Capítulo 135: Meu Benfeitor
Cheguei ao escritório do Irmão Chong sem entender o que estava acontecendo.
“A-Jin, sente-se”, ele deu um trago no cigarro, dispensou as pessoas ao redor, abriu a gaveta e jogou um maço de dinheiro na mesa.
“Irmão Chong… o que é isso?”
“O Mestre Rong está em Guangdong, vou te dar o endereço, vá procurá-lo”, o Irmão Chong disse de forma indiferente.
“O quê?” Eu não entendi direito. “Não disseram que a gangue inteira está perseguindo o Mestre Rong agora? Então você sabe a localização dele?”
“Sim”, o Irmão Chong assentiu. “Persegui-lo foi só uma cortina de fumaça que eu espalhei.”
“Mas por que isso?”
“A-Jin, eu conheço as intenções do Mestre Tong. Em vez daqueles dois milhões, ele quer mais você, que é talentoso e pode render a ele mais dois milhões. Mas se eu contasse essa notícia ao Mestre Tong, pelas regras do submundo, ele teria que matar o Mestre Rong, e aí como ele iria te recrutar?”
Franzi a testa de leve, não conseguindo entender de jeito nenhum.
“Por isso essa notícia tem que parar em mim. O que fazer no próximo passo, só posso decidir depois que você falar com o Mestre Tong.”
“Irmão Chong, você disse que o Mestre Tong quer me recrutar, mas afinal de contas, eu sou do Mestre Rong…”
“A-Jin, quem tem rixa são os dois chefões, você só recebe ordens, é impossível que o Mestre Tong não entenda isso.” O Irmão Chong soltou a fumaça, com uma expressão um pouco triste. “Só que você o decepcionou.”
Minha expressão também se entristeceu de repente.
“Irmão Chong, sou um cara burro, teimoso. Se o Mestre Rong for o meu chefe por um dia, vai ser o meu chefe por toda a vida. Agora que ele está fugindo, é meu dever ir cuidar dele.”
“Você pode se arrepender”, o Irmão Chong disse rangendo os dentes. “Algumas pessoas falam bonito, mas pelas costas te fazem fazer trabalhos mortais. Algumas pessoas parecem insensíveis, mas querem de verdade manter o seu talento…”
Eu sou muito burro, mas não sou estúpido.
Como o Mestre Rong poderia querer a minha vida?
Ele me fez aprender boxe, e mesmo se eu quebrasse a mão tinha que continuar treinando, aquilo era para me fortalecer.
Ele me fez lutar contra mais de trinta pessoas sozinho, aquilo era para me aprimorar.
Ele fez eu e Jiu Zai tirarmos na sorte para ver quem assumiria a cadeia no lugar dele, foi só para me testar.
Eu reverenciei o Segundo Mestre Guan, entendo tudo isso.
“Irmão Chong, agradeça ao Mestre Tong por mim”, interrompi a fala dele, me levantei e peguei o dinheiro na mesa. “Vou dar um jeito de devolver esse dinheiro da viagem a ele.”
Vendo que eu não dava o braço a torcer, o Irmão Chong perdeu a paciência.
“Seu moleque teimoso do caralho… vá! É melhor você morrer em Guangdong!”
Ele virou a cadeira de costas e acenou com a mão furiosamente: “Dê o fora daqui.”
Antes de sair, parei de andar, me virei e perguntei: “Irmão Chong, por que o Mestre Tong me reconhece tanto?”
Vi as costas do Irmão Chong continuarem soltando fumaça. Ele pensou por um bom tempo e, finalmente, disse de forma indiferente: “Porque hoje em dia é muito difícil encontrar uma ‘aura do submundo’ tão pura quanto a sua. Gratidão é gratidão, vingança é vingança. Não faz coisas boas, mas tenta ser uma boa pessoa. Você se parece muito com a gente quando era jovem.”
Ele tirou um colar do peito e o jogou para mim sem nem olhar para trás.
Eu o peguei, virei a mão para olhar e vi que era uma pequena placa de cobre com a palavra “Tong” gravada no meio.
“Se você quiser voltar para a gangue depois de terminar os seus assuntos, isso vai te ajudar. Cai fora.”
Guardei a placa de cobre no bolso do casaco e me curvei profundamente para o Irmão Chong.
Existem muitas pessoas que me fizeram favores neste mundo. Quando eu terminar de pagar a minha dívida com o Mestre Rong, com certeza voltarei para retribuir a do Mestre Tong e a do Irmão Chong.
…
No dia seguinte, cheguei a Guangzhou.
De acordo com as informações do Irmão Chong, o Mestre Rong agora morava em um apartamento até que luxuoso.
Saber que ele estava vivendo bem me deixou aliviado.
Ao anoitecer, bati na porta do Mestre Rong.
Demorou muito até vir algum barulho do outro lado. Quando a porta se abriu devagar, eu o vi.
O Mestre Rong ainda era o mesmo, sem nenhuma mudança em relação a quatro anos atrás.
“A-Jin…?”
Primeiro ele ficou chocado, depois mostrou uma expressão de alegria, mas logo a reprimiu.
Ele mudou de expressão três vezes em apenas um segundo, parecendo estar com sentimentos muito complexos.
O Mestre Rong me deixou entrar. A decoração ali era muito simples, com apenas alguns móveis essenciais.
Havia outra pessoa dentro de casa, achei que fosse o Jiu Zai.
No fim, era uma mulher.
“Irmão Rong… quem é?” perguntou a mulher.
“Jinglan, é o A-Jin”, o Mestre Rong disse, depois olhou para mim. “A-Jin, a cunhada.”
Abaixei a cabeça para a mulher e chamei: “Cunhada.”
O Mestre Rong acenou com a mão e pediu para a mulher se afastar um pouco.
Antes de sair, a mulher ficou me olhando com desconfiança, e eu também a encarei sem demonstrar fraqueza.
Cresci ao lado do Mestre Rong desde pequeno e não me lembrava de haver essa cunhada.
“Mestre Rong, e o Jiu Zai?” Olhei em volta, sentindo que não cabiam três pessoas morando ali.
“A-Jin…” O Mestre Rong tirou um cigarro. “O A-Jiu morreu.”
Minhas pupilas tremeram de leve, esperando ter ouvido errado.
“Você disse que o Jiu Zai o quê?”
“No caminho em que fugíamos para Guangdong, o A-Jiu foi morto a facadas pelos homens do Fei Tong.” O Mestre Rong suspirou fundo e abaixou a cabeça, frustrado.
O quê?
O Jiu Zai foi morto a facadas pelos homens do Mestre Tong?
Senti meu coração dar um pulo repentino, como se tivesse perdido algo importante.
Incontáveis memórias passaram pela minha mente, mas elas eram como fogos de artifício explodindo no céu, eu tentava estender a mão para agarrá-las, mas era queimado até doer.
Lembro-me de quando tínhamos onze anos, Jiu Zai me disse sorrindo despreocupado: “A-Jin, você tem força, eu tenho cérebro, vamos seguir o Mestre Rong juntos!”
Mas agora o “punho” voltou, e eu estou sem o “cérebro”.
O Mestre Rong e o Mestre Tong me deram versões completamente opostas. Só com a minha própria inteligência, não consigo entender de jeito nenhum o que aconteceu.
“Quando isso aconteceu?” perguntei com a voz trêmula.
“Faz uns dez dias.” O Mestre Rong balançou a cabeça. “A-Jin, eu falhei com o A-Jiu, e também falhei com você. Você saiu ontem, e eu não tive como ir te ver.”
Me sentei devagar, sentindo a minha mente em branco.
O que está acontecendo afinal?
Sinto que tudo está um pouco estranho, mas não consigo dizer onde está o problema.
O Mestre Rong me enganou… ou foi o Mestre Tong?
Neste momento… se fosse o Jiu Zai, o que ele faria?
Eu sou burro demais mesmo.
“A-Jin, a prisão deve ter sido dura”, disse o Mestre Rong. “Descanse um pouco aqui comigo hoje.”
“Hoje?” Balancei a cabeça e disse: “Não só hoje, Mestre Rong, eu ainda quero continuar seguindo você.”
“Me seguir?”
Assenti.
“Sim, como há mais de dez anos”, eu disse. “Você é o meu benfeitor, eu ainda não paguei a minha dívida com você.”
O Mestre Rong parou por um momento, as cinzas do cigarro caíram no chão.
“A-Jin, não pense mais nisso. Vou te levar lá embaixo para comer alguma coisa.” Ele se levantou e vestiu o casaco.
Eu também o segui e saí de casa.
Nós pedimos cerveja em uma barraca de rua, o Mestre Rong ficou muito quieto, e eu também.
Ele pediu uma porção de pata de urso assada, era algo que eu nunca tinha visto.
Vendo-o devorar aquilo, pensei: isso deve ser muito bom, né?
Sim, pata de urso deve ser muito boa.
Se o Mestre Rong comeu, é como se eu tivesse comido.
Depois de algumas garrafas de cerveja, me senti um pouco deprimido.
Sinto muita falta do Jiu Zai. Ele era meu irmão, não esperava que depois de quatro anos de prisão, eu não fosse vê-lo nem uma última vez.
Pensando nisso, abri uma garrafa de cerveja e a derramei no chão.
Em homenagem ao meu irmão.
O Mestre Rong viu a minha expressão, balançou a cabeça impotente e, em seguida, levantou-se para pagar a conta.
Ele parecia querer dizer alguma coisa, mas não conseguiu abrir a boca por um bom tempo. Naquele momento, ele viu a placa de uma locadora de vídeo ali perto.
Ele pensou por um tempo e disse: “A-Jin, você não gosta de prostitutas nem de drogas. Vou te levar para ver um filme para espairecer.”
Era um filme feito por gringos, chamado “O Exterminador do Futuro”.
Nunca na minha vida eu vi um filme assim.
Depois, pensando bem, eu também não tinha dinheiro para ver filmes.
Mas isso não impedia o meu gosto por “O Exterminador do Futuro”.
Os filmes contam histórias que aconteceram de verdade?
Foi muito chocante, tão chocante que por um momento esqueci a história do Jiu Zai.
Até o fim do filme, quando a tela ficou preta e começou a aparecer letras em inglês, hesitei em me levantar para ir embora.
Como seria bom se o Jiu Zai pudesse ver isso?
Ele é tão inteligente, com certeza poderia me dizer como esses robôs são fabricados.
Mesmo sendo máquinas, eles aceitaram ser filmados por pessoas.
É uma pena que o Jiu Zai nunca mais vai poder ver isso.
“A-Jin, eu quero me aposentar dessa vida.”
A voz do Mestre Rong veio do meu lado.
“O quê?” virei a cabeça para olhar para ele.
“Estou velho, não é adequado continuar assim.” Mestre Rong balançou a cabeça. “Vá embora.”
“Ir embora…?” Pisquei os olhos. “Mestre Rong, para onde você quer que eu vá?”
“Não siga mais por este caminho, vá para qualquer lugar.” Ele sorriu amargamente e disse: “Este mundo é muito grande, lembra? O Céu e a Terra são vastos por natureza, mas os mesquinhos se confinam por conta própria.”
Como eu poderia não lembrar?
São as palavras nas minhas costas.

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