Índice de Capítulo

    — Sempre dedicados a trabalhos menores na corte, assistimos os Chisei expandirem nossos domínios e os Tsuki os governarem das sombras. Revezando-se um com o outro, eles transformaram nossa terra em um Império compartilhado. Nós éramos os párias, vivendo de suas raríssimas caridades, mesmo com o título da nobreza.

    A história contada passou diante dos olhos de um Koji mais novo, que observava quase uma dezena de crianças correndo pelo jardim aos fundos do palácio imperial. Elas brincavam diante do garoto isolado num balanço debaixo de uma árvore. 

    Seus olhos baixos saltaram ao ver uma menina entre o grupo. Cabelos escuros, combinando com os olhos, destacados por sua pele clara e vestido branco. Com o passar do tempo, a diversão entre as crianças da corte se aquietava, isolando a garota. Abrindo a oportunidade aguardada por um franzino, que foi ao seu encontro com flores em mãos. 

    — Y-Yua — sua fraca voz fazia todos observarem — Para você.

    A princesa com o rosto avermelhado ameaçava pegar o presente, quando de trás do rapaz, viu seus amigos mais altos e fortes o pegaram pelos braços o arremessando ao chão. 

    — Não pode falar mais alto, Koji? — um deles colocou a mão no ouvido — Eu não tô te ouvindo — o chutou no chão, ao tempo que os outros gargalhavam.

    — Que patético, pra que perder o tempo com um Sora.

    — Nada disso, Yomi — agarrava o agredido pela camisa.

    — Não precisa machucar ele, Haruki — pediu Yua.

    — Sabe por que gente como você me irrita? — cuspiu no garoto caído — Porque não tem coisa pior do que lixo que pensa valer alguma coisa.

    Limpando a saliva do seu rosto, Koji tentava se levantar, somente para ser chutado de volta ao chão, dessa vez sendo puxado pelos pés. O grupo de garotos arrastaram o menino por alguns metros, até uma espécie de bueiro. 

    — Se você não sabe o seu lugar — levantou ele do chão, lhe tomando as flores — Pode deixar que eu te mostro! — jogaram esgoto abaixo. 

    Caindo sobre os resíduos do castelo, Koji gritava por socorro até cair em lágrimas. Tudo que recebeu de volta foram suas flores arremessadas de onde veio. 

    “Aquela humilhação nunca saiu da minha cabeça. Tolerei horas aquela imundice até que deram falta. Mas foi perdido no odor sufocante, ouvindo as risadas do alto que percebi: Poderosos existem, pois esse mundo permite a existência daqueles alvos de risadas. No fim eu só precisava ser além de um alvo.”

    Nos corredores antigos do palácio, nobres e Heishis carregavam seus familiares desfalecidos nos braços de um lado para o outro. Alguns até mesmo ficaram inconscientes no meio do caminho. Koji, agora mais velho, apertava seu peito com uma respiração fraca, lutando para sair da cama.

    “Criamos os Midori em parceria com os Kiiro na esperança de que esse novo poder pudesse nos colocar à frente dos Aka. Entretanto, esse poder não foi criado e sim tomado de nossas energias para formar a nova cor. O fenômeno natural e até então desconhecido, ficou conhecido como Pulsação, matando inúmeros das duas cores envolvidas. Poucos dias depois, descobri algo ainda maior.”

    Apoiado pelas saliências externas do palácio, Koji escutava um debate das janelas da sala do trono:

    — Que grande plano o seu, majestade. Agora veja o que essa aposta nos rendeu!

    — Acalme-se, Haruki — Yomi tomou a palavra do imperador — Ninguém poderia prever uma coisa dessas.

    — A situação está igual em todo o Império. Com certeza, será o mesmo nos Kiiro. Os vermelhos descobriram em pouco tempo e começaremos uma guerra enfraquecidos!

    — Foi uma aposta — resmungou o imperador, recostando-se no trono — temos tempo para fazer outra, a maioria dos mortos são idosos ou plebeus apenas.

    — Desgraçado! — Haruki apontou uma espada — escolheu criar mestiços com uma  nação estrangeira invés de confiar no nosso poderio militar, não tem direito de agir com desdém!

    — Saia daqui! — bradou Yomi, levantando sua arma em resposta — como ousa desafiar o imperador?!

    — Não se esqueçam que esse trono é seu por pouco tempo — guardou a arma se retirando — e não será de um Tsuki novamente. 

    Do alto Koji se esgueirava, arregalando os olhos com as últimas palavras ditas por Haruki que soaram como uma música para seus ouvidos.

    “No Império, cada família pode nomear um candidato. Os Tsuki tinham poucas chances. Já os Chisei tinham Haruki, com Yua prometida a ele. 

    Com os meus anos trabalhando como escrivão no palácio, não demorou muito para descobrir e explorar a infidelidade dos Heishis. Cobrando pelo meu silêncio e outros favores, designei Haruki a uma viagem solitária às pressas. Na calada da noite, eu mesmo espremi a vida fora daquele corpo indefeso, esmagando seu pescoço com minhas próprias mãos.

    Tadashi haveria de disputar a guerra, logo tanto os Chisei quanto Tsuki estavam sem um nome qualificado. Quando me candidatei, a maior parte dos Heishis já me apoiava, seja por dívida ou gratidão. Meu golpe final foi oferecer a paz entre as famílias, num casamento entre as casas da nobreza. 

    Para vencer seus inimigos, precisa se tornar a solução dos problemas deles. Aproveitei da falta de herdeiros dos Chisei, da inviabilidade dos Tsuki e do luto de Yua por Haruki, para me tornar seu marido e o primeiro imperador Sora. 

    Somente depois entendi que minha vitória havia se tornado uma benção escondida para os Tsuki. Herdei uma guerra que não era minha e já estava perdida antes de começar. Logo depois os Midori afastaram nossas tropas de seu território. Tornei-me o bode expiatório pelos erros de meus antecessores. Havia somente um meio de garantir minha sucessão: o Heishi Celestial. 

    Através dessa tradição esquecida, eu entregaria um guerreiro capaz de tudo, conhecedor de tudo. Um vingador da corte, para chamar de meu.”

    As nuvens abaixo reluziam com a tempestade vindoura. Pai e filho lado a lado conversavam em um raríssimo momento. Suzaki, que até aquele momento ouvira o relato de Koji, recuou do parapeito para questioná-lo:

    — Seu plano foi perfeito, exceto por um detalhe: Asami.

    — Era linda, sabia? Cabelos e olhos azuis, como os seus.

    — Como pode falar assim? 

    — Beleza exterior nem sempre quer dizer a mesma coisa para a pessoa por dentro. Asami, era como muitas mulheres do seu ofício. Como se tratava de uma diversão… infame, mantive discrição.

    — Até ela engravidar.

    — Não, até Satoru falhar no rito. Asami era uma aproveitadora das melhores e conseguiu o que queria de mim, mas eu não estava ali para negociar com a ralé. Enviei os Heishis atrás dela para assustá-la. Quando tentou matar a criança para evitar seu castigo, eu tinha outros planos.

    — Dohana entregou uma poção enfraquecida. Ainda assim, Asami poderia ter me matado. 

    — Você subestima a responsabilidade que uma mãe sente pela sua cria. Na barriga é uma coisa, vivo na sua frente, chorando por ajuda, é outra. Prometemos livrá-la da punição caso nos entregasse a localização da criança.

    — Outra das suas mentiras. Ela foi parar nas Trevas, Dohana me contou antes de me jogar lá.

    — Ainda você com essa história? Asami não morreu por ordem minha. Foi uma vingança pessoal da baronesa.

    — Que você aceitou sem pensar duas vezes — bateu na mureta — mas uma peça não se encaixa… Você me disse que a imperatriz morreu no meu parto.

    — Ah, ela — levou a mão ao queixo, erguendo a cabeça para o céu — Quando soube de você, ela recusou o papel de mãe que a ofereci. Então, precisei tomar as medidas cabíveis.

    — Espera — se afastou por um momento — você… o que fez com Yua?!

    — Foi díficil mas… é nesses momentos que precisamos ser fortes — reparou em suas próprias mãos.

    — Você a matou! Traiu ela e ainda passou a vida toda exibindo ela como uma forma de me motivar, até com o quadro! — gritava acusando seu pai.

    — Eu amava Yua, mas o amor é frágil e frustrante… se priorizar ele, você será o alvo — passou a caminhar na direção do príncipe — eu precisava estar acima dessas relações, para que nada ficasse em nosso caminho. Claro, isso nunca foi uma disputa entre eu e você, e sim nós dois contra a corte e o mundo. Eu te criei para que quando chegasse a hora lutasse ao meu lado, quando ninguém mais faria.

    — Para que eu matasse por você — se afastava a cada passo do imperador.

    — E não é isso que fazem as outras nações? — Ergueu os braços — Para quem prega tanto sobre união, já se perguntou por que os vermelhos nunca tiveram um incidente com mestiços? Eles viram o que a pulsação fez conosco. Acha que eles rejeitam os outros povos por um preconceito infantil? É tudo sobre poder, por isso eles são o que são.

    — Você não é nenhuma vítima — apontou a espada novamente — Fala tanto sobre o egoísmo dos reinos, mas nenhuma atitude que já tomou na sua vida deixou de ser em benefício próprio. Consegue justificar o assassinato até de sua mulher, mãe de seu filho! — cerrava a face.

    — Yua ou Satoru, são apenas minhas conquistas, sacrifícios para algo maior — encostava seu peito na ponta afiada — você sabe bem o que é isso… no fundo somos iguais. Capazes de tudo por aquilo que queremos. 

    — Eu e você não temos nada em comum! — levantou a voz, recuando até bater com as costas em uma mureta. 

    — Vamos ver — dava um passo atrás sacando um sino do bolso.

    Com o toque do objeto, dos arbustos, um homem de boina carregava um prisioneiro cuja cabeça estava coberta e os braços amarrados, o colocando de joelhos diante de Suzaki. 

    — Deseja vingança? — removeu o saco de pano, revelando o rosto de Daisuke amordaçado — Eu concedo a você, com uma proposta. 

    O prisioneiro ergueu a cabeça, cruzando olhares com Suzaki que o reconheceu arregalando os olhos, percebendo a expressão de desespero do homem rendido. Uma brisa soprava nos ouvidos dos presentes. O escrivão destituído se debatia diante do jovem que trazia uma lembrança na cabeça:

    O que estávamos pensando, querendo fazer de um bastardo, um príncipe?” 

    A lembrança fez Suzaki ameaçar dar um passo na direção do seu algoz, mas sua concentração foi cortada por um toque no ombro pelo criado de boina.

    — Alteza, sentimos tanto a sua falta — disse Masao, sacando uma ocarina da outra mão — sei que deve estar confuso, por favor, pela primeira vez gostaria de te pedir uma coisa — estendeu o objeto. — Confie em nós. 

    Suzaki voltou seu olhar para Daisuke, embora tenha tomado a ocarina das mãos de seu criado, que saiu da sua frente.

    — Pensei ter dito para vir sozinho — disse o príncipe — Qual a proposta?

    — Não vamos discutir detalhes fúteis — respondia Koji. — Volte para o palácio, sirva seu posto de Heishi Celestial. Enquanto não for, lhe concederei o território Midori para governar de maneira independente. Quando chegar sua vez, poderá fazer o que bem entender, como Imperador. 

    — Logo você oferecendo seu cargo — arrastava a espada no solo — Nem mesmo tem controle sobre os Midori. Qual o truque dessa vez? 

    — Sem truques. Quer evitar essa disputa? O trono será seu e todos vão temê-lo, assim como me temem — ergueu sua mão — terá o respaldo de aliar-se com os Midori, Kiiro, Kuro, até mesmo os Aka. A decisão será sua — cerrou o punho. 

    — Na corte nenhuma decisão seria apenas minha, por causa de pessoas como ele — disse o príncipe, erguendo a espada contra Daisuke.

    Ficando rente ao homem rendido, Masao cobria o rosto com a boina, ao tempo que sons de trovoadas podiam ser ouvidos. 

    — Com suas habilidades e a influência que possui, poderá decidir quem vive e quem morre em cada canto desse império — se aproximou dos dois — Melhor ainda, antes que pise no Palácio novamente, eu lhe darei sua vingança. Aotaka já foi destituído. Daisuke agora, depois Tadashi e Dohana — continha sua risada — imagine a cara deles quando descobrirem.

    Suzaki desceu seu metal no ombro de Daisuke, arrastando até seu pescoço quente, respirando fundo, ao mesmo tempo que percebia Koji parar ao seu lado pela sua sombra projetada. 

    — Em meu rito de passagem, conheci um garoto chamado Yanaho e um Shiro. Meu plano era aprender técnicas novas, ganhar a confiança deles para encontrar uma brecha para invadir o território dos vermelhos — recuava sua arma — Um dia, esse Shiro me colocou para duelar com esse camponês vermelho mas com uma condição: Os dois vencerem a luta. 

    — Quanta baboseira, de repente — bocejou Koji.

    — Koji, e se mostrássemos aos Aka e os Ao, uma maneira dos dois vencerem? — sua mão tremia no cabo da espada — Haveria um jeito de chegar a um acordo sem derramar sangue?

    Masao, percebia um silêncio de repente, espiando por baixo da boina percebeu o olhar esbugalhado de Daisuke para Suzaki.

    — Se eu tomasse um cavalo e fosse apertar as mãos do Rei Aka ou de seu Supremo, estaria morto antes de olhar para suas faces. Mesmo que minha intenção fosse apenas conversar — cruzou os braços — É tarde demais para acreditar na inocência dos nossos inimigos. A guerra começou! — Seu grito ressoou pelo ambiente. 

    Com a resposta, o príncipe abaixou sua espada, incerto de sua decisão, enquanto Koji terminava:

    — Por isso que estamos recrutando aqueles vadios dos subúrbios que você tanto protegia.

    — Você o quê? — se afastou.

    — Algo de errado? — dizia Koji, fingindo tapar a boca — Está na hora de escolher seus objetivos ou àquelas vidas inúteis. Precisamos nos armar! Seu irmão, Satoru, já tomou a iniciativa de assumir esse dever por nós.

    — Eu já devia esperar isso de você. Desgraçado! — praguejou, guardando a espada na cintura e correndo para a escada.

    — Alteza! Suzaki, por favor — clamou Masao.

    Sem ouvidos para seu antigo criado, Suzaki saltou pelas escadarias, atravessando rapidamente as nuvens. Descendo os últimos degraus, ele montou em seu cavalo e disparou.

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