Capítulo 117: Atrai-Calamidades
Os três chegaram ao centro da quadra, e o Oficial Li acendeu um cigarro para Qi Xia e outro para si mesmo.
Han Yimo deu um sorriso sem graça, então colocou o cigarro na boca e perguntou: “Como se aprende a fumar?”
O Oficial Li estendeu a mão, tirou o cigarro direto da boca dele e guardou de volta na carteira: “Aprender o cacete. Você tem ideia do quanto eu invejo quem não fuma agora? Isso só faz mal e não traz benefício nenhum. É melhor não saber, não tente aprender de jeito nenhum.”
“Hã?” Han Yimo não entendeu muito bem. “Oficial Li, mas agora há pouco você disse…”
Qi Xia acenou com a mão, interrompendo a fala de Han Yimo, e então perguntou: “Han Yimo, o que é a ‘Espada das Sete Trevas’?”
“Ah…?” O rosto de Han Yimo travou.
Se Qi Xia não tivesse tocado no assunto, ele quase teria se esquecido daquele encontro bizarro.
No ciclo anterior, ele teve o estômago perfurado pela “Espada das Sete Trevas”.
Han Yimo andou de um lado para o outro algumas vezes até que finalmente ergueu a cabeça e disse aos dois:
“Sessenta anos atrás, havia no mundo das artes marciais um ‘Emissário Punitivo’ mundialmente famoso chamado ‘Chu Qi’. Ele empunhava uma espada gigante e pesada, que, combinada com sua habilidade de voo fantasmagórica, usava para ‘recompensar o bem e punir o mal’ de acordo com sua própria vontade no mundo marcial. As pessoas que ele considerava ‘boas’ eram recompensadas com um tael e sete moedas de prata pura, enquanto as que ele julgava ‘más’ tinham o dantian perfurado pela espada gigante. Durante um tempo, isso deixou todo o mundo em pânico, sem saberem se eram bons ou maus.
“E a espada gigante que ele empunhava, por ter suas sete partes — a lâmina, a ponta, o dorso, o gume, o cabo, a borla e a bainha — todas da cor de um breu, era chamada de ‘Espada das Sete Trevas’.”
O Oficial Li ouvia aquilo embasbacado. Ele deu um passo à frente e deu um cascudo na cabeça de Han Yimo.
“Ai!” Han Yimo levou um grande susto. “Oficial Li, o que você está fazendo? Eu estou tentando lembrar…”
“Você acha que é a primeira vez que interrogo alguém, garoto?” O Oficial Li torceu a boca, impotente. “Só de olhar para os seus olhos, já sei que tudo foi inventado por você. Fale a verdade para mim.”
“Mas fui eu mesmo que inventei essas coisas!” disse Han Yimo, um pouco ansioso. “Para inventar tudo isso, eu tive que me esforçar muito…”
“Isso é do seu livro?” perguntou Qi Xia de repente.
“É, sim.” Han Yimo assentiu. “Sob a minha caneta, o cavaleiro chamado ‘Chu Qi’ foi assassinado por traidores. Todos achavam que o mundo das artes marciais voltaria à paz, mas ninguém imaginava que a ‘Espada das Sete Trevas’ não havia desaparecido. Ela continuava ‘recompensando o bem e punindo o mal’ de forma fantasmagórica, só que ninguém mais via a pessoa que a empunhava, como se a espada tivesse ganhado vida própria, sempre perfurando o dantian das pessoas ao amanhecer…”
O Oficial Li se esforçou para aceitar a premissa e perguntou: “O que isso tem a ver com você ter sido morto?”
“Se for para culpar algo, culpem minha imaginação fértil…” Han Yimo abaixou a cabeça, meio sem graça. “Vocês já tiveram esse tipo de sensação? A sensação de ter ‘imaginação demais sem lugar para pôr’.”
Ao ouvir aquilo, Qi Xia balançou a cabeça: “Um pouco abstrato.”
“Em poucas palavras, é que tem coisas demais na minha cabeça.” Han Yimo apontou para o meio das próprias sobrancelhas. “Eu não consigo deixar de sentir que… se não encontrar uma válvula de escape para liberar o que está na minha cabeça, eu vou morrer sufocado. Por isso, tentei vários caminhos. No começo, foi o desenho, mas, afinal, eu não tinha tido um treinamento formal, então meu pincel não conseguia suportar minha imaginação. Por isso, escolhi a escrita.”
O Oficial Li deu uma tragada profunda no cigarro, deu um sorriso e disse: “Ouvi dizer que muitas pessoas esgotam tudo o que têm para se tornarem escritores e não conseguem, mas com você foi ‘por falta de opção’?”
“Quase isso.” Han Yimo assentiu. “Tem um mundo inteiro no meu cérebro, esperando para transbordar a qualquer momento. Então não posso ficar em ambientes fechados, senão meu cérebro começa a fantasiar e pensar bobagens sem controle.”
Qi Xia pareceu captar um ponto importante e perguntou: “Você quer dizer que… a espada foi sua ‘fantasia’?”
“Só pode ter sido.” Han Yimo virou o rosto e disse com muita seriedade. “Naquela madrugada escura, eu não conseguia parar de tremer. Tenho muito medo de ambientes escuros, então fiquei com medo de morrer aqui. Depois, meus pensamentos voaram, e comecei a ter medo de que a ‘Espada das Sete Trevas’ perfurasse o meu dantian daquele jeito descrito na história.”
Qi Xia travou de leve; a situação lhe parecia familiar.
Quando estavam na sala de entrevista, Han Yimo também teve medo de que o arpão atravessasse seu corpo. Se Qiao Jiajin não tivesse intervindo na época, agora o “sonho teria se tornado realidade”.
“No fim, eu fui mesmo perfurado…” Han Yimo deu um sorriso amargo. “Este lugar é muito bom mesmo. Recomendo que todos os escritores venham dar uma volta por aqui. Basta ficar um dia e a inspiração com certeza nunca mais vai secar.”
“Não… não é essa a questão, certo?” O Oficial Li pensou com cuidado, até que finalmente percebeu o quanto o assunto era ilógico. “Pelo que você está dizendo… a ‘Espada das Sete Trevas’ sequer deveria existir no mundo. É algo que você imaginou. Então por que ela te perfurou?”
“Eu não sei.” Han Yimo balançou a cabeça. “Aquela sensação foi realmente fantástica… Quando vi a ‘Espada das Sete Trevas’, fiquei um pouco feliz, só que também com um pouco de medo. Todo escritor deseja que o mundo debaixo de sua caneta se torne real, mas quando se vê as coisas do livro realmente virando realidade, qualquer um ficaria com medo.”
Sim, a sensação era muito bizarra.
Qi Xia tocou o próprio queixo, começando a desvendar a lógica por trás daquilo.
Han Yimo teve a premonição de que o arpão o atravessaria, por isso começou a tremer e a ter medo. A situação ainda estava dentro de um limite compreensível.
Mas qual era o lance da “Espada das Sete Trevas”?
Será que ele previu com antecedência que a “Espada das Sete Trevas” o perfuraria e, só por causa disso, sentiu medo a noite inteira?
Mas, teoricamente, a espada não apareceria. Do que ele tinha medo?
“Atrai-Calamidades”…
Os olhos de Qi Xia se arregalaram lentamente.
Espera aí…
Se Han Yimo conseguisse prever o perigo com antecedência, então a “Ressonância” nem deveria se chamar “Atrai-Calamidades”, mas sim algo como “Evita-Perigos” ou “Premonição”…
Por que era “Atrai-Calamidades”?!
Em um instante, foi como se Qi Xia tivesse sido atingido por um raio. A direção de todas as suas deduções anteriores estava invertida.
O arpão jamais perfuraria Han Yimo!
A “Espada das Sete Trevas” também jamais o mataria!
Tudo foi causado pelo “chamado” de Han Yimo!
Ele achou que o arpão o perfuraria, por isso o arpão superou todos os obstáculos e foi perfurá-lo de qualquer jeito.
Ele achou que morreria nas mãos da “Espada das Sete Trevas”, por isso, mesmo que o mundo gerasse a “Espada das Sete Trevas” do nada, ela iria perfurar seu dantian de qualquer maneira.
Contanto que Han Yimo acreditasse que o desastre aconteceria, então ele com certeza iria acontecer.
Isso era o chamado “Atrai-Calamidades”!
Qi Xia deu um passo para trás devagar; o jovem escritor à sua frente lhe passava uma sensação de perigo extremo.
Achava que trazê-lo consigo poderia evitar desastres, mas a existência dele era o desastre em pessoa!
A segunda badalada do sino não havia soado até agora. Han Yimo continuava “atraindo calamidades”.

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