Capítulo 57 - Renúncia
Escalando a torre pelo lado de fora, Suzaki se viu abrindo a janela devagar para pôr os pés para dentro. Era uma biblioteca, com prateleiras enfileiradas de ponta a ponta, abarrotada de livros, alguns empilhados até mesmo no chão, sem lugar nos móveis. Em especial uma dessas pilhas estava depositada em cima de uma escrivaninha.
Enquanto vasculhava livro a livro da pilha, seus olhos desviaram para um pergaminho, com texto ainda para ser completo na mesa, com a tinta no papel fresca.
— Os arquivos estão fechados à noite — disse uma voz vindo de trás no escuro, ao mesmo tempo que passos podiam ser ouvidos vindo na direção de Suzaki — E além do mais, o que um príncipe iria querer num beco sem saída desse?
— Vim confirmar uma coisa — pegou o pergaminho escrito da mesa e mostrou a ele — Daisuke.
Saindo da escuridão, o homem estava com a barba por fazer e com o cabelo bagunçado. Aproveitou para olhar Suzaki da cabeça aos pés, se projetando para frente, com a cabeça esticada, antes de pegar o documento.
— Esse é apenas o meu trabalho — deu de ombros — O mensageiro me conta tudo, eu escrevo e guardo nesse labirinto — gesticulou vagamente para as prateleiras — Para nunca mais ser visto ou falado.
— E se mais alguém descobrisse isso?
— Todos sabem, só não falam. Aquilo que não é falado, não existe. E o que não existe, não é falado. Algumas coisas estão melhores na escuridão — devolveu o pergaminho.
Um trovão sacudiu a torre, balançando a escrivaninha de forma a derrubar a pilha de livros dela no chão. Suzaki deu as costas ao guardião dos arquivos e voltou a ler o que tinha na mesa.
— “As minas de fulgur estão em nossa posse, finalmente, graças ao sucesso da missão. Todas as testemunhas foram silenciadas como requisitado” — amassou o papel — e isso existe, Daisuke?
— Até que seja colocada junto com as outras, sim.
— Por que eu fui para lá? Para baixar a guarda de Minoru? Fala para mim se eu só fui uma peça nesse jogo todo!
— Dividir a mina nunca foi uma opção, você deveria saber disso — dizia, indo para junto dele, remexendo nos pergaminhos na mesa — Depois do que aconteceu nas vilas, como você espera que os Tsuki sejam confrontados? Com Minoru os assaltos não vão parar e agora que expôs Ryo, estamos à beira de um confronto interno.
— O que vão fazer com tanto fulgur depois que essa disputa acabar? O que é tão importante?
— Você já sabe a resposta para isso — tirou do fundo dos papéis um mapa, com o nome “Hercínia” escrito no rodapé.
O coração de Suzaki pulou uma batida quando se deparou com a localização marcada, perto da fronteira com os Midori.
— Não foi o que você me disse na reunião — levantou a voz.
— Ainda não era a hora certa. Mas com você aqui neste lugar, procurando respostas, julgo que é chegada a hora de saber certas coisas.
— Vocês ainda não desistiram dos Midori e dos Aka mesmo depois de três anos — jogou o mapa na mesa, indo até a janela para ver a tempestade — Enquanto inocentes morrem todos os dias!
— Eu gostaria que essa luta fosse tão recente assim. No entanto, rivalidades antigas são difíceis de curar. Dentro e fora da nossa casa.
— Deve haver um jeito de impedir isso. Eu vi uma alternativa lá fora com os Kiiro, os Midori, até mesmo os Aka. Eles não querem guerra.
— O lado vencedor nunca quer — bateu no ombro de Suzaki.
— Ninguém pode querer! Farei tudo o que for preciso para evitar essa guerra — voltou-se para as prateleiras — está dispensado, Daisuke — ordenou pegando alguns documentos.
— Vou trancar a biblioteca. Volto ao amanhecer — caminhou até a saída — Pode ficar à vontade.
Daisuke fechou a porta, deixando o Heishi Celestial à sós com todos aqueles arquivos. Lembrando-se do que o último membro dos verdes havia lhe falado antes de regressar ao império:
— Você prometeu que mudará as coisas por lá, pois eu te digo que farei o que for preciso para melhorar tudo por aqui.
Sentado na poltrona, tomou o livro que estava no topo da pilha e o colocou na sua frente.
“Eu preciso cumprir essa promessa!”, pensou abrindo o livro.
—
O dia amanhecia, ainda coberto pelas mesmas nuvens carregadas, embora sem chuva. Quando Daisuke girou a chave, entrando na biblioteca, o jovem que se convidou para dentro na noite anterior ainda estava lá, desperto e debruçado sobre os livros. Contudo, ao menor som da entrada de alguém, Suzaki fechou o livro em suas mãos, o colocou de volta na quinta pilha que havia formado ao redor da mesa e foi embora.
— Para onde vai, alteza? — perguntou ele, sem receber qualquer resposta.
Olhando ao redor, Daisuke reparou mais e mais pilhas de livros deixadas pelo chão. Nos corredores, Suzaki disparava para os andares inferiores, atingindo a sala do trono, onde seu pai fazia uma pequena cerimônia.
Alguns Heishis faziam um corredor para Toshio passar por eles até chegar aos pés da escada que leva ao trono de Koji, onde se ajoelhou perante o imperador. A autoridade encontrou o Heishi no final das escadas, estendeu a mão para que ele se levanta-se e colocou o brinco em sua orelha direita.
— O que significa isso? — gritou Suzaki, invadindo o salão com olheiras profundas.
Todos os Heishis viraram-se para a entrada, na medida em que o príncipe passava por eles.
— Vai premiar um capitão incompetente? — apontou o dedo a Toshio.
— Como sempre uma pedra no sapato — respondeu Toshio se erguendo — Sou o novo barão da região de Nokyokai — disse com um sorriso.
— Não lembro de ter requisitado sua presença — disse Koji — Muito menos imundo desta forma e insultando meu confiado.
— Estive nos arquivos de Daisuke, pai — subiu um degrau da escada — Eu sei o que planeja e não pode ser desse jeito. Podemos vencer os Tsuki sem recorrer à guerra.
— Pode ser o Heishi Celestial, meu filho, mas não se engane: sou eu que mando por aqui — virou as costas subindo as escadas, sentando ao trono — Pensamos muito depois daquele fiasco na Vila da Providência e temos outro plano de ataque.
— Os reinos agora estão buscando paz, mesmo que não estejam também, precisamos ser os primeiros a buscar isso! — insistiu Suzaki — Não se pode dar ao luxo de arriscar outra incursão sem conhecer o inimigo ou vai perder tudo como nas minas.
— Nada foi perdido — Koji se voltou para Suzaki — Apesar de todas as suas interferências, nossa incursão não poderia ter dado mais certo.
— Minhas interferências? Eu busquei um acordo!
— Sim, um acordo que nos faria perder metade da mina, nos desarmar para a guerra e dividir nossas riquezas com ratos. Foram necessários ajustes, mas no final, entendemos que você funciona melhor sem conhecer todas as informações.
— O incêndio… — Suzaki lembrou-se de Ryo, então olhou para Toshio — Foi tudo você? Você matou aquelas pessoas deixando os Tsuki sabotarem as lâmpadas!
— Nós tentamos avisá-lo,— respondeu Toshio, ajeitando o brinco — mas você não escutou. Forçou o imperador a tomar a decisão necessária para retomar a mina. Suas ações mataram eles. Pelo menos no final, você nos devolveu o fulgur que tanto queríamos daqueles contrabandistas.
— Seu verme — pegava o barão pela manga do pescoço — Como pode fazer isso com aquelas pessoas?
De repente os dois eram cercados pelos Heishi’s ao redor, apontando armas para o garoto.
— Solte-o e se afaste, agora! — ordenou Koji.
Suzaki se recolhia diante o tapete azul da sala, enquanto Toshio apenas limpava a sujeira de seus ombros.
— Aquelas pessoas… elas eram inocentes. Elas não precisavam de muito para viver!
— Essas… pessoas de quem fala são de pouca importância — respondeu Koji — Elas jamais lutariam por nós. Mal possuem dinheiro para nos abastecer com os impostos. Ninguém sentirá falta delas. Seus amigos somos nós, que te demos tudo.
— Eu descobri uma coisa: a transferência de Imperador entre as famílias não pode ocorrer se o herdeiro do atual ocupar o cargo de Heishi Celestial — ergueu a cabeça, olhando nos olhos de Koji — Então foi para isso que me tornei Heishi Celestial? Para te manter no trono fazendo essas coisas?
— Você não se tornou, fui eu quem te fiz Heishi Celestial! Eu te dei tudo e o que teve a me oferecer em todos esses anos foram meios sucessos — riu, dando de ombros — E, agora, você ousa me julgar por exigir o que mereço depois de anos de investimento?
— Se esse é o retorno que preciso dar para ser digno — soltou as tiras de couro do corpo, liberando o suporte da lâmina — Eu renuncio a tudo isso — jogou sua espada no chão e desceu as escadas rumo à saída.
Koji cessou suas gargalhadas naquele instante, levantando-se do trono, andou até a espada jogada nos degraus. Erguendo-a do chão observava seu filho prestes a deixar a sala:
— Você só pode renunciar ao que te dei porque eu não posso trazer de volta o tempo que dediquei! — gritou Koji para Suzaki, que parou imediatamente de andar — É muito fácil virar as costas depois de tudo dito e feito. Se aproveitou de tudo e agora me vira as costas. Grande filho você é.
— E quanto ao filho de Asami? Ele foi um grande filho? — respondeu Suzaki, Koji empalideceu — Nos arquivos de Daisuke, eu li sobre uma mulher que foi morta depois de dar a luz a um filho de alguém da casa de Sora. Cadê ele? Quantas outras crianças vivem hoje na sarjeta por que vocês se aproveitaram das outras pessoas?
— Ora seu… — se interrompeu com um sorriso de canto — É ingênuo pensar que só eu guardo segredos. Quando planejava me contar daquele camponês dos Aka? — cruzou os braços.
“Masao contou…”, raciocinou Suzaki, que rangia os dentes, “Como ele pôde?”.
— É tão ingênuo que acredita na amizade de um inimigo e rejeita do próprio pai. Você está se tornando algo além da decepção de seu irmão, Suzaki! — percebendo que o príncipe não dava ouvidos, o imperador continuou — Volte para seu quarto e reflita sobre o que disse e fez nestes últimos dias. Terá tempo para me pedir desculpas depois.
Chegando na porta, Suzaki virou a cabeça para trás uma última vez, com os olhos brilhantes em azul.
— Eu não vou voltar. Nunca mais — saiu correndo.
— Sabe que não pode fugir de mim! — correu até a porta — Venha já aqui, Suzaki!

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