Capítulo 106: Sem Direito à Ressurreição
Embora cada um tivesse suas próprias desconfianças, no fim decidiram se juntar ao “Portão do Paraíso”. Afinal, a maioria não sabia nada sobre esse mundo. Agora que alguém apareceu prometendo com tanta convicção que “era possível sair”, qualquer um iria querer dar uma olhada.
Kim Wonhun estava prestes a levar o grupo embora quando Qi Xia bateu o olho na estradinha ao lado da praça. Ele já tinha passado por lá uma vez; o caminho levava ao jogo mais seguro da “Terra do Fim”. Um “Dao” em troca de um “Dao”, sem nenhum perigo o tempo todo, quase como um passeio turístico.
Se fosse possível, Qi Xia queria ver o Rato Humano para pedir desculpas à criança.
“Pessoal, podem ir na frente com Kim Wonhun, eu encontro vocês em seguida”, disse Qi Xia, recuando calado para o fim do grupo.
Kim Wonhun ficou confuso ao ouvir aquilo. “Irmão, encontra a gente em seguida? Você sabe onde fica a nossa organização?”
Percebendo o deslize, Qi Xia se corrigiu: “Eu esqueci de perguntar. Me desenha um mapa.”
Kim Wonhun assentiu, tirando um mapa já preparado do peito e entregando a Qi Xia. “A nossa organização fica numa escola, assim. Esse é o mapa que eu desenhei antes.”
Qiao Jiajin olhou para Qi Xia pensativo. “Moleque Golpista, o que você vai fazer?”
“Só vou dar uma volta por aqui”, respondeu Qi Xia. “Não vou demorar muito.”
“Eu vou com você.” Qiao Jiajin olhou em volta, meio cauteloso. “Não consigo deixar de achar esse lugar esquisito.”
“Comigo?” Qi Xia lançou um olhar confuso para ele.
“Pois é, a gente não formou uma parceria?” Qiao Jiajin abriu um sorriso animado. “Você é o meu ‘cérebro’. Se você se perder, eu não consigo voltar.”
Qi Xia assentiu, aliviado. Mesmo que Qiao Jiajin não lembrasse do que tinha acontecido antes, ele continuava sendo o mesmo.
“Nesse caso…” Kim Wonhun parou na frente dos dois. “Irmãos, eu vou levar o resto do pessoal para a organização. Tomem cuidado.”
“Moleque Golpista, aonde a gente vai dar uma volta?” perguntou Qiao Jiajin, espreguiçando-se.
“Vem comigo”, respondeu Qi Xia com uma expressão calma, guiando Qiao Jiajin para a estradinha.
Os dois caminharam um bom tempo pela viela, enquanto Qi Xia procurava o pequeno armazém do Rato Humano guiado pela memória. Embora o armazém fosse pequeno, carregava toda a esperança do Rato Humano. Ela devia ter coletado todo tipo de bugigangas de vários lugares e depois projetado o jogo com todo o cuidado.
Mas Qi Xia tinha destruído tudo.
Se conseguisse encontrá-la dessa vez, não custava nada dar algumas sugestões razoáveis para melhorar o jogo e ajudá-la a ganhar mais “Dao”, como uma forma de pedir desculpas.
“Que estranho…” Qi Xia deu uma boa olhada na rua e não viu ninguém na frente de nenhum dos edifícios. “Será que eu errei o caminho?” murmurou ele para si mesmo.
“Você tá procurando alguma coisa?” perguntou Qiao Jiajin, confuso.
“Eu…” A palavra veio à boca, mas Qi Xia se segurou. Por mais que confiasse em Qiao Jiajin, ainda não ia expor suas memórias. “Não, só estou dando uma olhada aleatória.”
Eles viraram a esquina. Bem quando iam continuar andando, viram uma coisa escura jogada no meio da rua, não muito longe dali.
Qi Xia parou, sentindo um frio na barriga. Ele ia dar um passo à frente, mas Qiao Jiajin o puxou de volta.
“Cacete… Moleque Golpista, pera aí.”
Qiao Jiajin colocou Qi Xia atrás dele e foi se aproximando devagar. No chão, havia um cadáver miúdo que já estava ficando preto. O rosto estava arroxeado e deformado, com a pele começando a apodrecer e derreter. Uma poça de pus amarelo e fétido escorria pelo chão.
E, bem no abdômen do cadáver, havia uma flor de carne desabrochando em decomposição.
“Como isso é possível…” Qi Xia encarava essa figura miúda sem conseguir acreditar, com a mente tomada pelo pavor.
Com certeza era a Rato Humano, só que ela tinha morrido ali.
Qiao Jiajin se abaixou e tapou o nariz, dando uma olhada por cima. “O corpo já passou da fase de inchaço. Tá começando a apodrecer feio e escurecer. Morreu há pelo menos dez dias”, disse ele.
“Dez dias…?” Qi Xia tomou um susto. “Você está dizendo que esse cadáver está morto há dez dias?”
“Talvez até mais.” Qiao Jiajin se levantou, dando um passo para trás ainda com a mão no rosto. “Desde que cheguei aqui, achei tudo muito estranho. Esse cheiro no ar não é normal. Vai ver morreu um monte de gente nessa cidade.”
Qi Xia avançou devagar, sentindo uma dor aguda latejar em sua mente.
Por que todo mundo ressuscitou… mas a Rato Humano não?
Será que essa criança não tem o ‘direito’ de ressuscitar?
Mas, parando para pensar, Bode Humano também tinha voltado à vida. Se os dois faziam parte dos “Signos do Zodíaco”, por que a Rato Humano ainda estava ali?
“Moleque Golpista, você conhece essa pessoa?”
Conheço…
Qi Xia não sabia o que responder. Ele não fazia a menor ideia do nome dessa criança. Os dois só tinham se encontrado uma vez no meio da confusão. No entanto, se ele não tivesse aparecido, ela jamais estaria jogada ali. Ele foi para o lado, arrancou uma pequena flor vermelho-escura da beira da rua, virou-se e a colocou no peito do Rato Humano.
Se essa criança tivesse escolha, talvez preferisse nunca tê-lo conhecido.
“Não a conheço. Só fico com pena de ver uma criança tão nova morta aqui”, disse Qi Xia para Qiao Jiajin. “Vamos.”
Mesmo sem entender a atitude de Qi Xia, Qiao Jiajin não teve outra opção a não ser seguir o seu “cérebro”. Depois de dar três passos, Qi Xia lembrou de algo de repente e congelou no lugar.
“O que foi?” perguntou Qiao Jiajin.
Qi Xia olhou para trás, confuso, encarando o cadáver do Rato Humano. Não conseguia afastar a sensação de que tinha algo errado. Ele olhou novamente ao redor do Rato Humano. Tirando a poça de pus espalhada pelo chão, não havia absolutamente nada lá.
Cadê a máscara?
Qi Xia franziu a testa. Se tudo aqui continua do jeito que estava dez dias atrás, por que a máscara sumiu? Alguém roubou, ou o Pássaro Vermelho recolheu?
Embora tivesse retornado à “Terra do Fim” mantendo suas memórias, Qi Xia continuava não sabendo nada sobre este lugar. Para entender o que se passava ali, só havia um jeito: encontrar Chu Tianqiu.
“Nada não. Vamos logo nos encontrar com os outros.”
Os dois saíram da viela e voltaram à praça de antes. O lugar já estava completamente vazio. Qi Xia levantou a cabeça e olhou de novo para o telão, que ainda exibia a mensagem: “Eu ouvi a Ressonância do ‘Atrai-Calamidades'”.
Os “Ressoantes” que ele tinha visto antes nunca mantinham a “Ressonância” por tanto tempo. Pelo visto, a habilidade de Han Yimo era realmente muito peculiar. Após encarar a tela por um tempo, Qi Xia percebeu de repente que parecia haver algo entalhado na pilastra logo abaixo do monitor.
Ao se aproximar para olhar, viu que eram dois números: “87”.
Ele esticou a mão e tocou de leve nos números.
Esses números parecem estar espalhados por todos os cantos da cidade. O que diabos eles representam?
“Agora tenho perguntas demais para fazer a Chu Tianqiu.”
Qi Xia se virou, mas de repente deu de cara com um rosto enrugado que exibia um sorriso seco. O sujeito estava na ponta dos pés, com o corpo inteiro parecendo uma árvore velha e morta.
Ele se inclinou, trazendo o rosto crivado de rugas para cada vez mais perto de Qi Xia.

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