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    Após se levantar de sua cápsula SEED, já na manhã de terça-feira, Kyle voltou a ser apenas Juliel. Ele se arrumou, tomou seu café, colocou o case com seu bastão nas costas e subiu em sua bicicleta nova para ir ao estágio.

    Por volta da metade do caminho, finalmente notou que havia subestimado o percurso. Apenas levar mudas extras de roupa para se trocar não seria o suficiente.

    A distância não era algo impossível, apenas mais extenuante do que havia imaginado à primeira vista. Ele teria que tomar um banho antes de assumir suas funções, e isso acabaria o atrasando.

    Sentindo-se em falta pelo atraso, a primeira coisa que o jovem fez, após uma ducha rápida no vestiário e se arrumar novamente, foi procurar seu encarregado.

    Ele explicou que estava tentando melhorar os seus hábitos com a adição de mais atividades físicas e pediu um voto de confiança para reajustar seu horário.

    A proposta era simples, mas bem articulada, com ganhos para ambos:

    Ele continuaria a chegar às 08:00, mas só assumiria sua posição a partir das 08:30, após um bom banho. Em contrapartida, sairia uma hora mais tarde, oferecendo 30 minutos adicionais de seu tempo ao laboratório.

    Notando a oportunidade embutida no pedido ao ouvir os motivos apresentados, o encarregado concluiu que a alteração no horário de um estagiário não traria impacto significativo por ele começar um pouco mais tarde.

    Do seu ponto de vista, era melhor aproveitar a situação como uma experiência para avaliar a viabilidade de incentivar funcionários a seguirem nesse caminho, visando melhorar a produtividade dos colaboradores.

    Além disso, caso os investimentos nessa área se autofinanciassem com resultados em aumento de produtividade, a sua gestão ainda poderia obter incentivos fiscais do governo, como abatimentos tributários feitos para encorajar empresas a adotarem tais iniciativas.

    Feliz com a aceitação do encarregado quanto às suas práticas e aulas de artes marciais com bastões, Juliel colocou o jaleco e trabalhou mais disposto e motivado do que antes. Quando chegou seu novo horário, às 16:00, pegou suas coisas e disparou em sua bicicleta para a primeira aula de bastão.

    Assim como haviam acertado, por volta das 16:30, o velho Park — que nem era tão velho assim, não chegando aos 60 anos — começou a ensiná-lo a manusear o bastão.

    A técnica dele não era nada muito inovadora ou especial, tampouco avançada, mas sua base era visivelmente sólida — uma diretriz robusta e confiável para guiar um iniciante através das artes marciais.

    Praticando desde o mais básico do básico naquele primeiro dia, Juliel sentiu-se em um déjà vu estranho.

    Se por um lado ele “sabia” o que fazer, ou acreditava que sabia, por outro o seu corpo simplesmente não acompanhava seus pensamentos. Havia uma nítida disparidade de condições entre ambas as suas versões.

    Ironicamente, quem se sentiu mais estranho nessa aula foi o professor.

    Para o senhor Park, por falta de alegoria melhor, era como ensinar uma “criança” em um corpo que ainda não sabia andar: o conhecimento mecânico em si de como a atividade deveria ser feita parecia estar presente, mas o corpo simplesmente não correspondia aos movimentos.

    — Acima de tudo, o seu corpo está destreinado — pontuou o velho Park, sem rodeios, ao perceber o que estava acontecendo. — Se você quiser mesmo aprender e ter melhores resultados com minhas aulas, vai precisar treiná-lo. Caso contrário, seu corpo simplesmente nunca vai conseguir responder à altura.

    — Eu sei — admitiu Juliel, com um suspiro pesaroso. — Foi por isso que comprei uma bicicleta para usar nos meus trajetos do dia a dia e me tornar mais ativo.

    — Isso já é um começo. No entanto, se quer mesmo levar isso a sério, também vai precisar treinar os braços e fazer exercícios de movimentação — comentou o senhor Park, sério. — Grande parte da beleza, da força e do impacto das artes marciais vem da fluidez…

    — Você deve se tornar capaz de manusear o bastão sem que ele pareça leve demais, mas também sem que movê-lo, ou se movimentar com ele, seja algo extenuante — completou, de forma pragmática. Técnica acima de misticismo.

    Já tendo ouvido algo semelhante de Alexander, o jovem assentiu, convicto. Em seguida, pediu algumas orientações de exercícios para as áreas que precisava melhorar e voltou a treinar com afinco.

    Surpreso com a mentalidade receptiva e focada do rapaz, o velho Park não conseguiu conter um leve sorriso.

    Talvez, só talvez, aquele garoto fosse alguém que realmente valesse a pena treinar.

    Verdadeiramente dedicado e imerso em seu treinamento — seguindo os exercícios que lhe foram recomendados em ambos os mundos, real e virtual —, na virada de quinta para sexta-feira, os esforços dele finalmente começaram a mostrar seus resultados.

    Ding!
    [Você desenvolveu a habilidade de proficiência: |Maestria com Bastões|]

    [|Maestria com Bastões|: Auxilia no uso de bastões; facilita o aprendizado e a criação de habilidades com bastões; aumenta o dano causado com bastões em 5%.]

    Ding!
    [Anúncio para todo o servidor: O Lorde Kyle foi o primeiro jogador a obter uma habilidade “autoral” junto ao sistema. Como recompensa, ele receberá a habilidade |Cultivo Mental|.]

    Ding!
    [Você recebeu a habilidade: |Cultivo Mental|]

    [|Cultivo Mental|: Uma técnica de meditação que permite cultivar e refinar o estado mental. Além de acelerar a recuperação de energia e poder mental, permite, a longo prazo, aprimorar a capacidade e o estado mental do usuário, elevando-os a um patamar superior.]

    Exultante ao extremo por obter duas novas habilidades de uma vez só, Kyle sentiu ambas sendo integradas a ele. Não a ponto de conseguir transcrevê-las como se tivesse o manual em sua mente, mas elas estavam lá.

    Ao perguntar sobre o motivo da felicidade repentina de seu lorde, Alexander apresentou uma reação agridoce: havia um traço de congratulação em seu olhar, mas suas palavras seguiram por um caminho totalmente diferente.

    — Improvável — pontuou o dragonoid. — Segundo o que me contou, treinos com certas armas e artes marciais são vistos quase como recreativos por algumas pessoas no seu mundo. Logo, é pouco provável que você seja o primeiro a alcançar o requisito de proficiência para gerar uma habilidade neste mundo.

    — Se eu não estiver enganado, você só foi o primeiro porque cumpriu certos requisitos — completou, em um tom analítico. — Neste caso, acredito que o requisito seja ter uma construção especial como o “Campo de Treinamento”.

    Puxado de volta à realidade, sem ter como discordar da análise de seu campeão, o fogo no sangue de Kyle arrefeceu um pouco — embora fosse impossível conter completamente a empolgação por ter sido o primeiro, quanto mais pela obtenção de suas novas habilidades.

    — Embora os resultados ainda apontem certas incongruências, é um fato que você foi o mais rápido a atender todos os requisitos. Você fez por merecer — disse o campeão em aprovação. — Sem falar que essa última habilidade é uma novidade até para mim…

    — Pensando bem, se você me ensinar, eu lhe ensino uma habilidade que pode ser muito útil para você — emendou, interessado. Ele via um grande potencial em específico naquela habilidade. — E então?

    *Ding!*

    『Missão』


    Curiosidade do Campeão

    Tipo de missão: Tutoria.

    Limitação: 1 dia.

    Restrição: Não pode informar o campeão sobre a missão.

    Descrição: Sua nova habilidade chamou a atenção até mesmo de um campeão rank {SSS}, despertando sua curiosidade e interesse… Ensine um truque novo a um dragonoid velho.

    Recompensas: +1 nível; desbloqueio de componentes seladas do seu campeão e uma habilidade especial relacionada.


    Explodindo internamente de empolgação — não apenas pela missão, mas também pelo fato de seu campeão “todo poderoso” realmente lhe pedir algo — Kyle deixou todo o resto de lado. Ele começou a mentalizar sua nova habilidade para tentar verbalizá-la e ensiná-lo.

    Passando-lhe todas as informações que tinha dela — as sensações que sentia ao usá-la, o estado que ela parecia levá-lo e qualquer outra mínima coisa que sua memória e sentidos lhe permitiam aferir — o jovem viu Alexander se sentar com as pernas cruzadas. O dragonoid fechou os olhos, enrolou a cauda ao redor de si e então começou a meditar.

    Para lá de surpreso ao vê-lo entrar em um estado meditativo quase imediato, Kyle começou a se perguntar que tipo de monstro era aquele. Ele realmente iria conseguir copiar a habilidade de outra pessoa tão facilmente assim?

    — Eu sinto algo, mas o cerne e a essência da habilidade ainda me escapam, mesmo com o uso do poder mental de |Asura| para fazer o máximo de preparativos possíveis e alcançar o melhor estado que consigo — disse o campeão ao abrir os olhos após meditar por algum tempo. — Medite mais uma vez e me diga novamente tudo o que conseguir. Assim poderemos comparar e refletir sobre nossas experiências.

    Quase aliviado por seu campeão não conseguir aprender a habilidade em tão pouco tempo, o jovem lorde continuou ajudando-o a praticar até ter de deixá-lo sozinho para ir ao estágio.

    Contudo, após sua rotina no mundo real, uma certa notificação surgiu pouco depois de ele voltar a imergir no mundo virtual. Ao mesmo tempo, os olhos azuis translúcidos de Alexander se abriram.

    Ding!
    [Você concluiu a missão]

    Ding!
    [Você subiu de nível]

    O bendito monstro em forma de dragonoid que havia invocado como seu campeão surpreendera mais uma vez.

    Ele não levou nem um dia — em horas corridas — para aprender uma habilidade mental. Ou seja, aprendeu uma habilidade que não pode ser demonstrada fisicamente nem totalmente expressa em palavras ou diagramas em apenas algumas horas.

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