíam inúmeros Kishis para recebê-lo.

    A cada passo dado pelo patriarca, seus homens se curvavam. Passando pela pequena multidão, seu cavaleiro o saudava

    — Patriarca — se curvou por último, Susumo — eu suponho que já tenha lidado com Kusonoki.

    — Sim, e obrigado por isso — devolveu o frasco vazio — Está tudo em posição?

    — É claro. Agora, é uma questão de nossa primeira equipe ter sido bem-sucedida em desviá-los — levantou-se.

    — Tenho confiança de que fizeram a parte deles — Osíris e Susumo se viravam para o horizonte — Resta agora fazermos a nossa.

    A construção que surgia no horizonte para os gêmeos era de um acampamento, vigiado por Kishis nas extremidades e na entrada. O forte tornava-se maior a cada passo dado na sua direção, assim como o número de homens armados se fazia visível para a dupla. 

    Ao atingirem a entrada, uma fileira de oponentes se colocava entre eles e a construção. Por cima dos muros, Osíris surgia, de espada na cintura.

    — Podem tentar o quanto quiserem — dizia Hirojiyu dando de ombros — Não podem nos impedir de avançar até onde queremos.

    — O que adianta esse menosprezo se estão exatamente onde queríamos — respondia o Patriarca, cruzando os braços — No final, minha última equipe os desviou para cá.

    — Chegue mais perto e terá o mesmo destino deles — respondeu apontando a espada. 

    — Acho que é vocês que não tem outro destino — finalizou Osíris, descendo até a areia, atrás da linha. 

    Agindo como um só, Kishis plantaram os pés no chão e ergueram as mãos de baixo para cima. Os grãos de areia sob os pés dos gêmeos correram para a frente deles, formando um bloco maciço que os separava da fortaleza.

    — Não percebem que isso é inútil? — disse Hirojiyu, avançando contra o muro de areia.

    Embora seu irmão ataque, Nagajiyu ficou imóvel, de olho no que se passava acima deles, nas extremidades da fortaleza. Os Kishis acima deles preparavam seus arcos, mas não miravam na direção de seus inimigos imediatos. Quando a primeira flecha foi atirada, sua ponta flamejando rasgou o céu azul, enquanto Hirojiyu permanecia na tentativa de furar o bloqueio.

    Com cada golpe, os braços de Hirojiyu ficavam mais pesados. Enterrando sua lâmina no bloco de areia uma última vez, se apoiou no paredão ofegante, suando frio, quando ouviu seu irmão: 

    — Irmão, sai daí! — gritava, correndo na sua direção, carregando uma bomba. 

    Sem entender, Hirojiyu reparou nas sombras dos projéteis no chão. Avistando uma saraivada de flechas, atiradas de trás da fortaleza em sua direção. Sem tempo a perder, Nagajiyu quebrou a bomba nas próprias mãos, liberando a fumaça, que enrijeceu-se para protegê-los da chuva da morte.

    — Aquela areia… — balbuciava Hirojiyu — tem algo estranho nela.

    — Era uma armadilha. Estão testando nossos limites, devem ser os melhores que enfrentamos até então. 

    — Não se esqueça daquele plano, se formos surpreendidos — disse Hirojiyu agachado próximo ao irmão. 

    — Pensei que estivesse guardando para quando chegássemos à capital.

    — Eu sei mas… — de repente a areia se movia por entre suas pernas.

    O barulho das flechas colidindo contra a proteção de Nagajiyu cessou. Contudo, os gêmeos sentiram novamente a areia debaixo deles se moverem, exceto que dessa vez os grãos corriam ao redor deles, ganhando volume cada vez maior.

    — Esse é o próximo movimento deles — Nagajiyu criou um braço do gás de sua fumaça.

    A projeção da fumaça criada pelo gêmeo enfiou seus dedos rígidos por entre a duna que se formava ao redor deles. Nagajiyu tentava abrir caminho com sua técnica, mas a quantidade de areia era imensa. 

    Poderiam as flechas terem sido uma distração? A fumaça usada para nos proteger serviu de bloqueio visual para eles.”, pensava “Isso está muito pesado, eu consigo impedir essa massa de nos soterrar mas não abrir caminho…”. Foi então que olhou para o chão e viu as flechas caídas. As suas pontas brilhavam com uma energia que emanava das pontas.

    — Hiro — chamou Nagajiyu — Você disse que tinha algo nas areias. 

    — Era algo… que me enfraquecia — ele cambaleava. 

    — Não é possível — praguejou para si mesmo, jogando uma bomba inflamável de sua bolsa para seu irmão — Pegue a bomba, e espere o meu sinal!

    Do lado de fora da fumaça, por trás da muralha, Osíris orientava a linha de Kishis. O bloco de areia que ergueram a frente da construção estava mais fino, ao passo que uma parte daquela areia escoava na direção da fumaça dos gêmeos.

    — Patriarca, nossas flechas ocuparam o território inimigo — avisou o arqueiro do alto do forte.

    — Então já estamos posicionados. Podem enterrá-los — sinalizou o patriarca, acenando para a linha de Kishis.

    As ordens de Osíris resultaram na muralha de areia se dissolvendo pelo deserto criando uma forte onda. Além de soterrar tudo a sua volta, a fumaça de Nagajiyu se dispersava no ar aos poucos, revelando os dois gêmeos cobertos de areia até o pescoço.

    — Patriarca, nós devemos… — perguntou Susumo, mas foi interrompido.

    — Deixe comigo — respondeu, indo na direção de seus inimigos.

    Enquanto Hirojiyu se contorcia dentro da areia, esforçando-se para fugir daquela prisão, seu irmão trocou olhares com o homem que via na sua direção por alguns segundos. O sol que castigava sua face, foi bloqueado pela sombra do corpo de Osíris.

    — Poupe a sua voz — gritou Nagajiyu — Você não sabe de onde viemos, pelo que passamos. Pensa que somos só uma dupla de arruaceiros?! Que ficar parado aí na minha frente vai me intimidar?

    — Eu sei quem são, e é por isso que sei que vocês não tem outro destino — dizia Osíris, abaixando a cabeça — Vocês causaram sofrimento demais a pessoas que nem sequer tomaram parte na tragédia de vocês.

    — Sofrimentos demais? — Nagajiyu esboçou um sorriso de deboche — A dívida de vocês não está nem perto de ser paga!

    — Não medirei esforços para proteger meu povo. 

    — Seu povo? — disse Nagajiyu arregalando os olhos — Você… 

    — Vou arrancar sua cabeça! — gritou Hirojiyu ainda se contorcendo. 

    Balançando a cabeça negativamente, Osíris apenas deu as costas, quando o nível da areia começou a subir mais uma vez. Agora, chegando ao queixo e se aproximando das bocas dos gêmeos, Nagajiyu gritou!

    — Hiro, é agora!

    A areia terminou de cobrir os gêmeos. Os Kishis na fortaleza espiavam por cima da muralha de areia e repararam no rosto desapontado de Osíris, que fazia seu retorno quando uma explosão eclodiu debaixo da terra. 

     O patriarca virou a cabeça por cima dos ombros, levando as mãos à sua espada na cintura, quando o chão começou a estremecer. 

    De repente, uma mão brotou daquelas areias. Se levantando estava Hirojiyu, que carregava Nagajiyu no seu outro braço. O primeiro estava coberto de pólvora, com as roupas rasgadas e o cabelo solto. As veias de seu corpo saltavam a cada inspiração e seus olhos caçavam sua próxima presa.

    — Impossível — sussurrou Osíris para si mesmo, puxando sua espada.

    No entanto, o patriarca viu uma segunda parede de areia se projetar na sua frente antes que pudesse tomar qualquer ação.

    — O que vocês fizeram? — exclamou ele — Eu não falei para interferirem!

    — Patriarca, nós cuidamos disso — um Susumo o puxou para trás.

    — Isso não está certo. Ele está diferente…

    A segunda barreira se formava mais a frente do que antes. No primeiro choque, o ataque de Hirojiyu fez saltar os grãos da construção dos Kishis. Apenas com as mãos nuas, o gêmeo continuou surrando o paredão, que abria rachaduras em cada soco. Por fim, aos gritos, ele enfiou os dedos entre uma das fendas e abriu a muralha com as próprias mãos. Revelando metade de seu corpo coberto por uma mancha preta, acompanhado com outras marcas da mesma cor, brilhantes. 

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