Capítulo 86 - É Sempre assim
Mais tarde naquele dia, Suzaki abria os olhos, vendo estalactites. A fogueira iluminava a caverna escura sem sinal da moradora. Ficando sentado sobre a pedra, reparou no corpo enfaixado no peito, além dos antebraços descendo até as mãos. Ao lado de onde dormia, estava seu anel prateado, que guardou novamente no bolso da calça.
Quando saiu da caverna, as nuvens já cobriam completamente o Sol. Andando novamente pela trilha que fez naquela manhã, encontrou no final dela Aiuchu, debruçada no riacho com a blusa do príncipe nas mãos.
Pelas suas costas, ele sentou-se na margem cruzando as pernas e voltou a encarar seu reflexo na correnteza, distorcido toda vez que Aiuchu mergulhava a camisa nas águas. Quando terminou, ela estendeu a roupa na rocha de um lado ao som de um vento gélido que cruzou por eles.
— Obrigado — dizia Suzaki — e me desculpe.
— Foi um susto no início, mas — Aiuchu se sentava ao lado, deixando seus pés no meio da correnteza — passei a noite pensando no que podia ter acontecido com você. Foi só depois que procurei alguma maneira de te acalmar. Pois, tudo tem um motivo.
Aiuchu terminou sua fala abrindo um sorriso para ele, mas Suzaki, que não parou de admirar seu reflexo, pegou uma pedra nas mãos e sussurrou:
— O motivo de tudo…
— O que foi? — perguntou, se aproximando.
— Desde o início de meus treinamentos — arremessou a pedra que quicou poucas vezes e afundou — até as viagens, os riscos que corri… Sempre quis entender, porque eu tinha que fazer tudo aquilo.
De repente o vento soprou mais forte, farfalhando as folhas nas árvores e jogando os cabelos dos dois para o lado. O rio se agitou, então Suzaki passou a olhar o sangue ressecado nas faixas de suas mãos e antebraço.
— Eu sempre pensei que não era muito diferente do vento soprar, do rio correr, do sol nascer — ergueu seus olhos para um céu mais escurecido — eu pensava que realizar o sonho do meu pai fosse minha natureza. Treinar, estudar e vencer era o meu caminho para a felicidade.
— Não temos as respostas para tudo, Suzaki — balançava seus pés na água.
— Tem razão — começou a remover as faixas em seus pulsos — Mesmo assim, eu me segurei a esse propósito até que encontrei uma nova alternativa.
— Que seria?— perguntou Aiuchu, o ajudando a tirar as ataduras.
— Quando saí para o rito de passagem, eu tinha medo de deixar minha casa para trás. Mas foi exatamente enfrentando o desconhecido que eu descobri outra coisa mais forte, guiando as pessoas que conheci.
A mente de Suzaki divagou por alguns segundos, trazendo o poço que visitava com Mitensai, o lápide nos fundos da casa de Okada e, finalmente, Yanaho se levantando pela enésima vez em seu primeiro treino.
— Nada que fazia naquele castelo me abriu um único sorriso sequer. Agora aqui fora, as pessoas nunca precisaram de muito para estarem em paz. Mesmo com as guerras, doenças, pobreza, eles ainda eram felizes.
— Então, por que você seria diferente? — chegou mais perto.
— Exatamente. Eu nunca quis lutar, espionar, herdar o Império, nada — terminava ele mesmo de enrolar a faixa — tudo que queria era proteger a felicidade que encontrei aqui.
Segurando a mão semi-aberta, Suzaki sentiu a corneta que Daisuke lhe confiara no resgate da Princesa anos atrás. Quando aquela visão saiu de sua mente, ele cerrou o punho, suportando a dor e ergueu o braço para frente.
— Por isso eu prometi, que ajudaria as pessoas a encontrar um caminho para as cores viverem em paz — socou o chão — era isso que queria mostrar ao meu pai, mostrar para o mundo. Mas todos… Ele… nem ao menos leva isso a sério! Nem sei se tudo que dizia de bom sobre mim era verdade.
— Suzaki… — juntou suas mãos com as dele — Nada é real se não puder tocar e sentir no coração.
— É como se — tomou sua blusa da rocha e a vestiu — o mundo me obrigasse a desistir disso tudo.
Assim que o jovem se levantou, a garota de cabelos vermelhos pegou em sua mão:
— Eu nunca te contei, mas… Senti na pele como as cores não podem conviver entre si. Na verdade talvez eu seja o maior exemplo disso…
— Do que está falando? — questionou Suzaki.
— “O lugar que você nasceu, não é o mesmo que cresceu”. Era o que minha mãe sempre me dizia, quando morava no seu território.
Os olhos de Suzaki saltaram de sua face:
— Uma Aka morando entre os azuis?
— Minha mãe me disse que eu era um bebê abandonado em um riacho como esse — estendia mechas de seu cabelo vermelho — Mas que me tornei um presente dos céus, assim que ela me resgatou.
A visão de seu reflexo nas águas se tornava seu rosto mais jovem, refletido em um espelho dentro de uma casa, passando a mão pelo mesmo cabelo.
— Ela me criou sozinha. Só fui ter noção de que era diferente quando olhei pela janela e ninguém tinha essa cor — exibiu os cabelos.
— Você teria sido morta em pouco tempo se não escondesse isso.
— E foi isso que ela fez. Minha mãe cortava meu cabelo bem curto, além de cobrir minha cabeça. Para ser sincera eu mal via a luz do dia naqueles tempos. Como uma criança, nunca entendia porque aquele medo — cerrou os punhos.
— Uma vez me disse que tinha fugido — um trovão ressoou nos céus.
— Ela sempre me prometia que quando chegasse a hora, eu estaria pronta para sair. Mas a verdade é que essa hora não era pra ter chegado — inclinou sua cabeça para baixo, — ou pelo menos, não deveria.
A chuva começou cair sobre eles, distorcendo seus reflexos no rio. Enquanto a garota continuava:
— Numa das nossas saídas, o pano que cobria meus cabelos se soltou na frente de toda a vizinhança. Não demorou muito para homens cercarem nossa casa — tirava os pés das águas — Minha mãe lutou com três deles, gritando para que eu corresse — se levantou com os olhos no chão — e foi o que eu fiz. Nunca mais a vi.
— Eu sinto muito por isso — Suzaki a abraçou com um braço.
— Eu via em seus olhos, ela me amava independente da minha cor, ou do risco que eu apresentava. Era como se eu fosse tudo para ela e…
— É sempre assim, não é? — os dois se encararam por um momento.
— Naquela dia eu corri e corri sem parar. Era a primeira vez em toda minha vida que pude sair pela noite. Foi ali que encontrei uma bola branca e brilhante no céu. Eu a persegui até perceber que não estava mais sendo seguida.
— E foi assim que encontrou esse lugar?
— Eu nunca tive pra onde voltar e finalmente estava livre como queria — estendeu os braços sorrindo — No final tudo aquilo teve um propósito.
— Propósito? — soltou o ombro da garota. — Você perdeu sua mãe, sua vida foi tomada por uma desgraça.
— A Ordem que nos cerca — estendeu os braços para o ar — dá propósito a todas as coisas. Ela me permitiu passar por tudo isso, para que eu vivesse livre em comunhão com ela. E agora — puxou Suzaki pelo braço, — ela nos uniu por uma causa.
— Onde quer chegar? — perguntou indiferente.
— Fuja comigo, Suzaki. Sempre me disse que seria melhor para mim, mas eu nunca faria isso por mim mesma. Mas com você — aproximou seu rosto com o dele — eu faço qualquer coisa.
Suzaki virou o rosto. Suspirando fundo, ele puxou seu braço de volta:
— Eu não posso.
— Não… p-pode? — arregalava os olhos — espera aí, como assim não pode?!
— Eu preciso voltar — ficou de pé.
— Espera! — aos gritos, ela tentou alcançá-lo, mas ele recuava — Você acabou de dizer que não tem motivos para isso, que só podia desistir disso tudo!
Apesar das pernas trêmulas, Aiuchu correu e agarrou Suzaki de frente.
— Lembra de como chegou aqui? Do que esse mundo te fez passar? — encostou sua cabeça no peito do príncipe — Podemos ser livres das promessas e das dores que vem dela, livres de…
— Aiuchu — repousou suas mãos nos ombros dela e a afastou lentamente — não pode me prender aqui.
Com a fala, a garota de cabelos vermelhos arregalou os olhos, desistindo de sua luta. Ela caiu de joelhos no chão e voltou a chorar.
Por sua vez, Suzaki comprimiu os lábios e semicerrou os olhos, virando as costas para ela, enquanto balançava a cabeça. Retornou para a caverna durante a chuva, ele montou seu cavalo e partiu.

Com alguns trotes na chuva, o príncipe tranquilizava o animal que relinchava, assustado pela noite anterior, seguindo o caminho até que sentiu uma aproximação de repente.
Suzaki ficou alerta, olhando em todos os cantos, quando na rota de terra à frente no breu completo percebia a silhueta de um homem de alta estatura.
Puxando as rédeas, ele desceu do animal e foi confrontá-la. Afiando sua visão, ele reparou no formato de uma máscara, quando ouviu uma voz fria e grossa:
— Está levando mais tempo do que eu esperava.
O homem de preto saía das sombras, com um passo à frente. Imediatamente, Suzaki se lançou com o punho na direção de seu rosto oculto, mas com um mero passo para o lado, Nobura desviou.
Seu segundo golpe foi segurado pelas mãos do mascarado. Foi então que sua mente o comandava para agir, porém seu corpo parou de obedecer.
“O que é isso?”, pensava não mexendo um músculo. “Não consigo fazer nada!”
— Achei que estivesse mais disposto a me ouvir — circulava o garoto paralisado — seus olhos e reações já estão diferentes.
— Eu não quero te ouvir. O que você fez comigo?
— A pergunta é: o que você está fazendo? Insistir em planos fracassados é o jogo dos tolos.
— Ainda não fracassei. Eu estou só começando.
— Realmente, é sempre assim.
— Estava ouvindo?! Desgraçado! — não conseguia mover um músculo.
— Pensa que está corrigindo o curso da sua jornada, mas na prática vai acabar da mesma forma, como todas as coisas nessa vida.
— E para onde seria?
— Caos — se colocava nas costas do príncipe — O destino de toda a criação é a destruição. Lutamos contra ela, mas a marcha do tempo não admite erros, somente atrasos. Ainda que vença seu pai, o que ganharia com isso além de atrasar a guerra que vem por aí em… Talvez um ano ou dois anos, se tiver sorte.
— Não haverá guerra quando acabar com a corte — disse Suzaki, aumentando o tom.
— Sabe que está errado, isso parece com a crença das pessoas que serão salvas na morte. Continue com este ideal de salvação e quando menos perceber, não restará mais nada.
— E então você vai aparecer para mim de novo? — perguntou notando a sombra do homem sob ele.
— Errado. Quando terminar, será você que virá até mim — encostou novamente no príncipe.
De repente, Suzaki sentiu seu corpo voltar ao seu comando. Caindo no chão, ofegante, ele se virou e não havia mais homem nenhum, até que ouviu uma voz reverberar pelas sombras:
— Sua indecisão será sua ruína, caçador de sombras.

O tempo estava acabando para os Tsuki, na medida em que a lua aparecia no céu, mesmo coberta por nuvens. Essa espera foi pontuada por mais um golpe de aríete inimigo nos portões principais.
Ryo que vigiava tudo do telhado de sua casa, desceu para alertar seu pai:
— Eles cansaram de esperar. Temos que agir.
— Ainda não acredito que o molecote se foi — comentou Tetsuhi afiando uma espada em suas mãos — O imperador ganha alguma coisa com isso?
— Já não podemos mais contar com ele — sacou a arma das mãos do ferreiro — Se ainda é o marquês que conheço, pode muito bem ter inventado uma história para nos assustar — abria um baú antigo — Vamos acabar com isso nós mesmos.
— Mas e se tentarmos o acordo? — perguntou um Tsuki.
— Confia mesmo que Koji nos deixaria voltar para o palácio assim? — respondeu Ryo cerrando os punhos — Nossas cabeças iriam rolar antes de pisarmos na capital.
— Nossas peças estão posicionadas, agora é esperar a jogada deles — dizia Yomi, retirando frascos de líquido preto do baú — Preparem-se homens!
Enquanto os Tsuki protegiam seus olhos com a seiva da noite, Yomi despachava Tetsuhi de volta à forja. Por sua vez, Ryo encontrava na sala ao lado um verdadeiro arsenal esperando por ele.
“Não são fulgur, mas até que Tetsuhi fez um bom trabalho”, pensou o caolho, tomando uma lança para si.
O aríete se preparava para mais um murro, quando avistaram a fumaça sendo expelida pela chaminé.
— Estão brincando com nossa cara?! — comentou o arauto — Atacar, agora!
O aríete arrombou a entrada da fortaleza Tsuki, abrindo caminho para um pelotão armado com espadas e escudos, cuja armadura brilhava em laranja pelas lamparinas carregadas por seus acompanhantes.
A tropa invadiu casas, revirou estábulos e por vezes até avistaram vultos, mas não encontraram ninguém. Quando cobriram o terreno por completo, restava somente a forja, de onde vinha a fumaça:
— Ouço algo lá dentro! — gritou um deles — Deve ser eles.
Mais recuado, o comandante viu seu pelotão entrar às pressas no lugar quando reconheceu um cheiro estranho. Olhando para suas botas, reparou numa pequena trilha de pólvora correndo até a entrada da forja.
Antes que pudesse avisá-los, uma corda se soltava do alto, fechando a porta e derrubando também óleo em cima dos homens do lado de fora. Finalmente, uma pequena fagulha foi riscada nas sombras. A explosão pôde ser vista dos muros externos.

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