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    Já tendo encaminhado a “parte de cima” da sua regência, Alexander vestiu suas roupas mais simples e fez algumas caminhadas na periferia da Cidade Lester — como se não conhecesse o lugar ou soubesse para onde estava indo.

    Valendo-se do fato de já ter avisado a maioria dos que precisavam saber, agiu de forma selvagem. De maneira “gentil”, fez com que as pessoas que capturou tentando roubá-lo apontassem os autoproclamados “chefes” dali.

    Antes do final da manhã, o dragonoid já havia capturado todos os rufiões, ladrões e bandidos que circulavam por ali. Antes do final da tarde, já havia capturado seus chamados chefes — fossem aventureiros, soldados, comerciantes ou o que fosse.

    Dentre os piores e mais cruéis canalhas da cidade, Alexander sabia bem ser o melhor e mais irrestrito entre eles.

    Mediante essa eficiência brutal, instalou-se uma forte instabilidade na periferia. Todos que colocavam ou tentavam colocar a cabeça para fora para testar as águas rapidamente voltavam a se esconder para não chamar atenção.

    A mensagem havia sido passada: não haveria outro poder regional sem a aprovação do núcleo central do baronato.

    Satisfeito com o resultado obtido, o mesmo processo foi repetido por toda a baronia nos dias seguintes.

    Em estruturas fechadas, onde nenhuma chegava a ser uma grande cidade, o dragonoid mostrou-se absoluto ao combinar seu poder pessoal, alta resistência e vastas reservas de energia com o poder da regência. Ele era a própria materialização da lei a ser temida naquela região periférica do Império.

    Alexander sabia muito bem ser brutal e implacável quando considerava necessário, mas o processo só ocorreu de maneira tão rápida e fácil devido às suas medidas anteriores: muitos criminosos já haviam começado a fugir ou se esconder devido à iminente confrontação de informações com as da Guilda dos Aventureiros no registro obrigatório.

    Satisfeito com os resultados obtidos, mas ciente de que sua força e autoridade por si só não resolveriam todos os problemas — principalmente entre os mais pobres e ladrões nascidos de necessidades reais — o dragonoid fundou abrigos e passou a recrutar aqueles mais próximos de serem líderes locais nas periferias. Sua intenção era usá-los para organizar e controlar aquela parcela da sociedade por algum tempo, até que pudesse tomar medidas mais concretas.

    Com as ações mais urgentes tomadas, Alexander voltou à associação dos comerciantes da cidade Lester para retomar seus negócios. A essa altura, porém, sua chegada já era recebida com mais temor do que expectativa ou felicidade.

    — Calma… — disse o dragonoid, tranquilizando as pessoas ali. — Dessa vez, só vim falar com um dos seus gerentes sobre algumas aquisições pessoais.

    Depois que todos ali suspiraram aliviados, alguém foi chamar o referido gerente para Alexander. Em seguida, ambos seguiram para uma sala privada.

    — Desculpe por aquela cena — disse o gerente, em tom apologético.

    — Não precisa. Consigo imaginar bem a impressão que as pessoas têm de mim e das minhas atitudes — respondeu Alexander, sem parecer ofendido. — Mas e quanto ao meu pedido? Conseguiu fazer o levantamento que solicitei?

    — É claro. Cuidei pessoalmente dele — declarou rapidamente o gerente, colocando diversas folhas com informações detalhadas e organizadas na pequena mesa entre eles. — Aqui estão as informações que o senhor pediu.

    — Obrigado — disse Alexander antes de pegar as folhas e começar a lê-las com extrema rapidez. Concentrou-se apenas nas partes essenciais para seus planos.

    Ao terminar a leitura, o dragonoid começou a apontar uma propriedade atrás da outra, entregando as folhas delas ao gerente. Cada uma delas parecia fazer os olhos do gerente brilharem mais do que as anteriores.

    — O senhor vai mesmo querer todas essas? — perguntou o gerente, extremamente empolgado.

    — É justamente o contrário. Essas são justamente as que não quero — disse Alexander, abrindo um grande sorriso enquanto materializava 2.000 grandes moedas de Diamante Negro no chão ao seu lado. — Aproveitando o momento, solicito também que sejam feitos todos os reparos necessários nelas e que seja construída uma estufa para alimentos capaz de suportar bem o inverno em cada imóvel residencial.

    — Também vou querer que seja construído um “pequeno forte-vila” ao redor da minha casa atual, utilizando a própria residência e as áreas vizinhas que estou comprando agora — acrescentou, como se estivesse pedindo doces.

    Ao ver a pilha de dinheiro no chão, o gerente engoliu em seco e não teve coragem de perguntar se era brincadeira. O cliente queria abertamente “comprar a cidade”, tornando-se detentor de grande parte dela.

    — O que está esperando para calcular o custo do pedido? — provocou Alexander, aumentando o sorriso. — Ainda temos que discutir o valor do meu desconto. Afinal, sei que aqueles valores já foram contabilizados com alguma margem para que pudessem me oferecer alguma redução, mesmo que apenas fantasiosa e nominal.

    Encurralado, o gerente não teve escolha a não ser começar a fazer as contas e torcer para que o cliente não tivesse dinheiro suficiente. Embora a sua associação desejasse grandes vendas, não era daquele jeito.

    Operar assim basicamente a deixaria com quase nada em estoque para oferecer ou negociar.

    Radiante ao calcular que o pedido custaria por volta de 3.000 grandes moedas de Diamante Negro — mesmo com o máximo de desconto possível — e que só havia 2.000 no chão, o gerente corajosamente ofereceu um desconto de 5%, mesmo naquela enorme compra.

    — Este é um jogo que não vai vencer — disse Alexander ao colocar mais 1.000 moedas sobre as que estavam no chão.

    Olhando em descrença para a pilha de dinheiro que havia aumentado, o gerente suspirou derrotado. Um sorriso amargo e cansado surgiu em seu rosto.

    Ao ver o gerente se conformar com a situação, o dragonoid sentiu que era o momento de colocá-lo em xeque.

    — Agora que acertamos fins, custo e pagamento, vamos acertar os meios — disse ele, totalmente impassível. — Vou lhe dar duas opções: fazer com que a esmagadora maioria dos contratados para esse empreendimento venha do baronato sob o controle da minha família, ou desistir do meu pedido já acordado e lidar com o que vem a seguir…

    — Não pense por um segundo que não sei quem está por trás desta associação — completou, como se seus olhos pudessem ver através de tudo, até daqueles que não estavam ali.

    Finalmente notando que os planos da outra parte pareciam ter várias camadas — visando até mesmo gerar empregos para distribuir renda à população — o gerente estremeceu.

    Da mesma forma que era possível dizer que ele não tinha medo quando se encontraram pela primeira vez na compra da casa dos pais de Diana, também era possível notar que a situação havia mudado. Alexander parecia disposto até a confrontar aqueles acima da sua associação.

    — Então vamos fazer do seu jeito — disse o gerente, cerrando os dentes e cedendo. No fim das contas, aquela ainda era a Cidade Lester, a principal cidade sob o baronato da outra parte. — Cuidarei pessoalmente para que todos os contratados não essenciais pertençam ao baronato, como o senhor deseja.

    — Fico feliz com sua escolha — disse Alexander ao se levantar, sem sequer olhar para o dinheiro, e estender a mão ao gerente. — Pode ficar com tudo que “sobrar” dessa compra… Apenas uma pequena amostra de como eu “cuido” bem daqueles que estão do meu lado.

    Acanhado, deslumbrado, horrorizado e maravilhado com tantas possibilidades, o gerente não pôde deixar de se sentir ao menos um pouco grato pelo dinheiro que recebeu. Dada a situação daquela transação, era improvável que ele ganhasse uma comissão adequada, sem falar nas intermináveis explicações que teria de dar aos superiores.

    Quando eles finalmente começaram a assinar os documentos, o dragonoid lembrou-se de algo e desembolsou mais algumas moedas. Pediu que, juntamente com a construção das muralhas externas do seu forte-vila, a área interna também fosse dividida em cinco pátios habitáveis.

    Morar perto e conviver com os pais de Diana era desejável, mas não sem a privacidade de cada casal ter a sua própria casa — especialmente por causa das atividades noturnas de cada um deles.

    Embora tivesse conseguido obter diversas propriedades e áreas na cidade, uma aquisição como aquela reduziu drasticamente as 6.000 grandes moedas de Diamante Negro que havia ganho com sua aposta no Torneio Imperial.

    Suspirando um pouco exasperado depois de refletir sobre o seu próximo passo, mas ainda assim decidindo morder a bala, Alexander redigiu um documento emprestando 1.000 grandes moedas de Diamante Negro ao baronato, a ser pago ao longo de alguns anos.

    Com esse fundo extra em caixa, mandou anunciar que haveria empregos para todos os que estivessem registrados como residentes na manutenção, ampliação e criação de estradas e rotas comerciais no baronato logo após o inverno.

    Com a situação do baronato e a primeira fase do que queria implementar encaminhadas, Alexander tirou alguns dias de folga para ficar com Diana. Explicou a ela e à família sobre as mudanças e construções que havia contratado.

    Eles reagiram à notícia da compra das residências e áreas adjacentes à casa para a construção de uma fortificação com uma surpresa aceitável, mas a aquisição de uma parte significativa da cidade os deixou atônitos e assombrados.

    — Realmente precisava de tudo isso? — perguntou Dimitri, franzindo o cenho, perguntando-se se não era exagero.

    — Já lhe disse antes, pretendo me tornar autossuficiente — respondeu Alexander calmamente. — Confiar apenas em um título que pode ser revogado tão fácil e inesperadamente quanto foi concedido não me parece uma boa ideia. Ainda mais porque não poderei estar sempre ao lado de vocês e haverá uma criança.

    Ouvindo os motivos dele, todos ali não puderam deixar de concordar até certo ponto. Era melhor prevenir do que remediar, dada a imprevisibilidade e volatilidade do Império Vermillion em sua essência: uma disputa sem fim.

    — Mas por que 5 pátios? — perguntou Ánara, observando ao redor como se os estivesse contabilizando mentalmente.

    — A ideia é construir uma área familiar segura, onde vocês ficariam com esta ou outra casa, Diana e eu teríamos a nossa, e ainda sobrariam pátios para outros membros do núcleo familiar — respondeu Alexander casualmente. — Mas tomem cuidado com quem escolherem acomodar. As defesas são sempre mais fracas por dentro do que por fora.

    A última parte deixou os pais de Dimitri amargos, mas não puderam negar a verdade da afirmação. Além disso, em algum nível, ele também pensara neles.

    — Você realmente pensou em nós com esses pátios? — perguntou a avó de Diana.

    — Nem por um segundo foi só por vocês — respondeu o dragonoid sem hesitar. — Até onde sei, vocês, ou a família estendida de vocês, não são a única ramificação da família de Diana.

    Ao ouvirem isso, os avós paternos de Diana — principalmente o avô — se sentiram ainda mais amargos.

    Um dos principais motivos do distanciamento familiar anterior foi a pressão que exerceram sobre o filho para não se envolver com uma família como a de Ánara, por considerá-la modesta — tanto tempo perdido com a amargura apenas para acabarem completamente nivelados a eles pela realidade.

    Feliz, de uma forma quase inversa à dos pais do seu marido, por ver o companheiro da filha não julgar nem excluir sua família e lhes dar a mesma consideração independentemente de identidade, utilidade ou origem, Ánara rapidamente o ajudou a restaurar a harmonia da sala. Ela logo puxou o marido para discutir sobre quando chamariam seus familiares.

    Sem mais nada a acrescentar, Alexander “raptou” Diana para passar algum tempo com ela e conversar sobre assuntos mais banais, como seus amigos ou mesmo o futuro deles como casal em sua própria casa.

    O importante era só passar algum tempo de qualidade ao lado dela — era isso que parecia iluminar seus dias.

    Recarregado e revitalizado após descansar por alguns dias ao lado de sua pequena luz, voltou a resolver problemas e pequenos transtornos do baronato, além de ajudar na administração dos registros dos moradores.

    Após mais alguns dias, no final do mês, um velho chegou aos portões da cidade implorando para falar com ele.

    Felizmente para a esmagadora maioria do baronato e grande parte do Império — como veio a se descobrir depois — Alexander estava por perto. Sentindo a condição do homem mesmo à distância, conseguiu chegar a tempo de evitar que o guarda tomasse qualquer ação contra o pobre homem.

    Completamente inexpressivo, o dragonoid sussurrou algo para um dos guardas, que imediatamente se virou e saiu correndo. Ele então voltou-se para o velho: — Diga-me o que está em sua mente. Você encontrou a quem procura.

    — Minha família, meu senhor. Por favor, salve minha família — implorou o homem com as forças que lhe restavam. Ele estava basicamente em estado de choro, embora nenhuma lágrima caísse de seus olhos. — Ela cuida de um pequeno assentamento agrícola, mas quando voltei da pesca no mar, não havia mais ninguém lá.

    — Mas isso não é o pior, meu senhor. Elas estão vindo — acrescentou o velho com os olhos absortos de terror. — Eu vi presságios delas no céu sobre o mar. Eu as vi, juro que vi… As presas do Fimbulwinter estão voltando novamente.

    Ding!
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