Capítulo 229: Mundo Após a Queda (2)
‘10 anos?’
Jaehwan franziu a testa ao levar o dedo à cabeça. 10 anos? Por que ele tinha 10 anos? Como sua mãe estava ali? Por que ELE estava ali?
Por que… eu… quem sou eu?
— …O que eu fiz de errado para ele?
— Eu nunca disse que você fez algo errado.
— Meu filho está bem. Ele vai bem na escola, tem muitos amigos… e até os professores dele…
— Alguns transtornos delirantes são difíceis de perceber porque os sintomas são iguais aos de atividades normais.
— NÃO! Ele está bem! Ele só… ele só foi provocado! É tudo culpa dele… por causa dele… meu filho… ele só…
— Vou lhe mostrar, senhora.
O médico levou Jaehwan até a mesinha no canto da sala e puxou as cortinas. Elas eram muito finas e simples, a ponto de não conseguirem abafar os sons. O som da respiração tensa de uma mulher atravessou o tecido. O médico falou com Jaehwan.
— Jaehwan. Você pode responder algumas perguntas para mim?
Jaehwan assentiu.
— Quantos anos você tem?
— …Eu esqueci.
— Esqueceu? E por que isso?
— Eu vivi tempo demais para isso.
— Tempo demais? Quanto tempo é isso?
— 10 bilhões de anos.
O som de uma mulher ofegante pôde ser ouvido além da cortina. O médico olhou de relance para a cortina e continuou com as perguntas.
— Então, o que você tem feito até agora, Jaehwan?
— Eu estava lutando com o <Irmãozão>.
— O <Irmãozão> é o seu ‘pai’?
Jaehwan não respondeu. O médico escreveu algo em seu papel e continuou perguntando.
— Então, por que você lutou com o <Irmãozão>?
— Para destruir o Sistema.
— Sistema? E o que é isso? Pode me explicar?
Jaehwan sentiu uma forte dor de cabeça ao tentar se lembrar do que era o Sistema, mas não funcionou. O médico então assentiu com conhecimento de causa e deu uma caneta e um pedaço de papel para Jaehwan.
— Jaehwan, você pode desenhar isso aqui?
Jaehwan começou a desenhar algo no papel. Não demorou muito para terminar seu desenho. O médico recebeu o papel de volta de Jaehwan.
Era uma árvore gigante. Uma árvore gigante com raízes e galhos secos. O médico olhou para ela com curiosidade.
— Esta árvore é o ‘Sistema’?
Jaehwan não respondeu, pois ficou tonto. Ele mal conseguia respirar, mas o médico continuou fazendo perguntas.
— …Então, há uma coisa chamada ‘torre’ na raiz desta árvore e ela sequestra pessoas da Terra para enviá-las para o alto da árvore?
— Sim.
— E isso é a [Cultivação]?
— Certo.
— E você sobreviveu à [Cultivação] e subiu para o topo da torre?
As perguntas continuavam e Jaehwan continuava respondendo. Adaptados e Despertos. <Caos> e [Profundezas]. Deuses e Seguidores. Jaehwan não sabia por que sabia tudo aquilo, mas se concentrou em responder às perguntas do médico.
— Entendo. Então, o ‘Mundo Único’ é uma espécie de espaço imaginário criado pelo sonho de alguém. É isso?
— Algo parecido.
— E quando você faz muitos acreditarem nele, ele se torna uma ‘realidade’?
Jaehwan assentiu. Ele então viu uma figura diminuindo além da cortina. A cada pergunta que respondia, ele sentia a respiração de sua mãe ficar mais superficial.
Era uma sensação estranha. Cada vez que Jaehwan respondia para tornar seu mundo mais detalhado, a história que ele havia vivido estava sendo pisoteada, mas Jaehwan não sabia o que era.
Enquanto o médico continuava perguntando, Jaehwan o viu mudar de forma sinistra. Não era sua expressão, mas seu rosto estava coberto por palavras e números complicados. Era aquilo que Jaehwan tinha visto no homem que ele estocou.
Vozes continuavam falando com ele.
Estoque. Estoque-o e mate-o.
Jaehwan balançou a cabeça enquanto mordia os lábios.
‘Não… não posso fazer isso. A mamãe ficará triste.’
Jaehwan se agachou para se esconder das vozes que discutiam sobre ele. O interrogatório parou. Sangue escorreu de seus lábios e o médico ficou chocado, puxando Jaehwan para cima.
— Ah, não! Enfermeira!
O médico rapidamente pegou Jaehwan e o deitou em uma cama. Em seguida, chamou uma enfermeira para examinar o ferimento de Jaehwan. Depois, o médico chamou a mãe de Jaehwan para uma sala separada. Ela estava pálida como sempre e mal conseguia respirar.
O médico suspirou. Ele viu o mundo da mulher se despedaçar com o que ela acabara de testemunhar.
— J-Jaehwan adora ler… ele lê todo tipo de romance e quadrinhos. Isso provavelmente…
— Senhora.
— Ele é inteligente demais! Ele não pode…
— Senhora.
Ela caiu em prantos. O médico esperou até que ela se acalmasse um pouco.
— Preciso pedir desculpas por fazer essas perguntas.
— …Sim.
— Jaehwan já foi machucado pelo pai de alguma forma?
A mulher engasgou por um segundo e respondeu: — N-não.
— Isso é verdade? Você precisa ser honesta comigo, senhora.
— …NÃO! Estou dizendo a verdade. Ele nunca encostou a mão no filho!
A negação da mãe parecia até desesperada.
— Mas posso ver traços de violência que o pai infligiu a Jaehwan. Todos os símbolos dele retratam o pai.
O médico falou enquanto mostrava desenhos e os registros que obtivera de Jaehwan. Havia uma árvore, uma torre e um boneco palito estocando em direção ao céu.
— A árvore e a torre. Todas as imagens apontam para ‘elevação’. E a ‘estocada’… você não acha que todas têm uma imagem semelhante?
— …Não tenho certeza.
— Na psicologia, todos esses são símbolos do pênis masculino.1
— P-pênis?
— Sim. Estou chocado em ver um exemplo tão perfeito de um caso que retrata tudo isso com uma única imagem.
O médico coçou a cabeça enquanto continuava a explicar. A mulher ouviu o médico em silêncio. Ele descreveu com inúmeras palavras e teorias psicológicas. A mulher não conseguia entender nem metade do que o médico dizia, mas mal conseguiu compreender que a situação era muito séria.
— Você acha que ele machucou Jaehwan quando eu não percebi?
— Não podemos afirmar com certeza, mas estamos vendo um traço dessa violência em Jaehwan e isso impactará diretamente o crescimento mental dele.
— O que devemos fazer…
O médico então bateu na mesa e falou de forma tranquilizadora para a mulher desesperada.
— Mas não se preocupe demais. Nem tudo no diagnóstico atual de Jaehwan é ruim.
A mulher ficou surpresa.
— O que você quer dizer?
— As imagens simbólicas de Jaehwan são mais vívidas e específicas do que qualquer outro paciente ou registro de pesquisa que eu já vi, e elas estão interconectadas umas com as outras. Não é apenas uma questão da imaginação dele… é a ponto de ser literário…
O médico então tentou encontrar palavras para descrever e continuou.
— Parece que um mundo assim realmente existiu quando ouço as histórias dele. Ele é apenas um garoto de 10 anos e…
A mulher franziu a testa com raiva.
— Você está zombando de mim?
— Não, não é isso. Jaehwan está em estado grave, mas se ele conseguir superar isso, o transtorno dele pode até ajudá-lo de forma artística.
— Forma artística?
— Alguns acham que o transtorno delirante e a síndrome do sábio2 estão intimamente relacionados.
— …Sábio… o quê? O que é isso?
O médico balançou a cabeça. Ele entendeu que a mulher não compreendia nenhum dos termos profissionais que ele acabara de usar.
— Ah, é um transtorno comum em gênios. Só estou avisando para você ficar tranquila.
O médico então dobrou o arquivo do paciente em uma pasta e concluiu a consulta.
— Teremos que manter Jaehwan longe do pai. Sugiro que você venha nos visitar para continuar o tratamento. Jaehwan precisa disso para o futuro dele.

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