Capítulo 78 – Caçador de Sombras
Saltando de telhado em telhado, rumo a uma torre de vigia. Suzaki puxou suas foices e as usou como gancho para chegar no ponto mais alto da cidade, onde pôde enxergar tudo.
Não havia velas ou tochas, mas ele escolheu sentar-se na beirada, onde as luzes da cidade refletiam em seu rosto. Por outro lado, foram seus ouvidos que captaram algo vindo por trás.
Passos firmes, vindos das sombras. Um homem largo, coberto por túnicas pretas e uma máscara de mesma cor. Suzaki imediatamente se pôs de pé, porém o sujeito somente sentou-se na beirada ao seu lado.
— O que há de bom para o homem nessa vida? Durante os seus dias, ele não passa de uma sombra. Olhe só para eles, virando a noite atrás de prazeres descartáveis para afogar o desespero das suas existências — disse o homem com uma voz rouca e abafada pela máscara.
— Quem é você? — baixou a guarda, mas manteve as foices nas mãos.
— Eu tenho te observado de perto — deslizou as mãos pelo espaço na beirada onde Suzaki estava sentado — Chegue mais perto, meu nome é Nobura.
— Se é você que tem me seguido — guardou as armas, permanecendo de pé atrás dele — Quero saber, o que quer de mim?
— Desde que escapou da casa do seu pai, pensei que estivesse pronto para trilhar um novo caminho. Infelizmente, estou pensando que superestimei a sua maturidade.
— Esse é um novo caminho, Koji precisa pagar pelo que fez a essas pessoas.
— A essas pessoas ou a você?
— Você não sabe nada sobre mim!
— E o que foi aquilo lá embaixo mais cedo? Ou quando voltou e expulsou os Heishis? Nokyokai? Se eu não conhecesse você, por que estaria te observando?
— Se você viu tudo, sabe porque tive que agir daquela forma. Se ficasse parado, algo terrível poderia acontecer com aquelas pessoas — cerrou os punhos — O tempo em que eu era usado como arma para ferir as pessoas acabou.
— Isso é uma corrida atrás do vento — apontou para a cidade — Ninguém aqui quer ser liberto das suas vidas. Veja essas mulheres. Elas escolheram isso, e vão continuar se colocando nessa situação outras vezes.
— Fala como se tivessem escolha. Enquanto a corte não mudar, as coisas continuarão da mesma forma.
— Corte, império, dinastia, eles não fazem as regras e sim são selecionados por quem faz, e por isso, nenhum de nós tem escolha. Você ainda não enxerga que está sempre atrás da consequência e nunca da causa. Como um caçador de sombras, está sempre atrás das projeções do verdadeiro problema.
— Quando eu terminar — insistiu, sentando-se ao lado de Nobura — A corte será obrigada a abandonar Koji, essa guerra, e buscar colaboração com o continente porque…
— Porque você é um menino importante, o Heishi Celestial. Esse é o caminho que vai trilhar?
— Eu fiz uma promessa. Não estou sozinho nessa determinação.
— O que chama de determinação — Nobura se ergueu, andando de volta para as sombras — Eu chamo de vaidade. Voltarei quando perceber melhor isso.
— Ei, espere, não me disse o que quer… — interrompeu sua fala, percebendo que já estava só, como se o mascarado tivesse desaparecido junto às sombras.
“Esse cara… ele não parece ser daqui”, pensou antes de voltar seus olhos para a cidade abaixo.

Após a presença do mascarado, Suzaki circundava o cassino em busca de uma abertura. O lugar estava cheio de Heishis muito bem armados.
Saltando para o telhado do estabelecimento, ele se pendurou na borda e desceu devagar até perto de uma das janelas abertas que dava para o andar de cima do lugar. Era um canto discreto, reservado a uma mesa vazia, sem ninguém olhando.
Daquele ponto podia ver tudo dentro do local, assim como um homem debruçado na bancada, com barba grande e pouco cabelo, com um copo na mão direita, o sujeito escondia sua face pelos cotovelos.
“Tirar ele de lá chamaria muita atenção”, pensava, olhando ao redor, quando avistou um grupo novo de cortesãs chegando no lugar.
Descendo as escadas às pressas, Suzaki tomou sua oportunidade quando duas delas foram rejeitadas pela mesa de cartas.
— Você não é novinho para estar aqui? — uma delas comentou.
— Meu tio está solitário ali na bancada — apontou para Ryutaro — Se puderem animá-lo um pouco. Ele está tendo um dia muito ruim.
— Esse aí tem dias ruins sempre, garoto. Tenho pena de você por lidar com isso aí.
— Só tenho medo dele causar confusão. Ele não vai me ouvir se eu falar — puxou uma bolsa pesada, cheia de dinheiro — Então, vocês poderiam me ajudar?
As meninas se olharam entre si, sorrindo logo depois. Não demorou muito para irem em direção a o homem procurado por Suzaki. Apoiado sobre a bancada, o homem sentia a caneca encher nas suas mãos, tombando para trás no banco para repetir o mesmo movimento de sempre.
Quando terminou, bateu o copo de volta no balcão, deixando o líquido quente e amargo descer sob sua garganta, quando dois finos braços se entrelaçaram no seu peito.
— Sempre tão sozinho, Ryutaro — dizia a mulher que o agarrava, chegando perto do seu ouvido para cochichar — que tal minha companhia?
— É.. eu não…
Com os braços fracos tentou contê-la, até que outra chegava acariciando seus cabelos e costas, descendo suas mãos lisas sob as vestes de Ryutaro:
— Essa vai ser por conta da casa. Vou ficar tão tristinha se você recusar.
As duas riam carinhosamente com os olhares afiados, até que elas pegaram em suas mãos e o levaram para fora do cassino. Dando a volta na casa de apostas até os seus fundos, distante dos olhares de qualquer pessoa.
— Para onde estão me levando? — cambaleava tentando buscar alguma fonte de luz com sua visão turva.
— A gente só queria te levar para onde você pertence, seu bêbado nojento! — respondeu a moça, o empurrando para o chão.
— Espera, o que eu fiz?
Quando esticou os braços para alcançá-las, as mulheres recuaram, permitindo que Suzaki surgisse das sombras, se colocando na frente delas.
— Fique bem onde está — alertou, enquanto sacava sua foice apontando para Ryutaro.
— Essas vadias duas caras! — percebia as garotas correndo — o que você quer, também? Te devo dinheiro? — jogou as mãos para o alto, em protesto.
— Asami — respondeu Suzaki — Esse nome te lembra de alguém?
O nome atravessou os ouvidos de Ryutaro que levou as mãos à cabeça.
— Isso é uma pegadinha? Eu já disse que não quero mais saber disso! Procurei e procurei. Será que eu já não paguei tudo perdendo o amor da minha vida?
— Escute bem — o pegou pelo colarinho com as duas mãos — Isso não é um teatro, estou atrás de respostas. O que sabe sobre o desaparecimento dela?
— Que ela me traiu — respondeu erguendo a face, mostrando as lágrimas escorrendo — a gente manda presentes, cartas, paga tudo mais caro todos os dias só para ela fugir com outro.
— Com quem ela fugiu? — chacoalhou Ryutaro.
— Ela começou a se recusar para mim, mas eu não pude aceitar, ela era tão doce — soluçava entre as gargalhadas — larguei de ser Heishi e perdi pouco do dinheiro que me restava.
— Responda a pergunta! — gritou Suzaki.
— Me disseram que poder neste lugar conquista qualquer coisa, até o amor — cerrou os punhos, rangendo os dentes — Mas o Tadashi nunca amou ela de verdade. Não como ela merecia! Algumas visitas e pronto, apareceu com um barrigão! Eu não podia aceitar isso!
— Tadashi — Suzaki se deixou levar por suas memórias um instante — o que você fez quando soube da gravidez?
— Eu não sabia o que fazer, isso sim! Estava tão desesperado que ficava só vendo as mulheres. Não queria nada se não fosse com a Asami. Foi então que a baronesa me ofereceu um jeito de resolver isso.
— Dohana? Então foi ela quem deu a poção — soltou o homem — Mas se o filho se foi, por que ela fugiu com o Tadashi?
— Se eu soubesse disso — cuspiu no chão — Já tinha metido o pé daqui. Ela deve tá feliz agora, nem precisou criar pirralho nenhum.
— Asami está morta, Ryutaro — dizia Suzaki.
— Mentira, mentira! Ela tá por aí, que eu sei. Eu não sou burro, eu sei quando me traem. Que nem ela, que nem você e aquelas vagabundas de antes! Agora, me deixe sair daqui, por favor! Eu disse tudo que sei e nunca te fiz nada!
A voz de Ryutaro crescia, chamando atenção dos que passavam pela rua. Para fugir de atenção indesejada, Suzaki escalou os prédios e retornou ao bordel. Durante o caminho, ele já podia ver o céu clareando, mesmo debaixo de chuva.
Chegando lá, reparou nas janelas quebradas de seu quarto e na correria nas ruas, seguidas por gritos e Heishis entrando às pressas. Ele saltou para seu quarto, encontrando a porta escancarada e a cama revirada.
“Droga, Ryo”, pensou Suzaki, passando de quarto em quarto. “Você escutou eles chegando, tenho certeza”
Saindo de lá, Suzaki sentiu sua perna ser mordida por uma corda, sendo puxado até obrigá-lo a fincar uma de suas foices no parapeito, quando reparou num homem pendurado no candelabro no teto, com uma das mãos.
Ele segurava uma lança de ponta curva prateada na outra mão, jogou seus cabelos para trás com a cabeça, revelando olhos azuis, que encaravam o príncipe fixamente.
— Então essa é a besta que tanto falam? Me parece só mais um, não é mesmo Kaito? — perguntou o homem da lança com os cabelos loiros alisados.
A corda puxou o recém-chegado com mais força, derrubando-o no centro do salão. Antes que pudesse cortar o laço em seus pés, a corda foi trazida de volta para seu dono. Era outro rapaz, de cabelo escuro, rente à cabeça, que segurava uma foice pontiaguda pelo cabo, ligada à corda que girava circularmente com a outra mão.
— Ela precisa ser enjaulada, então é melhor ficar bem parado aí — disse Kaito.
Ao redor de Suzaki, outros Heishis assumiram suas posturas, de espadas em punho, esperando pela primeira ação do príncipe.
“Só tenho uma chance”, pensou Suzaki, batendo suas foices uma na outra.
Ignorando todos ao redor, ele investiu contra Kaito, que amarrou o braço de Suzaki, o puxando para perto. As duas foices colidiram no meio do movimento dos dois, porém o jovem empurrou seu corpo contra o adversário, até pressioná-lo contra uma das pilastras do salão.
— Eu estou sem tempo — dizia Suzaki — Onde está a baronesa?
— Baronesa? — Kaito ria — Como se alguém precisasse de motivos para te pegar.
O cerco de Heishis se aproximava de Suzaki, embora todos estivessem hesitantes de atacar. Com pouco espaço, ele aproveitou suas foices e escalou a pilastra para o terceiro andar, onde foi interrompido por um ataque do sujeito loiro, que saltava do candelabro.
Suzaki desviou saltando para o corredor do andar, seguido pelo seu novo adversário, O príncipe desviava da ofensiva, abrindo a brecha para descer com a sola de seu pé contra o cabo. O pisão quebrou a postura de seu oponente, permitindo que o príncipe o chutasse para dentro de um dos quartos.
Depois que tomou posse da lança, ele foi surpreendido por Kaito, que subiu com sua corda e o perfurou suas costas com a foice. Suzaki revidou com um chute, o arremessando para fora do andar, mas ele usou sua corda para pendurar-se no candelabro acima.
Foi então que Suzaki atirou sua lança bem na corda, derrubando Kaito no salão abaixo aos gritos. Depois, ele saltou para a parte enlaçada com o lustre no teto e usou suas foices para partir o suporte do candelabro, que despencou contra os Heishis antes que pudessem reagir.
As velas e os restos do lustre iniciaram um pequeno incêndio no lugar, que logo foi extinguido pela água da chuva que penetrou pelas janelas quebradas como uma torrente, que varreu Suzaki e todos os Heishis antes de se espalhar por todo o salão.
De repente, a água ondulava no ritmo de passos pesados vindos do segundo andar, antes de estremecer completamente quando o sujeito aterrissou diante de Suzaki.
— Seria coincidência você estar aqui, Tadashi? — questionou o príncipe, reconhecendo o homem.
— Estou farto desta perseguição, moleque. Eu não vou pegar leve desta vez — puxou sua longa espada prateada.
— Eu te fiz uma pergunta! — insistiu, submergindo umas das mãos, irradiando uma corrente pela água.
Entretanto, Tadashi ficou imóvel, sem sofrer nenhum efeito da eletricidade. Suzaki correu para atacá-lo por trás, porém a água ao redor de Tadashi ganhou vida, absorvendo seus cortes com a foice.
— Você pode manipular os raios, mas não os controla com perfeição suficiente para isso. Pensei que tivesse lhe ensinado isso — disse Tadashi, girando sua espada através da água contra Suzaki.
— Eu vou repetir só mais uma vez — agachou do golpe, e usou sua foice para enganchar-se na lâmina — O que fez com Asami depois que Dohana matou o filho dela?
— Então é isso que faz aqui — comentou rindo — Asami era uma oportunista como muitas outras — Tadashi ergueu os punhos para se defender de um chute, deixando Suzaki se soltar da espada — não sei nada sobre filho nenhum.
— Dohana queria um lugar como baronesa e só conseguiria isso tirando a única pessoa mais cobiçada do que ela aqui — Suzaki usou da brecha para subir nas costas de Tadashi com suas foices — Ela sabia que se Asami estivesse grávida de um de vocês, teriam que aceitá-la, por isso matou a criança!
— Só tem um porém, moleque — Tadashi puxou Suzaki das suas costas e o jogou contra o chão com o antebraço — Asami era uma prostituta mentirosa, que poderia ter engravidado de qualquer um.
— Que conveniente — dizia Suzaki sufocado — Esqueceu de dizer isso para Daisuke quando escreveu o relatório? Ou para Ryutaro? Espera que eu acredite que veio de tão longe para cá, só para me trazer de volta pro Koji?
— E você acreditou naquele indigente do Ryutaro? Está precisando escutar pessoas de verdade!
Quando a visão de Suzaki estava prestes a enegrecer, ele apertava o carpete do chão com toda sua força. Utilizando seus dedos carregados de eletricidade, pequenas faíscas brotaram dos fios de tecido, saltitando até as velas do candelabro caído, cujas chamas estavam quase mortas pela água, para então despontar uma grande brasa que se alastrou pelo chão.
— Você pode ser imune aos raios — provocou Suzaki — Mas o resto deste lugar não.
As chamas rapidamente envolveram o Heishi, que saiu de cima de sua presa, manipulando da chuva do lado de fora, para vir ao seu encontro e salvá-lo do fogo. Durante esse tempo, o lugar ainda era tomado pelas chamas, ao passo que um homem arrombava as portas principais com seu cavalo.
— Temos que ir, Suzaki! Esse lugar vai ser cercado logo. Não sei se vai dar para chegar no cavalo se nos atrasarmos! — gritou Ryo, estendendo a mão ao rapaz.
— De onde você veio? — tomou a mão do Tsuki e subiu na montaria
— Pergunta depois, age primeiro — estalou as rédeas.
Após apagar o fogo de seu corpo, Tadashi uniu suas forças, trazendo toda a água das tempestades para dentro, e inundou cada centímetro do salão principal, extinguindo o incêndio crescente.

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