Capítulo 79 – Jogo da Corte
Os móveis, mesas, pedaços de armadura e armas flutuavam pela água trazida por Tadashi, que batia nos joelhos do Heishi que junto de seus homens recebiam a volta da dona que chutava as águas, enquanto segurava seu vestido acima delas.
— Inúteis! — gritava Dohana — Qual parte de esperar o Tadashi agir, não ficou claro? Olha esse lugar, violentado por primatas!
— Baronesa, se me permite dizer, não tivemos culpa — um Heishi dizia, trazendo um loiro desacordado nos braços — eles atacaram primeiro. Pensamos que o plano tinha começado, mas quando Suzaki chegou o inimigo já estava alerta.
— Chegou? Ele nunca nem deveria ter saído! — chutou água no Heishi.
Assim que avistou Tadashi, recolhendo uma lança que ficou presa nas paredes, ela cresceu os olhos para cima dele, pegando-o pelos braços.
— Onde ele está?! — cobrou Dohana.
— Fugiu — respondeu Tadashi, sem olhar para ela.
— Como assim fugiu? — subiu a voz, antes de recuar — Um general não conseguiu segurar um pirralho mimado?
Os Heishis em volta se afastaram e as cortesãs procuravam esconderijos nos quartos assim que notaram um homem que cruzou a porta. Do que restou da sala, todos se curvaram perante ele.
— O ataque deveria ter sido coordenado — respondia desviando o olhar aquele que chegava — Esses homens atrapalharam o plano.
— Para de jogar a culpa nos outros! — bateu no peito do general — você era o professor dele! O ensinou tudo para…
— É exatamente por isso que meu filho não deve ser subestimado com planos de última hora — a voz vinha de trás dos dois.
Dohana reparava na mudança de postura dos outros ao seu redor e virou-se para encarar o homem de coroa com cristais azuis, revestida em preta e um metal escuro.
— Baronesa de Yoroniwa — continuou Koji — Por que não deixa a discussão de casal para um lugar mais reservado?
— Devia saber como é, alteza — curvava a cabeça junto do marido, com um sorriso sarcástico.
Um encapuzado com olhos azuis, com o braço direito faltante, chegava por trás do imperador, olhando fixamente para a lança nas mãos de Tadashi.
— Lembrou que a outra criança existe? — descontraiu Dohana, levando as mãos para trás — É bom sair da sombra de vez em quando, não é, Satoru?
— Pai, essa lança não está em nenhum arsenal do palácio nem de Heishi nenhum. São estrangeiras, acho que do norte — dizia o irmão mais velho de Suzaki.
— Caçadores de recompensa do Aotaka? — concluiu Tadashi, olhando para Koji — Ele agiu rápido.
— Esse cara é uma piada — comentou Dohana, cruzando os braços — Por que envolveram ele para início de conversa?
Koji estendeu a mão, recebendo a lança das mãos de Tadashi.
— Meu pai, eu insisto que um ataque direto pode ser o mais efetivo — dizia Satoru — Eu posso organizar isso. O que mais quero é encontrar meu irmãozinho.
— Cala sua boca! — arremessou a lança na parede — são por lixo como você que ele ainda está por aí! — virou-se para o casal — Tudo o que você tem nesse lugar, é porque eu concedo! Se da próxima vez que eu pisar nesse nojo de lugar, não for com meu filho, seu título, essa cidade maldita, seu casamento, posso tirar tudo de todos aqui! — gritou para todos do salão ouvirem.
Dohana engoliu seco, mas por trás das costas, suas unhas rasgaram a palma da mão.
— Se falhar, vou transformá-la na mesma meretriz de esquina de antes e veremos quanto tempo dura antes de te jogarem naquele buraco imundo, onde deveria ter te jogado há muito tempo.
Quando Koji e seu filho viraram de costas para a saída, ela levantou o braço para revidar, porém Tadashi se colocou na frente.
— Se contenha — sussurrou Tadashi segurando os braços da baronesa — quer piorar as coisas?
— Vou ter que arcar com cada centavo da destruição que vocês causaram e ele ainda me ameaça na frente dos meus empregados?! — disse em voz baixa.
— Agredir o imperador não adianta nada.
— Eu não tô nem aí para o imperador. Sabe bem disso — recuou o braço.
— Você não é a única — sussurrava Tadashi, fingindo abraçá-la como despedida — Acredite, a fixação dele pelo moleque vai levá-lo à ruína. A nobreza não tolera estar refém de um adolescente sem noção! Por mais que ele seja o cabeça da corte, o resto do corpo não está respondendo mais — sussurrou próximo aos brincos dela.
— E o que faremos? — acariciava a barba do marido.
— Por enquanto espere — se virava, — vamos agir no momento certo — seguiu, acompanhando o Imperador.

Atravessando as estradas de barro, Ryo conduzia Suzaki para longe dali, até que aproveitou o silêncio para questionar:
— Por que saiu sem mim?
— Por que você não estava no quarto onde te deixei? — devolveu a pergunta.
— Sempre o mais desconfiado — balançou a cabeça — Para o seu azar, eu ouvi os primeiros invasores chegando. Ouvi eles falarem o seu nome, pouco antes de entrarem no bordel. Eu me escondi até que você retornasse, mas quando o Tadashi apareceu corri até nosso cavalo do lado de fora e aqui estamos. Sua vez.
— Eu queria confirmar uma suspeita. Não queria envolver você numa pista incerta.
— Tudo que fazemos é seguir pistas incertas. Encontrou alguma coisa pelo menos?
— Nada de mais — desconversou Suzaki, olhando para o sol nascente.
Eles percorreram a estrada a maior parte da manhã. Quando cruzaram o vale, em direção a um acampamento recostado nas montanhas. O lugar era cercado por muros de pedras, com torres de vigia nas extremidades e um portão retrátil de madeiras. Entrando lá, os Tsuki observavam a entrada, com um dos líderes aproveitando a deixa.
— Estamos ficando sem tempo — dizia Yomi, apoiando o cotovelo no braço da poltrona de sua sala.
— De tudo que vi nesses dias, nada está mais atrasado do que esse império — respondeu Suzaki entrando primeiro na casa, Ryo veio logo atrás — E ele permanece de pé. Preciso de mais tempo.
— Voltou por todo aquele caminho para me pedir para esperar mais?! — inclinou-se para frente em seu assento.
— Suzaki, eu pensei que… — Ryo se preparava para perguntar, mas seu pai tomou a palavra.
— Quer esperar que o Koji bata na nossa porta, com aríetes e uma centena de Heishis? Porque a cada dia que passamos escondidos, a probabilidade disso aumenta. Você viu no Vale! Com o fulgur seremos destruídos.
— Eu posso diminuir esse risco. Ainda estão interessados no ferreiro?
A sugestão do príncipe, fez com que Ryo e seu pai trocassem olhares entre si.
— Estou ouvindo — disse Yomi.
— Tetsuhi é o único homem capaz de manipular fulgur com aço. Se o problema é enfraquecer o império, todo fulgur será inútil sem ele.
— Desgraçado, você tinha isso em mente desde que saiu — concluiu Yomi, levando a mão no queixo — Do que precisa para tirar ele do Koji?
— Eu sei do que preciso depois que consegui-lo: mais tempo.
— Pois vá sozinho, Heishi Celestial — dizia Yomi, com um sorriso de canto — Mas se voltar de mãos vazias, isso se voltar, pode esquecer dessa busca.
Com a decisão tomada, Suzaki virou-se sem dar mais explicações, Ryo o seguia inconformado:
— Você tem noção onde está se colocando? Suzaki, o filho da Asami morreu!
— Estou indo para capturar o ferreiro. O que isso tem a ver com a Asami?
— Então por que quer mais tempo? Ninguém importante pro Koji sai da capital depois de Nokyokai. Agora, quer me fazer acreditar que depois daquela confusão em Yoroniwa com o Tadashi pode ir e voltar ileso e com uma das pessoas mais importante de toda essa guerra?
— Se sua preocupação é meu retorno, conheço atalhos, não pretendo demorar — subia em seu cavalo — Os Heishis do vale, os mercenários no bordel, eles estão atrás de mim não dos Tsuki.
— Suzaki, abre o jogo — segurou a rédea do cavalo — O que está escondendo de mim?
— Ryo, somos apenas cúmplices para derrubar Koji — puxava as rédeas para si de novo — não me peça para confiar em você, pois sso nunca mais vai acontecer.
O portão se abria e Suzaki cavalgava em direção ao vale. De longe, Ryo apenas observava antes de perceber um feixe de luz vindo do céu, entre as nuvens, surgir entre os dois.

No interior de uma casa estreita e úmida, revestida em madeira, com paredes irregulares, uma criança numa cama de palha clamava pelo seu pai, que sentiu sua fria mão na testa quente dela.
— Está queimando, e ele não para de suar — percebia a palma da mão molhada.
— Não se preocupe Masao, o remédio que conseguiu do palácio deve fazer efeito logo — se aproximou uma mulher, com um bebê no colo.
— Queria poder sair desse desespero — colocava sua boina — falta tão pouco para nos deixarem ficar no palácio. Desde aquela guerra, fomos forçados para fora para acomodar os outros nobres, mas…
— Já devíamos ser gratos por eles deixarem você trabalhar lá — dizia a mulher acompanhando o homem até a porta — Muitos não têm essa sorte.
— Eu sei, eu sei, mas estamos tão perto. Se o Imperador for bem-sucedido na invasão, haverá espaço não só para nós, mas para outros trabalhadores. As coisas voltarão a ser como antes.
Por cima da telha esburacada, Suzaki observava seu antigo criado abraçar sua esposa e filho. Escondido por debaixo da suas roupas, Masao carregava uma chave de ferro, que ressoava a cada passo seu pelas ruas enlameadas do lugarejo, em direção ao palácio.
Ele correu pelas barracas, fazendo seu caminho para o precipício onde a ponte descia, conectando os dois picos. Contudo, ele tomou um caminho estreito pelos lados, uma ponte de pedra, ligando os dois lados discretamente.
“Dividir o espaço com os servos nunca foi do agrado da corte. Eu nunca entendi como você e os outros apareciam do nada dentro do castelo, até que me deparei com essa ponte quando era criança. Desde então observava você chegar, Masao”, pensou o príncipe.
Seguindo à distância, o jovem avistou um portão de ferro escondido por entre as rochas. Somente o ato de destrancá-lo por parte do criado, fazia o metal ranger, ecoando pelo precipício abaixo. Suzaki esperou alguns minutos do lado de fora, escondido entre as pedras, antes de se aproximar do portão.
“A corte não quer nem olhar para pessoas como vocês, por isso escondem até a sua entrada como uma doença”, puxou a foice para cortar as trancas.
A passagem subterrânea levava a uma porta de madeira, recém trancada. Era a lateral de um dos prédios no castelo. Mais à direita, uma saída para o jardim dos fundos, onde mais pessoas trabalhavam no gramado.
Espiando pelas janelas, pôde ver a cozinha e os servos nela, entre eles, Masao passava às pressas. Portanto, Suzaki começou a escalar a lateral do lugar até o topo, de onde acompanhou seu antigo criado que já saía cruzando o pátio interno.
“Koji te despreza, mas enxerga utilidade em um plebeu como você. Então me mostre no que ele te confiou se não tem mais a mim para vigiar”, refletia o seguindo até a murada interna, onde o Imperador vive.
Escalando o paredão de pedra, Suzaki atingiu o topo, mantendo Masao à vista, entrando pelo salão principal. Pouco depois, pelas janelas, o príncipe podia vê-lo subindo as escadas para uma sala à esquerda.
Circundando o prédio pelos muros, o filho de Koji encontrou o destino de seu criado. De frente para uma janela, ele podia ver uma pequena biblioteca, ocupada por um jovem distinto, que segurava um livro aberto nas mãos, de frente para uma prateleira com os livros tombados.
— Eu estou bem, Masao. Não preciso de nada — disse, tomando conhecimento da chegada do servo.
— O imperador requisitou que lhe servisse depois da partida dele com seu pai, mestre Doku.
— Acho que não consegue me ajudar a estudar — a resposta deixou Masao cabisbaixo — melhor ir lamber a bota de outros nobres desocupados, eu não sou um deles.
— Se precisar de alguma coisa, estarei à disposição — jogou as mãos para trás, se retirando.
Discretamente, Suzaki já estava próximo da janela aberta. Vagarosamente, adentrou no recinto engatinhando por trás de onde o sujeito estava sentado. Tampando a boca de Doku, colocou sua foice sob o pescoço do sujeito.
— Aqui é um lugar para fazer silêncio. Se você gritar as coisas não vão acabar bem — sussurrava, girando sua arma — quando soltar sua boca, vamos conversar sem desespero.

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