Índice de Capítulo

    Em Oásis, os olhos tímidos de Kusonoki se abriram encarando o teto de um edifício desconhecido. Recobrando a consciência, o sujeito se erguia com seus ouvidos perturbados por discussões na sala ao lado, porém o peso de seu corpo o jogou na cama novamente. Aos poucos, sentiu passos pesados indo até ele. Virando a cabeça, viu uma garota que carregava um copo d’água em sua direção:

    — Senhor Kusonoki, finalmente acordou.

    — Princesa Hoshizora? Deviam ter ido embora e… — pegava a bebida e, prestes a bebê-la, encarava o líquido por um momento — o que está havendo?

    O Principal ficou sentado na cama com a ajuda de Hoshizora, quando ouviu gritos vindos da sala ao lado:

    — Como podem ser tão incompetentes?! Eu quero saber onde está meu pai! 

    — Ele sumiu e voltamos da evacuação a pouco tempo — dizia Hoshizora, de cabeça baixa e voz trêmula — depois que minha irmã soube que a pirâmide foi erguida. Não sabemos o que houve e você não acordava e…

    Sem perder tempo, Kusonoki ficou de pé, indo até a sala na qual Yasukasa berrava. Ao abrir a porta pôde vê-la apontando dedos aos Senshis, enquanto era segurada por sua mãe.

    — Já falei, alteza, o patriarca havia informado que partiria junto com vocês na evacuação — um deles se explicava — Houve algum engano.

    — Chega Yasu, eles não sabem de nada! — a mãe a puxava pela manga. 

    — Eu fui o engano — afirmou Kusonoki, revelando-se — Ele enganou a todos nós. 

    — Você! — Yasukasa correu pegando Kusonoki pelo uniforme — Onde é que ele está? — perguntou com os olhos prestes a saltar de seu rosto. 

    — Ele quis se responsabilizar por tudo. Eu queria impedi-lo, pensei que estava de acordo, mas terminei derrubado por um sonífero — abaixou a cabeça, mordendo a mandíbula — sabe bem onde ele está. 

    Respirando fundo, Yasukasa soltou o Senshi e chamou seus homens para perto.

    — Precisamos ir!

    — Do que está falando, Yasukasa! — gritou sua mãe.

    — Eu não vou ficar parada — interrompia a passada após cruzar a porta para olhar sua irmã — Espero que vocês fiquem aqui até eu voltar.   

    — Eu vou com você — disse Kusonoki, chamando a atenção da sala — Se aqui ainda não foi invadido, pode haver tempo!

    Com a máxima pressa, eles deixaram Oásis à caminho da pirâmide. Todos portavam lanternas de fogo penduradas em seus cavalos, além de estarem cobertos da cabeça aos pés para se protegerem do frio da noite que viria após o pôr do sol que se apresentava.

    Quando os barulhos cessaram, tudo que Yanaho podia escutar era o escorrer da areia pela estrutura. Do buraco no topo, ele pôde ver peças de roupa caindo no chão. Pouco depois, a saída surgiu perto dele.

    — Senhor Patriarca? — cogitou a saída, mas decidiu ir até as roupas caídas — conseguimos? — perguntou, sendo respondido pelo silêncio.

    Quando se aproximou do local, a luz que descia do topo da pirâmide o permitiu reconhecer as vestes diante dele. Caindo de joelhos, o mirim vasculhou as calças, a camisa, a túnica, virou algumas peças do avesso, sem encontrar nenhum vestígio.

    — Então você… Eu n-não sabia… — apertou o tecido da túnica — Não era pra acabar assim! Como você pôde? Agora… Só restou eu? 

    Enquanto apertava as vestes, sentiu um objeto nos bolsos da roupa. Ele retirou o objeto e o colocou contra a luz para enxergar. Era uma peça de tabuleiro, com uma coroa entalhada na ponta. 

    “Pelo menos, seu sacrifício não foi em vão”, respirou aliviado, deixando o objeto para repousar junto às roupas debaixo da luz. De repente, algo do lado de fora captou sua atenção:

    — Não! — tão somente o berro arrepiou Yanaho — Você não! 

    Disparando para o lado de fora, perto da base onde os irmãos tentaram se proteger, ele os encontrou na areia. Aquele que saltara contra o ataque de Osíris estava torrado. A maior parte do tronco descascado e enegrecido e seu cabelo fora pulverizado. Por fim, seus olhos, mesmo abertos, estavam sem vida. Ao seu lado, estava Nagajiyu na tentativa de reanimá-lo.

    O irmão sobrevivente estava com suas largas mangas rasgadas, braços chamuscados à mostra e pernas superficialmente queimadas. Quando escutou passos de trás, virou-se, trincando os dentes, revelando seu rosto desfigurado pela raiva. 

    — Você… — balbuciou antes de berrar outra vez — Você! — saltou contra o mirim.

    Após rolarem na areia, entre socos e arranhões, Yanaho saiu por cima, puxando sua espada. Nagajiyu revidou com uma joelhada bem no abdômen do mirim, que caiu para trás, que fazia o sangue voltar a molhar suas vestes por dentro.

    — Você vai pagar por tudo! — dizia Nagajiyu, com sua aura negra tomando seu corpo — Depois, de te matar. vou queimar essa droga de pirâmide e tudo que tiver depois dela nesse deserto maldito! — pegou a espada lascada de seu irmão nas areias

    O simples ato de ficar de pé fazia Yanaho gemer de dor pela ferida reaberta por Nagajiyu. Mesmo assim, ele subiu sua guarda e recebeu o golpe de seu oponente, que cambaleou alguns passos após o choque de metais. Na próxima, Yanaho plantou os pés mais atrás e tomou impulso.

    Quando o Kuro veio, o mirim balançou sua arma com força e pôde ouvir a lâmina do adversário trincar. O peso de seu ataque na guarda inimiga, fez com que o gêmeo restante se afastasse para recuperar o equilíbrio. 

    “Ele parece ter recuperado as energias, mesmo estando no limite, essa raiva o deixou em vantagem”, levou as mãos ao ferimento aberto, “Mal consigo me mexer com essa dor. Eu preciso usar o que me resta para um último Kazedamu, e…”, foi interrompido por mais um avanço

    — É assim que você queria, herói? Se é sangue que você quer, é o que vou te dar! — forçava o metal trincado contra o jovem. 

    — Já chega! — respondeu Yanaho, o forçando para trás.

    Da outra mão que lhe restava, arremessou areia na face de Nagajiyu o obrigando a se afastar. Assim Yanaho buscou unir suas palmas para ativar sua técnica, porém um avanço de seu inimigo o forçou a esquivar-se no último segundo.

    “Não pode ser!”, reparou no pequeno corte que ficou em seu pescoço, acompanhado por um vômito descontrolado na escura de sangue. 

    Aproximados pela disputa, Nagajiyu esfregava seus olhos, libertando sua visão comprometida, vendo o sangue escorrendo pelos dentes e nariz do rapaz. 

    — Eu sabia que teria que ter tempo para manusear a habilidade, se eu interrompesse o processo, o ar de seus pulmões pode se virar contra você certo? — apoiou seu corpo em Yanaho, o forçando a se sustentar com um joelho na areia — Sem essa técnica você não tem mais nada, assim como eu! 

    O ataque de Nagajiyu separou a espada das mãos de Yanaho. Exposto, o lutador desarmado moveu os braços para o peito esperando a estocada, que atravessou seu antebraço sem conseguir penetrar mais fundo em seu peito. Parados ali por um instante, o mirim reparou nos braços trêmulos de seu adversário, antes de tirar a lâmina de si e revidar com um soco.

    “Se ele lutasse um pouco melhor, eu já estaria morto. Droga, não posso morrer, só mais um pouco…”, se arrastou até sua arma. “O poder do patriarca deve ter prejudicado o material, eu posso partir a espada dele”.

    Assim que alcançou sua arma, sentiu Nagajiyu agarrá-lo por trás. Por baixo, recuou uma das pernas e levantou a sola contra o rosto do gêmeo.

    “Isso tudo não pode ser em vão, mas eu mal consigo erguer minha espada”, pensou, arregalando os olhos, apoiado em seu joelho direito, revisitando de repente uma memória antiga:

    Um garoto de vestes e cabelo azul o olhava de baixo para cima, o reprovando com a cabeça. 

    — É impossível existir dois vencedores nessa luta. Ele mal consegue segurar a espada. Eu me recuso a machucá-lo.

    — Enquanto um de vocês estiverem no chão e o outro em pé, a luta não acaba. Continuem!

    Ao passo que a criança se levantava para prosseguir o ensinamento de Onochi no passado, o mirim de hoje também erguia-se no presente.

    “Eu sempre vencia na insistência, não é? Suzaki?”, fechou seus olhos, respirando fundo. 

    — Maldito seja você… Isso é tudo culpa sua! Por que não morre de uma vez?!  — disse Nagajiyu avançando novamente. 

    “Apenas concentre-se”, fazia das palavras dos ensinamentos nesses anos com seu mestre, serem suas. “Mesmo que o descontrole te deixe mais poderoso, ele sempre opera além de seus limites. Controle-se”, expirando e inspirando fundo, martela os antigos ensinamentos em sua mente.

    — Você nunca teve pelo quê lutar! Isso nunca foi sobre você! — os gritos de Nagajiyu caíram em ouvidos surdos tanto quanto seus ataques acertavam o ar.

    “Garantindo seu controle você poderá moldar a luta, da forma que quiser”, levantou sua arma para bloquear Nagajiyu com ângulos diferentes, explorando as rachaduras que reparava na espada. Após algumas tentativas, era o Kuro que desacelerou com o cansaço.

    Percebendo a oportunidade, Yanaho afastou-se e segurando sua espada com as duas mãos, atirou-a contra o inimigo. Num ato reflexo, Nagajiyu se defendeu com a arma de seu irmão que se estilhaçou em suas mãos, após o bloqueio. Contudo, o mirim usava daquele tempo para unir suas mãos uma vez mais. 

    — Não vou deixar! — correu Nagajiyu.

    Ainda sem chegar a tempo, Nagajiyu suportou o sopro do fraco kazedamu, plantando os pés na areia. De joelhos pelo esforço despendido, Yanaho sentiu algo subir na garganta e vomitou sangue nas próprias mãos, parando assim o ataque. Com Nagajiyu ainda de pé, seus olhos foram guiados pela única espada restante ao lado.

    — Se quer tanto ser um herói… — se jogou na espada para agarrá-la — agora, morrerá junto com eles! — erguendo os olhos viu a mão esquerda do garoto estendida.

    Em vez de um ataque frontal, Yanaho soprou um vento nas costas de Nagajiyu, tirando seus pés do chão. O corpo fraco do Kuro não resistiu e foi varrido até seu oponente que preparava por entre os dedos ensanguentados, seu punho que brilhava em rubi, Nagajiyu percebia arregalando os olhos. 

    “Ele fingiu que tinha usado todo poder, só para me atrair para um último golpe?!”, não conseguia se mover, exposto ao ar livre.

    “Vou insistir, sempre acreditando em mim mesmo…”, em um impulso, saltou na direção do oponente. “Com toda força que eu tenho, toda a que eu não tenho e a que nunca tive…”, completava pensando alto, berrando em um último golpe na boca do estômago do inimigo:

    — Eu não vou morrer!

    O soco perdurou por alguns segundos, sangue saia pelas narinas de Yanaho, enquanto gritos de dor e determinação dos dois perturbavam o deserto. O impacto logo depois veio a arremessar o que recebeu o ataque por alguns metros, já nocauteado.

    Yanaho desabava nas areias, chegando às lágrimas de tanta dor, embora consciente. Seu oponente tinha aterrissado próximo do irmão e estava tão imóvel quanto. Pelo caminho, estava sua espada, abandonada por Nagajiyu durante o golpe. 

    Enquanto caminhava até os dois, ele a pegou das areias, reparando um espasmo acompanhado por tosses secas de sangue. Nagajiyu apenas observava Yanaho de pé diante dele, sequer erguendo o pescoço para fitá-lo nos olhos.

    Quando Yanaho aproximou o metal próximo ao pescoço do oponente prestes a finalizá-lo. O gêmeo restante podia ver seu reflexo no metal à espera da morte quando de repente um terceiro cochichava próximo deles. 

    — Naga…Jiyu — a chamada do irmão queimado, fazia o garoto de pé e o nocauteado arregalaram os olhos — Já é quase noite. O pai está esperando por nós. Que tal… irmos para casa? — lágrimas escorriam pelo rosto enegrecido e desprovido de consciência de Hirojiyu. 

    O rapaz inclinou a cabeça na direção do irmão, sua respiração aguda era pontuada somente pelo esforço de estridente que lutava para escapar da garganta.

    — Está vivo… — disse Nagajiyu

    Imediatamente os braços que seguravam a empunhadura da lâmina pronta para acabar com a luta que perdurou todo o dia, se tornaram trêmulos, o fluxo de respiração de Yanaho mudou, embora o rosto do assassino à sua frente permanecesse inexpressivo. 

    Nagajiyu tentava esticar a mão na direção do irmão, mal conseguindo a levantar, enquanto o suor escorria pelas sobrancelhas do Aka.

    — Se não voltarmos para casa — continuou Hirojiyu, entre tosses — Nosso pai ficará preocupado… Você quer ir para casa não é, maninho? — o delírio continuava. 

    — Irmão — lágrimas desciam no rosto sem expressão — poupe as palavras, por favor. 

    O garoto da capa vermelha, fez uma expressão de desespero enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, engolia seco antes de soltar um leve grito, completando o movimento, deixando a espada antes trêmula, intacta, de uma vez por todas enterrando-a. 

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