Capítulo 69 - Equilíbrio
A areia escorria das metades do paredão sobre a cabeça de Hirojiyu, que as empurrou para os lados e saltou contra o primeiro Kishi que viu. Susumo, vendo o que se passava, chegou próximo do patriarca e o levou para dentro da fortaleza.
Enquanto isso, o Kuro pegava sua primeira vítima pela armadura e arrastava pelo chão antes de arremessá-lo contra outro oponente. Mais atrás, Nagajiyu contemplava o buraco aberto pela explosão.
“O impacto foi maior do que pensei. Hirojiyu, você sempre se arrisca porque pode aguentar para depois jogar tudo de volta nos outros. Apesar do que pode fazer, posso ver que soltar isso te machuca”, refletia enquanto olhava para a luta que se passava na frente. “Eu gostaria que houvesse outra maneira”.
Os Kishis restantes da linha de frente se juntaram, criando um aríete que acertou Hirojiyu bem no peito, mas ele não se moveu um centímetro sequer. Após absorver o impacto, ele apoiou as mãos no construto de areia e o empurrou contra os inimigos. Com todos derrubados, ele ergueu a perna direita e com um mero pisão, abriu rachaduras na fortaleza, que balançou no lugar.
Os homens ergueram-se do chão para atacá-lo com suas espadas, mas o Kuro sacou sua própria lâmina e usando de seu próprio corpo como escudo, enterrou sua arma nos inimigos um por um. Ao final de sua carnificina, suas feridas pulsavam por todo o seu corpo, assim como a cicatriz de seu rosto.
— Irmão — Nagajiyu chegava por trás.
Tomado pela situação, o gêmeo ensandecido soltou uma interjeição gutural ao seu irmão, o empurrando para o lado.
— Eu vou destruí-lo — disse Hirojiyu, caminhando até a fortaleza.
Os arqueiros dos fundos se adiantaram para atacá-lo, mas os ignorando por completo, Hirojiyu atacou a estrutura que circundava o complexo. Ele agarrou a base do muro externo e forçou toda a entrada do acampamento para baixo. O feito comprometeu a estrutura de todo o local, que colapsou diante dos olhos de um Nagajiyu boquiaberto.
A poeira assentou sobre o terreno. Os Kishis que sobraram arrastavam-se no chão em busca de ajuda, preenchendo o silêncio fúnebre com gemidos de dor. Hirojiyu por sua vez, ajoelhava-se no chão ofegante, enquanto seu irmão se aproximava.
— Agora entende porque não queria usar esse plano? — disse Nagajiyu.
— É o que nos resta! Isso sempre foi uma viagem só de ida — se reergueu.
— Então trata de se manter vivo até acabarmos com isso!
A dupla passou a ouvir passos na fumaça. Nagajiyu tomava a frente, tentando enxergar através dos raios sol que penetravam na poeira que se dissipava.
— Isso acaba aqui — disse Osíris, revelando-se, com a espada em mãos.
— Então esse é o seu povo? Está no comando desse território?
— Sou o Patriarca Osíris, pois sou o cabeça não só da família Kiiro mas do povo que dela descende, designado pelo Deus Sol. Eu darei minha vida pelos que protejo!
— Disse que nos conhecia — cerrava os punhos — Então foi você?
— Sim, fui eu.
— V-Você… Depois de todos esses anos… — Nagajiyu sacou uma bomba — Tem ideia do que fez?!
— Absoluta — apontou a espada — Por isso não devo baixar a guarda. Protegerei meu povo das consequências do assassinato de seu rei.
— Sai da minha frente, Nagajiyu! — gritou Hirojiyu, correndo até o patriarca, que apenas encarava o solo, quando os dois colidiram espadas.
— O homem que matou não era só um rei. Era nosso pai!
Entre os berros, os golpes de Hirojiyu foram aparados pelo patriarca, que continuava fitando os olhos no chão. Sua pele tinha um brilho tímido e emitia um calor forte ao menor toque. Quando cruzaram espadas mais uma vez, Osíris aproveitou para desferir uma cotovelada, que passou rente às bochechas do gêmeo, que desviou. No entanto, seu rosto saiu queimado superficialmente.
A seguir, Nagajiyu arremessou sua bomba, que criou uma nuvem negra do qual ele ficou atrás para guiá-la. De repente, saltando da escuridão, Osíris agarrou o rapaz pelo pescoço e pressionou.
— Eu não preciso vê-lo para saber onde está.
— Hiro… Jiyu… — chamou Nagajiyu por seu gêmeo, com a voz sufocada.
Lutando por ar, ele sacou sua adaga mas foi impedido pela mão livre do patriarca, que amassou a arma com as próprias mãos. Sem o seu regente, a fumaça perdia força e era soprada pelos ventos. Hirojiyu surgia da penumbra pouco depois, com espada em mãos, pronto para atacar Osíris, que com um simples gesto, ergueu um bloco menor de areia no chão.
De imediato, Hirojiyu tentou separá-lo com as próprias mãos, mas sentiu um calor penetrando a formação. Seus dedos queimaram com a força, enquanto com um leve soco, Osíris emitiu uma brasa que transformou seu bloco em vidro bem nas mãos do gêmeo. Tomando impulso, o patriarca desferiu um soco através da grossa camada translúcida, estilhaçando o objeto junto com seu adversário, que foi arremessado até o chão.
“Você é bom, mas ainda precisa respirar…”, concluiu Nagajiyu. Prestes a desmaiar, ele uniu o restante de suas forças usando gás na garganta de Osíris para sufocá-lo.
O patriarca soltou sua presa naquele mesmo segundo, puxando ar às pressas, embora sem sucesso. Recompondo-se, Nagajiyu pegou sua adaga partida, se aproximando de Osíris, cujo brilho da sua técnica minguava enquanto o mesmo cuspia sangue.
— Vou tirar de você o mínimo — dizia Nagajiyu, erguendo a sua lâmina — Comparado ao que fez com a gente.
Contudo, quando estava para finalizá-lo, uma espada surge dos flancos, desarmando o Kuro. Em um movimento rápido, Nagajiyu ergue sua guarda para defender e o próximo golpe separa um de seus dedos das mãos. A dor retira um grito de desespero da sua garganta, na mesma medida que o sangue escorre pela sua palma.
— Está tudo bem, patriarca? — perguntou Susumo, levantando sua espada manchada de sangue.
— Estou — respondeu Osíris, recuperando o fôlego enquanto era erguido por seu cavaleiro — Mas fique atento. Isso ainda não acabou — reparou em Hirojiyu chegando por trás.
O patriarca e seu cavaleiro deram as costas um para o outro. Por sua vez, Nagajiyu reunia o que restou de sua fumaça em uma nuvem menor, enquanto Hirojiyu caminhava sobre os cacos de vidro deixados pelo último ataque de Osíris. Costa a costa, os dois se defrontam com um gêmeo de cada lado.
— Toda essa destruição, o que aconteceu?
— Começou com uma bomba que explodiu neste rapaz na minha frente. Ele parece tê-la absorvido e converteu tudo aquilo em força.
— Pelos ferimentos ele parece estar no limite.
— Ele parece receber algum revés dessa habilidade, mas duvido que já tenha dado tudo de si — afirmou Osíris, limpando o sangue em sua boca — Susumo, eu não tenho muito tempo
— Prefere recuar agora, patriarca?
— Vamos recuar, sim, mas não fugir. Usaremos nosso último recurso.
— Alteza… — Susumo olhou por cima dos ombros para seu mestre — Deve haver outra maneira.
— Olha para mim. É a única maneira, eles escaparam do nosso plano original.
A névoa reunida por Nagajiyu, envolvia a dupla como um cerco. Do lado de fora dela, o gêmeo checava a quantidade de bombas disponíveis.
“Uma inflamável e uma de fumaça. Ainda posso manipular um pouco da bomba que desperdicei neles. Como esse cara passou da fumaça como se fosse nada? Está lutando com os olhos no chão. Ele sente minha presença?”, raciocinava Nagajiyu quando viu seu irmão avançar. “Droga!”.
Enquanto Hirojiyu pulava na fumaça, seu irmão concentrou a fumaça nos dois inimigos ao invés de rodeá-los. Em poucos segundos, Osíris saiu dela junto com Susumo, arrastando seu oponente consigo em combate.
Para cobrir seu irmão, Nagajiyu usou do gás restante para segurar um dos membros de Susumo, pouco antes de balançar sua espada contra Hirojiyu. Naquela fração de segundo, Osíris teve seu golpe bloqueado pela espada do Kuro, que girou para o outro lado em um chute contra o cavaleiro do patriarca.
O gêmeo e o líder dos Kiiro disputavam na força cada golpe, mas Susumo jogado ao chão, reconheceu um pedaço largo de vidro nas areias e o tomou, correndo na direção dos dois. Assim que Nagajiyu tentou usar sua fumaça, ele inclinou o objeto para o Sol e redirecionou sua luz até o rosto de seu oponente mais distante, que caiu temporariamente cego.
— Alteza, é agora! — gritou Susumo.
Deixando de trançar espadas com seu adversário, Osíris tomou Hirojiyu com um dos braços e o empurrou na direção do irmão gêmeo. Logo depois, as areias de deserto cresceram numa onda que cresceu, varrendo primeiro o Kuro combatente e depois aquele que lutava contra sua cegueira metros à frente.
— Conseguiu! — comentou Susumo, até ver Osíris desabar no chão — Senhor!
— Mais uma dessa, e não vou conseguir tirar aquilo das areias — comentou, sendo erguido por seu cavaleiro.
— Você vai ter todo o tempo que precisar. Já consegue ficar de pé?
— Ainda, mas e você? Quer mesmo fazer isso?
— Patriarca, se você vai, por que não eu?
— Eu nunca disse nada para você, mas é um bom cavaleiro, Susumo. Tenho orgulho de você.
— As coisas precisam ser mais feitas do que ditas, senhor — deixou Osíris, correndo até o lugar onde os gêmeos foram soterrados — melhor do que viver, é morrer com honra, fazendo o que nasci para fazer!

Longe dali, o sol abandonava o topo, se aproximando do horizonte como um ponteiro indicando a passagem do dia. Os ventos jogavam a areia por cima dos cadáveres insensíveis, exceto por um corpo mais afastado dos demais. O garoto era capaz de sentir a sua boca seca e a ardência em sua pele, ao mesmo tempo que a mente lutava para se manter acordado.
“Eu… eu vou morrer?”, pensou Yanaho, cegado pelo Sol. “Os Kiiro… foram os culpados por aquilo que aconteceu anos atrás. Meu pai, minha vila… até o Yuri. Onde isso vai acabar?”, esticou tentou agarrar aquela luz branca com as mãos, quando encarou a cicatriz na palma da sua mão.
— Ei, Yanaho! — ele delirava com a voz, o garoto tirou a mão da frente do rosto, revelando um sujeito robusto com vestes brancas estendendo o braço — não irá se levantar?
— Mestre Onochi? — sussurrava.
A visão de seu mestre derretia diante dele. Não conseguia enxergá-lo por completo, mas reconhecia seu sorriso e a mão que continuava estendida:
— Venha logo.
— Do que está falando? Não consigo me mexer. Eu nem sei bem o que vim fazer aqui… mas esses garotos sim, a culpa nem ao menos é deles.
— Então a culpa é nossa? — Duas sombras se aproximavam por trás.
— Hoshizora… Yasukasa… O que vocês…
— Disse que não reteria sua espada! — cruzou os braços Yasukasa, castigando o garoto com seus olhos amarelos.
— Eu… Não. A culpa não é de vocês.
— É sua culpa? — disse Suzaki chegando junto a Katsuo, Kazuya e outros mirins — Como você devia saber de tudo isso? Devia ter treinado mais ou lutado melhor?
— Talvez. Eu não sei.
No meio daquelas sombras, uma agachava para perto dele. Diferente das outras, ele via o rosto dessa com clareza.
— Pai? — dizia Yanaho, segurando os soluços.
— Você precisa se levantar para me ajudar — disse, Yoroho oferecendo a mão.
— Eu… Eu… Não consigo me mexer — tentava alcançar as mãos de seu pai — Eles estavam certos. Eu queria ser reconhecido, mas contra eles? É tudo… cruel demais — completou chorando desesperadamente.
— Lembre-se do pôr do sol — disse Yoroho, estendendo a mão — Prometeu que sempre acreditaria em si mesmo, por um mundo melhor.
— Lembre-se bem da promessa — disse Yasukasa, fazendo o mesmo.
— Lembre-se do que vamos mostrar aos nossos pais — dizia Suzaki repetindo o gesto — nós dois sempre vencemos juntos, porque não importava o quanto você caia, sempre se levantava de novo.
— Você não vai lutar, meu filho? — Yoroho repetiu a pergunta.
— Lu…tar? — questionou-se, vendo em um brilho emanar da sua ferida..
— Levante-se — disse Onochi, agarrando a mão direita — Faça o que é certo!
— Hora de acordar, — Yoroho pegava na mão esquerda — Yanaho.
Com seu nome chamado, o garoto despertou do transe. A dor permanecia, mas sua ferida ainda brilhava em vermelho. Percebia sua solidão em meio ao deserto, enquanto inspirava e expirava com dificuldade.
— Eu estava alucinando? — levava a mão à ferida — Estou vivo?!
Com a brisa aumentando a intensidade em meio ao deserto, o silêncio ao redor era pertubado por gritos e gemidos do mirim que ali estava. Os minutos passavam enquanto usava uma das mãos brilhando em cima do grave ferimento, puxando com a outra uma linha com agulha, costurando a própria pele.
“Não é o ideal para um corte desta profundidade, mas estou quase lá… logo irei conseguir me levantar”, pensou enquanto observava uma trilha de pegadas. “E-eu vou atrás de vocês, com certeza”.
Os pensamentos de Yanaho eram como uma ordem. Cada vez que a agulha penetrava em sua pele, um gemido de dor, ao mesmo tempo que usava da sua energia vermelha para estancar o sangramento.
Após longos e dolorosos minutos, o jovem se levantava com a vista duplicada e o estômago anestesiado de dor. Vagando pelo deserto, ele podia ver alguns restos dos Senshis e Kishis que morreram a pouco, antes de assobiar para um cavalo à vista.
“A missão ainda não acabou”, forçou-se a montar no animal que chegava ao seu encontro.

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