Índice de Capítulo

    Do outro lado do vale, longe das viagens de Suzaki e Ryo, entre os picos mais altos do mar de montanhas do Império Ao, uma propriedade enorme, apoiada nas montanhas, de colunas de mármore brancas, telhas alinhadas, protegidas por dois muros.

    Um externo, guardando uma pequena cidade e campos verdes, salpicados por neve. E outro interno, protegendo um castelo, cujos corredores tinham suas paredes decoradas, com retratos de homens e mulheres distintos, recebiam duas visitas inesperadas, escoltadas pelos Heishis locais. 

    Quando empurraram uma extensa porta para o salão principal, os soldados despertaram a ira do residente: 

    — Seus porcos! Como ousam entrar sem minha complacência?! 

    Os guardas de armadura apenas abriram espaço para a passagem deles, cuja mera visão fez o dono do castelo enrubescer.

    — Imperador e… Duque, que dizer, General Tadashi…Eu… — tentava se explicar abaixando a cabeça 

    — Queria muito que minha visita semanas atrás tivesse sido a última — dizia Koji, olhando o sujeito de cima para baixo — Encarar essa sua face derrotada toda vez, é uma  perda de tempo. E eu odeio perder tempo, Aotaka. 

    — Majestoso Imperador Koji, por favor, me chame de Marquês. S-Se está aqui pelo o que houve na vila… 

    — Incompetente e arrogante! — gritou — Fui muito claro sobre não cruzar com os Tsuki ainda, pois estavam com meu filho. Por acaso, falei com as paredes? Antes fosse, seu pai teria me escutado mais que você.

    — Meus homens descobriram que o Heishi Celestial havia sumido da região — dava passos para trás — Não tinha como prever sua volta repentina.

    Com um gesto de imperador, Tadashi se colocou atrás do marquês, o agarrando pelos braços. As tentativas de se soltar do nobre cessaram com um tapa vindo do punho de Koji, que o derrubou, ressoando por toda a sala.

    — Você me desrespeita, subestimando minha criação! Enviando Heishis de segunda contra alguém que venceu os melhores do império, antes mesmo de completar a maioridade! — puxava um lenço para limpar a maquiagem no rosto do marquês das mãos.

    — Ilustríssimo, majestoso… — arrastava-se aos pés de Koji — Eu imploro por sua clemência. Dê-me uma segunda chance. 

    Koji forçou uma risada, chutando o marquês para longe dele.

    —  Olha só para você, Aotaka, implorando como um plebeu. Seus antepassados tem sorte de estarem mortos para não testemunharem como os envergonha — virou-se de costas, seguido por Tadashi — Se permanecer assim, sua linhagem sofrerá com um rebaixamento pela primeira vez, e você carregará tudo o que herdou, para o esquecimento!

    — Nunca, por nada nesse mundo! — se reergueu Aotaka. 

    — Então traga meu filho de volta! Se quiser vencer, precisa parar de fazer miséria e começar a investir pesado — o grito foi acompanhado da porta sendo batida pelos Heishis.

    A face assustada de Aotaka se transfigurou em raiva. Chegando na mesa atrás dele, o marquês varreu seus enfeites até o chão e rasgou suas vestes com as próprias mãos, soltando um forte grito. Após extravasar, ele limpou as lágrimas e vasculhou nos armários até achar uma gaveta.

    — Basta! — gritou, tomando um pergaminho com laço verde de dentro.

    Antes de pôr os pés nos degraus, um servo apareceu para segurar o vestido da baronesa que era acompanhada de seus dois convidados. 

    No andar superior de todos os lados haviam portas e mulheres perfumadas que observavam com os olhos afiados os homens que passavam pelos corredores. Ryo olhava de um lado para o outro com o rosto avermelhado, enquanto Suzaki não tirava os olhos da mulher na sua frente. 

    A sala esperando por eles, exibia uma lareira e quadros estampados nas paredes, além de instrumentos exóticos conservados em uma prateleira. Por trás dos rapazes, duas cortesãs pegaram na mão dos jovens, os levando até duas poltronas. 

    A baronesa se sentou na maior delas, perto da lareira. As cortesãs foram para junto dela, ao passo que os guardas fecharam a porta pelo lado de dentro. Dohana então abria um enorme sorriso que contrastava seus dentes brancos, frente ao batom vermelho dos lábios, dizendo:

    — Você cresceu, mas não mudou nada. Será que se lembra de mim, criança?

    — Lembro bem, até mesmo de ser afastado de você pelo meu cuidador — colocava os ombros sobre a mesa — Você também está quase a mesma. 

    — Você disse quase? — olhava suas unhas — Seu pai é muito rigoroso com a hierarquia. A relação entre meu empreendimento e os homens da corte é controversa, mas ele sabe que é necessária. Cedo ou tarde iríamos nos reencontrar — colocava seu cachimbo na boca.

    — Não vim aqui para conhecê-la, se é o qu…

    — Mas é claro que não — soltava a fumaça interrompendo, fazendo um gesto para as meninas — Já conheceram duas das minhas melhores flores, Kaorin e Hina — as cortesãs se apoiaram nos dois jovens — Acho que está na hora de vocês crescerem.

    — Eu quero saber sobre Asami — insistia Suzaki, afastando a cortesã — não me interessam essas garotas, muito menos você.

    Pela primeira vez o sorriso de Dohana se fechava, fazendo com que as próprias garotas recuassem surpresas.

    — Podem ir meus amores — despachou as meninas e olhou para os Heishis — E vocês, imundos, fiquem do lado de fora! 

    — Acho que agora podemos falar sério — sussurrou Ryo, esticando a coluna com as mãos para trás.

    — Eu não sei de onde vem essa obsessão por uma mulher. Asami era uma aproveitadora barata que teve o que merecia. 

    — Descobrimos que ela era uma cortesã graças a alguns pertences que achamos dela — dizia Suzaki entregando o frasco que haviam achado na casa — reconhece o que era isso?

    — Reconheço, sim — deixava o cachimbo de lado — ela arruinou a vida de muitas pessoas. Um rostinho tão belo, usado para tirar tudo o que queria dos outros — olhava o frasco colocando próximo a uma lamparina — foi exatamente essa ganância que custou tudo o que ela tinha.

    — Os relatórios dizem que foi morta pouco depois de dar a luz a um filho da casa de Sora — explicou o príncipe — mas não há nada sobre o destino da criança.

    — Por que não existe criança — Dohana abriu uma gaveta, pegando um vidro idêntico ao outro que recebeu, mais cheio — este frasco vazio continha um medicamento para aborto espontâneo. Asami se envolvia com membros do alto escalão — estendeu o vidro ao príncipe — ela tentou subir na vida assim, mas se comprometeu com o homem errado. Tentou escapar do castigo abortando, mas isso não a fez escapar do seu destino.

    — Então o sangue na cama dela… — comentou Ryo — Era o que meu pai tinha pensado também.

    — Então, a criança nem nasceu — concluiu Suzaki, negando com a cabeça — Mas como? Por que o relatório estaria errado? — se levantou incrédulo.

    — A corte nos rejeita, mas sabe que minhas meninas impedem os Heishis de fazerem mais besteiras do que o normal. Agora, quando chega ao ponto de gerar herdeiros ilegítimos, aí eles mostram as garras para protegerem a pose de moralistas — concluiu Dohana assoprando fumaça rente a face de Suzaki.

    — Viemos aqui para nada? — disse Suzaki, curvando a cabeça. 

    — Sei que vieram de muito longe, então o mínimo que posso oferecer são dois quartos para vocês. Estão imundos e precisam de cuidados — abria a porta, acenando para os guardas da porta — Eles te levarão aos seus quartos.

    Os dois companheiros foram deixados sozinhos na sala, com os guardas nas portas. Ryo ergueu seus olhos para o teto com lustres:

    — É, caso encerrado.

    — Por que mentiram nos relatórios? — perguntou Suzaki. 

    — Quando foi morta já devia estar sem barriga. Podem ter pensado que o filho já tinha nascido. 

    — A corte é muitas coisas, porém desleixada não é uma delas. E além disso, eu não confio na baronesa. 

    — Você não confia em ninguém, e eu não confio na perseguição que estamos sofrendo — suspirou Ryo, levantando — se quer mesmo confirmar isso tudo, vamos ter que passar a noite aqui de qualquer jeito. Melhor numa cama do que na sarjeta — sugeriu pegando no ombro do príncipe, que apenas observou seu companheiro seguir até a porta. 

    No terceiro andar do bordel, o príncipe foi levado ao seu quarto por um dos guardas. Sua cama era de casal, larga com cortinas ao redor e nas janelas, com vista para a rua. Jogando sua capa e capuz de lado, Suzaki caiu sobre a cama e ali ficou.

    “Se Asami tomou aquele frasco, com certeza a criança não nasceu. Ela tentou continuar a gravidez mas algo a fez mudar de ideia. Daisuke tinha razão. É como se tudo naquela biblioteca estivesse esquecido”, pensava estirado, quando ouviu batidas na porta.

    Chegando perto da porta, Suzaki levou as mãos para as foices na sua cintura, antes de perguntar:

    — Quem é? — perguntou sem resposta, apenas mais batidas.

    Assim que girou a maçaneta, sentiu a porta ser empurrada contra ele, abrindo espaço para uma mulher saltar para dentro do quarto.

    — Deixa eu entrar — a mulher pressionava sua mão na boca de Suzaki — não quer arrumar problema de novo né? Eu também não. 

    Tirando as mãos dela de seu rosto, Suzaki tentou alcançar a porta, mas a cortesã se apoiou contra a saída. As velas ao lado da porta, o permitiu reparar em seu vestido e nos fios encaracolados de sua cabeça.

    — Você — deu um passo para trás — Não quero esse tipo de serviço. É melhor ir embora. 

    — Não sou mulher de ficar em dívida com ninguém. Muito menos com o príncipe. Você estava querendo saber da Asami, né? 

    — O que você poderia saber sobre ela? — interrogou Suzaki colocando o braço para cercá-la na parede — Até onde eu sei, você é mais uma como todas as outras aqui. 

    — Eu até posso ser, mas a Asami era conhecida por todas as cortesãs mais velhas e clientes daqui. A fila de espera por ela era interminável, vinham clientes de todas as cidades. Dizem que isso mexeu um pouco com a senhora Dohana.

    — E por que uma baronesa se importaria com os negócios irem bem?

    — Ela já era dona desse lugar, mas ainda não era baronesa. E você sabe do quê as meninas daqui estão atrás. Quando Asami apareceu, Dohana se sentiu substituída pelos seus clientes. Descartada por causa da idade.

    — Isso não faz sentido. Se as duas estavam competindo por uma posição na corte, devia ter um homem. Ela devia ter um marido e nunca ouvi falar dele. Quem era?

    — Ela nunca fala. Eu ouvi essa história das outras, pode ser só fofoca de gente mais velha. A verdade é que só percebemos a morte dela porque nunca mais voltou para trabalhar  — explicou, acariciando a orelha do príncipe com as mãos — mas eu conheço alguém que pode saber.

    — Desembucha — respondeu, afastando a mão da cortesã aos poucos.

    — Ryutaro era um cliente fiel de Asami — se encaminhou até a saída — passou anos e anos procurando por aqui, se alguém sabe mais é ele — estendeu a mão para o príncipe — Ele fica sempre no cassino. É um velho, com barba grande e faltando cabelo.

    — Isso diminui pouco a minha busca. Por que ele ainda estaria com alguma informação relevante?

    — Porque ninguém escuta mais ele. Asami cobrava caro e esse cara era obcecado. Gastava tudo que tinha para ter noites com ela, e quando ela subiu, perdeu o resto com bebida e jogo. A típica história dos homens por aqui.

    — E pelo visto, quer arrancar dinheiro de mim antes que eu seja a próxima história para contar?

    — Se eu sair do seu quarto sem um puto no bolso, todo mundo vai suspeitar. Esse lugar só tem o resto, tem ideia de para onde levam o resto do resto? Você não tem outra escolha amorzinho, só tem o seu orgulho a perder comigo saindo daqui tão rápido — girava a maçaneta, estendendo a mão pela última vez.

    Virando a cabeça para baixo, Suzaki hesitou, antes de puxar a sua bolsa com as moedas.

    — Tudo tem um preço — despejou algumas moedas na mão dela.

    — Não fica assim. Algumas cobram mais caro — fechou a porta depois de soprar um beijo.

    Após retornar à solidão de seu quarto, Suzaki saiu pela janela, escalando o bordel pelas laterais até atingir o topo. 

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