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    Cassie finalmente conseguiu se recompor. Os tentáculos de sua Vontade se espalharam pelo oceano escuro de memórias, contorcendo-se enquanto agarravam os fragmentos que tinham a ver com seu passado. Sua infância, sua juventude, os anos de escuridão que ela suportou após despertar…

    O âmago do seu ser estava lentamente tomando forma. Mesmo que ainda houvesse muitas lacunas em sua compreensão de si mesma, ela ao menos sabia o suficiente para preenchê-las.

    A imensidão abissal das memórias ainda lhe parecia assustadora, mas agora, ela a encarava como uma adversária em vez de uma presa. A dor fantasma do olho que lhe faltava ainda dilacerava sua consciência… O que, por si só, já lhe dizia algo.

    ‘Devo estar usando minha Habilidade Transcendente.’

    Mesmo nesse espaço subliminar, havia causa e efeito. Depois de perder um olho para a Criatura dos Sonhos, Cassie teve que suportar tormentos horríveis toda vez que queria usar sua Transformação… então, era razoável supor que a agonia que ela sentia agora também fosse resultado do uso de sua Transformação.

    Se assim fosse, o oceano escuro de memórias que a cercava revelaria um indício de significado. Mas não uma explicação.

    ‘O que aconteceu comigo?’

    Suportando a dor, ela buscou memórias mais recentes. As memórias relacionadas à Criatura dos Sonhos.

    Algumas pertenciam a ela, outras a outros. Mas todas tinham algo em comum: uma sensação pesada e sufocante de uma ameaça crescente. Eram as memórias de uma peste.

    ***

    Rain se viu mais uma vez em uma escuridão familiar. O céu acima dela era como um abismo sem luz. O chão sob seus pés era uma vasta extensão quase contínua de placas cinzentas que se estendiam em direção ao horizonte como um rio de pedra.

    Ela deu um bom passo firme na placa sólida sobre a qual estava de pé e sorriu.

    “Eu construí esta estrada.”

    Uma risada baixa ecoou na escuridão.

    “Um exército de operários e engenheiros construiu esta estrada.”

    Rain torceu o nariz para ela.

    “Eu era um deles! E até dei um nome.”

    Os dois tinham acabado de chegar à Estrada das Sombras. Ela cruzava a Sepultura dos Deuses de leste a oeste, oculta do céu impiedoso pelo Fragmento do Reino das Sombras. Em qualquer outro lugar na superfície do esqueleto titânico, a vida de alguém poderia ser dispersa pelo vento como uma nuvem evanescente. Mas ali, os viajantes podiam desfrutar de paz, segurança e do abraço fresco da escuridão.

    ‘Bem, pelo menos estou a salvo dos céus radiantes de Sepultura dos Deuses.’

    Rain olhou para o horizonte com um sorriso melancólico.

    “Sabe, as pessoas que povoavam o Reino dos Sonhos já se foram há muito tempo. Mas muitas coisas que construíram ainda estão de pé. O Castelo da Miragem, o Palácio de Jade, o Portão do Rio, a Cidade das Sombras — e muito mais. As pessoas ainda vivem entre essas muralhas antigas, caminham pelas trilhas e param de vez em quando para admirar os grandes monumentos da antiguidade.”

    Ela ficou em silêncio, estudou a Estrada das Sombras por um tempo e então deu um passo mais suave. “Então, não posso deixar de me perguntar se um dia, muito tempo depois de eu ter partido, as pessoas viajarão por esta estrada e pensarão em seus construtores. Seria bom, não acha?”

    Sunny respondeu em tom amigável:

    “Será realmente bom se ainda houver pessoas para percorrer este caminho no futuro.”

    Ele parecia um pouco distraído, no entanto. Rain observava a escuridão com uma expressão pensativa.

    “Então, o que exatamente aconteceu? Você está meio estranho desde as Cavidades.”

    Ele permaneceu ali por um tempo.

    “Bem, temos um pequeno problema. Um novo Soberano apareceu e é difícil lidar com ele.”

    Rain se assustou.

    “Quem, o Rei do Nada? Mas isso já é passado.”

    Um suspiro pesado ecoou da escuridão. “Não, não ele.”

    Rain abriu bem os olhos.

    “Espera aí, já tem outro Supremo novo? Nossa. Nem faz um ano que o último apareceu. Ei, me diz a verdade… vocês, Supremos, nascem em árvore?”

    A escuridão respondeu com um silêncio nada divertido. No fim, porém, acabou respondendo.

    “Não. Ah, mas na verdade, este Supremo em particular tem muito em comum com uma certa árvore.”

    “Há muitos motivos, na verdade. Primeiro, ser obstinado é simplesmente da nossa natureza. Segundo… afinal, somos Filhos da Guerra. Além disso, o próprio Feitiço do Pesadelo foi concebido de forma a colocar os Supremos uns contra os outros. Mas, o mais importante, a primeira coorte a alcançar a Supremacia era corrupta. Portanto, ainda estamos lidando com as consequências dessa desgraça.”

    Ele soltou um suspiro pesado.

    “Tudo deu errado quando Sorriso do Céu morreu na América.”

    Rain não esperava uma resposta detalhada em vez de uma de suas habituais diatribes ultrajantes, então ficou um pouco surpresa. Finalmente, ela perguntou:

    “Mas quão ruim pode ser esse novo idiota?” 

    Sunny permaneceu em silêncio por um tempo.

    “É bem ruim. Pior do que o normal, eu diria.” 

    Rain soltou uma risadinha nervosa. O de sempre já era bastante atroz… “Espere. Não haverá outra guerra, haverá?”

    Ele permaneceu em silêncio, deixando Rain ansiosa.

    “Haverá?”

    Por fim, Sunny respondeu em tom sombrio: “Quem sabe? Mesmo que haja uma, será muito diferente da anterior. Guerras não são travadas apenas com espadas, sabe?”

    Rain praguejou baixinho.

    “Bem, isso é simplesmente maravilhoso.”

    Nenhum dos dois falou por um ou dois minutos. No fim, Sunny quebrou o silêncio com uma pergunta descontraída:

    “Enfim. Para onde você vai agora?”

    Rain suspirou.

    Ela olhou para o oeste. Ali se estendiam as Planícies do Rio da Lua — e além delas, Havenheart. Fazia muito tempo que não via sua família, então sentia muita falta deles. Teria sido ótimo visitá-los. Então, Rain olhou para o leste. Ali, a Estrada das Sombras levava a uma região do Reino dos Sonhos conhecida como Inferno de Vidro. Além dela ficavam as Ilhas Acorrentadas, e dali, podia-se viajar para o sul, de Cidadela em Cidadela, até finalmente chegar a Bastion.

    Uma jornada como essa levaria muitos meses. Claro, Rain poderia usar o mundo desperto como um atalho e chegar a Bastion através de um Portal dos Sonhos. Bem, e havia um Supremo capaz de se mover instantaneamente entre as sombras escondidas na sua própria.

    Ela fez uma careta amarga.

    “Meu trabalho em Rivergate acabou, então eu queria visitar as Ilhas Acorrentadas. Eles tiraram uma ilha voadora de um abismo literal lá, sabe, e estão fixando-a no coração da região para ancorar o resto das ilhas. Então, eu quero dar uma olhada… mas estou meio com medo da mãe da Telle, considerando que ela fugiu para desafiar um Pesadelo.” 

    Sunny soltou uma risadinha. “Ah. Boa ideia… Eu também ficaria com medo.”

    Rain respirou fundo.

    “Ainda assim, preciso voltar para Bastion e me concentrar no meu trabalho — bem como na minha Ascensão. Estaremos prontos para revelar o Despertar natural às massas assim que eu me tornar um Mestre, então… não há tempo a perder.”

    A escuridão pareceu se dissipar ligeiramente. “Sim. Eu também ficarei ocupado agora.”

    Sunny permaneceu em silêncio por alguns instantes e então perguntou em tom neutro:

    “Devo levá-la ao mundo desperto? Ou podemos parar primeiro nas Ilhas Acorrentadas, afinal.” Rain olhou para oeste mais uma vez, onde pequenos pontos haviam aparecido no horizonte há poucos instantes. Ela os estudou em silêncio e, em seguida, balançou a cabeça.

    “Não precisa. Vou viajar com a caravana até a Colina Vermelha e usar o Portal de lá. Você pode ficar na minha sombra ou sair para cuidar dos seus negócios… faça como quiser.”

    Ele riu novamente.

    “É, não. De jeito nenhum vou te deixar sozinha com um Soberano enlouquecido por aí. Bem, mais um Soberano enlouquecido.” 

    Rain franziu a testa e olhou para a escuridão com uma expressão duvidosa. “Existem pessoas sãs? Isso é novidade para mim.”

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