Capítulo 174 – O céu finalmente começa a ficar nublado
Deixando a Guilda com a recompensa em mãos, uma vez que a missão foi formalmente concluída, Alexander colocou aqueles aproveitadores em segundo plano na mente e foi se juntar ao grupo para a refeição matinal.
Não era como se não entendesse a ganância daquelas pessoas.
A essência de um golem nada mais é do que um material supercondutor de energia para partes específicas do corpo, situado um nível acima da própria evolução da criatura. Assim, um golem de 3ª evolução possui uma essência equivalente a um material de 4ª evolução.
Sem falar que, em alguns casos, golems evoluídos a partir de slimes podem produzir uma essência que permanece orgânica. Dessa forma, o recurso pode ser usado diretamente no corpo para fortalecê-lo com poucas contraindicações, independentemente da raça ou espécie.
A grande questão em toda essa situação é que é raro — para não dizer absurdamente raro — que uma essência orgânica apareça. Além disso, a mão de obra que pode ser contratada para capturá-la tende a ser apenas de aventureiros de rank ouro.
Já aventureiros de rank platina e acima, com condições para enfrentar um golem com facilidade, geralmente reivindicam a essência para si se o valor oferecido não for muito bom e acima da média.
O que aconteceu foi uma conspiração entre o senhor local e o mestre do ramo da Guilda — ou entre o enviado do senhor local e alguém da própria Guilda — numa tentativa de pressioná-lo com seus títulos e sua influência.
Infelizmente para eles, desta vez quem aceitou a missão rapidamente percebeu a possibilidade de haver um esquema como esse — ou semelhante — na missão.
Alexander então preparou-se para não ser pressionado por exigências tão ridículas e injustas, deu-lhes um grande dedo metafórico e foi continuar com sua vida.
Como não havia muito mais o que fazer naquela cidade além de limpar as masmorras restantes, ele passou a dividir os dias entre seus afazeres: praticar a criação do feitiço que desejava há muito tempo, passear com Diana e realizar algumas compras que considerava estratégicas.
Com o suporte do [Anel Espiritual Behemoth], o dragonoid passou a compreender muito melhor a diferença entre não ter afinidade mágica com um elemento e possuir ao menos uma pseudo-afinidade com ele. Isso, com toda a certeza, fez com que a velocidade de criação do feitiço que desejava disparasse.
Na manhã do quinto dia desde que chegaram à cidade, após ter passado os últimos dias basicamente praticando em seu quarto, ele finalmente conseguiu manter 10 feitiços híbridos sobre os dedos das suas mãos. Cada elemento, exceto Trevas, havia sido manifestado em dois feitiços: um de caráter ofensivo e outro de suporte, ambos mesclados com o elemento Luz.
Controlando estritamente sua respiração e removendo momentaneamente todos os pensamentos que podia de sua mente, Alexander começou a dar o passo final para o feitiço que queria criar.
Ao contrário de antes, onde estava tentando criar feitiços híbridos entre 2 elementos diferentes, desta vez tentava usar o elemento Luz como base e elo para fundir todos aqueles feitiços híbridos em um só.
— BUUUUUM.
Como esperado, a primeira e várias tentativas subsequentes foram um fracasso total. Elas só produziram explosões audíveis a todos na estalagem.
Felizmente, o isolamento acústico e a baixa concentração de pessoas durante a manhã tornaram a situação minimamente suportável, e ninguém foi pedir — ou mandar — que parasse.
Tendo cerca de 90 tentativas por vez antes que sua mana caísse do nível máximo para patamares perigosamente baixos, Alexander iniciou uma longa série de tentativas e erros em sua empreitada.
Com várias garrafas de mana ao alcance, ampliando ainda mais o número de tentativas que podia realizar antes de precisar parar para descansar e se recuperar, ele voltou a tentar.
Após cerca de cem tentativas ou mais, o dragonoid decidiu fazer uma pausa para descansar e se recuperar. Mesmo ainda tendo mana e MP, sentia que as tentativas sucessivas e constantes estavam fazendo com que começasse a perder precisão e objetividade.
No entanto, da mesma forma que havia parado, ele voltou a tentar após se recuperar e reorganizar suas ideias com os insights obtidos ao longo das tentativas anteriores.
Já no final da tarde, entre a tentativa 280 e 300, quando estava exausto e preocupado com o retorno iminente de Diana — que provavelmente tentaria fazê-lo parar —, ele conseguiu obter um pequeno indício de acerto.
Num golpe de sorte quase milagroso, o sistema reconheceu o vislumbre do que ele estava tentando realizar.
Ding!
[Tentativa de criação de feitiço identificada. Você deseja gastar (6) pontos de crescimento para criar o feitiço Tier III: |Luzes Elementais|?]
Não ousando perder nenhum segundo, Alexander respondeu ao sistema: — Sim.
Ding!
[Você adquiriu o feitiço Tier III |Luzes Elementais|]
Desconsiderando as informações que começaram a invadir sua mente sobre aquele novo feitiço, o dragonoid só esperou o processo terminar. Em seguida, se deixou cair sobre a cama em meio àquele quarto completamente bagunçado e revirado.
Sua saturação energética e exaustão mental nos últimos dias tentando criar o feitiço foram imensas.
Quando ele despertou novamente, foi Diana lhe acordando para comer alguma coisa antes de voltar a dormir. Ela não perguntou o que tinha feito, ou por que o quarto tinha ficado daquele jeito, apenas o fez comer alguma coisa antes de poder voltar a dormir em paz.
Na manhã seguinte, após uma longa noite de sono e outra boa refeição, Alexander sentia-se muito melhor. Ele até começou a analisar e revisar as informações de |Luzes Elementais| com mais cuidado.
Surpreso com o conteúdo, mas muito feliz com tal criação, o resto da manhã passou voando devido ao seu entusiasmo em assimilar cada pedacinho daquele feitiço.
No final da manhã, quando Diana o chamou para comer, só lhe faltava usar o feitiço em si para testá-lo.
Extremamente empolgado com tudo aquilo, o dragonoid convidou as mulheres do seu grupo para comer e beber para comemorar. Todas aceitaram rapidamente a festividade com entusiasmo.
Com o grupo gastando uma quantia considerável em diversos tipos de bebidas e comidas, além de oferecer uma rodada de bebidas para todos no estabelecimento, o clima ficou ainda mais festivo.
No entanto, como tudo que é bom tem chance de durar muito pouco, assim que o mestre cervejeiro foi entregar alguns copos de cerveja na mesa deles, algumas pessoas entraram e foram na direção dele.
— Parece que o seu negócio está indo bem, meu velho. Fico feliz que você possa nos pagar sem termos que recorrer a “outros meios” — disse o homem que parecia estar liderando os mal encarados que haviam entrado. — Porque nunca se sabe quando algo pode acontecer, certo?
Após suspirar um pouco exasperado, sem sequer se virar, Alexander segurou o braço do homem que estava indo até o mestre cervejeiro com a sua cauda. — Não sei que tipo de “negócios” vocês têm aqui ou com esse homem, mas terão que esperar para resolvê-los mais tarde.
Antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa, o dragonoid continuou: — Deixe-me avisar que não me importa para quem vocês trabalham, muito menos quem você é ou não. Mas lhe adianto que se fizerem qualquer coisa para estragar ainda mais o ânimo do meu grupo, as coisas não irão acabar bem para ninguém aqui.
Assustado com a força assustadora daquela cauda que segurava seu braço, o líder do grupo começou a olhar com medo para o “dragonewt” à sua frente. O sujeito então disse aos seus homens que eles estavam indo embora.
Após os arruaceiros irem embora, o mestre cervejeiro colocou as cervejas na mesa, agradecendo-os meio sem jeito.
— Não precisa agradecer. Só fiz o que queria fazer — disse Alexander calmamente. — Dito isso, se for aproveitar para tentar fazer alguma coisa, não esqueça de mandar outra pessoa continuar atendendo e entregando nossos pedidos.
— Nós… não poderíamos ajudá-lo? — rapidamente interveio Diana.
— Sequer temos informação suficiente. Esse homem pode ser um pai desesperado que contraiu uma dívida enorme por causa da família, um jogador compulsivo; ou mesmo apenas um trabalhador que, por alguma circunstância, está sendo explorado — disse o dragonoid. Não havia como saberem. — Sem falar que há problemas que não podem ser resolvidos só com dinheiro ou ameaças.
— É provável que esses ou outros arruaceiros voltem a atormentá-lo no futuro — pontuou ele, lembrando de forma pragmática. — Não estaremos aqui para sempre. Podemos até acabar tornando a situação dele ainda mais perigosa.
Vendo aquela jovem bela se preocupar e suspirar por ele, um homem que ela mal conhecia, o mestre cervejeiro não pôde deixar de sentir o coração aquecer e decidiu confortá-la: — Não precisa se preocupar, mocinha. Pode não parecer à primeira vista, mas já tenho alguns planos para me livrar dessa situação.
Feliz por saber disso, Diana se empolgou novamente e ofereceu mais uma rodada para todos que ainda estavam no estabelecimento. Esta parecia ser a sua maneira de contribuir pelo menos um pouco mais para aquele senhor.
Razoavelmente satisfeitos com o desenrolar da situação, o grupo serviu-se de mais algumas rodadas, pagou a conta e saiu. Mas como alguns não se arrependem de suas ações até verem suas vidas passarem diante de seus olhos, o líder dos arruaceiros reapareceu gritando e apontando para eles: — São aqueles ali.
Antes que Alexander pudesse tomar qualquer atitude, o homem ao lado do sujeito lhe desferiu um soco. — Vocês estão malucos, seus filhos da puta? Se querem se matar, façam isso sozinhos e não arrastem os outros com vocês.
Depois de espancar com vontade o líder dos rufiões, como se tentasse desabafar alguma frustração que vinha tendo nos últimos dias, o homem chegou a ameaçar matá-los fora da cidade se soubesse que eles voltaram a se aproximar daquele estabelecimento.
O homem revoltado em questão era o aventureiro que Ariel e Diana haviam espancado.
Voltando a seguir seu caminho como se aquele pequeno “show” não tivesse nada a ver com elas, as mulheres do grupo logo começaram a refletir sobre os benefícios de serem mais “incisivas”.
Antes que pudessem se aprofundar, porém, o céu sobre a cidade começou a se revolver e ficar nublado.
— Melhor nos apressarmos — disse Ariel ao olhar para o céu. — Parece que finalmente vai começar a chover pra valer.
Sabendo que ela estava certa — era estranho que, naquela época de chuvas, tivesse chovido tão pouco — o dragonoid concordou com a premissa dela. Ao ver um guarda uniformizado passar, pediu-lhe um pouco de seu tempo.
— Com licença, quer receber 1 pequena moeda de platina em troca de responder algumas perguntas? — perguntou ele, interceptando o guarda que parecia apressado em se abrigar em algum lugar.
Ao ser abordado por uma proposta tão comum e por um valor tão tentador, o soldado primeiro analisou o entorno e os prédios com cuidado. Em seguida, finalmente aceitou o pedido de Alexander em um tom quase conspiratório.
— O que você quer saber? — inquiriu o guarda em voz baixa. — E primeiro o pagamento.
— Eu não quero lhe perguntar nada. Mas é provável que você tenha que responder a algumas perguntas por mim em breve — disse o dragonoid ao jogar a moeda para o guarda e apontar sua mão para o céu. — |Luzes Elementais|.

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