Índice de Capítulo

    No ano novo, Jaehwan se alistou no exército imediatamente.

    Foi decidido por impulso. Se ele tivesse tomado as medidas necessárias, teria sido dispensado do serviço militar devido aos seus dez anos de consultas mentais, mas Jaehwan não escolheu esse caminho. Além disso, seus registros médicos eram todos de sessões gratuitas que não contavam como problemas médicos. Ele poderia ter conseguido ajuda do médico se necessário, mas Jaehwan não queria. Ele não queria mais ver o rosto daquele homem. E, acima de tudo, Jaehwan precisava de um lugar para se aprisionar.

    Ele precisava de um lugar com regras rígidas, um lugar onde não precisasse pensar profundamente e um lugar onde pudesse levar seu corpo ao limite.

    Jaehwan logo foi enviado para a região mais distante, a ZDC, conhecida por ser a mais severa de todos os ramos militares, e começou sua vida militar lá. Ele memorizou seus deveres e ficou de patrulha. Limpou lugares que não eram seus para limpar, voluntariou-se primeiro para tirar a neve com a pá e sempre voltava por último.

    Ele se exercitava continuamente ou lia livros sozinho após completar as tarefas do dia. Na maioria das vezes, ficava em espaços tranquilos e vivia pacificamente. Os oficiais o amavam, pois era quieto e obedecia a todas as regras. Ele também era amado pelos outros.

    — Hã? Está limpando aqueles fuzis de novo? É seu tempo livre, cara!

    — Sim, senhor. Estou fazendo o que gosto.

    — Hah… Acho que você deveria fazer disso sua carreira. Acho que nasceu para estar no exército.

    Jaehwan sorriu amargamente para o sargento.

    — Não, senhor.

    — Não o caramba. Que tal se candidatar, hein?

    — Haha.

    Jaehwan apenas riu e respondeu ao sargento que começava a falar sobre sua história de vida novamente.

    Nascido para estar no exército? Jaehwan? Não havia como Jaehwan ter nascido para o exército. Ele nasceu para destruir e dizimar o sistema.

    O sargento logo foi embora quando se cansou de falar, e Jaehwan foi deixado sozinho. Ele ficou assustado com o silêncio repentino e rapidamente devolveu os fuzis ao seu lugar original antes de sair para outra tarefa.

    Ele precisava estar constantemente em movimento para se manter ocupado. Assim, não poderia ter falsas esperanças.

    Jaehwan limpou os sapatos dos outros soldados um por um e trouxe panos úmidos para limpar os cantos, junto com o interior de janelas estreitas que geralmente não eram limpas. Uma música de um jovem grupo feminino vinha de uma TV, a única coisa que mantinha o silêncio fora do quarto. Jaehwan continuou esfregando e limpando.

    Uma música logo terminou e a próxima começou. As garotas cantavam e cantavam.

    Jaehwan então parou sua limpeza e virou-se para a tela da televisão, perplexo. Havia garotas cantando na tela. E naquele momento, Jaehwan sentiu como se o mundo estivesse falando com ele.

    ‘Eu sabia que você viria. Eu esperei. Você também era apenas um humano, afinal.’

    As garotas cantavam e Jaehwan olhava para elas. A luxúria ofuscou Jaehwan. E naquela luxúria, Jaehwan tomou as garotas, estuprou, feriu e as controlou. No fim, ele foi controlado por elas. E as garotas continuaram cantando. Continuaram cantando repetidamente, como se nunca fosse acabar, como se nenhuma ‘Queda’ fosse chegar.

    Era como se aquela música fosse a única realidade que elas podiam aceitar.

    Depois de algum tempo, as pessoas voltaram para o quarto. Um dos superiores de Jaehwan começou a provocá-lo.

    — Ei, você estava assistindo as Seven Pink? Eu sabia que você gostaria… Hã? O quê? Você está chorando?

    O homem ficou chocado e outros rapidamente se reuniram ao redor de Jaehwan.

    — Ei! Quem o fez chorar?

    — Quem foi?! Foi você? Hã?

    Jaehwan então se virou para olhar para seu superior com uma expressão estranha. Ele estava chorando?

    Jaehwan levou a mão à bochecha. Estava muito molhada de suas lágrimas. Homens gritavam ao seu redor, mas ele sentia as vozes se distanciarem. E através daquelas vozes, ele ouviu a música novamente. Era tão bonita, mas belamente condenada. Então Jaehwan percebeu que precisava aceitar um certo fato.

    ‘Entendo.’

    ‘Então meu mundo caiu.’

    Como uma torre desabando, Jaehwan sentiu seu corpo se desmoronar.

    ‘Aquele mundo não existe mais. Porque aquele mundo…’

    Jaehwan caiu no chão. E com o som de alguém chamando um médico, ele perdeu a consciência.

    Aquele mundo… Jaehwan o destruiu com suas próprias mãos.

    Naquela noite, Jaehwan teve um longo sonho. Ele ouviu vozes distantes. Logo, Jaehwan percebeu que as vozes eram muito familiares; era sua própria voz.

    -Era esse o final que você queria?

    -…

    -Viver neste pesadelo era a razão pela qual você me trouxe aqui?

    Um era Jaehwan aos vinte e poucos anos, e um Jaehwan tinha dez anos. Ambos eram Jaehwan. Eles estavam discutindo, não, o Jaehwan de vinte anos estava pressionando. O Jaehwan de dez anos respondeu:

    -Eu pensei que seria diferente. O mundo em que você costumava viver.

    -Agora você sabe que não é.

    -Sim. É diferente do conto de fadas que a mamãe me contou.

    Jaehwan estava confuso. Ele queria se juntar à discussão. Ele queria falar. Ele também precisava falar. Mas onde ele estava? Onde ele estava enquanto olhava para aqueles dois? O Jaehwan de vinte anos falou.

    -Nossos poderes não funcionam aqui.

    -Claro. Não há Adaptação ou Despertar. Não há Mundo Único, então não há Transcendência. Ou <Irmãozão>.

    -Sem perigo, sem oportunidade. Então o que devemos fazer agora?

    -Fazer o quê? Não há nada que possamos fazer aqui.

    Os dois Jaehwans pareciam ter desistido. Jaehwan queria falar com eles, mas não sabia o que dizer.

    -Talvez tenhamos que desaparecer para que ‘Jaehwan’ viva feliz. Se ele for viver aqui, precisa abandonar toda a história que vivemos como ‘Jaehwan’. Isso não é permitido aqui.

    -…Sim. Entendo.

    -Sim. Tudo termina aqui, então.

    Os dois Jaehwans então se entreolharam. Enquanto se entreolhavam, Jaehwan percebeu quem ele era. Ele não estava em lugar nenhum, e era ambos ao mesmo tempo. Os dois Jaehwans eram ele mesmo. Os dois estavam agora se fundindo de volta a um.

    Jaehwan estava se tornando ele mesmo.

    Jaehwan sentiu seus anseios e memórias desaparecendo. Como roupas novas se tornando roupas velhas, as memórias desapareceram.

    ‘Não, não desapareçam.’

    Jaehwan chorou em meio às memórias que se desvaneciam. Tudo aquilo era real? Afinal, o que significava ser real?

    A escuridão caiu e o sonho terminou. Depois disso, Jaehwan nunca mais sonhou com tal coisa.

    Jaehwan estava agora quase no fim de seu serviço militar. Ele havia se adaptado ao exército durante aqueles tempos. Ele suportou os dias entediantes e se tornou um homem entediante.

    — O senhor é incrível, senhor.

    Mas as pessoas no exército gostavam dele e o respeitavam. Ele até foi premiado por ser um líder para o futuro militar, livre de violência e opressão. Mas Jaehwan não parecia animado.

    — Eu só faço o que preciso fazer.

    — Sim, sim. Mas sabe que é muito difícil fazer isso.

    — É irritante, mas não é difícil.

    — É isso mesmo. Não sei se consigo fazer as coisas como você. Não posso ser tão…

    Outros também elogiaram Jaehwan por sua dedicação e ética de trabalho. Com isso, Jaehwan se lembrou dos dias de estocar. Ele se lembrou de um dia em que continuou estocando até completar a contagem e nunca descansou.

    — É fácil comparado a estocar 100 mil vezes por dia.

    — Hã?

    — …Só dizendo.

    — Ah, sim. Haha. Entendo.

    As pessoas riram sem dar muita atenção.

    ‘Estocar, hein?’

    Jaehwan agora não sentia mais nada, mesmo quando pensava naquelas memórias. Estava tudo embotado agora. Jaehwan era um homem assim agora, e não estava mais bravo ou deprimido.

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