Índice de Capítulo

    Após algumas horas atuando como uma espécie de “guichê de atendimento”, o casal levantou-se e despediu-se dos seus conhecidos e associados assim que viu que Brie e Solas estavam prontos. Se permanecessem ali, provavelmente virariam a noite em conversas que, no fundo, perderiam o sentido, mantidas apenas pelo valor social de interagir com eles.

    A viagem de volta do grupo não foi muito diferente da viagem de ida do casal: igualmente vagarosa e tranquila. A diferença era que, desta vez, seguiam na carruagem de Solas, e o garoto observava tudo o que conseguia captar com um olhar atento e curioso; inclusive os eventuais embates entre as feras canídeas na floresta.

    — A carruagem que deram de presente a Solas é, de fato, muito confortável e bem silenciosa — comentou Brie, dirigindo-se a Diana enquanto observava o dragonoid e seu filho assistirem a Ocean e Pequeno Preto lutarem contra uma grande aranha marrom com tufos pétreos. — No entanto, têm certeza de que é seguro atravessar lugares assim e ficar tão perto de combates?… Sei que querem mostrar mais do mundo ao meu filho, mas seria problemático se nosso transporte fosse danificado longe de uma estrada ou área acessível.

    — Não se preocupe, Lady Brie. Apesar do jeito impulsivo, Alexander não faria algo impensado — garantiu a Demi, apontando para a carruagem. — Ele não apenas a projetou, como ajudou na construção… Se surgir algum problema, ele provavelmente a tornaria funcional novamente em minutos, e faria um reparo completo assim que chegássemos à Cidade das Luzes.

    Envolta em seus próprios pensamentos devido à resposta recebida, a segunda esposa do duque nem percebeu quando a aranha foi empalada por uma lança de gelo e assada viva por chamas abrasadoras.

    Quando ela voltou a si, o “irresponsável” dragonoid, padrinho de seu filho, já havia levado o garoto e lhe mostrava como desmantelar e cozinhar a criatura.

    Para surpresa da mulher, após ser limpa e tratada contra possíveis toxinas, a aranha não apenas rendeu insumos afiados e quitinosos, como também revelou uma carne gelatinosa extremamente saborosa quando fervida com sal e cítricos; especialmente com a adição de molhos ácidos e condimentos terrosos para ressaltar o prato.

    Era verdade que a criatura tinha menos carne e demandava mais cuidado no preparo quando comparada a artrópodes marinhos, além de possuir um sabor mais terroso e acentuado. No entanto, com toda a certeza, aquela seria uma experiência única para quem tivesse coragem de experimentar (e estômago para acompanhar). 

    A prova disso era que, ao sentir o aroma do preparo, os canídeos devoraram sua parte com ossos quitinosos e tudo, graças às suas poderosas dentições.

    O grupo não estava apenas se deslocando ou viajando; estava vivendo o mundo. Eles seguiam sua jornada degustando e vivenciando as experiências que podiam, pois nem tudo era palatável de se provar ou vivenciar (como comer criaturas vermes gigantes, que simplesmente não valiam o esforço).

    Fora Solas, quem mais aproveitou a quebra de rotina foram as empregadas que os acompanhavam. Havia menos trabalho, a comida era boa e, acima de tudo, o casal não demonstrava qualquer arrogância ou resquício de segregação, portando-se sempre de forma despretensiosa.

    Quando eles finalmente chegaram na Cidade das Luzes, o céu ainda estava pintado pelas luzes e sombras do anoitecer e marcado pelo cheiro da chuva, das nuvens e das folhas secas carregadas pelo ar.

    A viagem havia sido, sem a menor dúvida, memorável para um garoto de 6 anos acostumado à proteção das asas do pai. Para a sua mãe, porém, foi um alívio finalmente concluí-la. 

    Combinando todos os seus poderes com o trabalho de empregadas bem-preparadas, o grupo conseguia reproduzir comodidades como banheiros e banhos quentes mesmo no meio do território selvagem. No entanto, por mais impressionante que fosse, aquilo não se comparava ao conforto de uma casa de verdade, com horários estabelecidos e a liberdade de fazer o que se quisesse, quando se quisesse.

    Não exatamente cansados, mas mentalmente desgastados pela viagem, o grupo não fez nenhum anúncio ou cerimônia em sua chegada, indo diretamente para os seus respectivos aposentos. Seguindo os arranjos de Diana, seus avós de ambos os lados da família passaram a viver temporariamente na mesma casa, liberando a outra para a Duquesa e sua comitiva.

    Aquela não era a solução ideal, muito menos a mais elegante, mas ao menos todos foram alojados e mantinham sua privacidade relativa; ainda mais considerando que os avós já se revezavam para ficar na casa central, ajudando a cuidar de Adam.

    No dia seguinte, o 1º dia do 12º mês, com todos mais descansados e dispostos, Brie finalmente se preparou e se revelou aos moradores do forte-vila. Com a presença dela, mesmo como convidada, a balança do eixo de influência da nora do duque Marvin pendeu para ela, uma das esposas diretas do duque Robert.

    De volta à sua casa e aos seus hábitos, Alexander armou uma rede à sombra de algumas árvores e deitou-se para curtir a brisa. O “encontro” entre Drayygon e a mãe de Anna havia, de fato, causado um grande desarranjo na floresta, mas era para isso que ele contratava pessoas: para cuidar das estruturas e resolver os problemas, para que ele não precisasse fazê-lo.

    Cheio do vigor da infância, Solas, agora mais próximo dele, chegou praticamente correndo, seguido por uma das empregadas. — Padrinho, padrinho! O que vamos fazer agora que chegamos?… Você prometeu me levar para ver o mar!

    Esticando-se preguiçosamente na rede para se virar, o dragonoid sorriu, questionando mentalmente de onde vinha tanta disposição. A energia do menino parecia superar a dele, mesmo com a colossal discrepância de números entre eles a seu favor.

    — Uma promessa é uma promessa. Vou levá-lo — disse Alexander, levantando-se e pegando Solas no braço. — No entanto, seu pai e sua mãe não me perdoariam se eu só levasse você para brincar… Chame sua mãe. Tenho um teste especial para você antes de irmos ao mar.

    Disparando para chamar sua mãe (e retornando com ela a reboque logo depois), Solas parecia pronto para explodir de empolgação; até que avistou os frascos na mão do padrinho. Ele reconheceu um deles, e não gostava daquela coisa; ela meio que coçava.

    — Por que me chamou? — indagou Brie assim que viu o jovem. — Por favor, seja breve. Ainda tenho coisas para arrumar na casa onde vamos ficar.

    — Serei breve. Só queria saber se Solas tem usado os cremes que deixei para ele todos os dias — garantiu Alexander, sorrindo. — Como estão em minha casa, não posso deixar de lhes oferecer a melhor hospedagem.

    — Mais ou menos — respondeu a mulher com uma expressão estranha. — Ele até os usa, mas não é todo dia, pois parece não gostar. Pelo que noto, irritam a pele dele.

    — Não mais do que o fogo irrita o metal a ser trabalhado — retrucou o dragonoid com um sorriso pretensioso. — Acredite, isso fará bem a ele, deixando-o muito mais forte… Possivelmente faria bem até à senhora, melhorando sua pele.

    — O quê? É por isso que a pele dele vinha ficando mais elástica e brilhosa toda vez que eu a via? — surpreendeu-se a mulher, avançando em sua direção. — Prepare rapidamente um estoque de, pelo menos, 1 ano para mim. Não, 2 anos!

    — (…) — Alexander. — Lamento, minha senhora, mas o meu estoque não é tão grande quanto as pessoas imaginam, muito menos quanto afirmam por aí. Além disso, cada fórmula precisa ser minuciosamente ajustada para a faixa etária e o biótipo físico do usuário para garantir a eficácia máxima… Por isso, não produzo em quantidade além do necessário para o perfil dos meus estudantes.

    — Se você não tem, então basta produzir, não é? — simplificou Brie, visivelmente “animada”. — O custo dos materiais não importa. Eu posso pagar.

    — Não duvido disso, minha senhora. A questão é que a produção demanda tempo, preparação e uma expertise que pode não ser a melhor aplicação dos meus recursos no momento — explicou o dragonoid com objetividade. — Que tal nós fazermos o seguinte: a senhora usa o que vou fornecer agora, em conjunto com seu filho, e conversamos novamente após avaliarmos os resultados.

    Pragmática, como a dama que era, Brie ponderou que ele tinha um bom ponto após sua euforia inicial passar, e decidiu esperar para que os resultados falassem por si mesmos. Ela convenceria o filho a usar o [Creme de Refinamento Corporal] com ela, e o jovem lhe forneceria o produto que, possivelmente, poderia melhorar sua pele.

    Assim que mãe e filho voltaram, já com o creme aplicado, foram recebidos não só por Alexander, mas também pelas empregadas que os acompanhavam. Foi então que o jovem explicou: — Independentemente de posição ou função, elas também vieram com vocês e estão sob o meu teto. Por isso, eu desejo oferecer a todas um tratamento adequado, se a senhora não se importar.

    A proposta do jovem só podia ser descrita como generosa, ao ponto de incluir até suas empregadas. Brie, no entanto, justamente por ser esposa de um duque, não via tal liberalidade com ingênua gratidão, pois, em sua experiência, gestos assim geralmente levavam a futuras demandas ou tentativas de obter algum benefício.

    Ignorando completamente a reação dela após obter a permissão, Alexander entregou um frasco do creme a cada uma das empregadas. Em seguida, abaixou-se até a altura do afilhado, que parecia querer coçar e esfregar a pele, segurando um novo frasco na mão. — Sei que pode incomodar um pouco, mas resista… Além disso, beba isto.

    Verdade seja dita, Brie já havia superado a fase de achar que o jovem padrinho de seu filho lhe faria mal; ao menos não consciente ou abertamente. No entanto, ao ver o frasco de conteúdo vermelho emitir uma luz dourada (fruto do poder dele) antes de ser entregue a Solas, seus instintos maternos não puderam deixar de vibrar em alerta.

    O primeiro gole do garoto foi cauteloso… exploratório. Imediatamente, ele tentou cuspir o conteúdo, mas o dragonoid o manteve firme na posição com uma mão, segurando o frasco com a outra. 

    Surpreendentemente, após o momento inicial de resistência, Solas pareceu ficar cada vez mais à vontade com a bebida, até tomá-la por completo.

    — Haaan! Que coisa estranha… — reclamou o garoto, remexendo a boca como se não soubesse se queria cuspir ou reavaliar o sabor. — Essa coisa tem um gosto inicial quente, de sopa de mato com terra, servida numa colher de ferro… Quase salgado, mas sem ser. Por que depois ela fica parecendo doce?

    — Você andava comendo mato e terra na colher, em vez da sua comida, para saber o gosto dessa sua “sopa” tão intimamente? — gracejou Alexander, provocando o afilhado. — Acredite em mim, o gosto real seria ainda mais estranho para você. O que tomou foi uma versão adaptada e ajustada especificamente para o seu paladar, usando o mesmo tipo de geleia real que sua madrinha costuma lhe dar.

    Ofendido, Solas quis protestar em nome de seu “prestígio”, que julgava estar sendo manchado, mas um calor crescente começou a surgir dentro dele, assustando-o a ponto de atrair a atenção de sua mãe e das empregadas.

    — Não se preocupem. O calor que ele está sentindo é um dos efeitos esperados do [Tônico da Linhagem da Fera] que acabei de lhe dar — explicou o dragonoid, mantendo a calma. — Como disse, esta versão foi feita sob medida para ele; não deve lhe causar mal. Agora, vamos exercitar nossos corpos, pois isso ajudará a dissipar todas as sensações extracorpóreas que está sentindo.

    Assentindo e dando um voto da sua confiança ao jovem padrinho de seu filho, Brie liderou o grupo para segui-lo nos exercícios que auxiliavam seus corpos a absorver com maior eficiência os nutrientes e efeitos dos produtos que haviam usado.

    Obs 1: Contribuição arrecadada para lançamento de capítulo extra: (00,00 R$ / 20,00 R$).

    Obs 2: Chave PIX para quem quiser, e puder, apoiar a novel: 0353fd55-f0ac-45b5-a366-040ecefa7f7b. Caso não consiga copiar a chave pix, é só clicar nela que vai ser gerada uma aba/guia que tem como URL/Link a própria chave pix com algumas barras nas pontas: https://0353fd55-f0ac-45b5-a366-040ecefa7f7b/, e é só retirar a parte excedente.

    Ps: Para finalizar, volto a reiterar que as publicações seguirão normais e recorrentes no ritmo mencionado mesmo que, porventura, haja a publicação de capítulos adicionais.

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