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    Embora não tivesse o hábito de fazer isso desnecessariamente, Alexander não se importou particularmente em furar a fila. Como o temperamento de Pequeno Preto só podia ser descrito como temperamental longe de Diana, ele foi direto ao balcão da atendente que conhecia quando ela ficou livre.

    — Sinto muito por cortar a fila e vir direto ao seu balcão, mas você poderia, por favor, chamar o mestre desta filial da Guilda? — pediu o dragonoid calmamente.

    — Senhor, nós temos uma fila e o mestre da guilda deve estar ocupado — disse a recepcionista, sem muita paciência por alguém ter cortado a fila. — Então, se não for um caso realmente urgente, você e seu grupo podem voltar para o fim da fila? As pessoas já estão reclamando.

    — Então você não me reconheceu mesmo — disse ele à recepcionista, sem se importar com a fila. — Infelizmente, não poderei atender ao seu pedido. Vou ter que insistir, especialmente porque acredito que ninguém aqui além dele tem autoridade para atender o meu pedido… Mas isso aqui deve facilitar as coisas.

    Surpresos após verem a identificação dele, a multidão e a recepcionista diminuíram as suas reclamações. A multidão pela cor da identificação ser dourada, e a recepcionista pelas informações nela.

    Ainda um pouco cética sobre aquela possibilidade, a recepcionista a confirmou com a identificação de Ocean antes de se voltar para ele: — Você? Não pode ser você… A última vez que ouvi falar sobre você foi quando ganhou o Torneio Imperial; e você não era assim.

    — Parece que uma loba rara é realmente marcante — brincou Alexander sorrindo. — Você realmente se lembra dela depois de todo esse tempo.

    — Eu não me lembrei de você só porque olhei a identificação de Ocean. Eu olhei a identificação dela para confirmar que era você mesmo — disse a recepcionista revirando os olhos. — Pode me culpar por isso? Você está tão… diferente.

    — Verdade — concordou o dragonoid. — Mas eu te disse desde o começo que não era tão humano quanto parecia.

    — E também não é como se eu estivesse usando nossa familiaridade apenas para cortar a fila — acrescentou, um pouco mais sério. — Eu realmente preciso falar com o mestre desta Guilda o mais rápido possível.

    Notando que Alexander estava sério sobre falar com o Mestre da Guilda, a recepcionista abaixou a cabeça para escrever o pedido. Ela acabou murmurando algo sobre ter perdido uma boa chance, mas que ainda poderia tentar.

    — … — Diana.

    No momento em que preencheu a maior parte do formulário, a recepcionista se virou para ele e disse: — Vou pedir para alguém notificar o mestre da guilda, mas é preciso que ele saiba por que está sendo chamado.

    — Tudo bem, já esperava por isso — respondeu o dragonoid com tranquilidade. — Estou aqui por mais de um motivo, mas o motivo pelo qual preciso dele é para registrar um familiar. Se não estou enganado, ninguém aqui além dele deve ter autoridade para liberar o registro de um familiar de 3ª evolução.

    — É verdade que você precisa da aprovação dele para registrar qualquer familiar de 3ª evolução. Mas Ocean já não está no rank ouro? — apontou a recepcionista, confusa. — Não me diga que você tem outro familiar agora.

    — Preciso sim registrar o outro bom familiar que consegui — sorriu Alexander com satisfação. — Mas não é o meu que precisa do mestre da guilda. É o familiar de Diana.

    — E por falar nela, deixe-me ter o prazer de apresentá-las — disse ele, já se virando para Diana. — Esta aqui é D-.

    No segundo em que Alexander se virou para ela, a demi abraçou o pescoço dele com força, forçando-o a se abaixar. Ela deu-lhe um beijo cheio de paixão, desejo e, obviamente, ciúme, estabelecendo assim seu primeiro “mata-dragão”.

    No começo, até o próprio dragonoid ficou bem surpreso. Mas no instante em que a surpresa passou, ele a abraçou e a correspondeu com entusiasmo.

    Toda a Guilda ficou mortalmente silenciosa com o beijo deles. Verdade seja dita, a maioria ali não queria ficar vendo aquela cena.

    No entanto, como nenhum deles se atreveu a interrompê-los — especialmente porque o brilho dourado da identificação de Diana também ficou visível durante o beijo — a Guilda só pôde esperar com um misto de sentimentos contraditórios.

    — Prazer em conhecê-la, eu sou Diana — apresentou-se a demi-canídea à recepcionista de forma extremamente assertiva, como se deixasse algo bem claro. — É o meu familiar que vai precisar do mestre desta Guilda para ser registrado. Logo, EU conto com o seu apoio, bem como agradeço por ele desde já.

    Pega de surpresa por aquela situação, no mínimo embaraçosa, a recepcionista não soube muito bem como lidar. O melhor que a atendente conseguiu fazer foi abrir um sorriso forçado.

    Sem muitas saídas, respondeu da maneira que pôde: — Prazer em conhecê-la. O meu nome é Zilda… Agora, se me der licença, tenho que notificar o mestre da Guilda.

    — Obrigado — disse Diana, sem recuar um único ponto.

    Quando a recepcionista Zilda foi para os fundos da Guilda notificar o mestre daquela filial, Ariel se aproximou de Alexander.

    Em teoria, a elfa iria dizer algo que só eles ouviriam. No entanto, “acidentalmente”, permitiu que todo o grupo ouvisse: — Está mesmo tudo bem deixá-la fazer isso?

    — Não é como se eu não entendesse por que ela fez isso — respondeu o dragonoid calmamente. — Então, contanto que ela não brinque ou trate a vida dos outros como se não tivessem valor, não tenho intenção de impedi-la.

    — … — Ariel.

    — … — Diana.

    — … — Helena.

    — Mas até eu sei que é melhor irmos para outra fila — apontou ele com uma expressão ambígua.

    Como se não bastasse toda a situação que já havia acontecido, trocar de guichê não acalmou as coisas. Todos na frente deles na fila para qual mudaram, por algum motivo, foram cedendo sua vez para eles.

    Olhando em volta e notando que aquilo possivelmente aconteceria novamente mesmo se fossem para o final de outra fila, Alexander decidiu usar aquele guichê mesmo. Resolveriam o que tinham que resolver para que pudessem sair logo da Guilda e aliviar o clima do local.

    Contudo — enquanto um recepcionista de meia-idade ajudava nos registros de Ariel, Helena e Storm — Zilda, já bem recomposta, voltou com o mestre da guilda. Ela até ficou confusa por não encontrá-los no seu guichê.

    — O que estão fazendo aí? — perguntou a atendente, confusa por encontrá-los em outro guichê.

    — Como já havia feito o pedido para falar com o mestre da guilda, resolvi entrar na fila como todo mundo para resolver meus outros problemas mais corriqueiros — “explicou” Alexander levemente. — Mas meus companheiros que estavam nessa fila, por algum motivo, foram muito gentis e nos deixaram passar sem eu sequer pedir.

    — Então é você que quer registrar o familiar? — perguntou o mestre da filial, se aproximando.

    — Não é ele, mestre — corrigiu Zilda com leveza. — É aquela dama Demi que o acompanha.

    — Então é você — disse o mestre da guilda ao avaliar Diana. — Você poderia me mostrar a sua identificação? Não posso aceitar o registro de um familiar dessa magnitude se o seu mestre não tiver as qualificações para controlá-lo.

    Ouvindo o razoável pedido dele, a demi tirou sua identificação e entregou-lhe de maneira assertiva.

    — Não parece haver nenhum problema com sua identificação — disse o mestre da filial após avaliá-la. — Então vamos ver o familiar que você quer registrar. Onde ele está?

    — Ele está lá na porta, mas deixe-me dizer uma coisa antes de você vê-lo — disse Alexander mais sério, tomando a palavra. — Diana o controla e ele é bem inteligente. Mas também responderá a agressões e provocações, exatamente como nós faríamos.

    — … — Mestre da guilda.

    — Aquele cara é arrogante demais para atacar criaturas fracas como as pessoas comuns — ironizou o dragonoid, sabendo que o cão desdenhava dos mais fracos, exceto sua mestra. — Mas você não é comum, e ele vai sentir isso.

    — … — Mestre da guilda. — Vou me lembrar de manter isso em mente.

    Com o mestre da filial devidamente informado sobre Pequeno Preto, todos os envolvidos se juntaram em um grupo temporário, dispersaram os curiosos e foram a uma área reservada da Guilda.

    Aproveitando que ambos já estavam lá, Alexander pediu ao mestre da guilda para também avaliar Storm. Uma tarefa que o mestre da guilda aceitou com um sorriso indiferente que dizia que isso seria fácil.

    A avaliação de Pequeno Preto correu bem.

    Embora tenha passado por um momento tenso na última parte — onde ele rosnou para o mestre da guilda quando o mesmo usou energia para sondá-lo — não foi nada fora de controle.

    Alexander pôde sentir que o mestre da guilda não estava dificultando as coisas de propósito para eles. Ele só estava verificando se Pequeno Preto já era estável o suficiente para não explodir e atacar sujeitos idiotas.

    Sempre poderia haver algum idiota que não se importava muito com a própria vida tentando sondá-lo.

    — Ele é um exemplar muito bom e a jovem tem muita sorte de tê-lo obtido… Está aprovado — anunciou o mestre da guilda. — Mas vocês devem mantê-lo longe de potenciais idiotas se não quiserem se meter em problemas.

    Surpreendentemente, Pequeno Preto pareceu começar a gostar daquele mestre da filial. Mas aquilo provavelmente foi apenas temporário por conta dos elogios.

    O grande cão negro em questão era extremamente egocêntrico em relação às suas capacidades.

    — Nem preciso falar muito sobre esse pequeno amiguinho aqui. Ele obviamente está aprovado — disse o mestre da guilda ao acariciar Storm, que estava em seu braço para a avaliação. — Parece que a sorte realmente sorriu para vocês. Uma obteve um familiar com poder, e o outro obteve um familiar com potencial.

    — Que tipo de familiar é esse para ser aprovado tão fácil? — perguntou Zilda curiosa.

    — Ele é um {Pássaro Elemental}. Essa é uma espécie conhecida por ser uma das mais procuradas para se ter como familiar, até pela alta nobreza — explicou o mestre da guilda admirado. — É capaz de obter várias afinidades mágicas dependendo da forma como for treinado, e a sua natureza é fiel e gentil.

    — Que incrível — maravilhou-se a atendente. — Onde você o encontrou, Alexander?

    — Na Floresta Estelar, durante o nosso caminho da Cidade Lester até aqui — não escondeu o dragonoid. — Mas não o encontrei exatamente… Nosso encontro foi mais uma coincidência do destino e ele acabou decidindo me seguir.

    — Isso me lembra uma coisa — disse ele ao se virar para o mestre da filial. — Mas não acho que podemos falar sobre isso aqui. Você teria algum lugar mais indicado?

    — Venham à minha sala — instruiu o mestre da guilda após ponderar um pouco.

    Após chegarem à sala e conversarem, Alexander contou-lhe de forma resumida e censurada como e onde conseguiram os seus familiares. Isso obviamente também perpassou pelos traficantes de criaturas que pegavam filhotes proeminentes sem se importar com as ondas desastrosas que isso poderia causar.

    Ele inclusive contou que um desses raptos de criaturas poderia até ter destruído toda aquela parte do Império se não tivesse sido resolvido. Tudo ali possivelmente poderia ter sido destruído sem a intervenção deles.

    — E o que aconteceu com esses aventureiros? — perguntou o mestre da guilda com uma expressão séria.

    — Eu sei que provavelmente não foi a melhor escolha do ponto de vista de uma investigação, mas o que você acha que aconteceu com eles depois que tentaram me matar? — rebateu Alexander como se o fim fosse óbvio.

    — … — Mestre da guilda. — Entendo. Mas por que você está me contando isso?

    — A família de Diana mora perto da Floresta Estelar — disse o dragonoid de forma pragmática. — Numa situação em que o pior acontecesse, você realmente acha que a fúria de uma criatura descontrolada perdoaria os inocentes?

    — Estou lhe contando isso para que você possa relatar aos seus superiores e ao Império — explicou, quase dando de ombros. — Eu mesmo faria isso se tivesse tempo, mas já estou envolvido com outras coisas no momento.

    — O que vai fazer sobre o que eu disse é escolha sua, mas também contarei isso ao mestre da filial da Cidade Martelo de Ferro — acrescentou com um sorriso que não era bem um sorriso. — E, assim como estou lhe dizendo que vou contar a ele, também direi a ele que você já sabe… Duas testemunhas são melhores do que uma, não acha?

    — … — Mestre da Guilda.

    — Agora, se nos dá licença, estamos indo — finalizou Alexander, já levantando-se para sair.

    Após saírem da sala do mestre da guilda, o grupo foi até a recepção para receber as identificações dos novos membros. Nesse meio tempo, o dragonoid aproveitou para pagar uma rodada da melhor bebida do bar da Guilda para todos que estavam lá e uma rodada dupla para todos que lhe concederam o lugar na fila anteriormente.

    Quando o grupo finalmente deixou a Guilda em meio aos brindes da bebedeira que se instalou enquanto ele pagava a conta, Diana perdeu a sua máscara. Toda a vergonha dela retornou, deixando seu rosto extremamente vermelho.

    Tentando não deixá-la ainda mais envergonhada, e um pouco curiosa, Ariel desviou o foco dela para Alexander e perguntou: — Era tudo verdade? Vocês salvaram mesmo o filhote de uma criatura capaz de devastar toda esta parte do Império Vermillion?

    — Era tudo verdade. Mas só vou te contar mais um detalhe — disse o dragonoid ao abrir um largo sorriso. — Essa situação toda poderia não ter acontecido se eu não tivesse beijado Diana naquele dia, acreditem vocês ou não…

    — … — Ariel.

    — … — Helena.

    Obviamente sabendo em detalhes como aquela situação se desenvolveu nos capítulos anteriores de suas vidas, Diana imediatamente ficou ainda mais vermelha.

    Ao que parecia, apenas o amor e o ciúme poderiam superar as barreiras da timidez dela.

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