Capítulo 5 - Caos Desordem e Confusão - Parte VI (Combo 32/50)
Caos Desordem e Confusão – Parte VI
Imediatamente após sua refeição insípida e praticamente intocada ter sido retirada, Yang foi informado de que tinha uma visita. Por um momento, ele pensou que poderia ser Frederica, mas, com a mesma rapidez, abandonou essa esperança. As autoridades obviamente teriam rejeitado o pedido de Frederica para um encontro. Talvez seja ele, pensou Yang, nada satisfeito com a perspectiva.
O Presidente do Conselho da Aliança, João Lebello, apareceu diante do jovem marechal preso. Quando a porta se abriu, cerca de uma dúzia de policiais militares estavam logo atrás dele.
“É realmente uma pena que tenhamos que nos encontrar em um lugar como este, Marechal Yang.”
Sua voz combinava bem com a expressão pensativa que exibia, mas não causou nenhuma impressão em Yang.
“Lamento que você sinta isso, mas eu também não pedi para estar aqui.” “É claro que não. Posso me sentar?”
“Fique à vontade.”
Ao sentar-se no sofá à sua frente, muito mais ereto do que Yang, Lebello respondeu à pergunta não formulada.
“Você violou a Lei de Insurreição e tornou-se um perigo para a sobrevivência de nossa nação. Estas são as acusações apresentadas contra você pelo Gabinete do Alto Comissário Imperial.”
“E o Presidente concorda com as acusações?”
“Ainda não tenho certeza. Esperava que você me fizesse o favor de negar essas alegações categoricamente.”
“E se eu fizesse isso, você acreditaria em mim?”
Yang percebeu que essa conversa não estava levando a lugar nenhum. O rosto de Lebello ficou sombrio.
“Pessoalmente, sempre acreditei em você, mas não posso lidar com essa situação apenas em um nível emocional ou moral. A sobrevivência e a segurança de nossa nação não têm nada a ver com nossa relação pessoal.”
Yang soltou um suspiro.
“Pode parar por aí, Presidente. O senhor sempre foi conhecido como um político imparcial, como atestam suas muitas ações. Então, como pode achar natural sacrificar os direitos individuais dos cidadãos em nome da nação?”
A expressão de Lebello era a de alguém com um distúrbio respiratório.
“Você sabe que eu não penso assim. Mas não é assim que as coisas funcionam? O sacrifício pessoal é o mais nobre dos atos humanos. Você realmente se dedicou à nação. Se levar esse modo de vida até o fim, a posteridade o valorizará ainda mais.”
Yang estava pronto para contestar. Lebello estava em uma situação difícil, sem dúvida, mas até mesmo Yang tinha o direito de se afirmar. Na visão dele, a realidade não se refletia no espelho do funcionário público, e, no entanto, ele sempre tinha ido além do que seu salário exigia. Além disso, ele sempre pagara seus impostos. Depois de já ter sido xingado de “assassino” pelas famílias enlutadas de subordinados mortos em combate sob seu comando, por que ele tinha que ficar ali ouvindo sermões de um representante do próprio governo pelo qual fizera todos aqueles sacrifícios?
Yang preferiu não dizer o que estava pensando. Ele deu um pequeno suspiro e recostou-se no sofá.
“O que você quer que eu faça?”
Não havia nada de admirável em pedir tal orientação. Yang queria saber o que Lebello realmente pensava. A resposta de Lebello foi mais abstrata do que o necessário e fez soar um forte alarme na cabeça de Yang.
“Você é tão jovem e já chegou tão longe. Nunca sofreu uma derrota, nem mesmo nas mãos dos adversários mais formidáveis. Repetidas vezes, você nos salvou de perigo certo e impediu que nossa democracia desmoronasse. As gerações atuais e futuras entoarão seu nome com orgulho.”
Yang encarou Lebello. Havia algo quase palpável que Yang não podia ignorar em sua maneira excessivamente formal de falar. Lebello estaria lendo o epitáfio de Yang? Lebello não estava falando com o Yang do presente, mas justificando o uso do termo “gerações presentes e futuras”.
Os caminhos mentais de Yang ficaram repentinamente congestionados. Na verdade, muitos frutos no pomar de sua atividade intelectual haviam amadurecido, e entre eles estava justamente a conclusão a que von Schönkopf também havia chegado. Ele não queria acreditar nisso, mas a situação estava fora de seu controle. Yang repreendeu-se por ser tão ingênuo. Ele já tinha um pressentimento há cinco ou seis anos de que algo ruim iria acontecer, mas a situação agora havia calçado um par de patins e acelerado a toda velocidade e era como se os freios de sua vergonha não funcionassem mais.
“Naturalmente, bons cidadãos devem obedecer à lei. Mas quando sua nação busca violar direitos individuais por meio de leis que criou apenas para si mesma, seria um pecado absoluto esses mesmos cidadãos concordarem com isso. O povo de uma nação democrática tem o direito e a responsabilidade de protestar, criticar e se opor aos crimes e erros cometidos pela nação.”
Yang já havia dito isso a Julian. Aqueles que não se opunham nem ao tratamento injusto nem à injustiça dos poderosos não eram mais cidadãos do que escravos. E aqueles que não revidavam mesmo quando seus próprios direitos justos eram violados certamente nunca lutariam pelos direitos dos outros.
Se o governo da Aliança fosse julgar Yang por “apropriação de naves militares e munições pertencentes às Forças Armadas da Aliança”, ele só poderia resignar-se ao seu destino. Mas e quanto à sua opinião? A lei era a lei e se ele a tivesse infringido de alguma forma, tinha o direito de comparecer perante um júri. Mas Yang ainda não estava pronto para ceder.
Eles o queriam morto e essa era a única maneira de se safarem. A estrutura de poder do governo aplicava as leis por meio do devido processo legal e punia os criminosos de acordo com essas leis. O assassinato premeditado era um uso injusto de sua autoridade e o ato em si era prova da feiura de seu motivo.
Ainda mais lamentável era o fato de que seu acusador era justamente o governo para o qual ele havia desempenhado suas muitas funções. Mesmo sabendo que Lebello havia sido forçado a agir assim, Yang achava difícil sentir simpatia por ele. Era uma história inconcebível, mas fazia sentido que aquele que estava sendo morto fosse mais digno de compaixão do que aquele que o matava.
Mesmo que o governo tivesse o direito de matá-lo, ele não era obrigado a se render sem lutar. Como Yang não era muito narcisista, ele concordava com o sentimento do “epitáfio” de Lebello, mas não por alguma lealdade masoquista à ideia de que a morte por auto sacrifício fosse mais significativa do que a morte por resistência. Ele olhou através da figura desse ator relutante para os olhos castanhos de Frederica ao fundo. Ela não iria simplesmente ficar parada assistindo Yang morrer uma morte inútil ou ser injustamente sequestrado. Resgatar seu marido inútil exigiria toda a coragem e astúcia que ela possuía.
Até lá, Yang precisaria ganhar algum tempo. Yang remoía esses pensamentos em sua mente, mal percebendo que Lebello já havia se levantado e se despedido.
O Almirante Rockwell, nomeado Diretor do Quartel-General Operacional Conjunto após a instalação do governo Lebello, ainda não havia voltado para casa, pois aguardava um determinado relatório em seu escritório. O prédio do Quartel-General Operacional Conjunto havia sido totalmente destruído, do chão ao teto, por um ataque com mísseis da frota imperial de Mittermeier, e operações mínimas ainda eram realizadas em várias das salas subterrâneas.
Às 23h40, chegou uma transmissão do Capitão Jawf, Comandante das Forças Especiais.
Jawf não havia conseguido prender os Vice-Almirantes von Schönkopf e Attenborough. O almirante repreendeu o Capitão Jawf, sem fazer qualquer esforço para esconder sua decepção.
“O Vice-Almirante von Schönkopf é especialista em combate corpo a corpo. Tenho certeza de que o Vice-Almirante Attenborough também sabe se defender. Mas não são apenas dois? Acho que deveria ter emprestado dois pelotões a vocês.”
“Mas não eram só eles dois”, corrigiu o Capitão Jawf, num tom rude, mas abatido.
“Soldados da Rosen Ritter surgiram do nada e nos atacaram e assim eles conseguiram fugir. A Rodovia 8 está coberta de carros em chamas e cadáveres. Veja você mesmo…”
O Capitão se inclinou para fora do quadro, revelando uma enxurrada de silhuetas se movendo em meio a chamas alaranjadas pintadas sobre uma tela índigo. O coração de Rockwell deu um salto triplo em seu peito.
“O regimento inteiro de Rosen Ritter estava envolvido nisso?!”
O Capitão Jawf esfregou os hematomas roxos claros em suas maçãs do rosto. Como você pode ver, ele queria dizer, isso nos custou muito.
“Seus efetivos não foram reabastecidos desde o fim da Guerra Vermillion, e ainda assim há mais de mil soldados ligados a esse mesmo regimento. E não são os mil de sempre, também.”
O Almirante Rockwell estremeceu. Não era preciso nenhuma explicação. O Regimento Rosen Ritter pode ter exagerado ao dizer que suas habilidades de combate eram comparáveis às de uma divisão inteira, mas claramente tinham recursos suficientes para comprovar essa afirmação.
“Vossa Excelência, não tenho problema em atear o fogo, mas me pergunto se temos tudo o que precisamos para apagá-lo.”
Depois de expressar essa reflexão meio sarcástica, o Capitão Jawf esperou pela resposta de seu superior, sabendo sem sombra de dúvida que a propagação do fogo era inevitável nesse caso.
O rosto do Almirante Rockwell parecia uma mistura de uma dúzia de expressões amargas.
“Não faço ideia. Vá perguntar ao governo.”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.