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    Mais calmos após uma noite juntos — colocando em risco todo o espaço de bolso de Diana com suas atividades conjugais —, o casal aproveitou a manhãzinha antes da aula dela para conversar e se pôr a par dos assuntos.

    Contudo, o interessante da noite foi que ambos estavam tão concentrados um no outro em sua pequena loucura que acabaram não prestando atenção de que a mana de Diana estava acabando.

    No momento em que a mana da canídea estava prestes a se esgotar, a marca em sua mão brilhou. A runa nela se ativou, lançando-a para fora do espaço de bolso e fechando o portal.

    Surpreso, Alexander acabou preso sozinho lá dentro até ela se recuperar o suficiente para conseguir reabrir o portal.

    Feliz com o apurado da noite como um todo, ele não apenas não se importou de ficar preso como sorriu ainda mais quando ela lhe contou dos rumores que estavam se espalhando a seu respeito.

    O jovem até chegou a pensar em aproveitar para fazer algumas coisas. Usar essa tal confusão como camuflagem.

    — Você está rindo do quê? — repreendeu-o sua “noiva magoada”, lhe dando um tapa no peito. — Apenas pelas minhas contas, você já deve ter para mais de 700 filhos, e nenhum deles sequer é meu.

    — Então que não seja por falta de tentativa — respondeu ele, como um ótimo noivo devoto, voltando a avançar e se pôr por cima dela. — Dos ataques da minha próxima investida, o escudo que lhe dei não pode lhe salvar, rsrsrs.

    Brincando e se divertindo alegremente às escondidas, o casal passou quase uma semana em perfeita paz.

    Infelizmente, a tranquilidade terminou quando um comunicado chegou do território deles para Diana, a autoridade máxima na ausência do líder da facção: algum nobre idiota havia aproveitado a ausência dele para enviar um sabotador à produção agrícola das terras da facção, já que elas estavam afetando o comércio de certos nobres.

    Pior ainda, o veneno utilizado era de um tipo especial que parecia macular não apenas as plantações, mas o próprio solo. Por esse motivo, eles entraram em contato com Diana para que ela pudesse purificá-lo adequadamente.

    Mesmo ouvindo que o responsável havia sido rapidamente capturado pelo sistema móvel de detecção uivante dos canídeos recrutados, que atuavam em conjunto com a facção graças a Ocean e a Pequeno Preto, o rosto de Alexander se distorceu.

    Sorrindo sem qualquer felicidade no rosto, Alexander percebeu que era hora de se separarem novamente: Diana partiria para o território deles para lidar com o incidente; ele cuidaria do idiota burro o suficiente para se deixar usar, acreditando que alguém se colocaria no fogo para protegê-lo dele.

    Despedindo-se dela, já que ainda não tinha intenção de se revelar, mesmo ao responder à altura, Alexander lhe deu um último beijo. Em seguida, partiu em direção ao território do nobre em questão.

    Naquele momento, naquelas circunstâncias, não havia necessidade de encontrar mandantes ou investigar qualquer coisa do tipo. Ele simplesmente enviaria uma resposta à altura do próprio nome.

    Ao chegar ao território em questão — convenientemente localizado do outro lado da capital, no caminho para o Reino dos Anões —, tudo o que os soldados conseguiram relatar foi um vulto humano envolto em preto os derrubando.

    Ao fim de tudo, a principal cultura agrícola do nobre havia sido maculada por um veneno elemental da terra, moldado para formar as iniciais da facção DragonSeal, antes de ser consumida por chamas mágicas de uma retaliação voraz.

    Com seu recado emitido em alto e bom som, Alexander não se preocupou em desaparecer ou deixar o Império imediatamente. Ele permaneceu para ouvir os resultados e acompanhar o desenrolar da situação.

    O incêndio não queimou — e nem tinha a intenção de queimar — toda a plantação do fantoche; só a parte central.

    Aquilo foi apenas um lembrete para fazer sua mortal retaliação reverberar mais rápido.

    Como esperado, no momento em que a notícia se espalhou, uma enorme comoção tomou conta do Império.

    Não era necessariamente pelos envolvidos em si, mas porque, se se tornasse comum macular o solo em represálias entre maníacos dispostos a pagar na mesma moeda, todo o território poderia mergulhar em uma alta severa nos preços dos alimentos. E, caso aquilo não fosse devidamente controlado, talvez até enfrentassem fome em algumas regiões.

    Ironicamente, sem muitas opções restantes, a facção imperial precisou agir, e o nobre burro o suficiente para se deixar usar foi duramente repreendido e rebaixado de conde para visconde.

    Embora praticamente todos soubessem que aquilo era obra de Alexander — fosse por comando direto ou pessoalmente —, a facção DragonSeal havia capturado um capanga para apresentar como responsável.

    O outro lado, no entanto, possuía apenas o relato do avistamento de um vulto, algumas letras que precisavam ser vistas do alto e com muita boa vontade, além de uma motivação provável: retaliação pelo próprio ato hediondo cometido anteriormente.

    Fé em títulos e promessas não foi suficiente para livrá-lo quando uma resposta enérgica passou a ser exigida pela opinião pública em todo o Império.

    Ao perceber que tudo já estava se resolvendo, Alexander decidiu não perder mais tempo ali e retornar ao Reino dos Anões para continuar seus estudos, deixando apenas uma nota mental para permanecer atento às notícias de sua região e do Império.

    Felizmente, o responsável por sua rota comercial até o Reino dos Anões finalmente conseguira ingressar e estabelecer uma relação sólida com a cidade onde estava instalado, muito por conta da alta demanda pelos recursos de base e insumos semi-processados fornecidos por ele.

    Retornando à cidade de Draupnir no início do quarto mês, Alexander estava decidido a concluir seus estudos sobre a Síntese até o fim do quinto. Outros planos já estavam marcados para aquele período, e talvez fosse necessário recorrer à sua forma dracônica.

    Não muito surpreso com o desenrolar da situação, Alexander logo ouviu a notícia do fracasso na subjugação do {Verme Gigante Comedor de Rochas}.

    Pior ainda, certos rumores começavam a circular sobre o ocorrido, já que a filha da senhora da cidade havia sido a única a retornar completamente ilesa da incursão.

    Ao entrar desta vez pela porta da frente da cidade — como Órion — e reassumir o mesmo lugar que alugava, não foi difícil para que as pessoas certas descobrissem seu retorno, caso desejassem. Ainda assim, Alexander se surpreendeu ao ver uma meio-anã bater à sua porta, acompanhada de Vulcans e de uma jovem mulher que, pelas características, parecia uma híbrida de anão com… elfo?

    — Deixe-me adivinhar, é ela? — indagou Alexander ao anão, simplesmente.

    — Sim. E ela — confirmou o velho ferreiro de maneira estranha. — Pode-se dizer que é uma velha… amiga.

    — Amiga???… Amiga?!?!?!… — explodiu a senhora meio-anã. — É assim que chama uma mulher com quem já dormiu e que ainda lhe deu uma filha?

    Revirando os olhos para a cena e para o clima pesado que se instalou, o jovem apenas se virou de costas, deixando a porta aberta. — Cortem a encenação e entrem, se desejarem.

    Antes que o silêncio se prolongasse, ele voltou a falar, agora em um tom mais sério: — Desconheço seus motivos para fingirem, mas falta autenticidade ao linguajar de vocês… E eu não gosto de ser testado.

    Surpresa por ele ter notado a encenação tão rápido, a senhora entrou na casa como se nada tivesse acontecido e o acompanhou até a sala, sentando-se junto dos demais antes de sua expressão assumir um ar pensativo e profundo.

    — Se é tão perceptivo quanto aparenta, então já deve saber o motivo de eu estar aqui, não é? — continuou ela, agora com um semblante mais ameno, embora ainda sério.

    — Como a senhora mesma disse, posso supor algumas coisas — confirmou Alexander, mantendo uma expressão pensativa. — Só não entendo por que a senhora da cidade viria até mim com toda aquela cena na porta da minha casa, arrastando outra pessoa junto… Não seria mais simples contratar um grupo formado por indivíduos no nível de potenciais vendavais e encerrar isso de uma vez?

    — Eu faria isso, se pudesse. Mas há um idiota me restringindo com tudo que pode por eu me recusar a entregar a mão da minha filha a ele — respondeu a meio-anã, não como senhora da cidade, mas como mãe. — Cheguei até a pensar que você pudesse ser um agente daquele sujeito pretensioso; por isso toda aquela encenação para testá-lo.

    — Ele sabe que preciso lidar com a criatura antes que evolua ainda mais e alcance sua 4ª evolução — continuou ela, com algo raivoso transparecendo em sua voz. — Ele quer conquistar legitimidade nesta cidade, e minha filha seria justamente esse ponto, além de ser uma maga nata de natureza mágica dual elemental.

    — Nossa. A senhora realmente sabe fazer filhas, não é, senhor Vulcans? — comentou Alexander para o anão ferreiro enquanto esquadrinhava a jovem até então calada com um olhar nada discreto. — Com uma filha dessa como precedente, acho até que o senhor está perdendo tempo…

    — Fique à vontade, eu lhe dou minha permissão — continuou, exibindo um sorriso tão sacana que chegava a ser tacanho. — Escolha um quarto, pegue a senhora da cidade e bata-a na cama até conseguir pelo menos mais três filhas como esta aqui.

    Ao ver o ferreiro se remexer inquieto — como se estivesse prestes a falar algo —, a jovem corar furiosamente e até a senhora da cidade ficar levemente vermelha sem saber o que responder, Alexander apenas abriu um largo sorriso e apontou: — É assim, com essa naturalidade, que se deixa as pessoas sem jeito sem parecer forçado.

    — Ele não é o pai dela. É apenas um… amigo… um sujeito bem complicado de lidar — esclareceu a senhora, por fim. — Viemos até aqui porque ele afirmou que você disse ser capaz de fazer o grupo vencer, além de ter previsto de antemão o fracasso da expedição.

    — Isso tudo já entendi — garantiu Alexander, com um ceticismo venal. — O que não ouvi ainda é o que eu ganho por não apenas possivelmente lutar e subjugar a criatura, como também me enredar na disputa de vocês…

    — Não vá me dizer que é só “aulas”, ou que a senhora vai me dar a mão da sua filha “porque sou ao menos um pouco melhor que o outro sujeito” — completou o jovem, em um tom quase provocativo, como se risse internamente dos clichês de histórias que conhecia da Terra.

    Encurralada pela situação — não exatamente por Órion, já que não faria sentido culpá-lo por não querer se envolver em questões alheias sem uma recompensa justa —, a senhora da cidade pediu a Vulcans que retornasse primeiro, para não colocá-lo em uma posição delicada.

    A negociação poderia ser difícil, e ela não queria comprometer ainda mais a relação entre ambos com suas demandas e responsabilidades pessoais.

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