Capítulo 88 - Castigo
Com uma das mãos, Suzaki arrancou as perucas brancas da cabeça do marquês, revelando seus cabelos loiros amarrados.
— Misericórdia. Eu imploro — revidava com arranhões, mas recebeu outro tapa — Foi a Dohana e o Daisuke. Eles me convenceram, eu juro.
Arrancando o elástico e sacando sua espada, Suzaki cortou os longos cabelos do marquês.
— Não faz isso… por favor! — rastejava na grama, recolhendo os fios com as mãos — Poupe a minha vida e lhe dou o que quiser.
— Eu não quero a sua morte — chutou o rosto de Aotaka e o esfregou na terra com a sola — Quero que mande uma mensagem para seu imperador.
Enquanto o pisoteava, Suzaki puxou a túnica de cetim do marquês, rasgando-a em dois.
— Pare! — Suplicava aos soluços.
— Está tudo pronto? — perguntou Suzaki para Yomi.
— É só dar a ordem — respondeu.
— Mostre a ele.
Os homens na roda abriram mais espaço. Suzaki tirou seu calcanhar da cabeça do marquês que ao levantar, tentou correr de volta para sua casa. Contudo, uma explosão vindo dela o derrubou. Sua casa agora estava em chamas.
— Não — gritava em voz chorosa, esticando as mãos — Meus antepassados! — virava para Suzaki — Tem ideia do que fez?
— O resto da sua propriedade vai terminar da mesma forma — deu-lhe uma bofetada com as costas da mão — se não cooperar.
Rastejando na grama, Aotaka começou a puxar a agarrar os pés de Suzaki. Seus olhos inundados de lágrimas, desmanchando sua pálida maquiagem.
— Eu faço tudo que você quiser, mas apague essas chamas! Os quadros dos meus antepassados, eu não sou nada sem eles!
— Vai voltar à capital e avisar ao imperador que eu estarei esperando no Mirante Celeste, sozinho. Ele deverá vir sem Heishis também — o empurrou para longe de si.
De trás da casa, voltavam os Tsuki responsáveis pelo incêndio. Um deles trazia consigo uma garrafa na mão e a entregou para Suzaki, que despejou o líquido em cima do marquês, ainda de joelhos pela sua morada em chamas.
Quando esvaziou o vidro, o príncipe o quebrou nas costas do nobre, que se pôs a correr para longe dali, ao som das risadas dos Tsuki. Um deles, esticou a perna pelo caminho, o fazendo tropeçar enquanto retomava o caminho.
— Acha que ele vai cumprir? — questionou Yomi.
— Aotaka é um marquês sem território agora, sua única alternativa é apelar ao imperador… ele irá relatar tudo. Eu irei encontrar Koji pessoalmente — respondeu se afastando.
— Que seja — terminou Yomi, se virando para seus subordinados erguendo o punho cerrado — O Vale do Trovão pertence aos Tsuki!
Com urros e espadas levantadas ao céu, a família renegada de nobres comemorou sua vitória debaixo da chuva que acabava de descer sobre eles.
Suzaki, contudo, se retirou da pequena multidão permanecendo com os olhos fixos no que havia além dos muros da cidade, nas simples casas abaixo deles. Enquanto Ryo percebia o príncipe de longe.

Descansando o rosto nas mãos, Koji ouvia as palavras saindo da boca do Heishi ajoelhado diante do trono, mas não o escutava propriamente. Sua atenção estava em Daisuke, que sempre olhava para os muros, através das janelas, como se esperasse por alguma coisa.
Seu transe, no entanto, seria interrompido pela porta de sua sala sendo escancarada. Levantando do trono, ele viu um homem com as vestes rasgadas, coberto de lama e com metade dos cabelos loiros raspados sendo arrastado pela guarda de seu palácio.
— Senhor, esse homem diz querer falar com vossa majestade — dizia um Heishi.
— Isso é uma espécie de teatro? — disse, rindo do maltrapilho.
— Sou eu, minha alteza — o homem se debatia — O marquês do Vale. Tenha piedade de mim, majestade. Eu falhei!
— Devo levá-lo às masmorras, majestade? — correu Daisuke de supetão, até o humilhado pegando-o pelas vestes.
— Você já é uma falha Aotaka — gesticulou para os Heishis presentes — Deixe-nos a sós.
Todos se retiravam, como ordenado pela autoridade máxima, porém antes que o escrivão pudesse fechar a porta, foi interrompido:
— Exceto você, Daisuke.
Quando fecharam a porta pela última vez, Aotaka se apoiou nos primeiros degraus que levavam ao trono.
— Eu já até imagino mas, eu quero ouvir de sua boca — levava a mão ao queixo — quem fez isso com você? — sorria Koji empolgado.
— Seu filho, minha majestade. Eu fracassei acreditando que tomar o assunto com as minhas próprias mãos resolveria o problema. Fui seduzido pelo poder e… agora — lágrimas desciam de seu rosto — minha casa arde em chamas!
— Que tragédia… — voltou a apoiar seu rosto nas mãos.
— Mas esse erro não foi cometido sozinho, majestade. Poupe-me de meu castigo, que entrego a você os conspiradores e a mensagem que seu filho me confiou.
— E quem vai acreditar nisso? — ria Daisuke.
— Cale-se — apontou para o homem de pé na porta — Seja breve.
— Foi me oferecido uma proposta de assassinar o Heishi Celestial por um de seus homens de confiança. Parecia ter corrido como planejado mas, ele retornou com aqueles Tsuki. Eu temo que esse possa ser só o começo — engatinhava pelos degraus — Depois de me humilhar, ele mandou avisá-lo que ele espera por vossa majestade no Mirante Celeste sozinho!
Koji fechou sua expressão, se colocando de pé, descendo a escadaria até o marquês. Aotaka suplicava, agarrando e beijando os pés do imperador, que apenas ergueu a cabeça, ecoando uma gargalhada pela sala.
Daisuke se juntou ao imperador com risadas tímidas cobrindo a boca, assim como Aotaka, que também caiu em risadas. Contudo, a mistura de alívio com comédia daria espaço a um silêncio profundo, quando a bota de Koji se encontrou com o queixo do nobre, que rolou escada abaixo.
— Sua incompetência atingiu o limite. Você não foi capaz de honrar nada, Aotaka. E por isso não merece mais título algum — soou um sino que retirou do bolso — levem o lixo para fora.
Os guardas invadiram a sala, tomando o marquês pelos braços que gritava em constantes esperneios que ressoou pelo espaço, fazendo Daisuke engolir seco antes de ficar sozinho de frente ao Imperador que descia até ele.
— Aotaka tem os recursos, porém é negligente demais para conduzir um plano para assassinar o meu filho. Sua assinatura está nessa traição, Daisuke.
— Majestade — levou um dos joelhos ao chão — Fizemos o que julgávamos ser o necessário. O Heishi Celestial já não pode ser controlado, prova disso é que ele descobriu a verdade — Koji pausava nas primeiras escadas, de frente ao homem rendido — então com a ajuda de Tadashi, Dohana e Aotaka, nós o deixamos para morrer nas Trevas.
— Vocês passaram por cima de minhas ordens — aumentou a voz — pior! Conspiraram contra mim!
— Pelo seu bem e consequentemente do império! — Tirava uma corneta do bolso — Eu temo que o filho que almejou dentro dos muros deste palácio nunca tenha de fato existido.
— Mais segredos? — pegou o objeto, o reconhecendo — Se ao menos tivesse me contado isso dois anos atrás, isso tudo poderia ter sido evitado — guardou-a dentro da túnica — Mas nada tema, ainda há esperança para o Império — foi até a saída.
— Creio que sim, mas não com Suzaki — respondeu Daisuke, observando os passos sutis do imperador até a saída.
A cada passo a ansiedade do nobre sufocava seu peito, quando abriu a porta Koji cochichou para os guardas no qual entraram coordenados cercando o escrivão:
— Ei! Não pode fazer isso! — tentava se libertar, sendo abatido.
O imperador seguiu pela saída sendo escoltado pelos soldados que o seguiam, voltava seus olhos apenas para ver seu antigo homem de confiança, amordaçado.
— Preciso de um transporte ao Mirante Celeste, tragam o prisioneiro junto. E avisam Satoru que preciso vê-lo com urgência.

Em uma montanha esculpida em verde, uma trilha de pedra levava os visitantes para próximo do firmamento do céu. Em seu pico majestoso, uma estrutura erguida por mãos hábeis esperava pelo imperador acima até mesmo das nuvens.
Dispensando os serviços dos seus no pé da última escadaria, Koji prosseguiu adiante sendo seguido por outra figura com uma boina. Já entre as nuvens, a neblina não impedia seus passos decisivos, embora a nostalgia desbloqueava sua memória, na medida em que subia seus degraus:
— Eu preciso que você… quer dizer, você precisa crescer para herdar o que abandonarei. Você quer que eu seja conhecido como aquele que não deixou herdeiros aptos? Você quer que eu passe pela mesma vergonha que tive com seu irmão? Você deve mudar tudo isso Suzaki. É o meu… e o seu destino!
De repente um relâmpago apareceu na distância, seguido por um trovão que balançou as estruturas. O criado se assustava segurando no corrimão de pedra, embora Koji apenas acenava indo em frente, perdido nas lembranças de seu filho.
— Eu… — o príncipe gaguejava.
— Se você gosta e valoriza tudo que eu faço por você, vai dar um jeito em sua reputação. Vai sair daqui e cumprir seu Rito de passagem. Nem mesmo seu irmão se acovardou da situação. Satoru valorizou os sacrifícios que fiz por ele. E você?
— Tudo bem, eu farei! — respondia Suzaki, baixando a cabeça.
— Espero que não me desaponte!
Já acima das nuvens, Koji havia alcançado o lugar paradisíaco, banhado pelo sol daquela manhã. Seus olhos foram guiados pelas colunas de mármore do mirante, local do seu encontro marcado, já visível por ele nas escadas.
— Vá meu filho. Espero que depois desses anos, chegue aqui como um homem de verdade! Eu sei que você vai conseguir, porque eu escolhi você!
Após ter dito estas palavras, via Suzaki mais novo seguindo o trajeto para os limites do território Ao. Atingindo o topo, as costas frágeis cobertas pela jaqueta azul do menino, eram substituídas no presente pelos ombros largos do Heishi Celestial que o aguardava.
Suzaki deixava a luz daquele amanhecer desimpedido acariciar seu rosto, ainda de olhos fechados se perdia em suas lembranças:
— Eles não conhecem esse mundo como eu. Estão com medo, por isso querem controlá-lo. Vou mostrar para meu pai que os diferentes podem discutir numa mesa sem os horrores da última batalha.
— Isso seria uma revolução e tanto — apertava a mureta com as mãos, lembrando das palavras de Onochi — Mas terminar uma é mais difícil que começar.
— Farei o que for preciso!
A memória em sua mente, pintava o quadro da imperatriz exibido a ele pelo seu pai em sua volta, cujo rosto pronunciava somente uma frase:
— Você me desapontou.
Sem abrir os olhos, Suzaki deixou a brisa atravessar seus cabelos suavemente, ao contrário da dor que sentiu, junto ao sangue escorrendo pelo ombro quando sua aura azul crescia pela primeira vez na sua infância.
— Temos que tratar de continuar o treinamento — estendeu a mão ao garoto ferido no chão — Não há tempo a perder, não é Suzaki?
O príncipe se encolhia do frio, mas já podia ouvir bem os passos de Koji, que abria um largo sorriso, a poucos metros de seu filho agora de olhos abertos. Suzaki tirou sua espada da bainha, apontando para a face do Imperador, fazendo-o recuar a mão estendida.
— Responda — Suzaki olhava para sua espada, depois para seu pai — o que eu sou para você?
— Então me convida para cá e me destrata cobrando explicações? — ria balançando a cabeça — estava errado em esperar uma atitude diferente vinda de você.
— Uma hora, disse que precisava de mim. Na outra ordena minha morte porque descobri que mentiu para mim durante toda a vida — aproximou a ponta da sua espada — Como espera ser recebido depois do que me fez passar naquele lugar.
— O que aconteceu contigo foi… infeliz. Mas — deslizou os dedos pela lâmina — não foi por ordem minha.
— Daisuke, Tadashi, só agem com seu comando! — balançou a arma afastando a mão que a segurava — Sabia que poderia perder o trono se a verdade viesse à tona, por isso quis acabar comigo como fez com Asami.
— Você está aqui vivo, não está? Eu nunca iria subestimar a minha criação arremessando ela nas Trevas. Se fosse ordem minha não teria a mesma sorte, então pare com esse drama todo — erguia as duas mãos. — Para além disso, se a verdade fosse revelada, não seria só eu que perderia meu título — os dois se encaravam. — Como pretende fazer tudo que quer sem o título de Heishi Celestial que eu te dei?
Ignorou a lâmina, indo em diante com os olhos do príncipe o seguindo a cada movimento:
— Você não deve saber, mas os Sora sempre foram os rejeitados da corte. Daisuke viu nossa briga como uma oportunidade de fazer o Império voltar para o comando antigo — passou por Suzaki, recostando no parapeito — ele iria te matar me deixando sem herdeiros, e então se aliar aos outros membros da nobreza, incluindo os Tsuki.
— Que garantia tenho disso? — disse Suzaki, abaixando a espada — você é um Sora e é o homem mais poderoso do império.
— E isso me custou mais do que pode imaginar. Antes de mim, os Sora nunca tiveram um Imperador sequer — ao lado do filho que guardava sua arma, lembrando os fatos do passado. — Acho que está na hora de saber como eu e você chegamos até aqui.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.