Índice de Capítulo

    Um alce cruzava a floresta pálida em busca de folhas naqueles galhos secos pelo inverno, enquanto três mirins o vigiavam rondando pelos arbustos, sem movimentos bruscos.

    — É ele — apontou Yanaho, — sabia que estávamos na direção certa.

    — Eu mal consigo sentir a energia Aka nesse frio, poxa — tremia Katsuo. — Muito menos o pouco de sangue que os professores marcam nos animais. 

    — Kazuya, quando eu der o tiro, você vai até ele para contê-lo, tudo bem? — perguntou Yanaho, erguendo a cabeça para olhar o parceiro nos olhos.

    O companheiro dos dois não respondeu, mas o aprendiz de Onochi não perdeu tempo, preparando o disparo até que um segundo trio invadiu seu campo de visão. O garoto recuou, percebendo uma garota prestes a atirar ao tempo que um rosto reconhecido saia de trás dela. 

    “Você de novo?”, pensou, declinando sua flecha.

    — O que está fazendo? — perguntou Katsuo.

    — Outro trio está competindo com a gente — guardou o arco nas costas. — Quer saber, eu sinto o segundo animal por perto, melhor tentarmos esse.

    — Mas ele já estava na mira, poxa — reclamou o amigo. 

    — E depois vamos lutar nessas condições? Podemos apenas se preocupar com o animal. 

    O tiro da garota fez o animal gritar, ao tempo que Katsuo ergueu os olhos da mata para notar Yukirama pisando no corpo do animal já inconsciente:

    — Por que é sempre o Yukirama? Você não é disso, Yanaho. 

    — Só acredite em mim. Não é por ele, afinal, Masori atira melhor que eu. 

    Apesar da discordância, o trio seguiu mais para leste. O garoto sentia a presença do animal, mas não via nada que indicasse sua posição. Foi quando começou a subir numa árvore.

    — Alguém se aproxima, fiquem atentos.

    — Espera, tirou a gente de uma luta para outra? — se espantou Katsuo.

    — Eles estão longe — chegou num galho com um bom ângulo para o terreno. — Vai dar tempo de fazer tudo.

    No topo daquela árvore, Yanaho podia ver com clareza uma raposa de pelos vermelhos e patas negras vagando pela neve. 

    Ao disparar, a flecha perdeu o animal, retirando fios de sua cauda. Assustado, o animal começou a correr para longe, quando o galho que sustentava o aprendiz de Onochi rompeu. Yanaho caiu contra as folhas secas. 

    — Yanaho! — ouviu os gritos de Katsuo — Eles chegaram!

    “A raposa fugiu, por que estariam atrás da gente agora?” pensou Yanaho.

    Com a visão turva, sentiu os dedos do agressor apertarem sua cabeça, levantando-o do chão. Os zumbidos penetravam no seu bom senso pelos ouvidos enquanto era arremessado contra o tronco da árvore que subira.

    — Você está bem? Não quero pegar pesado antes do teste — perguntou o adversário que a visão de Yanaho ainda não distinguia.

    — Eu… — encarou o adversário, — não preciso que pegue leve comigo… Usagi.

    — Vamos — jogou a espada de madeira ao garoto — quero ver se não precisa mesmo — terminou rindo em postura.

    Ao desembainhar sua espada, Yanaho procurou acertar a cabeça do adversário por primeiro. Com a guarda levantada, Usagi permitiu que o camponês acertasse um chute no estômago, que para sua surpresa não fez o mais experiente dos mirins mover um centímetro sequer para trás. 

    — Nada mal, mas — disse Usagi, pegando no pé de Yanaho, — o que adianta conseguir abertura se não canaliza sua energia no golpe? 

    Girou o corpo de Yanaho o acertando de costas contra o solo, sendo nocauteado diante do adversário. Usagi bateu as mãos limpando a poeira chamando:

    — Vamos Effei! Aiko está próxima da caça. Precisa de nós. 

    — Tá certo! — correspondeu seguindo os passos do mirim de grande estatura. 

    Depois do embate, Yanaho foi encontrado por seus parceiros.

    — Você está bem? — ajudava a se erguer. 

    — A raposa se perdeu, ainda podemos achar ela — balbuciava.

    — Tá brincando? Eles acabaram com a gente.

    — Droga! — levou as mãos à cabeça — Que dor, nem consigo sentir os animais. — Usagi realmente corresponde a suas notas. 

    — Perdemos muito tempo, talvez todos foram caçados, poxa — disse Katsuo, jogando a espada de madeira no colo do garoto. — Nós perdemos, Yanaho, não entendeu?! — exclamou dando as costas, vagando sozinho. 

    Por sua vez, Kazuya acompanhou o filho de Yoroho permanecendo calado por todo o exercício. Os dois retornaram ao acampamento nos arredores da reserva florestal.

    — Que demora foi essa? — acenou Arata — Anda, quem perde faz o sacrifício. Vocês tem que arrumar o altar, tá ligado. O Katsuo já tá fazendo o trabalho por vocês.

    Nenhuma palavra foi dita entre o trio durante a montagem do altar. Juntaram alguns gravetos para o fogo, posicionaram uma tábua de mármore sobre a fogueira, quando Yanaho viu o trio de Yukirama chegando com o alce. 

    — Aqui, é todo de vocês, perdedores. Sabem acender um fogo pelo menos, né? — provocou Yukirama.

    — Já fez a sua parte — Usagi entrou no meio dos dois grupos — Deixa os meninos fazerem a deles.

    — Cuidado como fala, Usagi — apontou para a garota atrás dele. — Sua escolha para o primeiro exame não é tão capaz como você.

    — Não devia subestimar Aiko. Foi ela quem capturou a raposa para nós. Eu e Effei fomos apenas a distração. 

    — É, mas eu não sou o Yanaho — se despediu, sendo acompanhado pela sua equipe.

    Katsuo cerrou os punhos, já os outros dois membros do trio levantaram o animal para colocar no mármore. Em conjunto, Yanaho e Kazuya repousaram o cadáver e acenderam o fogo.

    — Você evitou enfrentar Yukirama, e acabou tendo que lidar com o Usagi que é o melhor da classe, poxa — lamentava Katsuo. 

    — O exercício era de caça, já disse — explicou Yanaho. — Eu não sabia que…

    — Sabia sim! — interrompeu Katsuo — Numa situação dessa não podemos escolher adversários. Você escolheu evitar o Yukirama e fugiu como está fazendo a semana toda.

    — Katsuo, não estamos prontos — justificou Yanaho.

    — Quando chegar a prova vai fugir da maleta que encontrarmos também? Mais uma falha e eu volto para casa, poxa. 

    — Nós teríamos mais chances sem você contra — interviu Kazuya, abrindo a boca pela primeira vez.

    Tanto Yanaho como Katsuo arregalaram os olhos para a fala de Kazuya que continuava:

    — Você não é ajuda. É evidente que Yanaho só te escolheu por serem amigos. Não é atoa que ele só está preocupado com as circunstâncias e não com o que precisa ser feito. A realidade é essa, você não é bom, Katsuo. 

    As palavras do mirim de grande estatura tornavam o clima pesado dentro do grupo, que foi dissolvido pela corrida de Katsuo para longe.

    — Espera Katsuo! — chamou Yanaho, sendo ignorado. 

    — Devia ter escolhido um terceiro membro mais capaz — disse Kazuya mantendo a mesma expressão de sempre.

    — E você podia medir suas palavras, quando abrir essa boca — apontou Yanaho. 

    — É apenas a verdade. 

    Por trás da dupla, o fogo crescia tomando proporções maiores, quando um dos mirins que realizava o sacrifício entrava no meio dos dois com a aura ativada. 

    — Saiam da frente. Não estão vendo que o fogo está subindo? É esse sacrifício que fazem a Kagutsuchi? Deixem suas brigas para depois! O Deus do fogo olha por nós e nos premia com a vitória se nossos sacrifícios agradarem a ele — disse Yachi com as mãos próximas a brasa.

    — Mas se está aqui, é porque perdeu. 

    — Já disse para medir as palavras, Kazuya! — repreendeu, afastando o mirim. 

    — Deixa ele. Perdi exatamente para poder cuidar do sacrifício pessoalmente. Para muitos isso é só uma formalidade, mas não para mim. Nakama está coletando as cinzas que restaram. Estamos plantando para colher na prova final. 

    — Seu irmão é esforçado, Yachi. Uma hora vocês serão Senshi’s como seu pai foi. 

    — Para sorte dele, espero que não — abaixou os braços — Pronto, as chamas voltaram ao normal. Vigiem e coletem as cinzas.

    Mais tarde naquele dia, os mirins fizeram sua viagem de retorno à capital. Yanaho encontrava seu quarto com a porta trancada e, sem intenção de incomodar seu amigo, foi aos alvos públicos do internato. Lá, o jovem pegou o primeiro arco que viu e começou a praticar.

    Apesar das tentativas, ainda não acertava o alvo como gostaria, mas o único remédio para o garoto era insistir nos tiros. De repente, uma mão pega no seu ombro, assustando o garoto que erra o alvo completamente. 

    — Precisava me atrapalhar assim? — virou o rosto, reconhecendo Masori. 

    — É que eu estava te procurando.

    — Quanto tempo até o Yukirama aparecer?

    — Yukirama está treinando. Posso vê-lo daqui. Você não? — perguntou Masori, esticando o pescoço para ver o terreno mais a frente.

    — Só espero que ele não me veja — deixou o arco na mesa.

    — Ele está mais preocupado com outra coisa. Yukirama treina, mas não aprende nada novo há meses — pegou o arco da mesa — Já virou uma birra dele.

    — Mas eu ainda tenho algo a aprender — apontou para o alvo. 

    — Todos nós, mas ele acha que consegue tudo sozinho. Deve ser por que ele se sente assim, muitos interpretam ele errado aqui. 

    — E acha que eu vejo ele como um valentão, bruto e egoísta? Nada disso! Eu penso que ele está certo. Seu pai, Yuri, foi um herói e eu — Yanaho bateu na mesa, — sou só uma piada de mau gosto com a memória dele.

    — Então você sabe sobre Yuri Goto, por isso que recuou na disputa do alce?

    A pergunta de Masori o fez se envergonhar, mas para seu alívio uma terceira pessoa chegava por trás dos dois, deitando sob a mesa. 

    — Aí que saco, lá vai você atirar de novo.

    — Falei para esperar no quarto, Emi — advertiu Masori, indo até a mesa. 

    — Eu não aguento mais esperar. Já chega ter sobrado na lista. Que vergonha! Como o Jin é selecionado e não eu?

    — Pelo menos ele não se atrasa nas formações — dizia Yanaho, percebendo a preguiça da garota.

    — A escolha por mérito às vezes é fachada — pegava alguns panos, — Tem muitos mirins aprovados por serem filhos de um Senshi importante. Por isso a Umi ficou junto dele.

    — Mas a Umi faz por merecer, Jin não. Quando vi aquela lista, quase dei na cara do Arata — Emi bateu forte na mesa. 

    — Só sei que a Umi vai ter que se virar com dois patetas no grupo, — disse Masori. — Escreve o seu nome na etiqueta antes de atirar, Yanaho, — entregava os panos. 

    Pegando o pincel com tinta da mesa, o camponês colocava seu nome e amarrava na ponta da seta:

    — Katsuo gostava de desenhar nas etiquetas. Ele decora tudo que pode, até as pedras dos estilingues. 

    — Uma coisa de cada vez, pega no arco de novo — interrompeu Masori, entregando o objeto.

    — Espera aí, por que você me ajudaria? Está na equipe do Yukirama.

    — Ele não é quem você pensa que é — ajustava o posicionamento de Yanaho. — Depois do Confilto da Providência, Yukirama e a mãe não foram mais os mesmos. Eles tinham o dinheiro e o suporte dos Senshi’s, claro, mas Yuri prometeu que voltaria e não voltou.

    Disparando a flecha, o garoto acertou no círculo externo ao central. 

    — Eu sei o que houve entre eles — pegou outra flecha — Eu consigo imaginar como deve ser humilhante, ter alguém fingindo que sabe mais sobre o pai dele do que ele mesmo. 

    — Você entendeu tudo errado. Olha, você está fazendo a mesma postura de novo — deu um tapa no cotovelo de Yanaho — Respira fundo e dispara.

    — Yukirama não odeia você porque acha que desrespeita seu pai, e sim porque você fica tentando honrar o que aconteceu. 

    — Mas Yuri foi um herói! 

    — A ordem de parar o conflito já havia sido dada, mas o pelotão do Yuri estava muito afastado. Para Yukirama, tudo podia ter sido evitado.

    — Mas ele salvou uma criança! O que ele devia ter feito?

    — Ele já se convenceu de que os Kiiro só queriam um refém. Ela poderia ter sido liberada cedo ou tarde.

    — E se não fosse?

    — Yukirama ainda teria um pai, e é só com isso que ele se importa. 

    Um silêncio tomou conta do pátio por alguns segundos. Yanaho respirava fundo como ordenado, lembrando-se do sorriso de Yoroho, atirou. A flecha desta vez foi bem no centro do alvo.

    — Pelo o que conheci de Yuri, ele não iria querer isso. 

    — Ele não está mais aqui para isso. Yukirama quer ser um Senshi para ter força e proteger a si mesmo em vez dos outros, para não terminar como seu pai. O máximo que eu posso fazer é não deixá-lo escapar da minha vista — completou apontando para o garoto treinando distante. 

    — E então, por que estava me procurando? 

    — Eu queria te pedir para perdoar ele. Ele só está machucado e por isso machuca os outros.

    — Sendo sincero, com os acontecimentos recentes, acabo esquecendo disso tudo com a cabeça quente. Mas agora, admito que talvez eu que devia me desculpar.

    — Talvez depois da primeira prova, vocês possam dar uma chance um ao outro — finalizou Masori, partindo junto a companheira. 

    O dia já dava lugar à noite no céu quando Yanaho retornava aos dormitórios. Do lado de fora, ele se sentou em um banco de frente ao prédio.

    “O que eu digo ao Katsuo, mãe?”, ponderava com os olhos na janela de seu quarto.

    Vagarosamente, um homem sentou-se ao seu lado.

    — O toque de recolher já foi acionado — disse Tomio. — Tem certeza que o quarto é mais assustador que o esporro do Arata?

    — Eu só tô confuso. 

    — São regras que devem ser cumpridas.

    — Não com isso. Com o serviço militar. Mirim, Senshi, tudo. Eu entrei aqui porque queria fazer minha vida valer a pena, mas agora não sei mais se aqui é o lugar certo.

    — Virar um  Senshi para valorizar a própria vida? — Tomio ria — Você é o primeiro que me diz isso.

    — Qual o problema?

    — Aqui de todos os lugares, é onde a sua vida é mais descartável. Somos instrumentos de guerra.

    — Devíamos arranjar uma forma de acabar com essas mortes desnecessárias, antes de qualquer conflito.  

    — Yanaho, morrer em batalha é um orgulho para um Senshi. Não treinamos para nos exibir em desfiles militares e sim para salvar vidas.

    — Tirando outras até a nossa própria? Onde está a justiça nisso?

    — Erguemos espadas, garoto, afiamos elas para proteção. Matar ou morrer é apenas consequência do que acreditamos. Você disse que escolheu servir porque queria dar valor à vida, mas algo que tem mais valor ainda, é dar a sua vida pelos outros. 

    — E como você fica já que sobreviveu às suas batalhas?

    — Carrego comigo os companheiros que ficaram para trás — puxou a manga mostrando a marca de Senshi no seu pulso. — E da mesma forma, pretendo morrer em serviço. De um jeito ou de outro, ensinar é uma batalha também. 

    — É isso, então — apertou os joelhos com força — realmente conheci um Senshi de verdade.

    Yanaho se lembrava do falecido cobrador de sua área, enquanto seu professor reparava na aflição do jovem. 

    — Esse Senshi não foi o primeiro nem será o último a morrer. Temos que estar prontos para isso, e então chegar ao fim tendo certeza que valeu a pena — levantou-se estendendo a mão. 

    — Obrigado, professor Tomio — acompanhou o superior.

    Seguindo o toque de recolher, o mirim adentrou o quarto onde seu companheiro já se encontrava descansando. 

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