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    Com a situação dos seus pedidos anteriores resolvida, Alexander decidiu focar nos atuais: — Pode ser um pouco problemático, mas vou ter que incomodar vocês dois com mais alguns pedidos.

    — E quais seriam? — perguntou John quase desconfiado. Os pedidos daquele jovem não eram nada simples.

    — O primeiro é que você me apresente alguns ferreiros que tenham níveis parecidos com os de vocês — disse o dragonoid, seu tom incomum. — Preciso encomendar alguns itens bem específicos, frágeis, sensíveis e delicados.

    — O quê? Você acha que não podemos fazer itens assim? — resmungou Jayce em desafio.

    — Não é isso. É que esse pedido é muito “sensível” e importante para mim… Se por algum acaso ele vazar, posso acabar perdendo o controle e vindo caçar a pessoa que o vazou — explicou Alexander com uma seriedade extra na voz. Era difícil controlar o temperamento que o sangue de Drayygon estava lhe causando. — Não estou dizendo que vocês vazariam meus pedidos intencionalmente. Só não quero envolvê-los em um contrato de homem morto.

    — Às vezes fico instável — confessou. — Se Diana não estiver por perto, posso acabar perdendo o controle.

    — … — Jayce.

    — … — John.

    A reação dos irmãos ferreiros não foi sem razão. Contratos de homem morto eram uma forma de vincular os artesãos em geral ao sigilo do produto.

    Se qualquer forma de vazamento fosse comprovada, a outra parte teria o direito legal de caçar o artesão traidor.

    — Infelizmente, não posso apresentá-lo a ninguém sabendo dessas possíveis consequências. Afinal, ainda sou um membro sênior da associação dos ferreiros e tenho que cuidar dos nossos associados — explicou John calmamente.

    — Entendo- — começou a dizer o dragonoid.

    — Mas nada nos impede de produzi-los — rapidamente cortou John com naturalidade. — Pode ter sido simples entregar aquelas cartas, mas para nós elas foram inestimáveis… Algo pelo qual vale a pena arriscar nossas vidas.

    — Para que esse clima tão tenso? Não é como se não pudéssemos esquecer o pedido após finalizá-lo — brincou Jayce sorrindo. — Só precisamos beber bastante, rsrsrs.

    — Vocês têm certeza disso? — quis confirmar Alexander.

    — Mais é claro — prontamente concordou Jayce. — Do que você precisa?

    — De muitas coisas — ironizou o dragonoid com um sorriso torto, sem se preocupar em redigir qualquer coisa. Ele confiava naqueles irmãos ferreiros. — Mas as principais são dois pedidos.

    — O primeiro pedido são algumas armas, e o segundo é um conjunto de itens muito delicados — explicou. — Mas todas as especificações para ambos devem ser seguidas à risca. A precisão e o balanceamento serão a chave deles.

    O conjunto de itens que Alexander queria encomendar eram itens de aferição: uma balança e seus pesos; densímetro; bússola; termômetro e alguns outros.

    Seguindo suas especificações, os itens seriam desenhados com base em uma régua, item que ele criou usando como base a polegada. Os outros itens baseavam-se nas estimativas de suas memórias e na magnetita que encontrou.

    Para fins mais práticos, ele até foi polindo sua polegada o máximo que pôde para 2,5 cm. Assim, todos os demais partiram de um meio de aferição mais confiável.

    O mais interessante foi que o dragonoid não apenas tirou especificações aleatórias da cabeça. Primeiro, ele criou um retângulo de água do tamanho da sua polegada na forma humana — aproximadamente 2,54 cm —, ajustou a medida para 2,5 cm, para só então duplicar o retângulo, marcando-o em 5 partes iguais.

    Com um parâmetro estabelecido, em seguida ele criou réguas com 1 metro. Suas marcações estavam em centímetros.

    Não satisfeito só com essas medidas, Alexander também fracionou os centímetros. Dividiu-os em mais 10 partes iguais, ajustando a régua também para milímetros.

    A partir daí, foi fácil utilizar o sistema métrico para estabelecer seu próprio sistema de volume e peso naquele mundo.

    Era um sistema básico de conversão: 1 cm³ de água é igual a 1 mL de água, que por sua vez é igual a 1 grama. Ou seja, uma caixa cujo interior mede 10 cm x 10 cm x 10 cm comporta 1 L de água, e esse litro de água pesa 1 kg.

    Quando viram aquelas informações e especificações, os ferreiros ficaram espantados com as possibilidades.

    Claro, eles poderiam fazer um trabalho muito bom mesmo sem elas, mas era impossível ensinar isso sem anos de prática. Isso seria bem diferente com um sistema de medição exato e quantitativo como aquele.

    — Não me importo se vocês quiserem usar esses sistemas como referências ou ensiná-los a potenciais alunos — disse Alexander ao ver a reação dos irmãos ferreiros. — Só não digam que eu os criei, nem permitam que alguém tenha acesso às especificações dos meus itens.

    — Obrigado — disse John agradecido. — Eles podem vir a ser bem úteis algum dia.

    — Ficarei feliz se puderem ajudar vocês — disse o dragonoid sorrindo. Ele gostava daqueles anões ferreiros.

    Uma vez acertadas as solicitações relacionadas aos sistemas métricos, eles passaram para os materiais que seriam utilizados nas encomendas, bem como as armas.

    O grupo passou quase 1 hora na casa de John, apenas com Alexander debatendo com os irmãos ferreiros, mas finalmente acertaram tudo.

    Os ferreiros ficaram tão animados que basicamente expulsaram o grupo para que pudessem começar.

    Como o grupo não tinha outro objetivo claro para o resto do dia, o dragonoid ficou tentado a passar o resto do dia limpando as masmorras avançadas. Mas, como estava sem sua armadura e lança, poderia acabar atraindo muita atenção e suspeita por conseguir lutar totalmente desequipado, especialmente das suas “convidadas”.

    — Não iremos para nenhuma masmorra hoje. Meu equipamento está em manutenção para ajustes — informou para as mulheres do seu grupo. — Então vocês devem tirar o dia para conhecer a cidade e se familiarizar com ela.

    — Não precisam se preocupar muito — complementou ele, sério. — Esta cidade é bem segura devido ao grande número de aventureiros. Há até inúmeros guardas que estão aqui para manter eles e todo o resto sob controle.

    — Essa é uma boa ideia — concordou a elfa, olhando em volta. — Esta cidade parece ser bem animada… Talvez possamos até encontrar algo interessante aqui.

    — Vocês ainda têm dinheiro, Ariel? — perguntou Alexander ao pensar no assunto. — Se não tiverem, posso lhes dar um adiantamento pelos seus serviços.

    — Nós ainda temos um pouco, mas eu agradeceria se você pudesse nos dar um adiantamento — disse a elfa como se estivesse fazendo as contas do seu orçamento de cabeça. — Queria comprar alguns itens para Helena.

    — Há 4 masmorras avançadas perto desta cidade — informou o dragonoid. — Como pagarei a vocês 1 grande moeda de platina por cada masmorra, lhes darei um adiantamento da metade do valor: 200 grandes moedas de ouro.

    — Mas não gaste comprando um arco — acrescentou. — As armas que eu estava discutindo eram arcos. Quando o meu estiver pronto, mandarei fazer um parecido para ela… Começar a treinar com outro arco só iria atrapalhá-la.

    — Obrigada — disse Helena, um pouco feliz e um pouco envergonhada.

    — (O que acha, Diana?) — perguntou Alexander mentalmente. — (Devemos ajudá-las mais, ou já é o suficiente?)

    — (Eu queria ajudar mais Ariel) — respondeu a demi pensativa. — (Mas não sei se ela vai se sentir bem com isso).

    — Aqui — disse o dragonoid ao entregar um grande rolo de fio tesouro de seda à elfa. — Contrate alguém para transformá-lo em uma capa de combate. Isso deve ajudar você, que é focada em velocidade, a se proteger de ataques cortantes e perfurantes.

    — Mas tenha cuidado — acrescentou em advertência. — Sem acolchoamento adequado, você ainda sentirá o impacto.

    — … — Ariel. — Obrigada…

    — (Segure-se, Diana) — disse Alexander. — (Vamos embora antes que ela perceba o que é e queira recusar.)

    — (Tudo bem) — concordou Diana, sorrindo.

    — Vejo vocês amanhã de manhã na Guilda — disse o dragonoid, compartilhando o sorriso da companheira. — Se não encontrarem um bom lugar para passar a noite, podem alugar um quarto lá. A Guilda dos Aventureiros possui um serviço de hospedagem para os membros.

    — Agora, se nos derem licença, estamos indo — disse ele ao abraçar Diana pela cintura e levantar voo.

    — Espera, isso aqui é… — tentou argumentar Ariel ao notar o que eram os fios.

    Antes que a elfa tivesse a chance de continuar, Alexander usou o velho truque de ir embora antes que a pessoa tivesse a chance de detê-lo.

    Como não tinham nada planejado, ele decidiu seguir seu próprio conselho: reservar um quarto na Guilda. Porém, o casal primeiro fez alguns pequenos ajustes.

    — Aqui, Diana — disse o dragonoid ao pegar 2 itens e entregar um deles a ela.

    — As máscaras que você comprou antes? — surpreendeu-se Diana, confusa. — Por quê?

    — Você vai ver — sorriu ele. — E quando entender o porquê, vai me agradecer por ter dito para você colocá-la.

    — … — Diana.

    Mesmo com um misto de dúvida, confusão, excitação e medo, Diana também colocou a máscara. Ironicamente, a dela era de dragão enquanto a dele era de cão negro.

    Fortuitamente não havia fila na recepção quando o casal chegou à Guilda. Muito provavelmente a maioria dos aventureiros diurnos havia saído com o nascer do sol para ter mais tempo.

    Chegando à recepção, foram atendidos por uma bela mulher madura de sorriso bem envolvente. Alexander sentiu que sob aquela fachada havia olhos que brilhavam com o carisma especial da experiência em vários combates.

    — Bom dia, gostaria de reservar um quarto de casal com isolamento acústico no primeiro andar — disse o dragonoid com os olhos bem atentos. — Aqui está a minha identificação.

    Os olhos da recepcionista pareceram “ganhar vida” ao ouvir seu pedido. Ela o analisou inteiro com um sorriso torto.

    Parecia ter entendido algo errado ou o confundido com outra pessoa. Era nítido que havia algum engano ali.

    — Me desculpe, senhor, mas mesmo que você seja um aventureiro rank ouro, não posso abrir qualquer exceção em relação aos quartos de casais — explicou a recepcionista pacientemente. — Só temos um disponível no momento e eles são reservados para casais onde ambos são aventureiros acima do rank bronze.

    — Você não vai conseguir consentimento só porque voltou em outro horário usando máscara para ser atendido por outra recepcionista — zombou a mulher com confiança.

    — Mas ela também está acima do rank bronze — sorriu Alexander, achando graça da situação, ao apontar para o pescoço de Diana. — Vá em frente. Pode verificar a identificação dela, rsrsrs.

    Ao confirmar a informação através da placa de identificação no colar de Diana, a mulher percebeu o seu erro.

    A recepcionista ficou meio atordoada com a confusão. Não sabia bem como lidar com aquela situação embaraçosa.

    — Não se preocupe, você deve ter seus motivos. Hoje mais cedo acabei ouvindo falar de um idiota que recentemente chegou ao rank ouro e está causando problemas — disse o dragonoid. — Só tome mais cuidado antes de julgar assim.

    — Obrigada por entender a situação — agradeceu a mulher em um sorriso forçado. — A verdade é que fui colocada aqui para dar uma lição nele por passar dos limites… Mas isso não tem nada a ver com vocês, então me desculpem.

    Superficialmente, a mulher parecia gentil, mas Alexander e Diana podiam sentir os olhos dela brilhando com uma raiva assustadora pelo constrangimento que sentia.

    Aparentemente, o idiota que estava causando problemas naquele ramo da Guilda não iria ter um destino muito feliz quando caísse nas mãos dela.

    — Aqui estão suas chaves… Vou pedir para alguém levá-los até o quarto — disse a mulher ao entregar as chaves. — Só tentem não exagerar. As nossas acomodações podem falhar sob a voz e o “poder” de 2 rank ouro.

    — … — Diana.

    — Eu disse que você ia me agradecer pela máscara — sussurrou Alexander para Diana.

    Mesmo com eles usando máscaras, ele podia dizer que o rosto dela estava ficando vermelho de vergonha. A “recepcionista” a acertou exatamente no ponto fraco dela ao falar da questão sonora.

    Após fazerem a reserva e conhecerem o quarto — o qual era muito espaçoso — o dragonoid perguntou a Diana de forma convidativa: — Quer ir para algum lugar ou comprar alguma coisa? Se não, gostaria de levá-la a um lugar.

    — No momento não quero comprar nada — respondeu Diana, feliz. — Para onde vamos?

    — Surpresa — sorriu Alexander, maliciosamente. — Mas mantenha a máscara.

    Como Diana ficou bem animada, eles saíram do dormitório. O dragonoid então voou com ela em seus braços em direção ao destino.

    Durante o trajeto, ele não se esqueceu da privacidade dela. Usou uma fusão de luz e água para erguer uma cúpula que iria distorcer e desfocar a imagem deles.

    A cúpula tinha 3 camadas sobrepostas: a primeira era uma névoa gélida, a segunda com gotículas de água suspensas e a mais externa feita de luz “condensada”.

    Aquela estrutura em si não era exatamente um feitiço ou técnica, mas ainda assim era bem difícil mantê-la enquanto se moviam. Mantê-la até poderia ser considerado um bom treinamento.

    O ponto mais interessante do trajeto era que nenhum deles havia estado pessoalmente no destino. No entanto, mesmo que nunca tivessem estado lá, foi bem fácil para ele localizar o lugar.

    Diana ficou bem surpresa e confusa quando desceram: — Já chegamos?

    — Sim. Só me dê um tempo — confirmou Alexander, analisando seu entorno. — Tudo bem, iremos por ali.

    Após escolher o estabelecimento que lhe pareceu melhor, o dragonoid a levou até lá e bateu na porta.

    Sob um sutil rangido quase convidativo, a porta se abriu e um homem bem constituído saiu de dentro. A expressão que fez ao se deparar com a bizarra imagem da cúpula à sua frente era complexa demais para ser descrita.

    — Não se preocupe. Não pretendemos lhes causar qualquer problema — assegurou Alexander ao homem. — Só estou treinando… Então você poderia, por favor, chamar o responsável pelo local?

    — Não precisa. Já estou aqui — disse uma voz feminina vindo de dentro. — Mas você já sabia.

    Após a autoapresentação, uma Demi felina também surgiu de dentro do estabelecimento.

    A impressão que a mulher passava era de ser musculosa, como uma amazona, mas todas as suas curvas eram bem formadas e suaves, sem músculos evidentes. Todo o corpo dela parecia ser visualmente macio ao toque.

    Como se aquilo não bastasse, a energia dela também era estranhamente “suave e macia”; escorregadia até.

    Mesmo sabendo que ela estava lá desde o começo, Alexander ainda foi incapaz de estimar a força dela com precisão.

    Contudo, uma coisa era certa: os instintos dele gritavam que essa mulher era potencialmente perigosa.

    — Me pegou — admitiu o dragonoid em ironia. — Erro meu.

    — Sem problema — sorriu a mulher, não parecendo se importar. — A questão mais importante é: por que você veio ao meu estabelecimento durante o dia, ainda mais assim?

    — … — Diana.

    — Na verdade, esperava contar com sua compreensão para pedir algo um pouco fora do comum — explicou Alexander calmamente. — Gostaria de alugar o seu melhor espaço por hoje… Se você não se importa, é claro.

    — Não creio que isso seja um problema — respondeu a mulher, alargando ainda mais o sorriso. — Mas devo avisá-lo que o custo disso não será baixo.

    — Sem problemas — garantiu o dragonoid com uma risada. — Estou disposto a lhe pagar bem.

    — Então tudo bem — concordou a Demi responsável pelo estabelecimento.

    Foi apenas quando entraram que Diana teve certeza no que estava se metendo.

    Como era manhã, ainda não havia muito movimento do lado de fora. Mas para Alexander, que já havia sobrevoado a cidade à noite, era impossível não saber onde ficava aquela área considerando o “rosa” que ela emana à noite.

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