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    As bestas gigantescas puxavam as carroças blindadas através da Sepultura dos Deuses, viajando com uma velocidade assustadora. Aqui, na Estrada das Sombras, a caravana podia se mover rapidamente sem comprometer sua segurança — assim que chegassem ao Inferno de Vidro, porém, teriam que diminuir a velocidade para evitar uma emboscada das Criaturas do Pesadelo.

    Não que nenhuma Criatura do Pesadelo tenha atacado as carroças antes de elas partirem da Sepultura dos Deuses. Rain havia provado seu valor nessas poucas escaramuças ferozes — sendo capaz de enxergar no escuro, ela geralmente conseguia avistar o inimigo a uma grande distância.

    Então, bastou puxar o arco, mirar e cravar uma flecha luminosa em sua pele. Iluminadas por um brilho ofuscante nas profundezas da escuridão, as Criaturas do Pesadelo foram reveladas a toda a caravana muito antes que pudessem lançar um ataque.

    Assim, lidar com elas tornou-se muito mais fácil. Poupados de derramar seu sangue pelas flechas de Rain, os guardas rapidamente se afeiçoaram a ela. Apenas alguns dias depois, ela era a pessoa favorita de todos… bem, exceto pelo veterano guerreiro Desperto que havia falado sobre a Criatura dos Sonhos. Rain mantinha distância dele, e ele também parecia indiferente a ela.

    O homem não falara mais sobre Asterion desde aquela primeira vez. Os outros guardas, porém, ainda o provocavam de vez em quando. Eles não tratavam o nome do suposto Supremo com qualquer reverência, e pareciam, ao contrário, se divertir com a ideia.

    Chegou ao ponto de um soberano imaginário chamado Asterion se tornar uma piada recorrente entre os guardas posicionados na carroça da frente — e, à medida que eram transferidos para seções mais seguras da caravana, essa piada se espalhou também para a última carroça.

    Rain não gostou nada de ouvir aquela piada. Logo chegaram ao fim da Estrada das Sombras e atravessaram até o úmero do esqueleto titânico. Ao descerem do alto da Sepultura dos Deuses e alcançarem a ponte que ligava o úmero ao rádio, uma bela vista do Inferno de Vidro se revelou lá embaixo.

    O Inferno de Vidro parecia… exatamente como o nome sugeria.

    Era uma vasta planície feita inteiramente de vidro. Havia cristas altas e fendas profundas espalhadas aqui e ali por sua superfície polida, mas, em geral, essa região do Reino dos Sonhos era plana e lisa, iluminada pela luz do sol que se refletia na superfície do vidro como um rio de ouro derretido.

    O vidro transparente lembrava gelo e vastas geleiras, evocando memórias de inverno e frio revigorante. Mas, na verdade, o Inferno de Vidro era como um forno escaldante — isso porque o vidro absorvia o calor do sol durante o dia e o irradiava para fora durante a noite. Pior ainda, havia inúmeros pontos de foco espalhados pela planície, funcionando como lentes.

    Se alguém não tomasse cuidado, poderia ser queimado vivo pela luz solar concentrada, cegado por seu brilho ou simplesmente sufocado pelo calor. No entanto, não era por isso que essa região do Reino dos Sonhos era chamada de Inferno de Vidro. A verdadeira razão residia sob a superfície do vidro, nas profundezas transparentes da região.

    Ali, inúmeros túneis se estendiam pela escuridão. E, às vezes, era possível discernir, com dificuldade, as formas de criaturas transparentes que se moviam apressadamente por esses túneis como fantasmas de vidro.

    Isso porque toda essa região do Reino dos Sonhos era uma enorme colmeia, povoada por um grande enxame de peculiares Criaturas do Pesadelo. As abominações tinham natureza insetóide e corpos transparentes que as tornavam difíceis de detectar. Suas foices e mandíbulas, no entanto, eram afiadas como navalhas.

    Pior ainda, eles se moviam para o subsolo e podiam irromper do vidro em qualquer ponto da planície, seja em pequenos grupos de caça que arrastavam presas azaradas para as profundezas da Colmeia, seja como grandes hordas que jorravam para a superfície e devoravam tudo em seu caminho.

    Nem preciso dizer que sobreviver no Inferno de Vidro não era tarefa fácil. A humanidade ainda assim o conquistou — ou pelo menos a sua superfície.

    A parede negra e irregular das Montanhas Ocas erguia-se do solo bem ao norte, enquanto a única cidadela da região ficava mais próxima de sua fronteira sul. Essa cidadela era chamada de Colina Vermelha, e era para lá que a caravana de mercadores se dirigia.

    “Ah.”

    Tirando o capacete, Pill sorriu e ergueu a cabeça para se banhar na luz do sol. Apesar da natureza perigosa da região, os guardas da caravana ainda estavam felizes por escapar da Sepultura dos Deuses, onde o próprio céu representava uma ameaça mortal.

    “Não é bom ver o sol, Rani?”

    Ele olhou para Rain e deu uma risadinha.

    “Aproveite a sensação. Você sentirá falta da Estrada das Sombras quando chegarmos à planície e sentirmos o calor.”

    Rain simplesmente apontou para um pedaço de vidro vulcânico polido pendurado em um cordão de couro em volta do pescoço — a Memória que seu irmão havia chamado criativamente de [Pedaço de Resistência].

    “Este amuleto me mantém calma. De que outra forma você acha que eu sobrevivi na Sepultura dos Deuses?”

    Pill lançou um olhar invejoso ao amuleto e murmurou em tom melancólico:

    “Devia comprar um desses para mim…”

    Nem todos os Despertos possuíam vastos arsenais de Memórias — na verdade, a maioria tinha apenas algumas. Um amuleto como esse era um verdadeiro luxo.

    A caravana atravessou a ponte e desceu em direção ao Inferno de Vidro. À medida que desciam, a temperatura do ar aumentava constantemente até que Rain se viu alimentando o Pedaço de Resistência com um pouco de essência para evitar suar.

    Pill não teve essa sorte. Escondido na sombra da ameia, ele olhou para Rain e forçou um sorriso. Ao redor deles, o Inferno de Vidro brilhava como um oceano de ouro derretido.

    “É meio-dia. O calor está no seu auge ao meio-dia… as coisas vão melhorar quando o sol se pôr. Um pouco melhor, pelo menos. Ângulos e reflexos, ou algo assim.”

    Rain assentiu com a cabeça, observando a planície brilhante com um olhar sombrio. Ao seu redor, os guardas retiravam óculos improvisados ​​de suas armaduras e os colocavam. Alguns pareciam pedaços de madeira com fendas horizontais estreitas, outros pareciam óculos estenopeicos — coisas que se usariam para proteger os olhos da cegueira da neve, mais ou menos.

    “Ah, sim.”

    Pill também colocou um par de óculos de proteção.

    “Você deveria usar algo para proteger seus olhos do brilho, Rani. Senão, você vai ficar cega. Hum… tenho certeza de que alguém tem um par de óculos sobrando. Posso perguntar por aí.”

    Rain sorriu.

    “Não há necessidade”

    Ela invocou a Bolsa da Retenção e tirou de lá um par de óculos de sol de uma marca de luxo. Ao colocá-los, sorriu.

    “Esteja sempre preparado, sabe?”

    Os óculos de sol eram, na verdade, uma brincadeira entre os membros do Clã das Sombras, que em algum momento desenvolveram o hábito de presentear uns aos outros com itens absolutamente inúteis quando se encontravam na Costa Esquecida. Óculos de sol e protetor solar eram os presentes mais populares, e Rain já tinha meia dúzia deles. Este em particular havia sido um presente de Tamar.

    Pill deu uma risadinha.

    “Vejo que você está se saindo bem, Rani… Fico feliz.”

    Ela, porém, não respondeu. Em vez disso, ela se virou e fitou atentamente o oceano de ouro derretido, depois rapidamente puxou uma flecha de sua aljava e a colocou na corda de seu arco.

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