Índice de Capítulo

    Os pássaros anunciavam a chegada de um novo dia, sobrevoando montanhas, banhadas por tímidos feixes de luz que atravessavam as grandiosas nuvens no céu. Descendo as escadas da sua casa, uma garota observava o caminho das aves, concluindo: 

    “Ufa, parece que a temporada das tempestades está próxima do fim”. 

    Enquanto amarrava as cestas de palhas que carregava, não demorou muito para o céu ser novamente coberto de cinza. Foi então que se preparando para partir, a garota reparou num conhecido correndo em sua direção.

    — Ryo? O que você… 

    — Kyoko — interrompia ofegante, olhando para um lado e para outro — precisamos conversar. 

    — Estou indo buscar comida. Não quer esperar? — descia as escadas com as mãos cheias. 

    — Então vamos — pegou uma das cestas. 

    Kyoko tomou a dianteira, cruzando as trilhas, contornando os mesmos estreitos de sempre, só que dessa vez, avançando por outros limites mais distantes. Pelo caminho, ela pôde observar os campos que já visitou no passado. Todos consumidos pelas tempestades.

    Durante o trajeto, Ryo quebrou seu silêncio:

    — Suzaki sumiu.

    — Como assim?! Ele passou aqui faz uns dias.

    — Como ele estava da última vez que o viu? — perguntou Ryo enquanto afiava seu único olho em cada canto.

    — Machucado e estranho. Nunca vi ele daquele jeito. 

    — Então ele passou por aqui depois. 

    — Depois do que? — a pergunta foi respondida com um empurrão de Ryo, levando os dois para uma moita atrás de um tronco.

    O caolho se jogou por cima da garota tapando sua boca com as mãos, ao mesmo tempo que fazia sinal de silêncio. Pouco segundos depois, três homens de armadura se fizeram visíveis. Quando passaram, Ryo se ergueu junto com Kyoko. Seu olho, por outro lado, estava nas pegadas deixadas pelos sujeitos:

    — Essa foi por pouco.

    — Nunca vi soldados por aqui — retomou com as cestas do chão. 

    — Estão cada vez mais frequentes na região — voltaram a caminhar — Por isso eu vim para cá. Nas cartas, eu encontrei uma pista para Suzaki. Agora, ele sumiu depois de checá-la. Pode ter descoberto algo lá e não quis me contar.

    — Ele deve ter seus motivos. 

    — A última vez que os Heishis se tornaram agressivos nessa região foi quando Suzaki viajou para o deserto — parou de caminhar — Eles voltarem em tão pouco tempo só sugere uma coisa — repousou as cestas no solo. 

    — Suzaki é forte — lançou suas mãos sobre as plantações — Ele sempre volta. E quando isso acontecer, só de olhar aqueles Heishis vão dar meia volta. 

    — Pode ser, mas todos tem uma fraqueza — levou a mão sob o tapa olho — Às vezes fico pensando se sua força de vontade tenha o levado para um problema de onde não pode escapar. 

    — Sabe de quem está falando? É o Suzaki — pegou em seu braço — pode muito bem ter viajado para o exterior, só. 

    — Ele me avisaria, mesmo que fosse para a fronteira com os Kuro como faz, nunca seria sem aviso. É por isso que vim. Kyoko. Suzaki pode estar em perigo e eu preciso saber se ele deixou alguma pista. 

    A garota soltou o braço inclinando a face para o chão, com os olhos semi abertos. Quando negou com a cabeça, Ryo suspirou e levou as mãos à cintura. 

    — Achamos comida pelo menos. 

    — Sim — erguia a cabeça com um sorriso de leve — Obrigada, Ryo.

    Os dois retomaram o caminho de volta para casa. Ryo, entretanto, voltava a martelar sua coxa com os dedos:

    — Kyoko me diga, por que vê Suzaki como um herói? Além do motivo dele ter te salvado é claro.

    — Sei que não devia passar de uma espécie de gratidão, mas… — elevou seus olhos para o céu — Suzaki é diferente. 

    — Diferente como? 

    — Desde que perdi meus pais na “guerra do sangue”, sempre me perguntei o motivo de eu merecer isso. A resposta eu soube quando meu irmão se foi nas disputas posteriores — apertou as mãos entristecendo a face. 

    — Sente falta deles?

    — Eu era muito nova quando meus pais se foram, mas lembro bem do meu irmão. Mesmo sozinho, ele nunca deixou faltar nada em casa. Meu irmão, era forte para suportar e eu era fraca, e talvez… por isso eu mereci passar por essas perdas. 

    — Não diria que é assim que funciona — se aproximou. 

    — A questão é que: se somos pessoas tão descartáveis a ponto de sermos armas de guerra, por que Suzaki se importa conosco? Por que eu mereceria algo assim também?

    — Entendo, estou começando a entender essa “diferença” — dizia Ryo, já vendo a casa de Kyoko na distância — Acha que consegue assumir daqui? — ofereceu a cesta — Preciso voltar para casa.

    Aceitando o pedido, Kyoko tomou a segunda cesta nas mãos e voltou para as suas irmãs. Por outro lado, Ryo tomou o cavalo que havia deixado próximo. Durante seu caminho, se pôs novamente a pensar: 

    “Aquele líquido seco no ataque falso, só pode ter sido uma armadilha. Por que não pensou nisso, Suzaki?” 

    No dia seguinte à sua visita desavisada a Kyoko, Ryo já estava de volta ao acampamento de sua família. Estava deitado em seu quarto, encarando o teto com seu único olho:

    “Sem as buscas, jamais vamos saber o que aconteceu. Nenhuma pista… Talvez meu pai esteja certo e ele nos abandonou, mas… Que chances temos sem ele?”

    Sua concentração, contudo, foi interrompida por um rugido distante. Inúmeras rodas de metal rasgando a terra, cavalos a toda velocidade e armaduras tilintando ao ponto de ensurdecer sua sensível audição.

    Quando Ryo saltou da cama e saiu de casa, uma trombeta ressoou pelo acampamento. Heishis subiam na murada principal por torres móveis, chacinando todos os vigias dali. Depois que todos os Tsuki se reuniram armados na entrada, o grosso portão de madeira da sua fortaleza foi sacudido por um aríete do lado de fora.

    O impacto silenciou o grupo, que então escutou um homem bem ao centro do muro, que bradava um texto que lia em voz alta:

    — O tempo de insubordinação à vossa majestade, o Imperador, acabará hoje. Com a morte de seu principal malfeitor, Suzaki Sora, o Marquês Aotaka pede a rendição incondicional dos Tsuki aqui presentes, ou esse cerco permanecerá até que não reste mais nada. 

    De trás de Ryo, seu pai empurrava a pequena multidão, apontando dedos.

    — Pensa que na morte de um garoto nossas divergências vão sumir? Koji pode ser Imperador do mundo, mas nunca da nossa família!

    O arauto olhou brevemente para o incômodo e voltou a ler seus termos:

    — Se porventura quiserem discutir um acordo, estaremos disponíveis até o dia seguinte. Só temos uma condição para conversarmos: de que a fornalha onde guardam Tetsuhi cesse de funcionar. Enquanto houver fumaça sendo expelida de suas chaminés, a invasão vai continuar até a rendição.

    O garoto caolho passava pelos homens próximos a Yomi, o agarrando pelos ombros.

    — Pai — sussurrava — precisamos de tempo, estamos completamente cercados… se isso continuar vamos ser massacrados aqui e agora!

    — Avisem Tetsuhi para parar — esbravejou para seus subordinados — e diga que estamos chegando lá para uma reunião. A batalha começou.

    Vendo Yomi partir com seus homens, Ryo veio logo atrás, com um pensamento na cabeça:

    “Koji não te mataria, isso só pode ser uma mentira para nos rendermos. Então… onde você está, Suzaki?”, encarava o céu daquela madrugada.  

    Na fronteira com os Kuro, as nuvens cercavam uma lua crescente admirada por uma jovem garota na entrada de uma caverna. Sua paz, contudo, era encerrada com o relincho do cavalo que chegava na sua morada. 

    Desgovernado, o animal balançava seu condutor semi-consciente quando se chocou com um tronco. O rapaz caiu e o cavalo continuou com sua fúria. 

    A menina correu para acalmar o animal, prendendo suas rédeas para logo dar atenção ao rapaz inerte na grama.

    — Suzaki?! — reconhecia o corpo.

    No momento em que o colocou de pé, ele a empurrou para o lado e saiu mancando às pressas, rumo à luz laranja na caverna. Foi então que Aiuchu reparou num objeto, reluzindo na grama, mas escolheu partir para a caverna.

    A luz da sua fogueira a permitia vê-lo nitidamente recostado nas paredes de pedra, com o rosto oculto pelos cabelos ensebados. Dos dedos aos cotovelos ensanguentados, roupas sujas de lama, além do corpo encolhido por trás dos joelhos envolvidos em seus braços.

    — Deixa eu ver o que aconteceu.

    Agachando para junto dele, assim que estendeu a mão, seu braço foi recebido com um tapa. 

    — Sai! — berrou Suzaki, se arrastando para longe dela.

    — Sem chance, olha só para você — continuou cercando-o.

    Ainda sem responder, ele recostou em outra parede. Aiuchu pegou pelo ombro do príncipe, mas precisou se inclinar para trás, pois o punho de Suzaki acabava de passar rente a sua face. Com um grunhido de frustração, ele recolheu os braços e voltou a dar suas costas.

    — Tudo bem. Pode ficar se quiser, eu… — suspirava Aiuchu, dando passos para trás — Passo a noite lá fora.

    Aiuchu se retirou para frente da sua caverna e ali ficou admirando a lua, ainda que ao som dos gemidos e soluços que vinham de dentro.

    “O que aconteceu com você?”, pensou, deitando na entrada.

    O amanhecer trazia consigo os cânticos dos pássaros, que acariciavam os ouvidos de Aiuchu, já de pé fazendo seu caminho de volta do bosque para a casa com os braços cheios de frutas. Perto da caverna, ela percebeu um anel prateado, com uma pedra escura incrustada nele. Estava abandonado próximo de onde Suzaki havia caído. 

    Após vestir o anel em um dos dedos, para não ocupar as mãos, ela retornou para a caverna.

    — Suzaki — ela chamou por ele da entrada — Eu vou entrar.

    Ele permanecia de costas para ela, mas seu olhar tímido a vigiava por cima dos ombros, principalmente o que tinha nas mãos. 

    — Está com fome? — perguntou ela, estendendo uma maçã para ele.

    O príncipe não correspondeu. Ela chegou perto e agachou na sua frente, e deixou as frutas no chão. O sujeito olhou para a fruta por mais alguns segundos, depois agarrou uma depois da outra, começando a devorá-las. 

    — Você dormiu bem? — perguntou, sendo respondida somente com um aceno de cabeça — Que bom porque ontem quando você chegou, isso aqui caiu do seu bolso — tirou o anel dos dedos e o exibiu — Deve ser seu, ele é lindo.

    O anel reluzia com a luz que entrava na caverna, refletindo no rosto de Suzaki, cujos olhos cresceram para então se encherem d’água. De repente, ele inclinou-se para frente, jogando a cabeça no peito de Aiuchu.

    — Eu falhei — sussurrava, chorando — falhei, falhei, falhei. 

    — Calma — dizia, tocando seus cabelos com cuidado — Já passou.

    As mãos de Suzaki apertavam Aiuchu, que aproveitava a situação para olhá-lo mais de perto. Suas feridas abertas se misturavam com a lama endurecida em sua pele. Acariciando seus cabelos, ela pegava em sua mão de forma sutil. 

    — Você está ferido. Eu preciso que venha comigo — sussurrava — Mas precisa confiar em mim, tudo bem?

    O príncipe balançou a cabeça de cima para baixo, a permitindo entrelaçar suas mãos nas dele. Aiuchu deixou que ele se apoiasse nela, para que levantassem juntos do chão. 

    As pernas de Suzaki tremiam, quando saíram da caverna. Foi então que Aiuchu jogou os braços do jovem por trás de seus próprios ombros. Com as mãos livres, ela pegou uma caneca que repousava no canto da entrada, antes de conduzir o príncipe pela trilha do bosque.

    Os campos por onde passaram terminaram em um pequeno lago. Às margens dele, Aiuchu sentiu as mãos de Suzaki apertar sua roupa sempre que dava um passo em direção a água. 

    — Não precisa ter medo — parou, descendo até suas botas — você já veio até aqui. 

    Descalçando o príncipe, ela se deparou com os pés repletos de bolhas estouradas, encharcados de sangue. Tomando o jovem nos ombros novamente, ela lutou contra seus grunhidos e apertos e o levou até a margem.

    — Um passo de cada vez — o toque da água nos seus pés cessou sua luta — Pode me avisar quando quiser parar, agora.

    Com o rapaz nos ombros e a caneca de metal numa das mãos, Aiuchu entrou dentro do lago com ele, deixando uma trilha de sangue por onde andava. Eles estavam próximos do centro do lago, quando Suzaki apertou as roupas dela novamente. A água ainda estava na altura da barriga de ambos quando pararam.

    — Seu rosto — acariciava os cabelos de Suzaki para o lado — Você pode fazer isso — juntou suas mãos com as dele descendo até a água.

    Mergulhando suas mãos na água, Suzaki vislumbrou seu reflexo na superfície, turvado pelo sangue que escorria de seus dedos. A visão estremeceu seus lábios e o obrigava a apertar os olhos.

    Ele lutava com a imagem, balançando as mãos dentro da água, até Aiuchu segurá-las e lentamente erguê-las até seu rosto.

    Depois, com a caneca que trazia consigo, Aiuchu derramou água nos cabelos de Suzaki, que passou a lavar sua face com as próprias mãos. Tirando os cabelos da frente, ela encontrou o rosto do jovem limpo e abriu um sorriso.

    — Posso? — pediu, levando as mãos até a camisa de Suzaki.

    Ao invés de permiti-la, Suzaki negou com a cabeça e levantou sua camisa com as próprias mãos. Na medida em que a tirava, Suzaki sentia o tecido grudar em seu corpo, esfregando nas suas feridas. Com um último grunhido de dor, ele largou sua roupa para boiar sobre as águas.

    — Precisamos ir mais fundo — insistiu Aiuchu, relutando de tocá-lo — vamos, falta pouco. 

    Contudo, Suzaki ergueu os ombros e abraçou a si mesmo, relutando a avançar. A única alternativa para Aiuchu, foi lavar o seu corpo com a água que enchia pela caneca.

    — Vire de costas.

    Pouco a pouco, os ombros de Suzaki baixaram e seus braços descolaram do tronco. A lama que escorria pela água, nublava seu reflexo na superfície, ao tempo que seu tom de pele começava a aparecer novamente. 

    Com os dois frente a frente novamente, Aiuchu pegava a face cabisbaixa de Suzaki pelo queixo, e o fez olhar em seus olhos, dizendo:

    — Agora sim parece o Suzaki que conheço.

    De repente, lágrimas desesperadas escorreram gotejando sobre o lago. Suzaki voltava a se encolher, levando as mãos ao rosto, quando Aiuchu segurou seus braços.

    — Estou aqui com você. Não precisa se esconder — o abraçou sorrindo. 

    A garganta de Suzaki se fechava, ao tempo que se soltavam grunhidos que se tornavam cada vez mais altos, se tornando gritos de dor. O choro incessante passou a descer de seu rosto como um rio, encharcando o ombro da garota.  

    A cada berro, ele a segurava mais forte, já não se importando na dor que sentia ao ser tocado. Era alto suficiente para alertar animais próximos tanto quanto as nuvens escuras que se formavam no céu, anunciando a tempestade daquele dia. 

    Quando o silêncio voltou, ele a deixou que o levasse mais fundo, perto do rio que chegava por ali. Lá, Aiuchu deslizou suas mãos até seus braços, depois seus ombros e finalmente sua cabeça, onde o empurrou com delicadeza para baixo. As águas envolveram o corpo do príncipe, submergindo-o completamente.

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