Índice de Capítulo

    ‘10 anos?’

    Jaehwan franziu a testa ao levar o dedo à cabeça. 10 anos? Por que ele tinha 10 anos? Como sua mãe estava ali? Por que ELE estava ali?

    Por que… eu… quem sou eu?

    — …O que eu fiz de errado para ele?

    — Eu nunca disse que você fez algo errado.

    — Meu filho está bem. Ele vai bem na escola, tem muitos amigos… e até os professores dele…

    — Alguns transtornos delirantes são difíceis de perceber porque os sintomas são iguais aos de atividades normais.

    — NÃO! Ele está bem! Ele só… ele só foi provocado! É tudo culpa dele… por causa dele… meu filho… ele só…

    — Vou lhe mostrar, senhora.

    O médico levou Jaehwan até a mesinha no canto da sala e puxou as cortinas. Elas eram muito finas e simples, a ponto de não conseguirem abafar os sons. O som da respiração tensa de uma mulher atravessou o tecido. O médico falou com Jaehwan.

    — Jaehwan. Você pode responder algumas perguntas para mim?

    Jaehwan assentiu.

    — Quantos anos você tem?

    — …Eu esqueci.

    — Esqueceu? E por que isso?

    — Eu vivi tempo demais para isso.

    — Tempo demais? Quanto tempo é isso?

    — 10 bilhões de anos.

    O som de uma mulher ofegante pôde ser ouvido além da cortina. O médico olhou de relance para a cortina e continuou com as perguntas.

    — Então, o que você tem feito até agora, Jaehwan?

    — Eu estava lutando com o <Irmãozão>.

    — O <Irmãozão> é o seu ‘pai’?

    Jaehwan não respondeu. O médico escreveu algo em seu papel e continuou perguntando.

    — Então, por que você lutou com o <Irmãozão>?

    — Para destruir o Sistema.

    — Sistema? E o que é isso? Pode me explicar?

    Jaehwan sentiu uma forte dor de cabeça ao tentar se lembrar do que era o Sistema, mas não funcionou. O médico então assentiu com conhecimento de causa e deu uma caneta e um pedaço de papel para Jaehwan.

    — Jaehwan, você pode desenhar isso aqui?

    Jaehwan começou a desenhar algo no papel. Não demorou muito para terminar seu desenho. O médico recebeu o papel de volta de Jaehwan.

    Era uma árvore gigante. Uma árvore gigante com raízes e galhos secos. O médico olhou para ela com curiosidade.

    — Esta árvore é o ‘Sistema’?

    Jaehwan não respondeu, pois ficou tonto. Ele mal conseguia respirar, mas o médico continuou fazendo perguntas.

    — …Então, há uma coisa chamada ‘torre’ na raiz desta árvore e ela sequestra pessoas da Terra para enviá-las para o alto da árvore?

    — Sim.

    — E isso é a [Cultivação]?

    — Certo.

    — E você sobreviveu à [Cultivação] e subiu para o topo da torre?

    As perguntas continuavam e Jaehwan continuava respondendo. Adaptados e Despertos. <Caos> e [Profundezas]. Deuses e Seguidores. Jaehwan não sabia por que sabia tudo aquilo, mas se concentrou em responder às perguntas do médico.

    — Entendo. Então, o ‘Mundo Único’ é uma espécie de espaço imaginário criado pelo sonho de alguém. É isso?

    — Algo parecido.

    — E quando você faz muitos acreditarem nele, ele se torna uma ‘realidade’?

    Jaehwan assentiu. Ele então viu uma figura diminuindo além da cortina. A cada pergunta que respondia, ele sentia a respiração de sua mãe ficar mais superficial.

    Era uma sensação estranha. Cada vez que Jaehwan respondia para tornar seu mundo mais detalhado, a história que ele havia vivido estava sendo pisoteada, mas Jaehwan não sabia o que era.

    Enquanto o médico continuava perguntando, Jaehwan o viu mudar de forma sinistra. Não era sua expressão, mas seu rosto estava coberto por palavras e números complicados. Era aquilo que Jaehwan tinha visto no homem que ele estocou.

    Vozes continuavam falando com ele.

    Estoque. Estoque-o e mate-o.

    Jaehwan balançou a cabeça enquanto mordia os lábios.

    ‘Não… não posso fazer isso. A mamãe ficará triste.’

    Jaehwan se agachou para se esconder das vozes que discutiam sobre ele. O interrogatório parou. Sangue escorreu de seus lábios e o médico ficou chocado, puxando Jaehwan para cima.

    — Ah, não! Enfermeira!

    O médico rapidamente pegou Jaehwan e o deitou em uma cama. Em seguida, chamou uma enfermeira para examinar o ferimento de Jaehwan. Depois, o médico chamou a mãe de Jaehwan para uma sala separada. Ela estava pálida como sempre e mal conseguia respirar.

    O médico suspirou. Ele viu o mundo da mulher se despedaçar com o que ela acabara de testemunhar.

    — J-Jaehwan adora ler… ele lê todo tipo de romance e quadrinhos. Isso provavelmente…

    — Senhora.

    — Ele é inteligente demais! Ele não pode…

    — Senhora.

    Ela caiu em prantos. O médico esperou até que ela se acalmasse um pouco.

    — Preciso pedir desculpas por fazer essas perguntas.

    — …Sim.

    — Jaehwan já foi machucado pelo pai de alguma forma?

    A mulher engasgou por um segundo e respondeu: — N-não.

    — Isso é verdade? Você precisa ser honesta comigo, senhora.

    — …NÃO! Estou dizendo a verdade. Ele nunca encostou a mão no filho!

    A negação da mãe parecia até desesperada.

    — Mas posso ver traços de violência que o pai infligiu a Jaehwan. Todos os símbolos dele retratam o pai.

    O médico falou enquanto mostrava desenhos e os registros que obtivera de Jaehwan. Havia uma árvore, uma torre e um boneco palito estocando em direção ao céu.

    — A árvore e a torre. Todas as imagens apontam para ‘elevação’. E a ‘estocada’… você não acha que todas têm uma imagem semelhante?

    — …Não tenho certeza.

    — Na psicologia, todos esses são símbolos do pênis masculino.1

    — P-pênis?

    — Sim. Estou chocado em ver um exemplo tão perfeito de um caso que retrata tudo isso com uma única imagem.

    O médico coçou a cabeça enquanto continuava a explicar. A mulher ouviu o médico em silêncio. Ele descreveu com inúmeras palavras e teorias psicológicas. A mulher não conseguia entender nem metade do que o médico dizia, mas mal conseguiu compreender que a situação era muito séria.

    — Você acha que ele machucou Jaehwan quando eu não percebi?

    — Não podemos afirmar com certeza, mas estamos vendo um traço dessa violência em Jaehwan e isso impactará diretamente o crescimento mental dele.

    — O que devemos fazer…

    O médico então bateu na mesa e falou de forma tranquilizadora para a mulher desesperada.

    — Mas não se preocupe demais. Nem tudo no diagnóstico atual de Jaehwan é ruim.

    A mulher ficou surpresa.

    — O que você quer dizer?

    — As imagens simbólicas de Jaehwan são mais vívidas e específicas do que qualquer outro paciente ou registro de pesquisa que eu já vi, e elas estão interconectadas umas com as outras. Não é apenas uma questão da imaginação dele… é a ponto de ser literário…

    O médico então tentou encontrar palavras para descrever e continuou.

    — Parece que um mundo assim realmente existiu quando ouço as histórias dele. Ele é apenas um garoto de 10 anos e…

    A mulher franziu a testa com raiva.

    — Você está zombando de mim?

    — Não, não é isso. Jaehwan está em estado grave, mas se ele conseguir superar isso, o transtorno dele pode até ajudá-lo de forma artística.

    — Forma artística?

    — Alguns acham que o transtorno delirante e a síndrome do sábio2 estão intimamente relacionados.

    — …Sábio… o quê? O que é isso?

    O médico balançou a cabeça. Ele entendeu que a mulher não compreendia nenhum dos termos profissionais que ele acabara de usar.

    — Ah, é um transtorno comum em gênios. Só estou avisando para você ficar tranquila.

    O médico então dobrou o arquivo do paciente em uma pasta e concluiu a consulta.

    — Teremos que manter Jaehwan longe do pai. Sugiro que você venha nos visitar para continuar o tratamento. Jaehwan precisa disso para o futuro dele.

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