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    Alheio ao tempo e a qualquer esforço, empenho ou recurso despendido nos dias anteriores, na madrugada que se tornara o 7º dia do 1º mês, Alexander abriu os olhos. Como se tivesse transformado aquilo em ritual e instalado um despertador interno, acordara no instante exato.

    Nos primeiros segundos do aniversário de Diana, ele puxou-a suavemente pela cama, tomou-a nos braços com infinita leveza e despertou-a com um beijo.

    Subconscientemente derretendo no abraço dele, o seu corpo eriçou-se.

    Antes mesmo da consciência dela despertar por completo, seus braços já o envolviam, puxando a boca dele para o seu pescoço. Ela nem bem estava acordada, e seu corpo já ansiava pelo dele, assim como o dele clamava pelo dela.

    Literalmente crescendo com |Expansão Corporal| e pressionando-a na cama no instante em que ela tentou subjugá-lo (como fizera em seu aniversário anterior), o dragonoid retornou à forma humana e mordiscou sua clavícula com posse. — Você é minha… Vou deixar minha marca em você por toda parte.

    — Toda sua — respondeu ela em um sussurro provocante, esticando-se para roçar seus corpos, enquanto a sua mão na nuca dele já se iluminava com o suave brilho de sua runa ativando.

    Travando as pernas nas dele e usando o próprio corpo como alavanca para forçá-los para o lado, a demi os fez girar pela cama e os lançou direto através do portal do |Segredo do Vasto Mar|, levando-os para dentro de seu espaço particular. Um uso mais do que adequado de sua runa, considerando o ímpeto do casal e a quantidade de visitantes presentes para o aniversário duplo da família; do contrário, a situação teria sido no mínimo constrangedora, com eles basicamente tentando derrubar o solar.

    Sujos e completamente desgrenhados ao retornar de seu próprio mundinho (devido ao portal ter começado a esgotar Diana), o casal se alongou e partiu para um bom banho. Fizeram-no, no entanto, de forma unitária e separada; entrar juntos seria uma garantia de recomeçar tudo novamente e causar um verdadeiro alvoroço.

    Assim que eles se aprontaram, banhados e arrumados, o casal dirigiu-se para ver os preparativos feitos pela família de Diana, que havia providenciado uma série de arranjos. O casal e toda a família estavam no solar deles na Cidade de Port justamente para dar mais espaço à celebração do aniversário duplo, pois ficara acertado que a família organizaria a festa de Adam e, como noivo, Alexander cuidaria da festa de sua futura esposa.

    Não era o acordo mais prático, mas o dragonoid se importava profundamente com o aniversário de sua noiva para aceitar qualquer coisa que não estivesse à altura dela, especialmente porque varias pessoas pareciam querer se convidar para algo que ele mesmo preferia que fosse mais intimista e pessoal.

    Trajados com tecidos nobres, o jovem casal exibia um visual novo, exótico e incomum para aquele mundo; mas ainda luxuoso, elegante e suave ao toque: Alexander trazia influências do continente africano da Terra, com roupas de tecidos sobrepostos como cores vivas, porém perfeitamente cortadas; e Diana apresentava um estilo mais indo-mediterrâneo, inspirado nas cores intensas do norte do Egito e com uma modelagem estilizada que mesclava referências árabes e indianas.

    Surpresos ao vê-los em roupas tão exuberantes e únicas, a família logo se aproximou da mais acessível Diana, enchendo-a de elogios e perguntas sobre onde haviam conseguido trajes tão belos.

    — Elas fazem parte do conjunto que Alexander me deu de aniversário — explicou a demi, tocando o tecido com carinho. — Ele mesmo desenhou alguns modelos à mão para mim e os encomendou ao alfaiate-mestre de nossa facção… Vocês precisam ver o vestido que vou usar na festa hoje à noite. É lindo.

    Com a celebração ocorrendo na área aberta do solar para aproveitar a luz do dia, os membros de ambos os lados da família de Diana que não haviam pernoitado no local começaram a chegar como uma avalanche. Apesar de serem família e estarem prosperando, seria ingenuidade não notar que alguns estavam mais interessados em fazer média, criar networking e se aproximar do casal; e, sobretudo, do mais jovem aniversariante, considerado o humano com maior potencial físico de todo o Império.

    O reflexo mais marcante da ascensão de Alexander e Diana (e, por consequência, de toda a sua família) foi o verdadeiro boom de casamentos entre os diversos ramos familiares. Era uma tendência tão ampla e cruzada que incluía uniões e relações sendo estabelecidas com membros da Facção DragonSeal, com artesãos da região, com comerciantes e até com certas castas da nobreza; algo especialmente impulsionado pela linhagem LittleLight, já uma força mais consolidada e versada na arte das alianças.

    Intencionalmente alheio e fazendo vista grossa para o uso indireto de sua influência, o dragonoid mantinha-se bem à margem de tudo aquilo para não ter de se dar ao trabalho. A única regra não dita era que, perto do seu núcleo familiar, imposições para forjar uniões não eram aceitas; no entanto, se a própria pessoa desejasse se “vender” por dinheiro, poder ou status, isso já era outra história.

    Decidindo deixar todos aqueles pensamentos para trás para não se desgastar ou exasperar à toa, Alexander tomou o braço de Diana e foi até o irmão aniversariante dela, o pequeno Adam, que brincava tentando correr sob a supervisão da mãe; uma ação ousada para sua idade, ainda que o tempo em Aurora transcorresse de forma distinta e ele carregasse uma constituição draconiana especial.

    Feliz, perseguindo Alex (a slime de Diana), Adam subitamente parou ao sentir uma grande sombra se projetar sobre eles. Num pulo, a criatura gelatinosa que prosseguia saltou por cima dele e caiu nos braços de sua mestra.

    — Irmã!… — exclamou o garoto, avançando em direção a Diana, para a zero surpresa do dragonoid ao ver que outro o preteria, indiscutivelmente, em virtude da sua noiva.

    Tomando-o com o braço livre (já que a irmã dele segurava sua familiar com um, e ele próprio a tinha no outro), Alexander ergueu Adam para que o menino pudesse alcançar a irmã e tocar seu rosto antes de se virar para o ser gelatinoso no braço dela.

    Ao ver ali sua chance de fugir (já que o menino estava preso no braço do dragonoid), a Slime Alex escapuliu dos braços de sua mestra e fugiu para se esconder, enquanto o garoto puxava rapidamente as roupas de seu “suporte”. — Chão, irmão… Pegá-la.

    — Depois — disse Diana, desvencilhando-se e pegando o irmão nos braços. — Por enquanto, veja o que nós trouxemos para você.

    Assim que ouviram falar sobre os presentes que haviam trazido para Adam, todos que estavam por perto se viraram imediatamente para ver o que seriam. Os pais de Diana eram os verdadeiros nobres, em títulos e atribuições territoriais, mas todos sabiam que Alexander e ela eram a verdadeira força motriz (e os verdadeiros bolsos) da família, capazes de prover coisas boas, muito boas.

    Sem esperar outra deixa, o dragonoid girou a mão no ar e materializou uma flauta de madeira rara com traços de metal, entregando-a à criança. O instrumento era complexo demais para ser aprendido naquela idade, mas um poder pulsante de vento e uma melodia latente pareciam emanar dele.

    — Quando crescer, você pode vir a conquistar o coração das pessoas com isso. Por enquanto, pode apenas soprar e fazer barulho para chamar atenção ou assustar os outros, rsrsrs. — sorriu o jovem como um irmão mais velho malicioso.

    Repreendendo-o ao estapear de leve seu braço, ainda com um sorriso divertido por ele falar aquilo ao irmão, Diana puxou uma caixinha e mostrou um colar de ouro branco com 4 pingentes de cristais laminados: — Para você sempre lembrar da nossa família e como ela era.

    Surpresos ao ver um presente “sentimental e simples” em vez de algo extravagante ou rebuscado, alguns inconscientemente viraram os olhos para o colar visível no pescoço do noivo dela. Aqueles cristais laminados eram adaptados para absorver luz e imagem, exibindo figuras diferentes em cada face; muito usados por casais.

    — Sei que agora vai ser difícil superar sua irmã, mas eu lhe trouxe um brinquedo que você pode levar por toda a infância, e ainda usar para aliviar o tédio ou conquistar seus iguais: um bilboquê — apresentou Alexander com um leve sorriso.

    O brinquedo era simples em conceito, mas nada simples em sua construção.

    Pulsando de poder pela maneira como fora feito, aquilo podia até ser usado como arma ou catalisador mágico. Basicamente partes equivalentes conectadas por um cordão, o item era feito de madeira nobre ligada a uma esfera (na verdade, uma grande pérola com suporte metálico), unidos por uma linha resistente de fio-tesouro de seda.

    Confusos a ponto de ficarem um pouco assustados, os avós paternos de Adam, impulsionados pelos demais curiosos, chegaram a perguntar do que aquela coisa era feita, pois a aura que emanava parecia de tudo, menos de um brinquedo.

    — Hmm?…  A energia está assim porque a madeira veio de uma árvore de mana, e a esfera é a pérola de uma {Ostra Fogo Celeste} — respondeu o dragonoid, quase indiferente. — O que estão sentindo é o poder filtrado da água e do mar emanando do brinquedo de forma passiva, ao se alimentar da energia ambiente e metabolizá-la.

    Quase cuspindo o que tivessem em suas bocas de tão incrédulos e atônitos, os demais presentes se perguntaram que maníaco usaria o tesouro que era a pérola de uma {Ostra Fogo Celeste} (uma criatura ultra-rara de água e fogo da 3ª evolução) para fazer um brinquedo de criança? Ainda mais quando o próprio “maníaco” nem a usava para si, mesmo tendo afinidade mágica com a água.

    Bem conservada e utilizada, aquela pérola poderia se tornar o núcleo de uma família inteira, dada sua capacidade de absorver o poder ambiental e emanar uma energia que ajudava a aprimorar o elemento água de todos que a recebiam.

    Instintivamente se voltando para o neto que passara a ostentar bens valiosíssimos da luz, da água, da terra e do vento, os avós olharam para o noivo de sua neta, e a avó indagou: — Sabemos que a sua intenção é boa, mas não é… muita coisa? São tantos itens que podem acabar atraindo reações… indesejadas.

    — Verdade seja dita, já pensei nisso e estou sempre avaliando o risco externo. Acho que ainda não é o suficiente para alguém se mover tão descaradamente contra nós; o nível de poder necessário ajudaria rastrear a pessoa — respondeu Alexander com uma expressão seca, como se seu rosto perdesse o brilho para algo frio. — Quanto a serviços internos ou furtos, todos os objetos estão impregnados de marcadores espaciais; logo irei os rastrear, junto de quem os pegar, com marcas inconfundíveis…

    — Eu lutei mano a mano contra um {Dragão Azul} de 3ª evolução para conseguir esse último, e os demais também não vieram a um custo baixo. Então, terão que me perdoar por ser indelicado e definitivo — completou o jovem, mortalmente sério.

    No instante em que o ouviram, todos que abrigavam o mínimo de sentimento volúvel ou cobiça no coração estremeceram na própria medida e começaram a se afastar desses pensamentos. Aquele era o aviso sério de alguém que realmente cumpriria a promessa, caso chegassem a tanto.

    Embora a conversa entre Alexander e os avós de Diana devesse dizer respeito apenas a eles, o clima geral da festa ficou um tanto estranho, e o dragonoid achou melhor se recolher à margem, uma vez que seu recado já havia sido dado. Ele não era tímido nem temia julgamento alheio, mas aquele dia não era, e nem deveria ser, sobre ele.

    Animada e transcorrendo pacificamente até o começo da tarde, a celebração do aniversário de Adam foi ficando cada vez mais amena à medida que o clima pesado se dissipava e a festa ganhava vida com a chegada de mais gente e o afastamento deliberado de Alexander dos holofotes. Para todos os efeitos, no final das contas, o aniversário do menino acabou mesmo se assemelhando ao que um aniversário de um jovem nobre deveria ser.

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