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    Antes que Sunny pudesse se acostumar com o encontro com Ananke — a verdadeira Ananke, que nunca havia conhecido o Príncipe Louco e, portanto, nunca viajou com Sunny e Nephis — ele se viu na cabine de serviço do misterioso navio, sendo presenteado com chá, vinho e comida deliciosa.

    Ananke até usou a mesma caixa laqueada encantada e a mesma louça que tinha no Pesadelo. A semelhança com o primeiro encontro deles era simplesmente peculiar demais… fez Sunny querer refletir sobre os mecanismos de como o Feitiço dava vida aos seus fantasmas e se o conhecimento que ele tinha de tudo relacionado ao passado se baseava na sua capacidade de desvendar os Fios do Destino.

    Contudo, naquele momento, ele não estava com vontade de se dedicar a reflexões filosóficas. Mal se lembrando de tocar na comida, ele simplesmente encarou Ananke, sentindo-se ao mesmo tempo atônito e radiante de alegria.

    Quase em êxtase.

    Era exatamente como Nephis dissera — eles não tinham passado muito tempo com a Ananke no Pesadelo, mas a velha sacerdotisa ocupava um lugar especial no coração de Sunny. A perda dela o atingiu profundamente, assim como atingiu Nephis. Então, vê-la mais uma vez o encheu de felicidade.

    O suficiente para suprimir sua curiosidade por um breve período, inclusive, e dissuadi-lo de fazer perguntas. Ananke os observava com um misto de reverência, espanto… e curiosidade. Sunny e Nephis também não conseguiam desviar o olhar dela.

    Por fim, ela deu uma risadinha.

    “Ananke de Weave… ninguém me chama assim há muito, muito tempo. Afinal, Weave foi destruída há séculos… milhares de anos? Estou surpresa que conheçam esse nome antigo, meu senhor e minha senhora.”

    Sua voz ainda era calorosa e alegre, mas por um breve instante revelou um toque de melancolia nostálgica, como se ela se lembrasse de uma ferida profunda que há muito cicatrizara. Sunny e Nephis trocaram olhares.

    No final, foi Sunny quem falou:

    “Eu sou Sunless, e esta é Nephis. Não há necessidade de usar honoríficos ao falar conosco… afinal, somos da mesma patente.”

    De fato, era verdade. Ele podia ver isso com clareza quando contemplava a alma de Ananke — ali, um núcleo de alma radiante brilhava como um sol de verão. Ela era Suprema agora, assim como os dois.

    Ananke hesitou por alguns instantes e depois sorriu.

    “Ah, eu não poderia. Afinal, você é o escolhido de Weaver… Lorde Sunless, Senhora Nephis.”

    Ele suspirou.

    “Como isso funciona? Você já era portadora do Feitiço do Pesadelo quando ele ainda estava em sua infância… sua guardiã, até, ou pelo menos descendente de suas guardiãs. Agora que ele amadureceu completamente, você não deveria ser diferente de Nephis. Tão filha de Weaver quanto ela, na verdade.”

    Ananke olhou para ele com um toque de confusão em seus olhos azuis, depois deu de ombros levemente.

    “Não sei, Lorde Sunless. Não sabíamos nada sobre o que aconteceu fora do Túmulo de Ariel depois de entrarmos… só podíamos esperar que a promessa que Weaver nos fez fosse cumprida e que os Filhos de Weaver salvassem a todos da Perdição.”

    A promessa de Weaver era o Feitiço do Pesadelo, e a Perdição que ela mencionou era a Corrupção que se espalhava… o Pesadelo do Deus Esquecido.

    Ananke hesitou por alguns instantes e então perguntou, com cautela:

    “Então… como vão as coisas, meu senhor e minha senhora? Salvando a todos da Perdição e coisas do gênero?”

    Ela devia estar muito curiosa sobre eles. Na verdade, Nephis e Sunny deviam parecer criaturas míticas para ela — afinal, eram pessoas de fora do Túmulo de Ariel, um lugar mítico para o Povo do Rio.

    Sunny tossiu.

    “Bem…”

    Ele ponderou um pouco antes de dizer o que ia dizer, e então deu de ombros.

    “Estamos vivendo a Era do Feitiço do Pesadelo. Todos os reinos foram consumidos pela Corrupção, e apenas o Reino da Guerra permanece de pé. Existem vários bilhões de humanos vivos — a maioria pessoas comuns, alguns guerreiros Despertos. Entre esses guerreiros, Nephis e eu somos dois dos mais fortes… mas nossa força é lamentavelmente insuficiente para lidar com o que está por vir. Então, essa é a razão pela qual viemos ao Túmulo de Ariel. Para termos uma chance de nos tornarmos mais fortes.”

    Sunny fez uma pausa por um segundo.

    “Mas o Grande Rio não é como esperávamos encontrá-lo.”

    Nephis finalmente falou então, com voz contida:

    “Você não pareceu surpresa em nos ver, Ananke. Como você sabia que deveria vir nos receber? Será que Crepúsculo lhe enviou uma mensagem em um sonho?”

    No Pesadelo, Ananke recebeu uma mensagem em sonho — foi assim que ela conseguiu encontrar Sunny e Nephis em seu iate. Eles presumiram que fora Crepúsculo da Graça Caída, a última Sybil do Povo do Rio, quem enviara a mensagem… mas, na verdade, não tinham certeza. Poderia ter sido Tormento.

    Poderia até ter sido o próprio Príncipe Louco. Tormenta e o Príncipe Louco não existiam mais, então…

    Ananke olhou para eles surpresa.

    “Crepúsculo de Graça Caída? Não… ela já estava morta há muito tempo quando Weave foi destruída. Crepúsculo foi a última Sybil a sucumbir à Corrupção, então seu grandioso enterro deveria simbolizar o fim do Povo do Rio. Mas, em vez disso, abriu caminho para um novo começo.”

    Ela lançou um olhar ao redor da cabine de descanso, como se estivesse absorvendo a paisagem.

    A cabine era espaçosa e aconchegante, arrumada e decorada de uma forma que só um espaço habitado poderia ser. Ficou claro que Ananke havia transformado o misterioso navio em seu lar, tendo passado muitos anos vivendo a bordo.

    Ela sorriu.

    “Não… foi aquele patife, o Rei Cronos, quem me prometeu que você viria um dia. Se eu apenas aguentasse tempo suficiente.”

    Ananke olhou para o horizonte, seu sorriso tornando-se melancólico.

    “Foi Cronos quem construiu este navio, assim como… o Destruidor do Tempo.”

    Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes, depois suspirou.

    “As Sybils guiavam e protegiam o Povo do Rio, entende? Então, quando a última delas caiu, o Povo do Rio se perdeu. Eles poderiam ter permanecido perdidos… ou forjado um novo caminho. Cronos era um jovem quando Crepúsculo de Graça Caída pereceu e, por causa disso, ele conseguia enxergar mais do que aqueles que eram mais velhos e sábios do que ele. Sua mente era afiada e flexível, e seu Aspecto lhe concedia poderes sobre a essência do Grande Rio… com o tempo. Então, ele vislumbrou um caminho para a salvação.”

    Sunny piscou algumas vezes.

    “Cronos? O pirralho de Graça Caída, Cronos?”

    Ela estava falando do jovem que costumava seguir Sunny por aí, fazendo perguntas bobas sem parar e fingindo surpresa toda vez que ele ouvia uma resposta.

    Ananke assentiu com a cabeça.

    “Sim. Aquele pirralho acabou se tornando o Rei Cronos, o primeiro Supremo nascido do Povo do Rio… embora, sem dúvida, ele nunca tenha deixado de ser um pirralho. Então a descrição se encaixa.”

    Ela deu uma risadinha.

    “Antes disso, porém, ele construiu este navio — um navio capaz de navegar pelo Grande Rio, livre da tirania do tempo. O navio que permitiu ao Povo do Rio viajar pelas correntezas como se fossem Forasteiros.”

    Ela balançou a cabeça com um sorriso.

    “Cronos reuniu um grupo heterogêneo de poderosos campeões dos últimos assentamentos humanos às margens do Grande Rio. Alguns eram de Graça Caída e de outras cidades construídas pelas Sybils, alguns eram descendentes dos Forasteiros que o Rei Serpente havia trazido para o Túmulo de Ariel… alguns eram até mesmo das últimas tribos remanescentes dos Nômades do Rio.”

    O sorriso melancólico de Ananke se alargou um pouco.

    “Eu também naveguei no Destruidor do Tempo por um tempo, mesmo não sendo membro da tripulação. Acontece que Cronos precisava de um Moldador, e por isso veio a Weave em busca de mim.”

    Ela ficou em silêncio, e seu sorriso desapareceu lentamente, substituído por uma expressão sombria.

    “Mas, enquanto isso, a Corrupção se espalhava como uma praga, invadindo o Grande Rio desde os confins do passado remoto — desde a Orla. A Primeira Procuradora estava se fortalecendo, e os Corrompidos se multiplicavam. Os Nômades do Rio logo seriam erradicados. As cidades humanas também iriam ruir. Até mesmo Weave estava lentamente desmoronando sob o ataque dos horrores terríveis de um futuro distante… do seu tempo, possivelmente.”

    Ananke suspirou e desviou o olhar.

    “Por fim, Cronos de Graça Caída alcançou a Supremacia e se tornou o Rei Cronos. Os humanos do Túmulo de Ariel se uniram sob as bandeiras de dois Supremos: ele e o Rei Serpente. Contudo, mesmo sendo aliados, eles não concordavam em tudo. O Rei Serpente queria destruir a Primeira Procuradora, enquanto Cronos… Cronos acreditava que, se a Primeira Procuradora pudesse ser destruída, as Sybils já a teriam matado há muito tempo.”

    Sunny ergueu uma sobrancelha.

    “Qual era o plano dele, então?”

    Ananke deu uma risadinha.

    “Cronos? Ora… ele queria sobreviver a isso.”

    Ela permaneceu em silêncio por um momento, depois disse em tom distante:

    “O maior obstáculo que Daeron e Cronos enfrentaram foi que o Povo do Rio não podia ser reunido em um exército. Afinal, suas cidades estavam muito distantes umas das outras, e seriam necessárias inúmeras gerações para juntá-las. O número de Forasteiros também havia diminuído, e nem mesmo o grande poder dos andarilhos Transcendentes do Mar Poente era suficiente para ajudar Daeron a sitiar Verge. E mesmo que o Destruidor do Tempo estivesse lá para navegar pelo Grande Rio, ele só podia transportar um número limitado de guerreiros em seu convés.

    Nephis franziu a testa.

    “Então, o que Cronos fez?”

    Ananke olhou para eles e sorriu levemente. Permaneceu em silêncio por um instante e então disse em tom neutro:

    “E o que mais? Ele rompeu o Grande Rio.”

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