Capítulo 146 – Do dia mais claro à noite mais densa
Com algum tempo e seu grande poder de cura, Diana estabilizou bem a situação de Helena. Ela fez a dragonewt se estabilizar e relaxar a ponto de começar a dormir.
— Esperem um momento — disse Alexander ao parar seu grupo. — Vamos fazer uma pequena parada.
— Por quê? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Ariel sem entender.
— Não — explicou o dragonoid suavemente. — É só para trocarmos de lugar.
Aproveitando que todos pararam, ele gesticulou e sua mana pegou Helena de Diana.
Antes que a elfa pudesse protestar, a dragonewt foi suavemente entregue a ela.
— Não fique nervosa por nada. Não pretendo levá-la comigo — esclareceu Alexander sorrindo. — Sou apenas a pessoa mais indicada para trocá-la de montaria.
— Uma última coisa. Mantenha o rosto dela em uma direção contrária à minha, por precaução — avisou, sem parecer ofendido por possivelmente ser visto como hostil. — Não acho uma boa ideia ela me ver assim que acordar.
Mesmo tendo suas várias reservas quanto a ele, Ariel não pôde deixar de se surpreender com o quão atencioso ele era quando queria ser. Ela até começou a entender por que alguém como Diana parecia gostar tanto dele.
— Me chamem quando Helena acordar e estiver melhor — disse o dragonoid ao desmontar de Ocean. — Não se preocupem, estarei logo acima de vocês.
— Hmm? Você não vai com Diana? — estranhou a elfa, confusa.
— Eu realmente não acho que o familiar dela esteja disposto a me levar, então por que nos colocar nessa situação desnecessariamente — explicou ele casualmente. — Um familiar não é um escravo.
— … — Ariel.
— Deixe-me lhe dar um conselho antes de subir — disse Alexander após pensar um pouco sobre a situação. — Não vou te dizer o que fazer com a relação de vocês, mas ela não parece muito bem definida para quem olha de fora.
— … — Ariel.
— Pense bem no que quer e seja fiel a isso — aconselhou o dragonoid, sério. — Não vale a pena estar disposto a morrer por alguém se você não se dá a chance de viver de verdade ao lado dela.
— … — Ariel.
Sem esperar pela resposta, Alexander aproveitou o fato de ela estar pensando em suas palavras para pular de galho em galho até chegar ao topo das árvores. Em seguida, abriu suas asas e voou.
Apesar de todas as situações vividas desde que evoluiu, ele ficou feliz por poder voar.
Sendo aquela a primeira vez que voava sem um objetivo, o dragonoid finalmente teve tempo de saborear de verdade a bela vista e toda a sensação de liberdade.
— Quando chegarmos a uma área mais segura, trarei Diana comigo para um voo onde ela também possa ver essa vista — decidiu enquanto contemplava toda a experiência.
Mesmo já estando em uma área mais próxima do Império, a segurança do grupo ainda era uma preocupação legítima. Criaturas de 3ª evolução iam liberando suas presenças em resposta à presença do grupo nos territórios delas.
No entanto, com o avanço do grupo, o número desses encontros tornou-se cada vez menor.
No momento em que o grupo finalmente chegou a uma área mais segura, Alexander desceu para pegar Diana. Mas quando retornou ao grupo, logo percebeu que seus planos teriam que ser adiados. Helena havia acordado.
— … — Alexander.
— … — Ariel.
— … — Diana.
— … — Helena.
Com o grupo completo com a chegada dele, o clima ficou um pouco estranho. Helena não parecia muito confortável, Ariel parecia evitá-lo pelo que ele havia lhe dito antes e Diana não sabia como melhorar o ambiente.
— Já que nenhuma de vocês parece disposta a iniciar essa conversa, deixe-me começar — disse o dragonoid, não parecendo se importar em quebrar o gelo. — Vou ser franco com você, Helena. Pelo que senti, você tem vários problemas, em especial um. Este problema maior é a raiz da maioria dos outros, e ele é grave.
— Mas antes de falarmos sobre o problema em si, deixe-me confirmar uma coisa: você passou a infância aprendendo a lutar fisicamente em vez de aprender magia, correto? — questionou, dando continuidade à sua suspeita.
— … — Helena. — Como a minha família é tradicionalmente de guerreiros, só comecei a aprender sobre magia depois da maioria… Mas por que a pergunta? Eu nem tenho dom para magia.
— … — Alexander.
Após um longo suspiro de indignação diante daquele desperdício quase criminoso, o dragonoid explicou: — Se eu estiver certo, e acho que estou, o seu problema é exatamente o oposto. Não é que você não tenha dom para a magia, é que você basicamente nasceu para ela.
— O seu problema é que, por seu talento físico inato não ter sido devidamente trabalhado, ele acabou virando uma espécie de “jaula” para você, e agora aprisiona seu talento mágico — continuou ele, mesmo ao ver os rostos surpresos delas. — Dentro do seu corpo, da sua linhagem, existe algo antigo e poderoso que logicamente nem deveria estar ali. Algo capaz de superar e sobrepor parte da sua linhagem dracônica — o que, acredite, não é nada fácil.
Mesmo sabendo que deveria haver uma mistura de sentimentos e pensamentos correndo soltos dentro de Helena, Alexander decidiu “martelar o ferro enquanto ainda estava quente”.
O seu ponto era que, segundo vários pensadores, inclusive Maquiavel, o mal deve ser feito de uma só vez para que possa ser assimilado e superado o mais rápido possível.
— Você parece vir de uma boa família, e o problema que notei é até fácil de se detectar — informou ele com um certo olhar de desgosto ao falar da família dela. — O que nos deixa com três hipóteses principais:
— 1ª: A sua família é muito tradicional, a ponto de seu talento ser basicamente ignorado… Mas isso é tão estranho quanto extremo, pois qual família não gostaria de ter uma potência tão grande quanto a que você poderia se tornar?
— 2ª: Sua família é gigantesca e por isso seu talento foi negligenciado até que fosse tarde demais. Logo o responsável por isso disse que você não tem talento para que não fosse responsabilizado… Acredite, isso acontece muito.
— 3ª: A sua família é toda intrigada a ponto de ter conflitos internos; por isso alguém que faz parte dela suprimiu à força o seu talento com desculpas idiotas… Mas neste cenário as coisas ficam realmente complicadas para você.
— … — Ariel.
— … — Helena.
As amigas esconderam bem o que sentiram e não olharam para Alexander, mas ele ainda percebeu que uma das suas hipóteses chegou muito, muito perto da verdade. Helena até teve que reprimir um esboço de choro com esforço.
— Mas não é como se tudo estivesse perdido — o dragonoid rapidamente acrescentou para melhorar o clima. — Você ainda tem algumas opções para resolver esse problema.
— Verdade? — perguntou Ariel, surpresa. — Você pode realmente ajudá-la?
— Não posso… — admitiu ele sem criar falsas esperanças. — Pelo menos eu ainda não tenho poder suficiente para ajudá-la no momento.
— O que posso fazer é explicar a raiz do problema dela e dar-lhes algumas opções — disse com um tom compadecido da situação dela. — Embora isso possa colocar vocês em rota de colisão com as circunstâncias que mencionei acima.
— Na melhor das hipóteses, ela pode acabar brigando com a família. Mas no pior cenário, aqueles que a reprimiram ou negligenciaram podem agir contra ela de forma ainda mais agressiva e violenta — explicou o dragonoid sério.
— … — Ariel.
— Está tudo bem, Ariel — confortou Helena resignada. — Não é como se a minha situação pudesse piorar.
— Ok, então — concordou a elfa.
— Parece que vocês chegaram a um acordo — comentou Alexander antes de iniciar a sua explicação: — O problema dela é que ela está basicamente lutando contra o próprio corpo pelo controle da sua mana.
— As escamas dela têm uma atração maior do que o próprio controle e vontade dela — apontou o jovem. — Como se isso não bastasse, as escamas continuam a se fortalecer à medida que o tempo passa e seu corpo se desenvolve.
Bem surpresas com o “diagnóstico” do dragonoid, Ariel e Helena se voltaram para as lindas escamas verdes claras e caíram em uma pequena contemplação. Mas Alexander logo as acordou.
Ele ainda não havia terminado: — Numa primeira instância, a mana de uma pessoa, por ser algo quase intangível, só responde à própria pessoa; algo externo geralmente só pode suprimi-la ou desestabilizá-la com uma quantidade de mana ainda maior e mais densa… A grande questão no caso de Helena é que as escamas fazem parte do corpo dela.
— É por isso que o seu controle sobre a mana é difícil — inferiu o dragonoid. — É como se você vivesse em uma eterna disputa com suas escamas pelo controle da sua mana.
— A pior parte disso é que suas escamas ficam mais fortes a cada dia com o seu desenvolvimento, e isso vai erodindo parte do seu esforço para melhorar o controle da mana — concluiu de forma taciturna.
— Então é por isso que ela melhora tão pouco se esforçando tanto… — comentou a elfa, finalmente começando a entender a situação da amiga. — Como podemos resolver isso? Você disse que havia opções.
— Na verdade é simples — disse Alexander com um sorriso estranho. — O problema é que não é fácil.
— Para resolver esse problema, ela tem que aumentar e melhorar o seu controle ou sua condutibilidade sobre a mana até um ponto onde seu controle seja mais forte que a atração das suas escamas — explicou ele casualmente. — Assim as escamas deixarão de ser um problema e passarão a ajudar no controle de mana. O problema é que isso não será fácil.
— … — Ariel.
— … — Helena.
— Como disse: é simples, mas não é fácil — destacou o dragonoid. — Mas ainda posso sugerir alguns paliativos e uma possível solução rápida enquanto vocês procuram uma solução mais concreta.
Ouvindo-o falar sobre uma possível solução rápida, o rosto da elfa se iluminou e ela não pôde deixar de perguntar: — Qual seria essa possível solução rápida?
— Achar uma potência que possa e esteja disposta a fazer (Veias Mágicas) artificiais nela — respondeu o jovem com um encolher de ombros. — Isso criará “ramos” tão condutores de mana quanto as escamas dela, auxiliando-a no controle de sua mana por todo o corpo.
O rosto até então iluminado de Ariel escureceu, como se ela tivesse passado do dia mais claro à noite mais densa. Como {Elfa}, ela sabia claramente o que eram (Veias Mágicas), e o que elas significavam para o povo élfico.
— Eu não estou brincando com vocês. Estou apenas lhes falando as opções — disse o dragonoid ao ver o rosto sombrio de Ariel. — Essa seria a solução mais rápida, pois distribuiria e ajudaria ela a controlar a sua mana.
— Não sei onde você ouviu falar sobre (Veias Mágicas) artificiais, mas isso é um grande tabu élfico — disse a elfa, ainda mais sombria, como se aquilo tivesse um peso extra para ela. — Então mesmo que algum elfo seja capaz de fazer isso, ele não o fará… Mesmo que seja por, ou para, alguém da família dele.
— (!!!) — Diana.
— Desculpe-me por falar tão descuidadamente — disse Alexander recuando desse tópico. — Só ouvi falar sobre isso por alto. Não sabia que isso era um tabu para o seu povo.
— Tudo bem — disse Ariel, já tendo recuperado uma boa parte da sua grande compostura. — Mas já que essa opção não é possível, quais são os paliativos que ela pode usar?
— O primeiro é aumentar a quantidade de mana dela até preencher as escamas e ainda sobrar uma quantidade razoável para ela usar — respondeu ele dando de ombros. Abundância era uma resposta tão lógica quanto difícil em uma situação assim. — Mas esse método, além de ser muito difícil de pôr em prática, cria outro problema: que é ela conseguir usar apenas uma parte da capacidade dela ao invés de toda por muito tempo.
— Existe algum outro? — insistiu a elfa após suspirar.
— O segundo método seria optar por um estilo híbrido que não exija muito controle — apontou o dragonoid com um certo brilho no olhar. — Ao invés de usar feitiços, ela usaria uma arma encantada. Eu, pessoalmente, acho essa uma boa opção sem muitos contras além de compatibilidade.
— O que você acha? — perguntou, ao se virar para Helena.
— Essa não é uma opção — interveio Ariel preocupada. — Qual é a outra opção?
— Eu não tenho outra sugestão no momento — mentiu Alexander, escondendo o lampejo de crueldade que passou por seus olhos. — Mas tenho que dizer: você não deveria tentar fazer as escolhas dela por ela, não importa o quanto se preocupe com ela. Isso acabará negando a própria determinação dela e dando a ideia errada de que ela significa mais para você do que você significa para ela…
— … — Ariel.
Por mais que parecesse que o dragonoid mentiu para dar um sermão em Ariel, a verdade da última ideia que teve era mais perturbadora: se as escamas eram o problema, era só pegar algo afiado e resistente para simplesmente descamar Helena por inteira até a última escama, removendo assim, mesmo que temporariamente, a causa do problema.
— Então, mais uma vez, o que você acha, Helena? — perguntou Alexander, jogando a ideia de descamá-la como um peixe para o fundo da sua mente.
Notas:
- Neste trecho e no trecho abaixo, ele se refere ao fato de que elas são amigas. ↩︎
- Neste caso, ele está essencialmente perguntando: ela é sua amiga ou você é babá dela? ↩︎
- Referência ao juramento dos Lanternas Verdes. ↩︎

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